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Alquimia

O Espírito da Matéria

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por Thiago Tamosauskas

Quando lancei a tradução do Aurea Catena Homeri, não falei muito a respeito. Embora seja um dos mais importantes livro de alquimia e estivesse esgotado por anos acessível apenas à preços exorbitantes, sei que ele tem um público bem restrito. Este é um livro mais avançado, recomendado apenas para quem quer ir bem fundo na toca do coelho da alquimia. É também um livro difícil de ler, e não posso deixar de falar, possui algumas informações caducadas pela ciência moderna como todo o capitulo sobre geração espontânea. Tudo isso pode confundir e até afastar os novos adeptos.  Mas há muita coisa boa lá também. Esse pequeno ensaio é uma tentativa de trazer ao leitor um destilado dos principais ensinamentos do livro e se for o caso, convidá-lo a leitura da obra completa.

O nome ‘Aurea Catena Homeri‘ significa Corrente de Ouro de Homero e é uma referência a essa passagem da Ilíada. Quem fala é Zeus, o texto é de Homero, a tradução é de Haroldo de Campos e voz na minha cabeça do Cid Moreira:

“Vereis quão grande é meu poder. Caso queirais fazer a prova, suspendei do céu uma corrente de ouro. Pendurados dela tentai, deuses e deusas juntos, das alturas puxar Zeus soberano para a terra. Mesmo com todo o esforço, não conseguireis fazê-lo, enquanto, se eu quiser, a todos puxarei e ainda, de arrasto, levo a terra e o mar talásseo. Num píncaro do Olimpo prendendo a cadeia áurea, farei que tudo fique à solta no ar, pênsil meteoro. Tanto excedo deuses e homens.

Essa corrente na renascença se tornou um símbolo da corrente que conecta a natureza a sua origem, algo parecido com a Árvore da Vida. Uma ligação que suspensa no Olimpo poderia por um puxão de Zeus, o deus maior, erguer toda criação, mas que mesmo que todos os outros deuses se juntassem jamais poderia trazer o céu para baixo.

Natureza Invisível e Anima Mundi

Os alquimistas são um meio termos entre os filósofos e os cientistas. Como os segundos não querem nunca contradizer os fatos e o que pode ser observado. Como os primeiros sabem que a natureza não se esgota naquilo que se pode tocar ou enxergar. Isso não é uma contradição pois tudo o que podemos tocar e enxergar serve de ligação com o que quer que esteja lá em cima. Há, acima, mas também dentro de tudo, uma dimensão invisível, viva, que age como fundamento e motor do mundo material e a descrição empírica do universo pode ser a base de uma cosmologia simbólica sem se confundir com ela. No centro dessa concepção está o o livro chama de de Anima Mundi, ou Alma do Mundo, uma força universal, um sopro divino que anima o cosmos assim como o a alma anima o corpo humano. Anima Mundi é a primeira emanação da divindade, chamado de fogo invisível dá aos alquimistas o apelido de filósofos do fogo.

Esse fogo, não é exatamente o fogo comum, mas uma energia primordial que age com inteligência própria, instintiva e precisa, como se estivesse impregnado da vontade de uma ordem maior. Há quem diga que só os iniciados são capazes de perceber essa presença escondida na matéria.  Segundo essa tradição, o Espírito Universal, ao se manifestar, passa por três formas reconhecíveis: primeiro como algo invisível e frio, depois como luz visível porém ainda fria, e enfim como fogo quente, ardente. Essas fases mais que metáforas são estágios reais em um processo de densificação ou materialização dessa energia divina.

Cosmologia Atual e o Éter Perdido

Em termos modernos pode ser enxergada apontando nossos instrumentos de medição para as partes mais antigas do universo que podemos observar. Quanto mais nos distanciamos mais o universo está repleto do plasma original o formou o universo e que ainda pode ser detectado da radiação de fundo. Mesmo quando se torna matéria, essa essência mantêm sua origem sagrada. A matéria, é uma variação ou fixação desta mesma Anima Mundi. Então Anima Mundo é a própria matéria e a energia em sua essência , algo  muito longe do “fantasma na máquina” cartesiano.  E quando uso a palavra energia nesse artigo, entenda bem, não estou usando no sentido do esoterismo leve “new age”, mas no sentido alquímico mesmo; “a capacidade de causar mudança” presente na química, na física e na biologia que está por assim dizer condensado na matéria. Antes de Einstein talvez isso fosse algo muito estranho de dizer, mas depois de E=mc^2 os cientistas admitem que a matéria nada mais é do que uma coagulação dessa energia (Fogo).

Aqui farei uma pequena digressão… O modelo atual do universo mais aceito é o Modelo Cosmológico Padrão no qual  o universo é composto de 73% é Energia Escura, 23% Matéria Escura e o resto dividido entre a matéria e energia que podemos observar. Importante dizer que tanto a Matéria Escura como a Energia Escura são  comprovadas apenas indiretamente, mas nunca de fato identificadas. 

O modelo atual é fruto da descoberta de Einstein de que a luz não precisa de um meio para viajar torando a ideia de Éter dispensável. A história é longa e não cabe nesse texto, mas tanto todos os grandes nomes da eletrodinâmica (Maxwell, Lorentz, etc..), consideraram sua existência quando criaram suas teorias. Eles de fato usaram o Éter para fazer s contas baterem.. mas é exatamente isso que o físicos de hoje fazem com sua energia e matéria escura quando perceberam que o modelo baseado na gravidade não é o suficiente para explicar o que observamos no espaço hoje. 

O modelo atual acredita que a gravidade é a força principal que rege o universo, e que o plasma é eletricamente neutro no espaço. É um modelo que diz que a eletricidade no espaço não é significativa. O problema é que esse modelo começou a ser construído muito antes de irmos ao espaço de fato. Hoje sabemos que não é assim. Toda sonda, satélite ou nave enviados ao espaço e trazidos de volta retornam eletricamente carregados. Fatos como as chamadas Lentes gravitacionais e as anomalias de rotação da galáxia são usadas como evidência da energia e matéria escuras. Mas esses mesmos fenômenos podem ser explicados de outras formas. Por isso é bem possível que nós próximos séculos o atual Modelo Cosmológico Padrão dê lugar ao Modelo Cosmológico do Plasma. Esse modelo é eletrodinâmico ao contrário do atual que é eletrostático e parte da observação de que a força eletromagnética é 10⁴⁰ vezes mais forte que a gravidade.

A Corrente de Energia e Matéria

Assim, considerando o Modelo do Plasma, podemos dizer que 95% do universo é feito de plasma e apenas 5% matéria. Há correntes elétricas intergaláticas moldando tudo o que conseguimos enxergar com nossos super-telescópios. Esse plasma, o chamado primeiro estado da matéria existe de três modos: Modo Escuro, como o chamado Vento Solar, que suporta uma alta voltagem, mas tem baixa amperagem, Modo Brilhante com baixa voltagem mas amperagem maior (que o faz brilhar) presente na corona solar e em lâmpadas de neon e Modo de Arco com baixa voltagem e amperagem maior ainda e que forma por exemplo fenômenos como relâmpagos e erupções solares. O plasma, existe então em um modo invisível, um modo brilhante e um modo ardente: Éter, Luz e Fogo, ouso dizer.

Todos os outros elementos clássicos (terra, água, ar ) têm origem nesse fogo primordial. Novamente isso não contradiz o que conhecemos hoje sobre as leis da natureza. O plasma universalmente espalhado ao ser eletricamente carregado  (pela Anima Mundi ou pelas Correntes de Birkeland, você decide) vai do modo escuro para o modo brilhante, e “Faça-se a luz”. Em seguida esse mesmo plasma arde em um fogo original. Conforme voltamos desse limite observável do universo de volta para a Terra, contatamos esse plasma (fogo) esfriar formando imensas nuvens de gases leves (ar).  Estes gases em seguida se concentram pela gravidade e formam corpos celestes com pressão necessária para surgirem os primeiros líquidos (água), primeiro como hélio e hidrogênio líquido dentro de gigantes gasosos. A água que conhecemos só foi possível depois que o oxigênio foi sintetizado no núcleo das estrelas. E assim também surgiram depois os sólidos, primeiro como metais e depois como rochas e cristais nas crostas planetárias. Com o tempo, a Anima Mundi se divide em variações menos sutis: diferentes densidades de ar, água e terra.

Estas quatro fases, fogo, ar, água e terra, ainda estão ao nosso redor. Como vimos, se sairmos da Terra e olharmos para fora, 99% da matéria visível ainda está no estado de plasma, o que nos lembra um dos mais célebres apelidos dos alquimistas: “Os Filósofos do Fogo”. Como tudo na natureza, esse fogo nunca se perde de fato mas dá lugar a outros estados da matéria que podemos entender ser formado de duas fases, dois agrupamentos. O primeiro grupo, mais ativo, surge na primeira fase (Fogo-Ar) quando temos o reinado do plasma e gases leves, encabeçado pelo hidrogênio (H), o primeiro elemento físico a surgir da condensação do plasma original em estrelas fulgurantes e nuvens cósmicas.  O segundo grupo, mais passivo, (Água-Terra) surge quando essas mesmas estrelas dão origem a gases mais pesados como nitrogênio (N) e oxigênio (O), sintetizados dentro dessas mesmas estrelas e que deram origem a líquidos como amônia e água e a toda que por sua vez possibilitaram a própria vida na terra. Então, miuto mais do que seremos poeira estelar como disse Carl Sagan, somos o próprio fogo primordial em forma de carne.

O Alquimista precisa de matérias destes dois grupos em sua obra, por assim dizer juntando elementos antigos (fogo e ar) com os passivos (água e terra). É justamente unindo um próton de (H) doado por um ácido e a Amônia (NH3) extraído do orvalho e da chuva (H2O) de tempestades que os alquimistas produzem a Aqua Regis, o radical amônio. Vale dizer que até hoje a química ainda não conseguiu isolar o radical amônio em uma espécie neutra e estável, mas sabemos que em certos aspectos ele pode se comportar de maneira muito semelhante a um metal alcalino. É na prática, uma molécula que se comporta como um átomo.

Anima Mundi está portanto coagulada em nós e em toda matéria. Os antigos davam a isso o nome de Nitro, o princípio volátil ligado a esse fogo condensado em tudo que está ao nosso redor. Mas a Anima também pode ser trazida ao seus estados anteriores pela ação do calor e da umidade da criação, fogo e água, que permitem assim  todas as mutações do mundo. Ainda hoje na química industrial fogo e agua são tão onipresentes e fundamentais como na natureza. Desde os processos mais rudimentares até os mais avançados, as soluções e operações térmicas e soluções constituem a forma maia prática de facilitar o contato entre reagentes. O próprio surgimento dos seres vivos e sua evolução no planeta Terra só foi possível por meio de reações químicas em soluções aquosas na temperatura correta.

A substância original, a matéria-prima da qual todas as coisas se derivam, está em tudo, mas é mais acessível em certas formas. Está mais livre na água do que na terra, mais no ar do que na água e mais no fogo do que no ar. Em todas essas manifestações apresenta forças de desejo e aversão, amor e ódio, atração e repulsão,  essas tensões geram todo tipo de fenômenos naturais desde raios até terremotos. Macrocosmicamente estas duas forças se manifestam principalmente por meio da gravidade e da força eletromagnética, mas esse desejo e aversão toma muitas outras formas também.

A Via Ética da Via do Alquimista

Quando os Alquimistas dizem que a Prima Matéria tem três princípios estão dizendo que essa Anima Mundi, cujo o fogo e a luz são a forma mais antigas que podemos conceber se transforma constantemente em outras três formas: a volátil (gases, vapores), a fixa (sólidos) e a intermediário (líquida). Mas esses elementos não são absolutos. Eles também se transformam entre si, como se houvesse uma maleabilidade essencial entre eles e seguindo a os designíos de desejo e aversão da natureza. Conhecer os gostos da natureza, ou as leis da física como diriam os modernos é a chave para todas as transmutações.

Como não queremos apenas imitar nossa mãe, mas sim a conhecer de verdade e  ganhar intimidade com ela, é essencial a transposição da observação externa para a prática interna. Isso é essencial para os alquimistas, caso contrário seriamos como animais amestrados que repetem o exemplo do mestre sem entender o que de fato esta acontecendo.  Para isso, o operador precisava observar a natureza e a realidade com atenção extrema e, mais importante, traduzir essas observações externas em uma compreensão interior.

Em outras palavras, assim como o cientistas materialista o alquimista aceita a inflexibilidade patente das leis universais. Nenhum dos dois tentará barganhar com ela, pois sabem que isso seria como tentar puxar a corrente de ouro do começo do texto, nem os deus poderiam. O primeiro, entretanto apenas aceita essa inflexibilidade enquanto o segundo dá o salto de fé da intencionalidade. O modelo científico materialista descartará essa hipótese como desnecessária e o modelo alquímico buscará o que mas pode extrai dela.

Voltando a metáfora da corrente, o materialista apenas examinaria os elos ao seu alcance enquanto o religioso olharia para o céu até onde a vista alcança imaginando a divindade na outra ponta. Já os filósofos naturais, os filhos do fogo, olhariam para cima e para baixo em busca das semelhanças à que o lendário Hermes Trismegisto se referiu para então tentar subir pela corrente.

Para isso o alquimista segue um roteiro parecido com a criação do universo. Primeiro é preciso a energia e o poder do Fogo para direcionar o movimento em uma forma adequada, isso é chamado de Semente Universal. Essa semente deve dar origem a uma forma volátil como ar, que chamamos de Semente Astral, em outras palavras, uma ideia mais coagulada do que a mera intenção e nesse estado já passa a influenciar e ser influenciado pela atmosfera ao seu redor. Por fim essa Semente Astral dá origem a algum mestruum (meio adequado) e finalmente á um sal que lhe dá concretude manifesta. Muita coisa pode dar errado nesse caminho. Mas quando Ar, Água e Terra estão alinhados com um mesmo propósito do Espírito (fogo) é gerado o Germe Universal  (Gur), a semente primordial da vida e da geração de todas as coisas naturais, a condensação mais perfeita possível do Espírito Universal. Isso signifíca que para cada tipo de tintura há um tipo ideal de enxofre, mercúrio e sal e para cada ação há uma intenção, meio e forma ideal.

A diferença fundamental entre Alquimia e Ciência é que para o cientista a matéria deu origem a consciência enquanto que para o alquimista é a consciência que deu origem a matéria. Isso faz da alquimia menos científica? Com certeza, mas essa diferença marca um noutro modo de conhecer e um outro modo de viver. O alquimista, ao reconhecer intencionalidade na natureza, deixa de vê-la como um objeto a ser explorado, e passa a enxergá-la mas uma inteligência a ser escutada. Se isso faz do alquimista um religioso ele é um religioso que bebe e anda sobre seu próprio deus. Isso implica uma ética do cuidado, da escuta, da colaboração com os ritmos e os desejos do mundo, e não do utilitarismo e da dominação técnica. Então porque Anima Mundi deu origem à coisas como os já citados terremotos, mas também à doenças e diferentes níveis de crueldade entre os seres vivos? Ótima pergunta.

A presença do sofrimento, da morte e da violência no seio da criação pode a principio parecer uma falha ou um defeito da Anima Mundi, Mas a Madona Negra, é mais complexa do que supõe nossos limites congnitivos e tudo, absolutamente tudo, é uma expressão dessa complexidade. O fogo que aquece também pode consumir; a água que purifica também pode afogar. O mesmo princípio que gera também corrói. Isso não invalida sua sacralidade e na verdade revela que o sagrado não é apenas luz, mas também sombra. Mas essa é apenas uma das respostas possíveis, talvez não seja nem mesmo a mais adequada. Talvez, quem sabe, Anima Mundi esteja fazendo o seu melhor e precise sim de nossa ajuda. Quem sabe? Os alquimistas vão continuar pesquisando a respeito.

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