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Obeah e Wanga: A Magia Afro-Americana em Thelema

Este texto já foi lambido por 1992 almas.

por Herman Faulstich

Infelizmente a magia africana e as vertentes americanas não fizeram parte do arcabouço mágico de Aleister Crowley, porém existe uma referência em Liber AL vel Legis, I:37:

“Também os mantras e os encantamentos; a obeah e a wanga; o trabalho da baqueta e o trabalho da espada; estes ele aprenderá e ensinará.”

O mago inglês comentou o trecho em duas ocasiões e, basicamente, Obeah é o ato da magia em si e Wanga o encantamento verbal. Ação e Palavra, ambos cobrem as ações da magia no mundo externo.

Obeah é a magia da Luz Secreta com referência específica a ação; wanga é a correspondência verbal ou mental. O trabalho do bastão é o da União; da espada a Divisão. Correspondem às duas Fases do ciclo Cósmico descritas acima.”

E ambas devem andar juntas com uma mente controlada para exercer a Vontade:

Lembre-se de que cada palavra e ação é uma testemunha do pensamento, que, portanto, sua mente deve ser perfeitamente organizada, seu único dever é interpretar as circunstâncias em termos da Vontade para que a fala e á ação possam ser corretamente direcionadas para expressar a Vontade apropriadamente para a ocasião.”

Não houve nenhuma referência dele à cultura africana e interpretou segundo as suas chaves de magia cerimonial e Yoga. Porém, o origem dessa citação está relacionada à espiritualidade negra, mais especificamente à afro-americana. Entre 1890 e 1895, Crowley teve acesso a um livreto teosófico chamado “Obeah Simplificada: A Verdadeira Wanga! O Que Realmente São e Como São Feitos: Um Tratado Científico, porém Simples, de um Ponto de Vista Popular e Despojado, Tanto Quanto Possível, de Termos Técnicos (1)“. O autor chamado “Dr. Myal Djumboh Cassecanarie (2)”, oriundo de Trindade e Tobago, sendo um “Cavaleiro da Ordem do Santo Vodun dos Egbas (3) ”. A tônica da obra era crítica ao Cristianismo apresentando algumas práticas e relacionando Obeah com os milagres bíblicos. Questionou por que o europeu acredita neles e não na magia africana. Variados tipos de feitiços são tratados pelo autor como amarração, transformação de cajado em cobra (4), proteger plantações e descobrir se alguém foi morto por Obeah usando as roupas não lavadas do falecido. De tudo um pouco como nos pergaminhos greco-mágicos. O autor explicou o termo diferenciando os Obeahs jamaicana e de Trindade e Tobago do Vodun:

“O culto Obeah (sacrifício) ou Wanga (feitiço [spell] e veneno) é o nome de um sistema solo de magia tribal dos Popo, Koromantyn, Eboe e outros. O Vodun ou culto T’changa é um sistema de magia em pares das tribos de Arada, Yoruba e Daomé. Todas as funções do T’changa só podem ser realizados efetivamente por um Sacerdote (‘Papaloi’) e uma Sacerdotisa (‘Mamaloi’) juntos na presença da Serpente Sagrada, o totem ou Fetiche sagrado do secto.”

Cassecanarie juntava ambos os termos em Obeah apenas, porém foca na questão do uso verbal da magia:

“… o principal ‘poder’ utilizado nessa Arte é o Encantamento, como é claramente mostrado pelo nome Obeah-Wanga. Ainda assim, a palavra Obeah também é, por si só, indicativa de todos os outros processos citados como no ‘Oráculo das Roupas Usadas’, no Glamour etc, enquanto em outros casos, que pareçam independentes, o encantamento, embora não mencionado, é o fator necessário para a eficácia.”

Em outra parte, continuando o raciocínio, estreita mais a argumentação chegando na questão puramente sonora e usando um termo que Crowley usaria bastante, a Vontade:

“… e o Encantamento é a fórmula de sons arranjados para produzir certas vibrações em sintonia com determinados acordes; a utilização do poder mágico natural do som energizado pela Vontade Concentrada. Um Encantamento não depende de forma alguma ser expresso em palavras específicas, é uma fórmula sonora que pode ser tão bem — e às vezes melhor — realizada em um instrumento em vez de falada.”

Há uma passagem sublinhada, provavelmente por Crowley:

“Como os estudantes bem sabem, essa linguagem é composta de sons e não palavras.”

Isso relaciona-se com o que ele descobriria na Ordem Hermética da Aurora Dourada e seria de suma importância na sua teoria mágica: “Os Nomes Bárbaros de Invocação”. Trata-se de termos ou palavras utilizados em rituais mágicos que são considerados arcaicos, estrangeiros ou aparentemente sem significado racional. Quando foi montar a sua versão de um ritual para invocação do Sagrado Anjo GuardiãoLiber Samekh, Crowley usou um exorcismo contido em um papiro grego-mágico repleto de entidades e “nomes bárbaros”. O opúsculo permaneceu na mente de Crowley tanto que, em 1904, na recepção do Livro da Lei, os dois termos emergiram.

O seu discípulo Kenneth Grant deu sequencia ao estudos dos termos, porém sob um ponto de vista bastante particular. Enveredou por um caminho diferente: Crowley era solar e Grant, lunar, focando em aspectos obscuros da magia como feitiçaria aliados à magia sexual, indo até para âmbitos que beiram a ficção científica. Não estava muito interessado em veracidade antropológica e sim em adequar as coisas ao seu ponto de vista. Por exemplo, a parte de magia sexual foi adjetivada por Crowley como “ofidiana”, referindo-se à Kundalini, e Grant definiu Obeah como parte de uma “Corrente Ofidiana” cuja raiz semântica africana (sim, bem genérico) “Ob” significa “serpente”. O número de Ob é 9 associando com a sefirá Yesod ou “Zona de Poder lunar ” — na cabalá thelêmica, Yesod está relacionada à lua da feitiçaria e ao fundamento que é a energia sexual. Com o tempo ele foi “refinando” as definições chegando a ideias de que “Obedecer” (via a feitiçaria) vem de Ob além da aranha ser também um símbolo:

“A aranha é o símbolo supremo do Culto Obeah e Ob (ou Serpente) envolve a sua teia, o que significa que o Círculo do Tempo (Kali) é marcado por períodos denotados nas seções dessa teia.” (5)

Grant concebeu uma obra inspirada chamada “O Livro da Aranha (6)” e definiu que a teia representa a rede interdimensional de energia mágica, caminhos secretos do subconsciente e os portais para realidades não humanas com as “vibrações ofidianas” compondo. Não raro ele associou o Voodoo com a Obeah no sentido de manifestarem a citada corrente.

Muitas dessas conclusão vieram da sua relação com Michael Bertiaux, membro de uma versão da O.T.O. (7) relacionada com práticas de magia afro-caribenha. Bertiaux, um norte-americano, foi fundamental para que Grant tivesse acesso a conhecimentos não europeus. Por fim, ele chegou a definir Obeah colocando Austin Osman Spare:

Os mais primitivos mistérios da mente que formam as bases da iniciação nas lojas da raças negras, onde Obeah, ou a fascinação do Olho da Serpente, tipificou o controle da matéria através da mente, usando o Olho e a Mão como seus instrumentos mágicos. Crowley foi instruído por Aiwass a aprender e ensinar essa antiga Sabedoria e Austin Spare também enfatizou o uso desses instrumentos em seu sistema de feitiçaria por sigilos.” (8)

Hoje existem mais informações sobre o assunto. Um autor referência é Nicolaj de Mattos Frisvold que acha difícil definir Obeah devido à descentralização, não havendo cânone como as religiões abraâmicas — o que é comum nas afro-americanas. Ele escreveu:

“Obeah é um culto de feitiçaria, uma arte pessoal e única enraizada em pactos espirituais e tratos com espíritos — como tal, é difícil explicar seus princípios de maneira uniforme.”(9)

É um sistema que tem raízes na espiritualidade africana, ameríndia e europeia, como aconteceu aqui no Brasil via Quimbanda e Umbanda e, como ambas, possui diversas vertentes, desde as puramente xamânicas até as temperadas com cristianismo e magia cerimonial do velho continente. De modo geral, as idiossincrasias gravitam em torno de um forte elo com a natureza: o uso de plantas é inseparável da Obeah e um dos principais espíritos chama-se Sasabonsam, um protetor das florestas ao estilo Curupira. O espírito chefe do Obeah chama-se “Papa Bones” e possui um mensageiro chamado “Anima Sola” ambos sincretizados com Santo Antônio de Pádua segurando o Menino Jesus — Anima Sola é a representação católica da alma que sofre no Purgatório. Papa Bones é descrito como uma entidade velha, relacionado ao bambu e transmorfa preferindo a forma de veados e javalis, cujo caminho iniciático guarda perigos; não é para qualquer um. A parte da magia cerimonial está em obras como o Lemegeton, Grimório Verum, O Livro da Magia Negra dentre outros. Em Trindade e Tobago o Livro da Magia Cerimonial de Arthur Waite e os salmos bíblicos são mais usados. Por fim uma conclusão de Frisvold:

“Eu me dei conta ao longo dos anos de que Obeah não é um termo exclusivo do que foi transmitido a mim, mas uma força de ressonância que pode assumir variadas formas.”

A referência de Obeah e Wanga no Livro da Lei poderia ter aberto as portas da magia africana ou afro-americana para Crowley, porém creio que faltou a ele condições na época. Ele teve acesso a materiais através de um aventureiro chamado William Seabrook (10), porém não incorporou no seu sistema. Talvez não tivesse mesmo interesse devido ao seu norte de magia cerimonial e sexual bem como a mentalidade cabalista europeia que apontava para uma linha bastante diversa culturalmente. Por um lado, fez bem em não inventar coisas sobre um assunto que pouco conhecia, como fez algumas vezes Kenneth Grant ainda que este tenha aberto muitas portas. E portais.

Notas:

1- Está na coleção dos pertences do Crowley no Warburg Institute. Trata-se de um livreto de oito páginas;

2- Pseudônimo de nome desconhecido;

3- Chavalier de l’Ordre du Vodun Saint des Egbas;

4- Referência a Moisés;

5- “Outside of the Cricle of Time” — Frederick Muller Limited;

6- Livro da Aranha — Entre 1955 e 1962 um discípulo de Grant encontrou o texto durante uma experiência no 29º Túnel de Set. Posteriormente descobriu que o responsável foi uma entidade chamada “OKBISh”, segundo ele “aranha” em caldeu. Batizou o escrito de 924 versos como O Livro da Aranha que afirmou conter as chaves para uma “Nova Obeah Aeônica”;

7- Ordo Templi Orientis Antiqua — uma vertente da Ordo Templi Orientis que se separou da linha principal da O.T.O de Aleister Crowley. A O.T.O.A tem ênfase particular no ocultismo, no esoterismo europeu e nas tradições mágicas afro-caribenhas. Michael Bertiaux é o seu maior expoente cuja obra mais conhecida é o Voudon Gnostic Workbook;

8- “The Ninth Arc” — Starfire Publishing;

9- “Obeah: A Sorcerous Ossuary” — Hadean Press Limited;

10- William Seabrook (1884–1945) — escritor e aventureiro com predileção para o oculto e locais remotos. Conheceu Crowley nos EUA em 1919. Teve um livro publicado no Brasil chamado “A Ilha da Magia”.


Herman Faulstich (Frater Keron-E/Kalimann) é mago, buxo, xamã, desenhista industrial e campeão mundial de Jiu Jitsu. É também autor do autor do livro Thelema, uma introdução à obra de Aleister Crowley

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