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Onde está o Charlatão?

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Eduardo Berlim[1]

Tenho usado, em toda a minha vida, uma heurística maravilhosamente simples: os charlatões podem ser reconhecidos, na medida em que oferecerão conselhos positivos, e somente conselhos positivos, explorando nossa ingenuidade e nossa idiota propensão a receitas que soam imediatamente óbvias, mas que depois evaporam quando nos esquecemos delas”. Antifrágil: Coisas que se beneficiam com o caos
Livro VI, “Onde está o charlatão?”
Nassim Nicholas Taleb

Taleb, para mim, é um autor que carrega o necessário para ser considerado um filósofo proeminente de nossos tempos. A primeira (e talvez mais importante) característica é pertinente ao fato de que ele não se vê como qualquer tipo de filósofo, mas como um analista de riscos. Sua capacidade de analisar os mercados é estranhamente capaz de observar o comportamento humano de forma análoga sem que ter qualquer objetivo principal nisso – e este comportamento da observar um objeto B através do objeto A é o que tornou poderosa a filosofia de São Tomás de Aquino.

Independente da ideia principal por trás da “antifragilidade”, gostaria de destacar este capítulo em particular do livro, em que Taleb conjectura a respeito da ideia do “charlatão”, figura tão conhecida nos dias de hoje. Segundo o autor, basta encontrar qualquer livro que se inicie com “dez passos para…” e você terá plena certeza do charlatanismo entranhado. Enriqueça, perca peso, faça amigos, inove, ganhe músculos, seja eleito, encontre um marido… Os exemplos parecem não ter fim e a quantidade de possíveis títulos é assustadora.

No mundo moderno (ou melhor, contemporâneo), nos habituamos a encontrar todo tipo de pilantra da pior espécie nas redes sociais e isso causa um sentimento estranho, traz-nos a ideia de “que nunca houve tempo mais falsificado que o nosso”. Contudo, eu tenho tendência a discordar dessa premissa, uma vez que não acredito que a história humana realmente se transforme. O que isso tem a ver com ocultismo? Calma, jovem mancebo, nós vamos chegar lá!

Não tem tanto tempo que estava a conversar com um grande amigo (que inclusive já escreveu comigo sobre livre-arbítrio) e lhe contei que no mercado (vulgarmente conhecido como “bolsa de valores”) a frase “rentabilidade passada não é garantia de futuro” é uma verdade substancial. Em investimentos podemos dizer que não há uma relação direta entre “ações que subiram” e as “ações que irão subir”, ou seja, “não é porque deu certo uma vez, que vai dar de novo”. Ainda assim, há uma certa parcela de verdade na ideia de que “aquilo que já ocorreu pode se repetir” – e nesse sentido sou fã da frase do educador financeiro Bruno Perini, quando ele diz que “a história não se repete, mas ela rima”.

Toda essa conversa ocorria por conta de um artigo do Rafa, este meu amigo, a respeito do pensamento de que “o hábito é o grande guia da vida humana” apresentado por David Hume. É a partir do hábito, uma característica mais psicológica que epistemológica, que concluímos e presumimos aquilo que move as nossas ações – e isso diz muito mais a nosso respeito do que podemos pressupor em um primeiro momento.

Veja bem, orientando-se pelo pensamento do Taleb e a ideia “periniana” de que “a história rima” somos capazes de perceber que o investimento na tecnologia do futuro é capaz de multiplicar a riqueza de um ser humano em muitas e muitas vezes. Houve um fenômeno de enriquecimento para aqueles que investiram seu dinheiro em máquinas a vapor no século XVIII (e só consigo imaginar que alguns deles deviam ter uma avó que dizia “compre terras, Deus não fará mais delas”!) e este fenômeno se repetiu no início do século XIX com os investidores dos modelos fordistas. O “vapor” não era mais um fenômeno nos anos 1900, mas “o futuro” é sempre um fenômeno capaz de tornar alguém rico – e quem teve poder de antever o fenômeno IA com a NVDIA ficou bem rico nesses últimos anos.

Agora eu questiono vocês: se o pensamento de que a história possui certa ciclicidade, rimando com ela mesma de tempos em tempos, conseguimos analisar o fenômeno do charlatanismo presente nos “dez passos para…” olhando para o passado? Perceba que a ideia de que “todo dia um esperto e um trouxa saem de casa e quando se encontram saí negócio” não é nova e temos um longo passado de golpes pequenos e grandes por aí. Não precisamos olhar apenas para Victor Lustig ou para os Protágoras, Górgias, Hípias e Pródigos no sofismo platônico, mas para cada um dos vendedores de tônicos, falsos alquimistas, vendedores do perdão e todo tipo de trambiqueiro que nossa espécie é capaz de criar.

Então se a espiritualidade quântica ou as incorporações com chip alienígena te causam espanto, entenda que este fenômeno possivelmente não é novo e que há uma figura do passado tão “charlatânica” quanto o influencer que vende religiosidade parcelada no Mastercard. Perceba que não sou contra que você pague por aprendizado, por ensino, por instrução, mas acho bastante estranha a ideia de terceirizar a experiência que deveria ser sua, pagando para que outra a pessoa a tenha e traga para ti as mensagens que o divino lhe disponibilizou. Você pode pagar pela ferramenta e até pela locação, mas não deveria pagar por um guru – até porque nenhum guru verdadeiro (no contexto correto) aceitaria alguém que quer pagar por seus serviços.

Há, contudo, um argumento habitual de que “o charlatanismo vai se perder no tempo porque não é verdadeiro”. Bem… tirando o fato de que Hume riria de você neste momento, há de se lembrar que o próprio Platão eternizou o nome de Górgias, mesmo que sua visão fosse de que ele era crápula e um enganador – e, acredite, há quem confronte o platonismo por achar que “os sofistas não estavam tão errados assim”. Vigaristas tendem a ser admirados com o tempo e muitas de suas histórias são realmente interessantes. Isso sequer é um problema; o problema seria enxergar Frank Abignale Jr. como algum tipo de herói.

Para cada “ocultista de Instagram vendendo seis modelos de plano de contato com o divino que cabem no teu bolso” podemos dizer que há algum nome do passado similar – talvez até pior. Existe uma possibilidade bastante razoável de que você veja sua obra como magna, por sinal: você pode ser grande admirador de alguém que criou uma lista de baboseiras aleatórias com o intuito de vender uma espiritualidade louca, seja por fama, seja por riqueza, seja por poder (ou só porque era completamente maluco mesmo).

Não ache também que isto só acontece em áreas pouco usuais, pois se na biologia seguimos estudando Lamarck até os dias de hoje, em áreas de filosofia estudamos nomes que eram alegadamente falsários (e alguns assumidos, inclusive), dando viés de verdade ao que não é por mera continuação de um hábito já estipulado.

Assim sendo, e como não tenho absolutamente nenhum problema com os “dez passos para…” que tanto irritam o Taleb, encerrarei com “dez passos para não ser facilmente enganado no estudo do ocultismo”:

  1. Estude. Mas estude muito. Quando achar que estudou muito e que dedicou centenas ou milhares de horas ao estudo, você terá alcançado a linha de partida;
  2. Estude história dando preferência para vias diferentes – incluindo aquelas que você discorda. A história é escrita pelos vencedores e raramente fala dos covardes, mas isso não significa que os derrotados e os covardes não tenham coisas importantes para contar;
  3. Quando estiver cansado de estudar aprenda uma ou duas línguas estrangeiras para poder estudar em outras línguas também. Existe material gratuito na internet para praticamente qualquer língua e isso ampliará os teus horizontes;
  4. Pegue a frase “eu não tenho uma opinião formada sobre isso” e a use constantemente. Eu evito ter opiniões sobre qualquer tema no qual li menos de dez obras – e muitas vezes não tenho nem princípio de opinião sobre o tema com isso, pois podem ter sido livros ruins;
  5. Não ignore o estudo de línguas antigas. Ler no original é extremamente valioso. Só tenha em mente que isso demora e é complicado;
  6. Todo conhecimento é válido, mas você não terá tempo para adquirir todo o conhecimento. Tenha foco no que é importante para você e evite temas que não lhe despertaram interesse até que algum deles se torne necessário;
  7. All work and no play makes Jack a dull boy” (“só trabalho, sem diversão, fazem do Jack um bobão”, em tradução livre). Ou seja, nem tudo é estudo, nem tudo é processo. Se você não se divertir, vai acabar enlouquecendo. Não confie na ideia de ser superprodutivo sem relaxar;
  8. Cuide do corpo, cuide da mente, cuide de si. Eu gastei um capítulo inteiro do ARS SOPHIA falando sobre o quanto o mago precisa ter uma rotina de higiene mental, emocional e física. É provável que o ‘mago’ que você admira pratique alguma arte marcial e isso deveria ser notado;
  9. Não existe separação de estudo e prática. Estudo sem prática é fetiche e a falta de respaldo da realidade objetiva te deixa atrás da IA do WhatsApp. É claro que você não precisa ir em um sítio arqueológico pra estudar história ou comprar o laboratório de alquimia completo do Mundo de Beakman no teu primeiro livro, mas lembre-se sempre que estudo sem prática e sem produção é vazio. Se o teu interesse for completamente teórico, escreva artigos, livros e pesquisas. Nos brinde com isso;
  10. Você não vai aprender nada de bom se dedicando quatro anos, mas talvez adquira algum saber se dedicando por quarenta. Isso não significa que você não faça progressos no meio do caminho, só significa que sempre haverá alguém que sabe mais que você – e você deveria se aproximar dessas pessoas porque elas são “a galera descolada da thurma”.

E se estes “dez pequenos passos…” não lhe parecerem aprazíveis, não os siga. Pode ser que eu só seja o charlatão…


Eduardo Berlim é músico, tarólogo e estudante de hermetismo com vasta curiosidade. Tem apetite por uma série de correntes diferentes de magia e se considera um eterno principiante. Assumidamente fanboy dos projetos da Daemon e das matérias do Morte Súbita inc.

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