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Bruxaria e Paganismo

Na ausência de fundamento, justifique com um mistério.

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por Adriana Balestro

A Wicca, enquanto religião neopagã contemporânea surgida formalmente em meados do século XX pelas mãos de Gerald Gardner, apresenta uma notável contradição entre sua retórica de profundidade espiritual e sua efetiva estrutura teológica e ritualística. No entanto, é comum que religiões novas apresentem contradições que são ajustadas e assentadas no decorrer do seu desenvolvimento.

Apesar de sua roupagem iniciática e esotérica, há quem argumente que a Wicca se baseia mais na construção de identidades pessoais, frequentemente moldadas por necessidades psicológicas, sociais e identitárias da contemporaneidade do que numa tradição espiritual realmente profunda ou ancestral. Anteriormente se autoproclamava uma religião “antiga” revivida, mas ao esbarrar em contradições históricas que comprometem suas alegações de profundidade espiritual, preferiu abrir mão do pedigree histórico e se amparar na legitimidade moderna. Como Ronald Hutton evidencia em The Triumph of the Moon (1999), não há evidência direta de que a Wicca, como a conhecemos, tenha qualquer continuidade legítima com práticas religiosas pré-cristãs da Europa. Hutton escreve: “Wicca é uma religião do século XX, não da Era do Ferro”, uma religião moderna, construída a partir de fragmentos simbólicos, referências folclóricas e reformulações ocultistas do século XIX. Isso é um problema? Ao meu ver, não. Mas ao questionar o próprio fundador, é necessário reescrever o passado para justificar o presente.

Isso não seria necessariamente um problema, muitas religiões modernas são sincréticas ou reconstruídas. No entanto, o que se critica aqui é o modo como grande parte da Wicca performa uma profundidade arquetípica ou espiritual que raramente é sustentada em prática, resultando, não poucas vezes, numa superficialidade ritualística e doutrinária. Seus rituais, muitas vezes padronizados e derivados de fontes como a Golden Dawn ou da maçonaria, como mostrado por Philip Heselton em Wiccan Roots (2000), são repetidos sem a compreensão plena de seus significados simbólicos ou contextos históricos. E aí temos uma outra questão: quando os ritos iniciáticos são questionados por não iniciados da Wicca, muitas vezes não são sobre a compreensão dos adeptos sobre a própria religião, mas sobre o completo desconhecimento das origens simbólicas dos ritos originais que deram origens aos ritos wiccanianos. Compreende-se a praia, mas desconhecem o oceano.

Deusa e o Deus, por exemplo, figuras centrais da cosmologia wiccana, são invocados sem uma clara definição teológica: são arquetípicos? São literais? São metáforas? O discurso varia, muitas vezes, conforme a conveniência emocional do praticante, do coven e não por um amadurecimento metafísico da doutrina.

Além disso, a ênfase exagerada em títulos, graus e autoidentificações, “sacerdote”, “sacerdotisa”, “alto sacerdote”, “guardião de tradições”, frequentemente revela uma estrutura mais voltada ao reforço egóico do praticante do que a uma autêntica dissolução do ego, tão central em tradições espirituais profundas como o sufismo, o zen-budismo ou as escolas místicas. Como já sugeriu Aidan Kelly, ele mesmo uma figura controversa dentro da Wicca, em Inventing Witchcraft (2007), “muito do que passa como prática espiritual na Wicca é pouco mais que psicodrama voltado à autoafirmação.”

A falta de aprofundamento filosófico ou metafísico também se evidencia no modo como muitos praticantes abordam o conceito de “Lei Tríplice”, uma espécie de lei cármica que supostamente retorna qualquer ação com três vezes sua intensidade e mesmo após o processo iniciático, a justificativa é tão rasa que permite aos seus recém-iniciados interpretarem a bel prazer ou uma visão mistérica tão superficial quando um pires.

Essa visão, além de pouco articulada com qualquer escola tradicional de ética, parece funcionar mais como um mecanismo de controle moral, doutrinador, patriarcal fantasiado de feminino sagrado, quase infantilizante do que como um sistema ético refinado. Como Sabina Magliocco aponta em Witching Culture (2004), muitos wiccanos adotam crenças por afinidade emocional ou estética, e não por reflexão espiritual ou comprometimento com uma cosmovisão realmente exigente.

Por fim, vale refletir sobre o culto à estética e ao simbolismo externo dentro da Wicca moderna, com seus altares decorados, roupas ritualísticas, nomes mágicos e ostentação de instrumentos cerimoniais, como uma encenação espiritual que preenche lacunas de identidade mais do que desperta um caminho de transformação interior.

Em muitas vertentes, especialmente as mais “ecumênicas” ou derivadas da Wicca eclética americana, o foco parece estar menos na espiritualidade enquanto disciplina e mais na espiritualidade como performance. Nesse sentido, a Wicca muitas vezes serve como um espelho para o ego contemporâneo, desejoso de sentido, mas relutante em se submeter a qualquer tradição mais exigente ou profunda.

Por fim, afirmo em primeira pessoa, que a pouca espiritualidade contida na Wicca é derivada de tradições anteriores a ela, ordens realmente dignas de tais aprofundamentos. E infelizmente, o que resta aos praticantes contemporâneos, é buscar caminhos que permitam uma nova construção que fundamente a espiritualidade mistérios além da pirotecnia cênica vazia de sagrado e riquíssima e vaidade.

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