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PSICO

O diabo e sua avó

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EDWARD F. EDINGER
Trecho de “The Mysterium Lecrures”

No capítulo 31 [de Mysterium coniunctionis], Jung afirma que Mani e sua mãe viúva “formam um par que talvez se possa comparar com o diabo e sua avó”. Trata-se de uma referência ao conto de fadas de mesmo nome dos irmãos Grimm. É um conto bastante relevante do ponto de vista psicológico, e farei aqui um resumo dele.

Três soldados desertaram do exército devido ao baixo salário e se esconderam em um campo de trigo. Eles esperavam que o exército se deslocasse daquele local, mas isso não aconteceu, e eles corriam o sério risco de serem capturados — o que resultaria em enforcamento. É nesse momento que o diabo aparece e se oferece para salvá-los, com a condição de que, após sete anos, eles se tornariam sua propriedade. Os soldados concordam, e o diabo lhes dá, então, um chicote que, quando usado, produzia ouro — de modo que, a partir de então, eles poderiam viver com conforto. O diabo também lhes disse que teriam uma chance de escapar se conseguissem resolver um enigma que lhes seria dado ao fim dos sete anos.

Durante esse período, as coisas vão bem, mas, ao final, eles começam a se preocupar. Um dos homens vai até uma velha senhora que vive na floresta. Agora, não importa como ele chegou até ela — digamos apenas que a sorte o levou até ali. Acontece que aquela velha senhora era a avó do diabo — e ela era bastante amigável. Ela então mostra o caminho até o porão de sua casa e diz a ele: “Esconda-se aí embaixo, onde você poderá escutar tudo o que for dito aqui em cima. Apenas fique sentado e não se mexa. Quando o dragão (o filho da senhora) vier, eu lhe perguntarei qual é o enigma. Ele contará tudo para mim, e então você saberá a resposta.”

O enigma era o seguinte: “Vou levá-lo para o inferno, e lá você fará uma refeição. Se for capaz de descobrir que tipo de carne assada será servida nessa refeição, estará livre.” A resposta correta era que a carne seria de uma espécie de cação. A seguir viria a pergunta: “E o que lhe servirá de colher?”, e a resposta seria: “A costela de uma baleia será a nossa colher de prata.” “E você sabe o que servirá de taça para o seu vinho?”, e a resposta correta é: “O casco de um velho cavalo será a taça do nosso vinho.”

Um conto de fadas muito interessante. O conhecimento das profundezas do inconsciente proporcionado por alguns contos de fadas — quando temos olhos para enxergá-los — é simplesmente surpreendente. Este começa com três homens desertando do exército. Acredito que podemos afirmar que, psicologicamente, o exército pode simbolizar o funcionamento paterno altamente estruturado, uniforme, coletivo e masculino. Os desertores abandonam o seu estado de subordinação àquela condição psicológica, e, ao fazê-lo, expõem-se a um risco mortal. Isso porque essa atitude implica uma rebelião pessoal que constela o diabo — o masculino rebelde e renegado —, e agora eles devem lidar com isso se quiserem sobreviver. Se não aceitarem a oferta do diabo, certamente serão descobertos. Então, convém que aceitem o trato, mesmo que ele seja arriscado.

Podemos entender que o chicote que produz ouro quando usado é o poder do ego em ação, que já prenuncia ligeiramente o verdadeiro poder do Self de fazer ouro. Esse é o chicote — uma imagem poderosa.

O contato com a avó do diabo sugere a possibilidade de estabelecer uma relação pessoal com o inconsciente e, portanto, estar como que abaixo do diabo. O soldado se encontra, então, abaixo do piso, no porão, escutando o que se diz no andar de cima.

É então que surge a importante passagem do enigma — e, com ele, uma significativa imagem simbólica que expressa um dos aspectos do encontro do ego com o inconsciente. O encontro com o inconsciente sempre submete o ego a um enigma. O exemplo clássico é o enigma da esfinge, que representa uma questão de vida ou morte, porque, se a pergunta feita não for respondida, é a própria vida que será sacrificada. Enquanto que, na história de Édipo pelo menos, se o enigma for resolvido, é a esfinge que será sacrificada. Assim, o tema do enigma é um teste para a consciência que, na verdade, estabelece se o ego tem ou não potencial para avançar para o próximo estágio de desenvolvimento.

Eu entendo o enigma de nossa história como sendo uma referência ao banquete messiânico, quando a carne de Beemot e Leviatã — simbolizando a psique primordial primitiva — será comida pelos eleitos. O cação é uma espécie de tubarão primitivo. Na disciplina de anatomia comparada, somos obrigados a estudar a anatomia de toda uma série de animais da sequência evolutiva, para compreender de que maneira as estruturas anatômicas se modificam com a evolução dos animais. O cação é a primeira espécie desse estudo — é o mais primitivo. Então, a carne de cação assada corresponde a servir a carne de Beemot e Leviatã durante o banquete messiânico. Além disso, há também uma referência a Leviatã — a baleia — na costela que será usada como colher. O casco de cavalo usado como taça de vinho sugere um espécime mais desenvolvido na escala evolutiva, embora aqui ainda seja um símbolo teriomórfico.

Pois bem, tomando este conto como um todo, vejo nele a imagética correspondente à assimilação da psique primordial. À medida que essa assimilação é obtida, livramo-nos da ameaça de sermos possuídos pelos conteúdos demoníacos autônomos, porque eles já terão sido incluídos na consciência maior do todo.

Para traduzir essa história para nossa época, e relacioná-la aos temas desta palestra, podemos afirmar que chegou o momento de a mente moderna assimilar o mito maniqueu. Não podemos mais considerar Mani a encarnação do mal, e não podemos mais usar os termos “maniqueísta” ou “neo-maniqueísta” de maneira negativa, como ainda fazem todos os pensadores religiosos ortodoxos. Se formos capazes de assimilar e digerir a psique primordial, seremos finalmente libertados da possessão pelo diabo.

Como devem saber, Jung frequentemente foi taxado de maniqueu — e isso não é um elogio. Mas trata-se de um equívoco: ele não é maniqueu. Como já vimos, a característica principal de todos os sistemas maniqueus é a de serem um eterno dualismo. E de forma alguma Jung é maniqueu, já que propõe a união dos opostos, a coniunctio. A única ideia que pode aproximar Jung do maniqueísmo é a de que ele leva bastante a sério a existência do mal enquanto entidade substancial.

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