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Trecho retirado do livro “Lvx Aeterna” de Lilith Ashtart
“O que o homem superior procura está em si mesmo; o que o homem pequeno procura está nos outros”.
– Confúcio
O Luciferianismo é uma filosofia essencialmente prática e, como tal, é possível (e indispensável) que seja aplicada e vivida em cada momento de nosso cotidiano. Ao contrário da grande maioria, seu cerne não está em adorações externas ou na exigência da vivência de textos sagrados que são repletos de dogmas e morais que desconsideram a singularidade individual. Ser um Luciferiano significa desenvolver a consciência, compreensão e transmutação de si mesmo, conquistar a liberdade de vivenciar a sua própria essência e ser capaz de antecipar as consequências de seus próprios atos, se tornando o único responsável pelo sucesso ou fracasso de sua própria jornada, assim como o senhor do seu redor.
Durante a história de sua espécie, o ser humano foi sendo moldado cada vez mais conforme os interesses de sua época, internalizando características extrínsecas ao seu self e naturalizando, por conseguinte, o afastamento e a negação de sua real condição primeva. Os pares de opostos típicos do Reino em que vivemos foram sendo classificados como bons ou ruins, certos ou errados, desejáveis ou indesejáveis, ditando toda uma série de comportamentos, pensamentos e vontades que devem ser comuns a todos os indivíduos, definidos como necessários e corretos. Ao estabelecer metas inatingíveis por serem contrárias à natureza humana, junto instalou-se o sentimento de culpa e inferioridade, destronando de vez a percepção e legitimidade do deus que habita em cada um de nós.
Neste processo, toda a humanidade sofreu enormes prejuízos que carrega até hoje consigo. Somos os herdeiros diretos de toda esta desconstrução do eu. Já nascemos sendo escravos de uma sociedade que nos impõe seus costumes, leis e morais, e convivemos a maior parte de nosso tempo rodeados por pessoas que sequer enxergam tal condição. Quão poucos serão aqueles que despertarão deste torpor! Quão poucos ousarão mergulhar em si mesmos e ouvirão seus questionamentos a respeito de toda a sorte de imposições que sejam conflitantes com a sua mais pura essência! E menor ainda será o número daqueles que não fugirão assustados de sua nova condição, devido às responsabilidades e desafios que ela representa. Outros chegarão a despertar, mas se inebriarão com falsas ilusões, vícios e aprisionamentos construídos por si mesmos, devido a não compreensão desta nova condição divina.
Como, então, é possível conciliar esta realidade externa com nosso eu interior e, ao mesmo tempo, utilizá-la para nosso próprio desenvolvimento, sem deixarmos de ser nós mesmos? Como não cair diante dos véus negativos de Malkuth, que nos convidam tão prazerosamente a desfrutá-los? A base filosófica do Luciferianismo nos traz muitas respostas a estes questionamentos, não de forma pronta ou imposta, mas nos conduzindo a compreender as situações, nos tornando críticos e capazes de elaborar mecanismos que ajam a nosso favor.
Como dito inicialmente, não há um “manual” de como se tornar um Luciferiano, o que seria totalmente hipócrita (embora o que mais há hoje em dia são ordens ditas “luciferianas” que oferecem mestres e fórmulas prontas), mas apresentarei alguns pontos facilmente observáveis em nosso dia-a-dia e que constituem os empecilhos mais comuns para a nossa evolução pessoal. A intenção da apresentação de tais pontos é tão somente a de fomentar autorreflexão no leitor. Foram tópicos escolhidos propositalmente, baseados em experiências empíricas, ao perceber que são recorrentes em diversas fases e acontecimentos que se manifestam em nossa vida, em especial quando já supomos ter a consciência e domínio destes. Ademais, este é um dos motivos pelos quais nos desguardamos: a ilusão de os termos sob controle e com isto cessar a sua observância em nossas ações e pensamentos. Uma das maiores belezas do Luciferianismo reside justamente neste aspecto, a constante lapidação de si mesmo, e consequente sabedoria advinda da ousadia de ser responsável pela construção de sua própria realidade, competência inerente de um verdadeiro deus!
O primeiro e fundamental ponto a ser observado, sem o qual é impossível abordar qualquer outro, é a busca do autoconhecimento. Esta é a meta primordial do Luciferiano, pois é apenas mergulhando dentro de si mesmo, em suas sombras e em sua luz, que pode ser iniciada a análise do que lhe foi apresentado até então. Uma meta que parece simples e pontual, mas que demandará toda nossa existência para ser relativamente conquistada. A aceitação de nossa sombra é um de nossos maiores desafios nesta compreensão, pois desconstruções de padrões rígidos e crenças são particularmente dolorosos, contudo, imprescindíveis. Permanecer no conhecido, habitual e estável, mesmo que sejam aspectos que tragam sofrimento, é ainda menos temeroso do que enfrentar o desconhecido, o incerto e o até então inaceitável. A constante negação destes nossos aspectos sombrios e caóticos, amordaçados frouxamente por todas as regras ditadas a nós durante nossa construção como seres sociais, é fonte de frustrações, conflitos e adoecimento, que serão libertados de forma tempestuosa futuramente, de maneira inconsciente e negativa, acarretando prisões ainda maiores para o self. Devemos nos buscar e amar o que encontrarmos, em especial a nossa escuridão, pois é ela quem permite o nascimento de nossa luz. Não há nenhuma outra verdade além de quem realmente somos, nenhuma Vontade soberana além da nossa, e nenhum julgamento mais imparcial do que observar nossas conquistas e méritos em vida.
Um ponto significativo a ser investigado em nossas atitudes e nas situações em que nos encontramos, por raramente ser reconhecido e aceito por quem o apresenta, é a condição de vítima. O vitimismo é um mecanismo de defesa construído pelo ego que não aceita a sua responsabilidade pela condição negativa em que se encontra, buscando a manutenção de sua integridade. Tal responsabilidade passa a ser transferida para pessoas ou situações: aos pais dominadores, à condição social, às doenças e infortúnios, à falta de tempo e dinheiro, a traições e assim por diante. A todos, menos a si mesmo. A gravidade desta máscara de fuga que o ego se utiliza é a incapacidade de o indivíduo reconhecer quais são os pontos cruciais a serem trabalhados em si mesmo, impossibilitando sua transformação e vivência de quem se realmente é. Em todos os momentos e acontecimentos de nossa existência temos a liberdade de escolher como vamos reagir a eles, a forma como vamos autorizá-los a nos atingir. Em TODOS, sem exceção. E é justamente o uso deste livre arbítrio, tão proclamado e almejado por Lúcifer, que pode se tornar uma dádiva ou uma maldição; resultar em triunfos ou infortúnios. Quanto mais consciência desenvolvermos a respeito de nós mesmo e de nosso propósito de vida, mais facilmente aprenderemos a nos beneficiar das situações, por pior que elas possam se apresentar. Sartre resume esta ideia em sua célebre frase: “O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós”. A qualidade de compreender o que é realmente seu e o que é do outro, o que foi embutido em seu ser e o que faz parte de sua verdadeira essência, não aceitando corresponder às expectativas e imposições externas incompatíveis com as suas, é tipicamente Luciferiana, assim como ter a ciência de que cabe apenas a si, a ninguém mais, o enfrentamento para livrar-se de toda a imundície com a qual permitiu-se contaminar, de forma consciente ou não. Por pior que possa apresentar-se a situação, temos a escolha de aprender com ela, com as dificuldades, a insatisfação e os erros gerados. Ao nos vitimizarmos, distorcemos a realidade e arrumamos justificativas para permanecermos em inércia, incapazes de realizarmos uma autocrítica e encontrar uma solução, apiedando-nos de nós mesmos em lamentos intermináveis que em nada resultam de favorável.
Outra mazela instaurada de forma ardilosa dentro da psique humana é a dependência de algo externo a si. É possível observá-la naqueles que não são capazes de identificar os seus próprios potenciais e qualidades (ou que se inferiorizam) ou de reconhecer suas conquistas e orgulhar-se delas, culminando em um desmerecimento de si mesmo, em sentimento de inferioridade e incapacidade, além da crença de que apenas com o auxílio de um outro, seja este projetado como um companheiro, um mestre ou um deus, é que se tornará capaz de alcançar o que almeja. Somos doutrinados por um sistema que nutre a valorização de atributos como a servidão, a humildade e a abnegação com a finalidade de nos manter sob o seu controle, cultivando-os como uma erva daninha tão profunda em nossas mentes que torna-se uma tarefa árdua exterminá-la pela raiz. Ainda assim, é apenas com a desconstrução destes pensamentos por meio da percepção de que somos seres completos, possuidores de todos os recursos inatos necessários para a nossa autorrealização, que passamos do patamar de escravos para o de senhores, tanto de nós mesmos quanto de nosso redor. Que aqui fique claro que não estou questionando ou negando o quanto a presença de outros pode se tornar benéfica para nosso desenvolvimento, ao nos possibilitar identificarmos por meio da projeção aspectos extremamente ocultos de nossa sombra, ou pelo compartilhamento de conhecimentos, situações e experiências que aceleram nosso progresso. O que estou afirmando é que a presença deste outro deve ser compreendida apenas como um recurso auxiliar do alcance de nossos propósitos, e não como algo imprescindível e exigido para tal condição. A partir do momento que tomamos consciência destes fatores tornamo-nos mais autossuficientes, confiantes e menos suscetíveis, por retirar de nossos atos e pensamentos a força das sugestões impostas e da culpa, assim como a necessidade de aprovação externa. Despertamos para a nossa condição divina, enxergamos a grandiosidade de nossa essência. Mas ilude-se quem acha que a partir deste momento tudo se tornará mais simples e menos doloroso. Na verdade, é a partir deste momento que começarão as verdadeiras provações, pois não poderemos mais alegar ignorância das consequências de nossas escolhas. E estas provações poucas vezes se manifestarão em estrondosos acontecimentos. Seu perigo, inclusive, reside no oposto: são nas furtivas situações do cotidiano que realmente confirmamos quem realmente somos. O Luciferiano é um estrategista por natureza, sendo a impulsividade uma grande inimiga. Há diversas circunstâncias com as quais nos depararemos e, para podermos utilizá-las ao nosso favor, muitas vezes ao invés de combatê-las abertamente teremos que agir como lobos em pele de cordeiro. E não há nada de errôneo nisso, contanto que não se absorva esta persona para si mesmo, o que exigirá mais uma vez o exercício constante do autoconhecimento. Nosso foco deve estar no propósito estabelecido e não em um ego que, para demonstrar um ilusório controle e poder, impõe-se de maneira irrefletida e traz consequências desastrosas para o nosso objetivo. Dominar a si mesmo é ainda mais árduo do que o domínio das circunstâncias externas, pois sem o primeiro, o segundo torna-se impossível.
Sendo assim, é pela observação da vida cotidiana que identificamos realmente um Luciferiano, mesmo que este nunca se anuncie como um. Não na exibição de supostos conhecimentos, de ritualísticas complexas ou palavras bradadas ao vento, mas sim no domínio das situações, nos sucessos conquistados durante o percurso e o mais fundamental de todos: o despertar e vivência da sua verdadeira essência, que permitirá a consolidação da Grande obra.
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