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O que se evoca ao se consumir ‘Arte Ruim’?

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por Eduardo Berlim

Eu tenho uma visão muito particular sobre ‘o que é a Arte’. Arte, para mim, essa com A maiúsculo e tudo o mais, é uma obra humana que reúne técnica, emoção e transmutação que se põe à prova no ‘teste de fogo’ do tempo, passando a não mais temer a passagem dos anos, mas a se consagrar através dela. Complicado? Vou simplificar: Arte é tudo aquilo que é belo, que emociona, que foi bem-feito e que será consumido por pessoas que nasceram muito depois de seus autores falecerem.

Beethoven produziu Arte, assim como Da Vinci, Homero e Filippo Brunelleschi, mas é bem provável que Beatles, Tarantino, Hayao Miyazaki e Ryuichi Sakamoto também. Talvez Eichiro Oda, Kentaro Miura, Yoshiro Togashi, Stan Lee e Alan Moore também estejam produzindo Arte – consigo ver certa imortalidade em suas obras. Mas o meu, o seu, o nosso, pagodão de churrasco no domingo certamente não irá carregar essa característica. Bem, talvez um ou outro como um ‘Velocidade da Luz’ do Grupo Revelação possa ter uma chance, caso não haja uma competição direta com Zeca Pagodinho, Beth Carvalho e Cartola.

O ponto é: existe Arte nas coisas que são feitas para se tornar imortais e existe entretenimento feito para ser consumido agora. Não me entenda mal: eu sou grande fã do entretenimento e, nesse ponto, sou uma pessoa como outra qualquer, dotada de humores que podem me fazer querer ouvir Pixote, Ana Castela, Imagine Dragons, Coldplay e até mesmo uma musiquinha Lo-Fi de meditação que sequer tem um nome. Podemos amar mais o entretenimento do que a Arte, mas precisamos saber reconhecer a diferença entre os dois.

Aliás, eu diria que mais que reconhecer a diferença, precisamos consumir Arte independentemente do nosso gosto particular. Os clássicos sempre serão os clássicos, os nomes eternos são mais velhos que você quando você chegou e estarão aqui quando ninguém mais lembrar do teu nome na hora de montar a árvore genealógica da família. Temos a honra de ver obras que talvez se tornem Arte, é verdade, mas até isso devemos aprender a separar bem. Será que Hironobu Sakaguchi é tocado pela Arte ao criar os jogos do Final Fantasy? E o Nolan foi tocado ao roteirizar e dirigir Interestelar? E em Tenet? Havia inspiração divina por ali? Ah! Quem vai negar que foi o próprio Senhor que tocou Spielberg em ‘A Lista de Schindler’ e todos (absolutamente todos!) os responsáveis pela trilogia de ‘O Senhor dos Anéis’?

Quando se consome Arte, a boa Arte, começamos a enxergar no novo essas pequenas características de imortalidade. Podemos arriscar dizer que um Bernard Cornwell ainda será uma espécie de Monteiro Lobato inglês brincando com toda a folk lore de sua própria nação ou que um Makoto Fujimura seja um misto de Mark Rothko e T.S. Eliot pela mais pura percepção desses traços.

Tudo o que consumimos em termo de Arte e entretenimento alimenta nosso imaginário com os ‘bloquinhos de formação’ do nosso arcabouço – e isso deveria te causar certa preocupação. Eu sempre gosto de retomar o questionamento que diz: ‘o que é que você evoca de dentro para ressoar com a evocação externa que tu faz?’. Há um limiar do mal consumo e isso não é diferente de ingerir comida ruim – é sempre bom pedir um Mc ou um Pizza Hut, mas se alimentamos nossa alma somente com fast art acabamos com as veias da alma bastante entupidas. Consuma Arte da mesma forma que você precisa consumir comida saudável; a má ingestão da alma não te matará no plano físico, mas vai tirar todas as cores de lá.


Eduardo Berlim é músico, tarólogo e estudante de hermetismo com vasta curiosidade. Tem apetite por uma série de correntes diferentes de magia e se considera um eterno principiante. Assumidamente fanboy dos projetos da Daemon e das matérias do Morte Súbita inc.

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