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Satanismo e Luciferianismo

Lúcifer enviou uma solicitação de amizade: Epístola Nona aos Satanistas

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Não se preocupe, não vamos hoje reabrir o baú de teorias sobre a existência de Lúcifer. Outras pessoas competentes já fizeram isso. Mas, seja ele uma velha entidade com perfil no Orkut ou um arquétipo rodando em nosso inconsciente coletivo como uma API de ponta, isso não faz diferença na prática. Ele tem um perfil acessível pela sua psique e lhe enviou uma solicitação de amizade.

Sim, ele já mudou de plataforma algumas vezes e foi banido como um influencer problemático mais de uma vez, mas, atualmente, anda tendo cada vez mais seguidores. Aqui está a primeira armadilha. O problema é que, ao ser um seguidor de quem quer que seja, é automaticamente ir contra os ideais luciferianos. Ele não vai aceitar sua amizade se você apenas compartilhar e curtir tudo o que ele ou seus porta-vozes mandarem. Essa é a segunda armadilha.

Lúcifer não tem porta-voz. Ele não é como aquele deus desconfiado na montanha do Sinai, que precisa de um garoto de recado. Ele fala diretamente, e se você fechar algumas abas e colocar um AdBlocker, talvez possa começar a escutá-lo. Claro, é bom aprender com os mais experientes e “negligenciar os ortodoxos do passado” costuma ser um tiro no pé. Mas cuidado para não colocar um mestre, qualquer que seja, no pedestal. Escute o que está sendo ensinado e coloque na chapa quente do pensamento crítico. Talvez o rei do diadema de esmeralda tenha mandado um direct para você, e você nem viu.

O perfil dele também mudou bastante com os séculos. Acredite ou não, no início do Cristianismo, Lúcifer era quase um sinônimo de Cristo, na época em que ser cristão era algo marginal, feito nas catacumbas e mal visto pelos pais. Curioso, não? A Grande Enciclopédia Delta Larousse até nos conta que Lúcifer já foi aplicado a Cristo, numa mistura de crenças e apropriações culturais mais intricadas que o algoritmo do Google. Em Apocalipse 22:16, Cristo é a Estrela da Manhã, uma clara referência a Lúcifer, como se fossem dois personagens de uma mesma série de fantasia épica.

A associação de Lúcifer com o Cristianismo não para por aí. É claro que a igreja cristã e Lúcifer já deixaram de se seguir, embora ainda usem perfis falsos para ver o que o outro está fazendo. Isso foi há muito tempo. Algumas interpretações sugerem que “Cristo” e “Lúcifer” podem ser considerados equivalentes, dependendo da perspectiva adotada. Obviamente, não a perspectiva do papa ou do pastor do seu bairro. Considerando que “cristo” é uma palavra de origem essênia, que significa autodivinização e não cristã, abre-se aqui espaço para um debate intrigante. Esta perspectiva pode ser controversa, inclusive para muitos luciferianistas, mas é fundamental para entender as múltiplas camadas de significado que Lúcifer adquiriu ao longo dos tempos. E seja sincero, você se orgulha das suas postagens de cinco anos atrás?

A complexidade de Lúcifer se estende ainda mais quando consideramos a possibilidade de ser um arquétipo feminino. A teoria de que Lúcifer tem origens na deusa babilônica Ishtar adiciona uma camada fascinante à sua mitologia. A associação com Vênus, tanto a deidade quanto o planeta, reforça esta ideia. Esta dimensão feminina de Lúcifer é explorada em várias obras de arte e literatura, como no filme “O Último Portal”, de Roman Polanski, onde uma mulher simboliza a manifestação de Lúcifer. Por isso, em muitas tradições esotéricas, a essência de seres como Lúcifer é frequentemente considerada andrógina ou, como se diz hoje, não binária.

Esta concepção transcende as noções convencionais de gênero, sugerindo uma natureza mais universal e abrangente de Lúcifer. A perspectiva erudita sobre Lúcifer, longe de ser monolítica, oferece uma visão plural deste arquétipo. Se quiser ser ignorado por ele, é só rotulá-lo como uma entidade simplista do tipo “trabalho por comida”; se quiser tomar um block, é só categorizá-lo como um ser do mal maligno. Nenhum desses perfis falsos é digno da estrela da manhã. Em seu Dicionário Iniciático, Hervé Masson argumenta que Lúcifer, como portador da luz, é na verdade a personificação da Gnose. Ele é visto como um libertador da humanidade, quebra as correntes da ignorância e nos liberta da opressão de um mundo criado imperfeito. Masson destaca Lúcifer como uma figura central no conhecimento esotérico, um agente cósmico de sabedoria e magia.

A figura gnóstica de Lúcifer como um símbolo do mal só surgiu quando ele foi vítima de um cancelamento pelos pais da igreja. As primeiras referências a essa associação podem ser encontradas nos escritos de Santo Agostinho e São Jerônimo. No entanto, a demonização de Lúcifer como o diabo ou Satanás tornou-se mais proeminente na Idade Média, especialmente durante a era das caças às bruxas e o surgimento da demonologia. Um de seus principais haters foi Dante Alighieri, em sua obra “A Divina Comédia”, contribuindo para essa representação negativa de Lúcifer como o governante do inferno.

Essa história só foi mudar graças à John Milton e sua obra imortal “Paraíso Perdido“, onde apresentou pela primeira vez uma visão moderna de Lúcifer.

Para todos os efeitos, este livro pode ser considerado a certidão de nascimento do luciferianismo. Aqui, Lúcifer é retratado como um personagem complexo e carismático, marcado por sua rebelião contra Deus, sua inteligência e eloquência, seu orgulho e amor-próprio. Embora Milton ainda trate de uma eventual queda moral, ele não o apresenta simplesmente como um vilão, mas como um ser ambíguo que desafia a autoridade divina de maneira ousada, contribuindo para a complexidade moral da obra.

Essa ambiguidade foi explorada na literatura dos séculos seguintes, que frequentemente explorou a figura de Lúcifer como um anti-herói, com histórias que exploram suas motivações e dilemas morais, afastando-se da visão puramente demoníaca. Quando o gnosticismo voltou à moda, Lúcifer reapareceu dentro dos meios ocultistas, mas ainda de forma velada e discreta, como na revista Lúcifer, que circulou entre os membros da Teosofia, e os poemas de Aleister Crowley. Nessa época, ele foi associado ao elemento Ar, ao ponto cardeal Leste e ao naipe de Espadas do Tarot.

Foi Anton LaVey que fez “O Mil Faces” viralizar novamente. Em 1969, em sua “Introdução ao Livro de Lúcifer”, oferece uma perspectiva provocadora que nunca mais saiu do catálogo da Avon Books. Ele descreve o deus romano Lúcifer como um condutor de luz, espírito do ar e a personificação da iluminação espiritual. Hoje, LaVey está virando um verdadeiro saco de pancadas daqueles que chegaram quando todo trabalho já estava feito. Mas, quando todo mundo se preocupava com espiritualidade hippie e pensamento positivo, LaVey criticava a transformação de Lúcifer em demônio pela mitologia cristã como uma distorção perpetuada por moralismos falsos e valores fraudulentos. Ele argumenta que a liberdade verdadeira advém da dúvida, que abre caminho para a verdade. LaVey vê a figura de Lúcifer como uma ferramenta para questionar e derrubar as falsidades estabelecidas, uma fonte de emancipação mental.

Foi questão de tempo para Lúcifer ganhar os holofotes. No século XX, sua figura teve uma presença significativa na cultura popular, e aquele que foi expulso do céu (e da igreja) agora invadia as casas por filmes, séries, quadrinhos e videogames. Trocando de pele mais uma vez, ele aparecia agora na graphic novel “Sandman”, de Neil Gaiman, e sua derivação “Lucifer”, que mais tarde foi adaptada para a Netflix. Esse é o único rosto de Lúcifer? Não. Mas é o melhor que ele tem hoje? Também não.

Entre satanistas e luciferianos, Lúcifer é associado à inteligência, sabedoria e consciência, elementos que, quando combinados, representam a transformação qualitativa da consciência humana. Essa transformação é simbolizada pelo conceito de Self de Carl Jung, representando a essência mais profunda do ser humano. Lúcifer, nesta concepção, é um arquétipo que facilita a jornada de autodescoberta e iluminação.

Lúcifer representa a supraconsciência, ou seja, um estado elevado de consciência e compreensão. Essa associação reforça a ideia de Lúcifer como uma figura que transcende a dualidade moral tradicional, oferecendo uma visão mais complexa e enriquecedora da existência e da busca pelo conhecimento.

No final das contas, Lúcifer não quer seguidores, mas quer adicionar o contato daqueles que têm coragem de dizer não até para quem ama e sim até para quem odeia. Ele quer aqueles que têm horror a respostas prontas e um gosto pela metamorfose da consciência humana. Essa transformação, sempre a definir, é a essência do ‘Self’ junguiano, um mergulho profundo no ser. Lúcifer é a voz da supraconsciência, um estado elevado de entendimento. Mas é claro, há um milhão de perfis falsos por aí, muitos deles pagos, para aqueles que têm preguiça de pensar.

Para aceitar essa solicitação de amizade e saber mais sobre este influencer das sombras, confira aqui algumas referências. Comece pela clássico do nosso Imperador Ming de Chicago: a Bíblia Satânica. Considere também alguns autores nacionais como Lord Ahriman, Lilith Ashtart e as epístolas que o Rev Óbito tem enviado quando sobra um tempo.

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