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Rudolf Steiner (1906)
Cada um de vocês certamente sabe que o título desta palestra é retirado do Fausto de Goethe. Todos sabem que, nesse poema, vemos como Fausto, o representante do mais alto esforço humano, faz um pacto com as forças malignas, representadas na obra por Mefistófeles, o emissário do inferno. Também sabem que Fausto deve fechar um acordo com Mefistófeles, documento que precisa ser assinado com o próprio sangue. Num primeiro momento, Fausto encara isso como uma piada. Mefistófeles, no entanto, pronuncia então a frase que Goethe, sem dúvida, pretendia que fosse levada a sério: “O sangue é um fluido muito especial.”
Pois bem, em relação a essa linha no Fausto de Goethe, encontramos um traço curioso nos chamados comentadores de Goethe. Vocês certamente têm ideia da vasta literatura que trata da versão goethiana da Lenda de Fausto. É uma literatura de dimensões tão colossais que poderia encher bibliotecas inteiras e, naturalmente, não posso me deter aqui nos diversos comentários feitos por esses intérpretes sobre esse trecho em particular. Nenhuma das interpretações lança muito mais luz sobre a frase do que a apresentada por um dos últimos comentadores, o professor Minor. Ele, como outros, trata-a como uma observação irônica feita por Mefistófeles e, nesse contexto, faz a seguinte observação realmente curiosa, à qual peço que prestem atenção; pois não resta dúvida de que ficarão surpresos com as conclusões estranhas a que podem chegar os comentadores de Goethe.
O professor Minor observa que “o diabo é inimigo do sangue” e aponta que, como o sangue é o que sustenta e preserva a vida, o diabo, sendo inimigo da raça humana, também deve ser inimigo do sangue. Ele então — e com razão — chama a atenção para o fato de que, mesmo nas versões mais antigas da Lenda de Fausto — e, de fato, nas lendas em geral — o sangue sempre desempenha o mesmo papel.
Num livro antigo sobre Fausto, é descrito em detalhes como Fausto faz um pequeno corte na mão esquerda com um canivete e, ao pegar a pena para assinar o acordo, o sangue que jorra da ferida forma as palavras: “Ó homem, foge!” Tudo isso é suficientemente autêntico; mas então vem a afirmação de que o diabo é inimigo do sangue, e que essa seria a razão para exigir que a assinatura fosse feita em sangue. Gostaria de perguntar-lhes se conseguem imaginar alguém desejando possuir exatamente aquilo por que sente aversão. A única explicação razoável que se pode dar — não apenas quanto ao significado de Goethe nesse trecho, mas também quanto à própria lenda e a todos os poemas antigos sobre Fausto — é que, para o diabo, o sangue era algo especial e que não lhe era indiferente se o documento fosse assinado com tinta comum ou com sangue.
Não podemos supor outra coisa senão que o representante das forças do mal acredita — ou melhor, está convencido — de que terá Fausto mais firmemente em seu poder se conseguir obter pelo menos uma gota de seu sangue. Isso é evidente, e ninguém pode entender essa frase de outro modo. Fausto deve escrever seu nome com o próprio sangue não porque o diabo lhe seja inimigo, mas justamente porque deseja ter poder sobre ele.
Há, portanto, uma percepção notável por trás dessa passagem: quem conquista poder sobre o sangue de um homem conquista poder sobre o próprio homem, e o sangue é “um fluido muito especial” porque é nele que, por assim dizer, deve travar-se a luta real quando se trata de disputar o ser humano entre o bem e o mal.
Todas as coisas que chegaram até nós por meio das lendas e mitos de vários povos, e que se referem à vida humana, sofrerão em nossos dias uma transformação peculiar quanto à concepção e interpretação da natureza humana. Passou a época em que lendas, contos de fadas e mitos eram vistos apenas como expressões da fantasia infantil de um povo. De fato, já se foi o tempo em que, de modo semierudito e seminfantil, era moda aludir às lendas como expressão poética da “alma de uma nação”.
Ora, essa chamada “alma poética” de um povo nada mais é do que produto de uma erudição burocrática; pois esse tipo de burocracia existe tanto quanto a burocracia oficial. Quem já olhou verdadeiramente para a alma de um povo sabe muito bem que não está lidando com ficção imaginativa ou algo semelhante, mas com algo muito mais profundo, e que, na verdade, as lendas e contos de fadas dos vários povos exprimem forças e acontecimentos maravilhosos.
Se, do novo ponto de vista da investigação espiritual, meditarmos sobre as antigas lendas e mitos, deixando que essas grandes e poderosas imagens vindas de tempos primordiais atuem em nossas mentes, veremos, se estivermos preparados para a tarefa pelos métodos da ciência oculta, que essas lendas e mitos são a expressão de uma sabedoria antiquíssima e profunda.
É verdade que, a princípio, podemos perguntar como se deu que, num estado primitivo de desenvolvimento e com ideias igualmente primitivas, o homem não sofisticado tenha sido capaz de representar para si mesmo, em forma de lendas e contos, os enigmas do universo; e como é que, ao meditarmos sobre eles hoje, encontramos neles, em forma de imagem, aquilo que a investigação oculta atual nos revela com maior clareza.
Essa é uma questão que, a princípio, tende a causar surpresa. E, no entanto, quem se aprofunda nos modos e meios pelos quais esses contos e mitos surgiram verá desaparecer toda surpresa e dúvida; verá, de fato, nessas lendas não apenas uma visão ingênua e não sofisticada das coisas, mas a expressão maravilhosamente profunda e sábia de uma concepção primordial e verdadeira do mundo.
Muito mais se pode aprender examinando a fundo os fundamentos desses mitos e lendas do que absorvendo a ciência intelectual e experimental dos nossos dias. Mas, para esse tipo de trabalho, o estudante deve estar familiarizado com os métodos de investigação próprios da ciência espiritual. Ora, tudo o que se encontra nessas lendas e antigas concepções do mundo a respeito do sangue costuma ter importância, pois, naqueles tempos remotos, havia uma sabedoria por meio da qual o homem compreendia o verdadeiro e amplo significado do sangue — esse “fluido muito especial” que é, ele próprio, a vida corrente dos seres humanos.
Não podemos hoje entrar na questão de onde veio essa sabedoria dos tempos antigos, embora alguma indicação sobre isso seja dada no final da palestra; o estudo efetivo do assunto, porém, ficará para palestras futuras. O sangue em si, seu significado para o homem e o papel que desempenha no progresso da civilização humana, ocuparão hoje nossa atenção.
Vamos considerá-lo não do ponto de vista fisiológico ou puramente científico, mas sim do ponto de vista de uma concepção espiritual do universo. E melhor abordaremos o assunto se, para começar, entendermos o significado de um antigo axioma, intimamente ligado à civilização do Egito Antigo, onde floresceu a sabedoria sacerdotal de Hermes. É um axioma que constitui o princípio fundamental de toda ciência espiritual, e que se tornou conhecido como o Axioma Hermético: “O que está em cima é como o que está embaixo.”
Vocês verão que há muitas interpretações diletantes dessa frase; porém, a explicação que nos ocupará hoje é a seguinte: para a ciência espiritual é evidente que o mundo ao qual o homem tem acesso primário por meio de seus cinco sentidos não representa o mundo inteiro, sendo apenas a expressão de um mundo mais profundo, oculto por trás dele — o mundo espiritual. Esse mundo espiritual é chamado, de acordo com o Axioma Hermético, de mundo superior, o mundo “de cima”; e o mundo dos sentidos, que se revela ao nosso redor, cuja existência conhecemos por meio dos sentidos e que podemos estudar com o intelecto, é o mundo inferior, o mundo “de baixo”, expressão daquele mundo espiritual superior. Assim, o ocultista, ao olhar para este mundo sensível, não vê nele algo definitivo, mas sim uma espécie de fisionomia, que ele reconhece como expressão de um mundo de alma e espírito; da mesma forma que, ao contemplar um rosto humano, não devemos nos deter apenas na forma da face e nos gestos, prestando atenção apenas a eles, mas devemos passar, naturalmente, da fisionomia e dos gestos ao elemento espiritual que se exprime neles.
O que cada pessoa faz instintivamente ao se deparar com qualquer ser dotado de alma é o que o ocultista, ou cientista espiritual, faz em relação a todo o mundo; e “o que está em cima é como o que está embaixo” poderia, ao se referir ao homem, ser assim explicado: “Todo impulso que anima sua alma se expressa em seu rosto.” Um rosto duro e grosseiro exprime grosseria de alma; um sorriso revela alegria interior; uma lágrima denuncia uma alma sofredora.
Aplicarei aqui o Axioma Hermético à pergunta: o que constitui, de fato, a sabedoria? A ciência espiritual sempre sustentou que a sabedoria humana tem algo a ver com a experiência — e com a experiência dolorosa. Aquele que se encontra realmente no meio do sofrimento manifesta, nesse sofrimento, uma falta interior de harmonia. Porém, aquele que superou a dor e o sofrimento, e guarda dentro de si os frutos dessa experiência, sempre dirá que, por meio do sofrimento, alcançou alguma medida de sabedoria. Ele dirá: “As alegrias e prazeres da vida, tudo o que a vida pode me oferecer de satisfação, recebo com gratidão; mas teria muito mais relutância em me desfazer da minha dor e sofrimento do que desses prazeres, pois ‘é à minha dor e ao meu sofrimento que devo minha sabedoria’.”
E assim é que, na sabedoria, a ciência oculta sempre reconheceu aquilo que pode ser chamado de dor cristalizada — dor que foi superada e, assim, transformada em seu oposto.
É interessante notar que a pesquisa moderna mais materialista chegou recentemente à mesma conclusão. Há pouco tempo foi publicado um livro chamado A Mimicria do Pensamento, obra que vale a pena ser lida. Não é o trabalho de um teosofista, mas de um estudioso da natureza e da alma humana. O autor procura mostrar como a vida interior do homem — sua maneira de pensar — imprime-se em sua fisionomia. Esse estudioso da natureza humana chama atenção para o fato de que há sempre algo, na expressão do rosto de um pensador, que sugere aquilo que se poderia descrever como “dor absorvida”.
Assim, vemos que esse princípio reaparece, sob a forma materialista, em nossa época, como uma confirmação brilhante daquele axioma imemorial da ciência espiritual. Vocês perceberão cada vez mais profundamente que, ponto por ponto, a antiga sabedoria reaparecerá na ciência moderna.
A investigação oculta mostra, de maneira decisiva, que todas as coisas que nos cercam neste mundo — a base mineral, a cobertura vegetal e o mundo animal — devem ser vistas como expressão fisionômica, ou o “que está embaixo”, de um “acima” ou vida espiritual que se encontra por trás delas. Do ponto de vista do ocultismo, as coisas apresentadas no mundo sensível só podem ser corretamente compreendidas se nosso conhecimento incluir a cognição do “acima”, do arquétipo espiritual, dos Seres espirituais originais de onde se originou tudo o que se manifesta.
Por essa razão, aplicaremos hoje nossas mentes ao estudo do que está oculto por trás do fenômeno do sangue — aquilo que moldou no sangue a sua expressão fisionômica no mundo sensível. Quando vocês compreenderem esse “fundo espiritual” do sangue, perceberão como o conhecimento desse assunto influencia todo o nosso modo de encarar a vida.
O que é o sangue em si, vocês provavelmente já sabem pelas doutrinas atuais da ciência natural, e sabem também que, no que diz respeito ao homem e aos animais superiores, o sangue é praticamente vida fluida.
Vocês sabem que é por meio do sangue que o “homem interior” entra em contato com aquilo que é exterior e que, nesse processo, o sangue do homem absorve oxigênio, que constitui o próprio sopro da vida. Pela absorção do oxigênio, o sangue se renova. O sangue que se apresenta ao oxigênio que entra é uma espécie de veneno para o organismo — um tipo de destruidor e demolidor — mas, ao absorver o oxigênio, o sangue azul-arroxeado é transmutado, por um processo de combustão, em fluido vermelho e vivificante. Esse sangue, que percorre todas as partes do corpo, depositando partículas nutritivas em todo lugar, tem a tarefa de assimilar diretamente os materiais do mundo exterior e aplicá-los, pelo caminho mais curto possível, à nutrição do corpo. É necessário que o homem e os animais superiores absorvam primeiro o oxigênio do ar e, por meio dele, construam e mantenham o corpo.
Alguém dotado de conhecimento da alma disse, com razão: “O sangue, com sua circulação, é como um segundo ser e, em relação ao homem de ossos, músculos e nervos, age como um tipo de mundo exterior.” Pois, de fato, o ser humano inteiro extrai continuamente seu sustento do sangue e, ao mesmo tempo, descarrega nele o que já não lhe serve. O sangue de um homem é, portanto, um verdadeiro duplo que o acompanha constantemente, do qual ele extrai nova força e ao qual entrega tudo o que já não pode usar. “Vida líquida do homem” é, portanto, um bom nome para o sangue, pois esse “fluido especial”, em constante transformação, é certamente tão importante para o homem quanto a celulose o é para os organismos inferiores.
O distinto cientista Ernst Haeckel, que investigou profundamente os mecanismos da natureza, observou com acerto, em várias de suas obras populares, que o sangue é, na realidade, o último fator a surgir num organismo. Se seguimos o desenvolvimento do embrião humano, vemos que os rudimentos de ossos e músculos se formam muito antes que surja a primeira tendência à formação de sangue. A base para a formação do sangue, com todo o seu sistema de vasos, aparece muito tarde no desenvolvimento embrionário e, a partir disso, a ciência natural concluiu, com razão, que a formação do sangue ocorreu tardiamente na evolução do universo; que outras forças, já existentes, tiveram de ser elevadas ao nível do sangue, por assim dizer, para realizar, nesse nível, o que precisava ser cumprido internamente no ser humano. Somente quando o embrião humano repete em si todas as etapas anteriores do crescimento humano, alcançando assim o estado em que o mundo se encontrava antes da formação do sangue, é que ele está pronto para realizar esse ato supremo da evolução: a transmutação e elevação de tudo o que veio antes nesse “fluido muito especial” que chamamos sangue.
Se quisermos estudar as leis misteriosas do universo espiritual que estão por trás do sangue, devemos ocupar-nos um pouco com alguns dos conceitos mais elementares da Antroposofia. Estes já foram frequentemente expostos e vocês verão que essas ideias elementares são o “acima”, e que esse “acima” se expressa nas leis importantes que regem o sangue — assim como o restante da vida — como que numa fisionomia.
Aos que já estão bem familiarizados com as leis primárias da Antroposofia, peço licença para uma breve repetição, em benefício daqueles que estão aqui pela primeira vez. De fato, essa repetição pode servir para tornar essas leis ainda mais claras aos primeiros, ao ouvi-las aplicadas a novos e específicos casos. Para aqueles que nada sabem de Antroposofia, que ainda não se familiarizaram com essas concepções de vida e de universo, o que vou dizer agora poderá soar apenas como um conjunto de palavras das quais não podem extrair significado. Mas o fato de as palavras não transmitirem nada a alguém não significa, necessariamente, que não haja uma ideia real por trás delas. Aqui podemos adaptar levemente a frase espirituosa de Lichtenberg: “Se uma cabeça e um livro se chocam e o som resultante é oco, a culpa não é necessariamente do livro.”
E assim é com nossos contemporâneos quando julgam as verdades teosóficas. Se essas verdades, aos ouvidos de muitos, soam como meras palavras às quais não conseguem atribuir sentido, a culpa não é necessariamente da Antroposofia; mas aqueles que já adentraram esses assuntos sabem que, por trás de toda referência a seres superiores, esses seres realmente existem, embora não sejam encontrados no mundo dos sentidos.
Nossa concepção teosófica do universo nos mostra que o homem, tal como se revela aos nossos sentidos no mundo exterior, no que diz respeito à sua forma e figura, é apenas uma parte do ser humano completo e que, na verdade, existem muitas outras partes além do corpo físico. O homem possui esse corpo físico em comum com todos os objetos minerais chamados “inanimados” que o cercam. Mas, além disso, o homem possui o corpo etérico ou vital (o termo “etérico” não é usado aqui no mesmo sentido da ciência física). Esse corpo etérico ou vital, longe de ser uma invenção imaginária, é tão visível para os sentidos espiritualmente desenvolvidos do ocultista quanto as cores o são para o olho físico. Esse corpo etérico pode realmente ser visto pelo clarividente. Ele é o princípio que chama os materiais inorgânicos à vida, que, retirando-os de seu estado inanimado, os tece no tecido da veste da vida.
Não imaginem que esse corpo seja, para o ocultista, algo que ele acrescenta em pensamento ao que é inanimado. É isso que os cientistas naturais tentam fazer! Eles tentam completar o que veem ao microscópio inventando algo que chamam de princípio vital.
Ora, esse não é o ponto de vista da pesquisa teosófica. Ela parte de um princípio fixo. Não diz: “Aqui estou, como buscador, tal qual sou. Tudo o que existe no mundo deve se conformar ao meu ponto de vista atual. O que não consigo perceber não existe!” Esse tipo de raciocínio é tão sensato quanto se um cego dissesse que as cores são apenas produto da imaginação. Quem nada sabe sobre um assunto não está em posição de julgá-lo, mas sim aquele para cuja experiência esse assunto já entrou.
O homem está em evolução, e por isso a Antroposofia diz: “Se você permanecer como está, não verá o corpo etérico e poderá, portanto, falar sobre ‘limites do conhecimento’ e ‘Ignoramus’; mas, se desenvolver e adquirir as faculdades necessárias para a cognição das coisas espirituais, deixará de falar de ‘limites do conhecimento’, pois estes só existem enquanto o homem não desenvolveu seus sentidos interiores.” É por isso que o agnosticismo constitui um peso para nossa civilização; pois ele diz: “O homem é assim e assim, e sendo assim só pode conhecer isto ou aquilo.” Ao que respondemos: “Embora ele seja assim hoje, deve tornar-se diferente, e, quando for diferente, conhecerá outra coisa.”
Portanto, a segunda parte do homem é o corpo etérico, que ele possui em comum com o reino vegetal.
A terceira parte é o chamado corpo astral — nome significativo e belo, cuja razão explicarei mais adiante. Os teosofistas que desejam mudar esse nome não têm ideia do que ele implica. Ao corpo astral cabe a tarefa, tanto no homem como no animal, de elevar a substância vital ao plano do sentir, de modo que, nessa substância vital, não apenas fluidos se movam, mas também nela se expressem tudo o que conhecemos como dor e prazer, alegria e tristeza. E aqui está, de imediato, a diferença essencial entre planta e animal — embora haja estados de transição entre eles.
Uma corrente recente de naturalistas sustenta que o sentir, em sentido literal, também deve ser atribuído às plantas; porém, isso é apenas um jogo de palavras. Pois, embora seja óbvio que certas plantas têm organização tão sensível que “respondem” a determinadas coisas que se aproximam delas, tal condição não pode ser descrita como “sentir”. Para que exista “sentir”, deve formar-se uma imagem dentro do ser como reflexo daquilo que produz a sensação. Portanto, se certas plantas respondem a um estímulo externo, isso não prova que a planta reaja ao estímulo por meio de um sentir, ou seja, que o experimente internamente. Aquilo que tem experiência interior tem sua sede no corpo astral. Assim, vemos que o que atingiu a condição animal é composto de corpo físico, corpo etérico ou vital e corpo astral.
O homem, porém, ergue-se acima do animal por possuir algo totalmente distinto, e pessoas reflexivas sempre perceberam em que consiste essa superioridade. Isso é indicado no que Jean Paul conta sobre si mesmo em sua autobiografia: ele relata que se lembra do dia em que, criança, estava no pátio da casa de seus pais e lhe surgiu, de repente, o pensamento de que era um “eu” — um ser capaz de dizer interiormente “eu” a si mesmo; e afirma que isso lhe causou profunda impressão.
Toda a chamada ciência exterior da alma ignora o ponto mais importante que aqui está envolvido. Peço, portanto, que me acompanhem por alguns momentos numa reflexão sutil, mas que mostrará a realidade da questão. Em toda a linguagem humana há uma pequena palavra que difere totalmente de todas as outras. Cada um de vocês pode nomear as coisas ao redor — mesa, cadeira, etc. — mas há uma palavra, um nome, que vocês não podem aplicar a nada, exceto àquilo que o possui: a pequena palavra “eu”. Ninguém pode dirigir-se a outro chamando-o de “eu”. Esse “eu” deve soar do mais íntimo da alma; é o nome que apenas a própria alma pode aplicar a si mesma. Toda outra pessoa é um “tu” para mim, e eu sou um “tu” para ela. Todas as religiões reconheceram nesse “eu” a expressão daquele princípio da alma por meio do qual seu ser mais íntimo, sua natureza divina, é capaz de falar. Aqui começa algo que nunca pode penetrar pelos sentidos externos, que nunca, em seu verdadeiro significado, pode ser nomeado de fora, mas que deve soar do mais íntimo do ser. Aqui começa o monólogo da alma, no qual o Eu divino anuncia sua presença quando o caminho está livre para a vinda do Espírito à alma humana.
Nas religiões das civilizações antigas, entre os antigos hebreus, por exemplo, esse nome era conhecido como “o nome impronunciável de Deus” e, qualquer que seja a interpretação que a filologia moderna queira dar, o antigo nome judaico de Deus não tem outro significado senão o que está expresso em nossa palavra “eu”. Um arrepio percorria os presentes quando o “Nome do Deus Desconhecido” era pronunciado pelos Iniciados, e eles percebiam, ainda que vagamente, o que significavam aquelas palavras que ressoavam pelo templo: “Eu sou o que sou.”
Nessa palavra está expresso o quarto princípio da natureza humana, o que o homem, sozinho, possui na Terra; e esse “eu” encerra e desenvolve dentro de si os germes de estágios superiores da humanidade.
Podemos apenas lançar um breve olhar sobre o que, no futuro, será evoluído por meio desse quarto princípio. Devemos apontar que o homem é composto de um corpo físico, um corpo etérico, um corpo astral e o ego, ou verdadeiro ser interior; e que, dentro desse ser interior, estão os rudimentos de três estágios adicionais de desenvolvimento que terão origem no sangue. São eles:
Manas, o Eu-Espiritual, distinto do eu corporal;
Buddhi, o Espírito de Vida;
Atma, o verdadeiro Homem-Espírito, um ideal ainda distante para o homem atual, mas cujo germe latente está destinado, em eras futuras, a alcançar perfeição.
Temos sete cores no arco-íris, sete notas na escala musical, sete séries de pesos atômicos na Tabela Periódica dos elementos e sete graus na escala do ser humano; divididos, novamente, em quatro inferiores e três superiores.
Vamos agora tentar compreender claramente como essa tríade espiritual superior encontra expressão fisionômica no quaternário inferior, e como ela nos aparece no mundo sensível. Tomemos, primeiro, aquilo que se cristalizou em forma como o corpo físico do homem; este ele possui em comum com toda a chamada natureza “inanimada”. Quando falamos teosoficamente do corpo físico, não nos referimos sequer ao que o olho vê, mas à combinação de forças que construiu o corpo físico, à Força viva que existe por trás da forma visível.
Observemos agora uma planta. Ela é um ser que possui um corpo etérico, que eleva a substância física à vida; ou seja, converte essa substância em seiva viva. O que transforma as forças inanimadas em seiva viva? Chamamos isso de corpo etérico, e o corpo etérico realiza exatamente o mesmo trabalho nos animais e nos homens: faz com que aquilo que possui mera existência material se torne uma configuração viva, uma forma viva.
Esse corpo etérico, por sua vez, é permeado por um corpo astral. E o que faz o corpo astral? Ele faz com que a substância que foi posta em movimento experimente interiormente a circulação desses fluidos externos, de modo que o movimento externo se reflita em vivência interior.
Agora chegamos ao ponto em que podemos compreender o homem no que se refere ao seu lugar no reino animal.
Todos os elementos que compõem o homem — oxigênio, nitrogênio, hidrogênio, enxofre, fósforo etc. — também se encontram fora dele, na natureza inanimada.
Se aquilo que o corpo etérico transformou em substância viva deve ter experiências interiores, se deve criar reflexos internos do que acontece externamente, então o corpo etérico precisa ser permeado pelo que conhecemos como corpo astral, pois é o corpo astral que dá origem à sensação.
Mas, nesse estágio, o corpo astral provoca sensação apenas de um modo particular: o corpo etérico transforma as substâncias inorgânicas em fluidos vitais, e o corpo astral, por sua vez, transforma essa substância vital em substância sensível.
— E aqui peço que prestem atenção especial — o que um ser dotado apenas desses três corpos é capaz de sentir? Ele sente apenas a si mesmo, seus próprios processos vitais; vive uma vida confinada em si mesmo.
Este é um fato de extraordinária importância. Se olharem para um dos animais inferiores, verão o que ele conseguiu realizar: transformou substância inanimada em substância viva, e substância viva em substância sensível; e substância sensível só pode existir onde há, pelo menos, os rudimentos do que, num estágio posterior, aparece como um sistema nervoso desenvolvido.
Assim, temos substância inanimada, substância viva e substância permeada por nervos capazes de sensação. Se olharem para um cristal, precisam reconhecê-lo, antes de tudo, como expressão de certas leis naturais que atuam no mundo exterior, no chamado reino inanimado. Nenhum cristal poderia ser formado sem a ajuda de toda a natureza ao seu redor. Nenhum elo pode ser arrancado da corrente do cosmo e colocado isoladamente.
Do mesmo modo, não se pode separar o homem de seu ambiente: se ele fosse erguido a apenas alguns quilômetros acima da Terra, inevitavelmente morreria. Assim como o homem só é concebível aqui, onde as forças necessárias se combinam nele, o mesmo vale para o cristal; por isso, quem observa um cristal corretamente vê nele uma imagem de toda a natureza, de todo o cosmo.
O que Cuvier disse é realmente o caso: um anatomista competente pode dizer a que tipo de animal pertenceu um determinado osso, pois cada animal tem sua própria forma específica de formação óssea.
Assim, todo o cosmo vive na forma de um cristal. Do mesmo modo, todo o cosmo se expressa na substância viva de um único ser. Os fluidos que circulam por um ser são, ao mesmo tempo, um pequeno mundo e um contraponto ao grande mundo.
E, quando a substância se torna capaz de sentir, o que então habita nas sensações das criaturas mais elementares? Essas sensações espelham as leis cósmicas, de modo que cada criatura viva percebe dentro de si, microcosmicamente, todo o macrocosmo.
A vida sensível de um ser elementar é, assim, uma imagem da vida do universo, tal como o cristal é uma imagem de sua forma. A consciência de tais criaturas vivas é, claro, apenas vaga. Mas essa própria obscuridade de consciência é compensada por seu alcance muito maior, pois todo o cosmo é sentido na consciência vaga de um ser elementar.
No homem, porém, há apenas uma estrutura mais complexa dos mesmos três corpos que encontramos no ser sensível mais simples.
Tomemos o homem — sem considerar ainda o sangue — como formado pela substância do mundo físico ao seu redor e contendo, como a planta, certos sucos que a transformam em substância viva, na qual um sistema nervoso se organiza gradualmente.
Esse primeiro sistema nervoso é o chamado sistema simpático e, no homem, ele se estende ao longo de toda a coluna vertebral, ligado a ela por pequenos filamentos em cada lado. Possui também, em cada lado, uma série de gânglios, dos quais partem filamentos para diferentes órgãos, como pulmões, aparelho digestivo e outros.
Esse sistema nervoso simpático dá origem, em primeiro lugar, à vida de sensação que descrevemos.
Mas a consciência do homem não se aprofunda o suficiente para que ele acompanhe os processos cósmicos refletidos por esses nervos. Eles são um meio de expressão e, assim como a vida humana é formada a partir do mundo cósmico ao redor, esse mundo cósmico também se reflete no sistema nervoso simpático. Esses nervos vivem uma vida interior vaga e, se o homem fosse capaz de mergulhar nesse seu sistema simpático e de adormecer o sistema nervoso superior, veria, como num estado de vida luminosa, o trabalho silencioso das grandes leis cósmicas.
Em tempos passados, as pessoas possuíam uma faculdade clarividente que agora está superada, mas que podia ser experimentada quando, por processos especiais, a atividade do sistema nervoso superior era suspensa, liberando a consciência inferior ou subliminar. Nesses momentos, o homem vivia nesse sistema nervoso que, à sua maneira, é um reflexo do mundo ao redor.
Alguns animais inferiores ainda retêm esse estado de consciência e, embora ele seja vago e indistinto, é essencialmente mais amplo do que a consciência do homem atual. Um mundo vasto se reflete como vida interior indistinta, e não apenas um pequeno recorte, como no homem contemporâneo.
Mas, no homem, algo mais aconteceu. Quando a evolução chegou ao ponto em que o sistema nervoso simpático estava desenvolvido, refletindo o cosmo, o ser em evolução novamente se abriu para fora: ao sistema simpático foi acrescentada a medula espinhal.
O sistema de cérebro e medula, então, conduz aos órgãos pelos quais se estabelece a ligação com o mundo exterior.
O homem, tendo progredido até aqui, deixa de atuar apenas como espelho das leis primordiais da evolução cósmica: agora estabelece relação entre esse reflexo e o mundo externo.
A junção do sistema simpático com o sistema nervoso superior exprime a mudança ocorrida antes no corpo astral: este já não vive apenas a vida cósmica em estado de consciência vaga, mas acrescenta a ela sua própria existência interior particular.
O sistema simpático permite a um ser perceber o que se passa fora dele; o sistema nervoso superior permite-lhe perceber o que acontece dentro; e o mais alto tipo de sistema nervoso — como o que a humanidade possui hoje — tira do corpo astral mais desenvolvido material para criar imagens ou representações do mundo externo.
O homem perdeu o poder de perceber as antigas e vagas imagens primitivas do mundo exterior, mas, por outro lado, tornou-se consciente de sua vida interior e, a partir dessa vida interior, forma, num nível mais alto, um novo mundo de imagens que, embora reflita apenas uma pequena parte do mundo exterior, o faz de forma mais clara e perfeita.
Paralelamente a essa transformação, outra mudança ocorre nos estágios mais elevados de desenvolvimento.
A transformação que começou no corpo astral estende-se agora ao corpo etérico.
Assim como o corpo etérico, no processo de sua transformação, desenvolve o corpo astral; assim como ao sistema nervoso simpático é acrescentado o sistema de cérebro e medula; assim também aquilo que, depois de receber a circulação inferior dos fluidos, se desprendeu e se tornou independente do corpo etérico, transmuta esses fluidos inferiores no que conhecemos como sangue.
O sangue é, portanto, expressão do corpo etérico individualizado, assim como o cérebro e a medula espinhal são expressão do corpo astral individualizado.
E é essa individualização que traz à existência aquilo que vive como o ego ou “eu”.
Tendo seguido o homem até aqui em sua evolução, vemos que estamos diante de uma cadeia com cinco elos:
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O corpo físico;
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O corpo etérico;
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O corpo astral;
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O corpo astral individualizado, que se expressa no cérebro e na medula;
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O corpo etérico individualizado, que se expressa no sangue e no sistema circulatório.
Assim como esses dois últimos princípios foram individualizados, também o primeiro princípio — pelo qual a matéria inanimada entra no corpo humano para construí-lo — um dia será individualizado; mas na humanidade atual encontramos apenas os primeiros rudimentos dessa transformação.
Vimos como as substâncias sem forma entram no corpo humano e como o corpo etérico transforma esses materiais em formas vivas; como, depois, o corpo astral cria imagens do mundo exterior; como esse reflexo do mundo externo se transforma em experiências interiores; e como essa vida interior reproduz, a partir de si mesma, imagens do mundo externo.
Quando essa metamorfose alcança o corpo etérico, forma-se o sangue.
Os vasos sanguíneos, juntamente com o coração, são a expressão do corpo etérico transformado, do mesmo modo que a medula espinhal e o cérebro expressam o corpo astral transformado.
Assim como, pelo cérebro, o mundo exterior é experimentado interiormente, também, pelo sangue, esse mundo interior é transformado em expressão externa no corpo humano.
O sangue absorve as imagens do mundo exterior que o cérebro formou internamente, transforma-as em forças vivas construtivas e, com elas, edifica o corpo humano presente.
Temos diante de nós um processo em que o sangue extrai de seu ambiente cósmico a substância mais elevada que pode obter — o oxigênio — que renova o sangue e lhe dá nova vida.
Assim, nosso sangue se abre ao mundo exterior.
Seguimos, então, o caminho do exterior para o interior e, depois, do interior de volta ao exterior.
Duas coisas se tornam possíveis:
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Vemos que o sangue surge quando o homem se coloca diante do mundo exterior como um ser independente, quando, a partir das percepções que o mundo externo lhe proporcionou,
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Ele próprio produz formas e imagens diferentes, tornando-se criador e possibilitando que o Ego, a vontade individual, venha à vida.
Um ser em que esse processo ainda não tivesse ocorrido não poderia dizer “eu”. No sangue reside o princípio para o desenvolvimento do ego.
O “eu” só pode ser expresso quando um ser é capaz de, dentro de si, formar imagens que obteve do mundo exterior.
Um ser que é um “eu” deve ser capaz de absorver o mundo exterior e reproduzi-lo interiormente.
Se o homem fosse dotado apenas de cérebro, poderia apenas reproduzir, dentro de si, imagens do mundo exterior e experimentá-las internamente; poderia então apenas dizer: “O mundo exterior se reflete em mim como num espelho.”
Mas, se ele é capaz de formar, para esse reflexo, uma nova configuração, essa forma já não é apenas o reflexo do mundo externo — ela é o “eu”.
Uma criatura dotada de medula e cérebro percebe o reflexo como sua vida interior.
Mas, quando possui sangue, ela vivencia essa vida interior como sua própria forma.
Com o auxílio do oxigênio do mundo exterior, o sangue forma o corpo individual segundo as imagens da vida interior. Essa formação se exprime como percepção do “eu”.
O ego volta-se em duas direções, e o sangue expressa isso externamente.
A visão do ego é voltada para dentro; sua vontade, para fora.
As forças do sangue são dirigidas para dentro — constroem o homem interior — e também se voltam para fora, para o oxigênio do mundo externo.
É por isso que, ao adormecer, o homem mergulha na inconsciência: ele mergulha naquilo que sua consciência pode vivenciar no sangue.
Quando, porém, volta a abrir os olhos para o mundo exterior, seu sangue acrescenta às suas forças construtivas as imagens produzidas pelo cérebro e pelos sentidos.
Assim, o sangue permanece, por assim dizer, entre o mundo interior de imagens e o mundo exterior vivo de formas.
Esse papel fica claro quando estudamos dois fenômenos: a ascendência — a relação entre seres conscientes — e a experiência no mundo dos acontecimentos externos.
A ascendência, ou descendência, nos coloca onde estamos de acordo com a lei do parentesco sanguíneo.
Uma pessoa nasce de uma família, de uma raça, de uma tribo, de uma linha de antepassados, e o que esses antepassados lhe legaram está no sangue.
No sangue está reunido, por assim dizer, tudo o que o passado material construiu no homem; e, no sangue, também está sendo formado tudo o que está sendo preparado para o futuro.
Quando, portanto, o homem suprime temporariamente sua consciência superior — em estado hipnótico, de sonambulismo ou de clarividência atávica — ele desce a uma consciência muito mais profunda, na qual se torna vagamente cônscio das grandes leis cósmicas, percebendo-as com mais clareza do que os sonhos mais vívidos do sono comum.
Nesses estados, a atividade do cérebro fica suspensa e, nos casos de sonambulismo profundo, isso vale também para a medula espinhal.
O homem vivencia a atividade de seu sistema nervoso simpático; ou seja, de forma vaga, sente a vida de todo o cosmos.
Nesses momentos, o sangue já não expressa as imagens da vida interior produzidas pelo cérebro, mas sim aquelas que o mundo exterior formou nele.
Devemos, porém, ter em mente que as forças de seus antepassados ajudaram a moldá-lo.
Assim como herda a forma de seu nariz de um ancestral, também herda a forma de todo o seu corpo.
Em tais estados de consciência suprimida, ele sente as imagens do mundo exterior — isto é, seus antepassados estão ativos em seu sangue — e, nesse momento, ele participa vagamente da vida remota deles.
Tudo no mundo está em evolução, inclusive a consciência humana.
O homem nem sempre teve a consciência que possui hoje; se recuarmos até os tempos de nossos primeiros antepassados, encontraremos um tipo de consciência muito diferente.
Atualmente, o homem, em sua vida desperta, percebe as coisas externas por meio dos sentidos e forma ideias sobre elas.
Essas ideias sobre o mundo exterior atuam em seu sangue.
Tudo o que ele recebe como resultado das experiências sensoriais vive e atua em seu sangue; sua memória guarda essas experiências dos sentidos.
Por outro lado, o homem de hoje já não tem consciência do que possui em sua vida corporal interior por herança de seus antepassados.
Ele nada sabe sobre a forma de seus órgãos internos; mas, em épocas mais antigas, era diferente.
Naquele tempo, vivia no sangue não apenas o que os sentidos recebiam do mundo exterior, mas também aquilo que estava contido na forma corporal — e, como essa forma corporal era herdada dos antepassados, o homem sentia a vida deles dentro de si.
Se pensarmos numa forma mais intensa dessa consciência, teremos uma ideia de como isso se expressava numa forma correspondente de memória.
Uma pessoa que experimenta apenas o que percebe pelos sentidos lembra apenas os acontecimentos ligados a essas percepções externas.
Ela só pode estar ciente de coisas que vivenciou dessa forma desde a infância.
Mas, com o homem pré-histórico, era diferente.
Ele sentia o que estava dentro dele e, como essa vivência interior era resultado da hereditariedade, ele passava pelas experiências de seus antepassados por meio de sua faculdade interior.
Ele lembrava não apenas a própria infância, mas também as experiências de seus ancestrais.
A vida destes estava, de fato, sempre presente nas imagens que seu sangue recebia.
Por incrível que pareça à mentalidade materialista de hoje, houve um tempo em que existia um tipo de consciência pela qual o homem considerava como suas não apenas as percepções sensoriais próprias, mas também as experiências de seus antepassados.
Nesses tempos, quando ele dizia “Eu experimentei tal coisa”, não se referia apenas ao que lhe havia acontecido pessoalmente, mas também ao que seus antepassados haviam vivenciado — pois ele podia lembrar disso.
Essa consciência antiga era, é verdade, muito vaga e nebulosa em comparação com a consciência desperta atual.
Tinha mais a natureza de um sonho vívido, mas, por outro lado, abrangia muito mais do que a consciência atual.
O filho sentia-se ligado ao pai e ao avô como um único “eu”, pois sentia as experiências deles como se fossem suas.
E, como o homem possuía essa consciência, vivendo não apenas em seu mundo pessoal, mas também no dos antepassados, ao se nomear incluía nesse nome todos de sua linhagem.
Pai, filho, neto, etc., eram designados por um único nome para aquilo que lhes era comum, que passava por todos — em suma, a pessoa se sentia apenas um membro de toda a linha de descendência.
E essa sensação era real e efetiva.
Precisamos agora investigar como essa forma de consciência foi transformada.
Isso ocorreu por uma causa bem conhecida da história oculta.
Se voltarmos ao passado, veremos que há um momento marcante na história de cada povo: é o instante em que ele entra numa nova fase de civilização, quando deixa de ter as antigas tradições e perde a antiga sabedoria — aquela que era transmitida de geração em geração por meio do sangue.
O povo, no entanto, conserva a consciência dessa perda, e isso se expressa em suas lendas.
O ponto essencial aqui é que, nos tempos antigos, havia uma clarividência nebulosa, da qual se originaram os mitos e lendas.
Essa clarividência só podia existir em sangue estreitamente aparentado, assim como a consciência desperta atual só é possível graças à mistura de sangues.
O nascimento do pensamento lógico, do intelecto, foi simultâneo ao surgimento da exogamia.
Por mais surpreendente que isso pareça, é verdade.
É um fato que será cada vez mais confirmado pela investigação externa; os primeiros passos nessa direção já foram dados.
Mas essa mistura de sangue, resultante da exogamia, também é aquilo que, ao mesmo tempo, apaga a clarividência dos tempos antigos, para que a humanidade possa evoluir para um estágio mais elevado.
E assim como a pessoa que percorreu o caminho do desenvolvimento oculto recupera a clarividência e a transmuta numa nova forma, assim também a consciência desperta atual evoluiu a partir daquela clarividência vaga e nebulosa que existiu nos tempos antigos.
Atualmente, tudo no ambiente do homem é impresso em seu sangue; por isso, o meio molda o homem interior de acordo com o mundo exterior.
No homem primitivo, era o que estava contido no corpo que se expressava mais plenamente no sangue.
Naqueles tempos, a lembrança das experiências dos antepassados era herdada e, junto com ela, tendências boas ou más.
No sangue dos descendentes podiam-se rastrear os efeitos das tendências dos antepassados.
Quando o sangue foi misturado pela exogamia, esse vínculo estreito com os ancestrais foi rompido, e o homem começou a viver sua vida pessoal.
Assim, num sangue não misturado está expressa a força da vida ancestral, e num sangue misturado está expressa a força da experiência pessoal.
Os mitos e lendas falam dessas coisas.
Eles dizem: “Aquele que tem poder sobre teu sangue, tem poder sobre ti.”
Esse poder tradicional cessou quando já não podia atuar sobre o sangue, porque a capacidade deste de responder a tal influência foi extinta pela mistura com sangue estrangeiro.
Essa afirmação é válida no sentido mais amplo: qualquer poder que deseje obter domínio sobre um homem precisa agir de tal forma que sua ação se exprima no sangue.
Se, portanto, uma força maléfica quiser influenciar um homem, ela terá de influenciar seu sangue.
Este é o significado profundo e espiritual da citação de Fausto.
Por isso o representante do princípio do mal diz: “Assina teu nome no pacto com teu sangue.
Se eu tiver teu nome escrito no teu sangue, poderei te dominar pelo que mais governa um homem; então terei te atraído para mim.”
Pois quem domina o sangue, domina o próprio homem, o ego do homem.
Vimos que sangue unido a sangue, no caso de espécies animais apenas remotamente aparentadas, mata; sangue unido a sangue, no caso de espécies mais próximas, não mata.
O organismo físico humano sobrevive quando sangue estranho entra em contato com sangue estranho, mas o poder clarividente perece sob a influência dessa mistura de sangue, ou seja, da exogamia.
O homem é constituído de tal modo que, quando sangue se mistura com sangue não muito distante na escala evolutiva, nasce o intelecto.
Por esse processo, a clarividência original, própria do homem animal inferior, foi destruída, e um novo tipo de consciência ocupou seu lugar.
Assim, no estágio superior da evolução humana, encontramos algo semelhante ao que ocorre num estágio inferior no reino animal.
Neste, sangue estranho mata sangue estranho; no reino humano, sangue estranho mata aquilo que está intimamente ligado ao sangue aparentado, isto é, a clarividência vaga e nebulosa.
Nossa consciência objetiva cotidiana é, portanto, o resultado de um processo destrutivo.
No curso da evolução, o tipo de vida mental ligado à endogamia foi destruído, mas, em seu lugar, a exogamia deu origem ao intelecto, à consciência desperta de hoje.
Mefistófeles obtém o sangue de Fausto porque deseja governar seu ego.
Assim, podemos dizer que a frase que deu tema à presente palestra foi extraída de profundezas de conhecimento, pois, de fato:
“O sangue é um fluido muito especial.”
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