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Alquimia Satanismo e Luciferianismo

Incandescência da Alma: reflexões Luciferianas acerca da Calcinatio alquímica

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Por Lilith Ashtart ©2024

A compreensão e aplicação do simbolismo alquímico, projeção do inconsciente sobre a matéria, se demonstra como um instrumento de valor imenso para um Luciferiano. Ele fornece imagens capazes de descrever o processo de transformação necessário para alcançar a individuação, ou seja, ser quem você é e tornar-se Si-mesmo.

Podemos encontrar na alquimia muitos paralelos com a filosofia Luciferiana, demonstrando o quanto a sua influência sobre esta última foi marcante, justamente por abordar conteúdos da psique que são inerentes a todo ser humano que deseja se autoconhecer e realizar o seu próprio destino. Entre tantos conceitos, os mais proeminentes são o da Opus, dos processos e operações alquímicas para obter a Pedra Filosofal, o equivalente à busca pela lapidação e revelação da própria essência no Luciferianismo que permitirá a instauração do Reinado nesta esfera.

Unido à análise Junguiana, estudaremos estes conceitos sob a ótica Luciferiana de forma a interpretar e direcionar nossos próprios processos e estágios, o que nos auxiliará a cumprir nossa Grande Obra individual.

Embora segundo a visão da psicologia o procedimento possa ser iniciado a partir de qualquer operação, os autores alquímicos costumam considerar a calcinatio como a primeira delas, a partir de onde as demais seguem. Este ensaio não tem como propósito explicar o processo químico da calcinação, mas sim se dedicar a analisar a importância da calcinatio dentro da filosofia Luciferiana.

É importante citar, contudo, a sua finalidade: extrair de um sólido todos os elementos suscetíveis à volatização. A cal viva é o exemplo mais notório e enigmático do processo, pois apesar de ser fria após a sua obtenção, ela parece guardar um fogo interno que desperta gerando calor quando é umidificada. Este simbolismo reflete exatamente um dos passos primordiais para o início da jornada de um filho da serpente: eliminar tudo aquilo que é volátil em si, as “impurezas” que lhe foram incrustadas mas que não pertence à sua pura essência, centelha da divina chama.

A calcinatio é considerada uma operação ligada diretamente com o elemento fogo. O fogo possui a propriedade de transmutar, intensificar, purificar e destruir. VonFranz afirmava que o fogo era emoção e que apenas existiria vida onde esta estivesse presente, já que era o veículo da consciência. É importante observer que este fogo se manifestará de acordo com o que for nutrido e este é outro ponto essencial para analisarmos em nosso processo: com o que estamos alimentando-o? Qual o direcionamento que estamos dando-lhe?

A dualidade do fogo permite iluminar ou queimar o seu portador. De forma análoga, as emoções podem ser dominadas ou nos dominar, infligindo as suas respectivas consequências. O fogo testa a nossa “pureza” ao nos colocar diretamente em contato com os ordálios necessários para isto. Este é um dos motivos pelos quais para alguns ele está associado à uma divindade e para outros a um tirano.

Os ordálios são essenciais em nossa jornada para esta purificação. Apenas é possível conhecer realmente quem somos quando nos deparamos com momentos de crise, frustrações e provações que nos colocam em contato direto com nossas sombras e desafiam as exigências autoritárias de nosso ego inflamado e contaminado com as premissas externas. Nossa resposta diante destas situações é o que revelará nossa verdadeira essência, pois restará apenas o que não pode mais ser purgado pelo fogo, ou seja, a condição original do indivíduo. É por isso que cordeiros não podem ser lobos, e o inverso também é verdadeiro.

Enquanto ainda estamos muito identificados com as exigências e necessidades mundanas, acabamos por buscar realizações que enalteçam e forneçam poder e prazer ao ego, esquecendo-nos e afastando-nos de nosso propósito primordial, o de vivermos quem realmente somos, independentemente das demandas e valores externos. Assim, muitas vezes, acabamos por nos entregar a afetos intensos e desejos luxuriosos que se tornariam imensamente destrutivos caso não fossem frustrados pelo fogo da calcinatio, já que nos deslumbrariam e aprisionariam na dependência emocional de instintos primais descontrolados. Mas como esta frustração pode ser algo positivo ao nos privar de prazeres?

É importante frisar que no Luciferianismo, assim como em qualquer caminho de mão esquerda, os prazeres e satisfação dos desejos não são vistos como ações pecaminosas ou a serem evitadas. A vida é para ser desfrutada em toda a sua magnitude. Contudo, para isso, é necessário se obter o controle sobre nossas decisões e ter sabedoria para escolher quando nos convém. Nos entregar apenas à satisfação de nossos impulsos, sem medir suas consequências, é tornar-se escravo dos mesmos, e isso não faz parte de nós. Temos todo o direito de possuir o que desejamos, mas não devemos ter a necessidade de possuí-lo sem conseguir renunciá-lo caso seja mais vantajoso para nós. É neste momento que o fogo purificador da calcinatio expurga o que nos contamina e envenena, diferenciando os desejos de nossa verdadeira Vontade. Ele revela através de suas chamas o que há por trás destes desejos, nos coloca em contato com nossas sombras e nos auxilia a integrá-las de modo consciente, olhando para nosso verdadeiro Eu.

Neste processo muitos sacrifícios acabam sendo exigidos, mesmo que momentaneamente. Todo sacrifício exige Amor e Vontade daquele que o faz, e isso só é possível quando se possui muito claramente o propósito a ser alcançado. É isto que proporciona a força e determinação capaz de ultrapassar o sofrimento, a decepção e o desespero inicial. Não devemos ser hipócritas de dizer que sacrificar algo que se ama ou deseja seja fácil; mas quando se tem a convicção de que isto é necessário para alcançar algo muito maior, tal compreensão liberta-nos da fraqueza humana e nos aproxima da divindade interna, que nos permitirá realmente obter o que desejarmos por nossa livre escolha e não mais por carência de algo externo. É estar no domínio de sua própria existência, revelar a imortalidade de nossa Essência.

Desta forma, a calcinatio testa nossa pureza. Muitos não suportarão estas provações e blasfemarão contra nosso Pai; outros não suportarão as consequências de suas escolhas e culparão nosso caminho por seus fracassos. A verdade, porém, é que eles jamais pertenceram a nós. Eram vermes ao invés de Serpentes. E sim: a calcinatio destrói aqueles que se aventuram por novos caminhos sem estarem dispostos a abandonar o antigo. Uma transição será necessária, aquela de quem se pensa ser e que deseja contemplar o externo, para aquele que realmente se é. Do profano para o Sagrado. Da humanidade para a divindade.

Os que se submeterem por livre vontade à esta fornalha abrasadora e suportarem seus tormentos serão recompensados. A separação da identificação com aspectos externos, assim como a independência emocional serão obtidas. Apenas a pedra lapidada e incorruptível restará: a Essência Luciferiana que sobrevive à toda provação por Amor e Vontade de seu portador.

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