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In Venenum Veritas: Transmute Chumbo em Ouro com Serpentes e Daturas

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por Tami Saturni

Olhe para cima: o mundo velho está a morrer

Se você não esteve em coma nas últimas semanas, é possível que você tenha percebido que as coisas têm estado meio dramáticas no mundo ultimamente.Os astrólogos já sabiam. Os ponteiros celestes têm anunciado marcantes transformações coletivas – a coisa da qual mudanças de era são feitas.

Primeiro, acaba de se completar, no último dia 15, a terceira e derradeira quadratura entre Júpiter e Saturno. O choque de titãs, que também ocorreu em agosto e dezembro de 2024, marca um ponto pivotal do ciclo sinódico dos dois gigantes, que resetou no grau zero de Aquário em 21 de dezembro de 2020.

Você lembra de alguma coisa interessante acontecendo em 2020? Porventura algo envolvendo ar e isolamento, temas de Aquário?

A Conjunção de Júpiter e Saturno, que ocorre a cada 20 anos, anuncia como serão as tendências coletivas envolvendo governança, economia, política e cultura.

A cada 200 anos, aproximadamente, a Conjunção muda de elemento. Até 2020, elas estavam ocorrendo nos signos de Terra, com exceção da de 1980, que foi em Libra e marcou a primeira em Ar – só que não em definitivo, visto que, em 2000, aconteceu em Touro.

A de 2020, sim, dá início a um período ininterrupto de um par de séculos de Grandes Conjunções em signos de Ar. Alguns destes temas já estão evidentes, como o aumento do trabalho à distância e o advento das assim chamadas inteligências artificiais.

A quadratura que ocorreu no último dia 15 tem uma energia semelhante à de uma Lua Quarto-Crescente: dinâmica, disruptiva e direcionadora da a trajetória que leva à culminação do ciclo, quando ocorre a oposição Júpiter-Saturno.

Se fosse só isso, já era muita coisa.

Mas tinha outra quadratura culminando também no dia 15… A de Marte-Urano.

Pensa numa coisa volátil: o Deus da Guerra (como pode a Astrologia ser tão dolorosamente literal?) em conflito com o disruptivo, revolucionário, errático, prometeano Urano. Os ânimos ficaram aquecidos, tanto em nível coletivo quanto, eu tenho certeza, pessoal.

Se você está se perguntando quando teremos um respiro, meu palpite é outubro – se você tem alguma coisa importante para fazer, sugiro esperar até lá. E se for uma coisa realmente importante, considere pedir a um astrólogo, tipo eu, que escolha o céu mais auspicioso para você.

Mas isso é outra conversa para outro dia.

E, acredite se quiser, eu não estou aqui para falar só de Astrologia.

Tempos difíceis são o cadinho em que o chumbo pessoal e coletivo são derretidos – eu estou falando da nossa sombra.

Ninguém se torna iluminado por imaginar figuras de luz, mas sim por tornar consciente a escuridão

Sabe aqueles problemas temáticos da sua vida, aquelas coisas insistentes que não importa o quanto você tente, continuam te bloqueando? Ou então aquelas coisas e pessoas que te irritam, que te causam repulsa, que você secretamente fantasia que um sniper limpe da face da Terra?

Essas são boas pistas sobre o que está na sua sombra.

O conceito de sombra parte da teoria junguiana da psique. É a parte mais escura do inconsciente, o ponto cego onde recalcamos tudo aquilo para que não conseguimos olhar.

Acontece que quando o suíço falou: “até você se tornar consciente, o inconsciente irá dirigir sua vida e você vai chamar isso de destino”, ele estava falando muito sério.

Então integrar a sombra é uma coisa bem desconfortável de se fazer, mas é uma daquelas situações em que o único caminho para fora é através.

Para magistas, é condição sine qua non para uma prática mágica potente e segura. Se você tentar fazer um feitiço para obter algo a que você secretamente resiste ou teme, na melhor das hipóteses, nada vai acontecer – e, na pior, o tiro vai sair pela culatra.

Não é à toa que os nossos ancestrais alquimistas propuseram que a Magnum Opus, o Grande Trabalho de realizar seu Propósito e seu Destino, começa pela Nigredo: a fase alquímica trevosa, em que o Corvo nos guia pela nosso Vale das Sombras pessoal para que possamos decantar, calcinar e putrefazer os bloqueios interiores.

Mergulhar nesse Nigredo não só desbloqueia sua vida, mas também te torna uma pessoa mais íntegra. Não tem iluminação nem eudaimonia se estiver faltando um pedaço de você.

Se você sente que está passando por algo como uma Noite Escura da Alma, sorria: eventualmente, fatalmente, a aurora começa a despontar, trazendo com ela as cores iridescentes da Cauda do Pavão.

Embora haja diversas abordagens ao trabalho de sombra, como psicoterapia, journaling, meditação e exercícios direcionados, hoje eu quero discutir duas estratégias menos conhecidas.

O que faz o veneno é a dose: a Via Veneficia

Nós, humanos, gostamos de classificar as coisas em termos de bom e ruim. Na Astrologia mesmo nós temos os benéficos – Júpiter e Vênus – e os maléficos – Marte e Saturno. E é claro que estes planetas estão relacionados a experiências confortáveis ou indesejáveis, mas sua natureza vai muito além do bem e do mal.

Maléficos são assim chamados por terem qualidades que não são condutivas à vida: calor ou frio e secura extremos, em contraste com os benéficos, que são amenos e úmidos.

Mas isso é relativo, eu penso. Será que, para uma pedra, Saturno é maléfico? Para uma lâmina, Marte é maléfico?

No Caminho do Veneno, podemos levar esta quebra de dicotomia bem-mal para um outro nível, experimentando-a literalmente na nossa pele.

A ideia é explorada por Daniel Schulke em seu seminal Veneficium, onde ele explora paralelos entre o veneno que se encontra na natureza e os aspectos mais sombrios da condição humana.

Mais do que um compêndio sobre toxicologia oculta, Veneficium apresenta um mapa para navegar pelos territórios sombrios da psique, onde residem as forças que rejeitamos e que, paradoxalmente, contêm as chaves para nossa totalidade.

Sua filosofia central é que o Veneno se manifesta em tudo: não só na natureza, sob a forma de ervas letais e animais peçonhentos, mas também como a nossa sombra psíquica e até a poluição ambiental catastrófica – o Caput Mortuum de uma sociedade em negação.

Um conceito que ajuda a balizar esta filosofia é o pharmakon, palavra grega que se traduz como “substância” e representa a ideia de algo que, simultaneamente, pode envenenar ou curar. É como disse nosso querido Paracelso: o que faz o veneno é a dose.

Assim, um aspecto da Via Veneficia é encarar as emoções e circunstâncias desagradáveis não necessariamente como uma punição, uma irregularidade ou um motivo para se desesperar. Mas, sim, como um possível catalisador de transmutação interna e transformação externa.

Agora, é claro que a Nigredo alquímica pode ser auxiliada pela gnose química.

Ambas as coisas são da esfera de Saturno, que não apenas dispõe sobre trevas e decomposição como também é pai de tudo aquilo que altera a consciência. Ou seja, aqui estamos trabalhando com aquela ideia de que semelhante dissolve semelhante.

Não é que estamos endossando o consumo irresponsável de enteógenos; toda Pharmakon desta categoria é “de Poder” e deve ser tratada com o mais elevado respeito. Agora, sob boas condições, com a cabeça no lugar – o tal do set e setting – é, sim, possível catalisar cura e compreensão com a ajuda dos venenos.

Mas é importante frisar que nada disso substitui o trabalho cotidiano e demais práticas de integração da sombra. Alterantes de consciência podem te ajudar a liberar bloqueios e expandir sua consciência, mostrando o que é possível, mas, quando tudo acaba e você volta para a terra, não vai ter adiantado para muita coisa se você não tiver instrumental para processar e integrar sua experiência. Para que o insight seja duradouro, ele deve brotar de um solo já preparado.

O livro dá uma ênfase especial às nightshades, que incluem o tabaco, o tomate e a batata, mas também as “flores do mal”: datura, belladonna, acônito, meimendro e mandrágora, por exemplo. Estas costumam ser empregadas medicinalmente sob forma de pomadas, tendo efeitos sedativos, relaxantes e analgésicos.

São flores muito bruxas e cheias de personalidade. Nem todas conseguem crescer no nosso clima, mas é um exercício interessante cultivar uma delas, observar como ela cresce, comungar com seu espírito de diaba do deleite. Sem contar que dá para adicionar elementos delas a trabalhos mágicos de proteção, purificação e defesa – são aliadas poderosas para magistas que trabalham com vegetais, mas manuseie com luvas.

Trabalhar assim com as flores do Jardim Envenenado nos ajuda a desenvolver um respeito todo especial pelo veneno, pois elas nos mostram que ele pode ser perfumado, protetor e curativo.

Consulte o manual de instruções: olhe para seu mapa astral

Assim como a sombra se esconde nos pontos cegos da sua psique, ela pode ser revelada pelas casas escuras da sua carta natal, ou seja: aquelas que não fazem aspecto com o Ascendente.

Isso porque o Ascendente representa você no seu mapa astral e, assim como elas estão ocultas para você, essas casas, bem como seus regentes e eventuais habitantes, fornecerão pistas tão desconfortáveis quanto libertadoras sobre o que te bloqueia, o que não te dá refresco e o que você não suporta, porque existe em você e você finge que não.

Mau Espírito, autossabotagem e inimigos ocultos: a casa 12

Na Astrologia Helenística, a casa 12 era chamada de Kakodaimon, ou seja, o Espírito maléfico, aquele, que sopra no seu ouvido que você é horrível e deveria fazer coisas contraproducentes – o contraponto sombrio do Agathosdaimon, ou Bom Espírito.

(Lembra do anjinho e do diabinho, um em cada ombro do seu personagem de desenho animado favorito? Então.)

Esta é uma casa que fala de autossabotagem, isolamento, depressão, compulsões e questões de saúde mental, perdas e inimigos ocultos. Ou seja: é a casa sombria por excelência, o ponto que todo astrólogo vai olhar para te falar sobre esse tema.

A natureza do seu signo, bem como o estado de seu regente, vai esclarecer os padrões de comportamento e crença que bloqueiam sua vida e te colocam em situações difíceis, além de prestar esclarecimentos sobre o tipo de pessoa que aperta todos os seus botões – da pior maneira possível.

Crises, morte e o oculto: a casa 8

Sua casa 8 irá falar dos assuntos que são crise na sua vida – tudo aquilo que é difícil e causa ansiedade. A casa também versa sobre morte, não apenas física, mas simbólica. Onde a sua vitalidade falha? Onde você não consegue colocar a energia que gostaria? Esta é, ainda, a casa das heranças, que podem ser malditas. Finalmente, a casa 8 fala de recursos alheios, podendo mostrar eventuais bloqueios na sua capacidade de receber do outro.

Exaustão e doenças: a casa 6

Já a 6 fala sobre os aspectos da sua lida cotidiana que te fazem se sentir numa prisão e sem opções. O que você faria se não tivesse que lavar roupa todo dia, que agonia?

Mas, principalmente, é nesta casa que o mapa fala do que você somatiza, de como o veneno psíquico vira doença física. Descubra se o seu mal é a melancolia, o nervosismo ou a ansiedade.

Aqui pode ser bom aplicar remediação astrológica para o regente da casa.

Recursos e subsistência: a casa 2

Finalmente, a 2 versa sobre os recursos que dão suporte à existência do seu corpo: dinheiro, roupa, comida, pertences pessoais. Aqui podem ser encontradas questões de merecimento, bem como sua maneira de lidar com a sua subsistência.

Dinheiro é um tema extremamente delicado em nossa sociedade, necessário para tudo e, ao mesmo tempo, mal distribuído e terrivelmente cobiçado. Trata-se de um tema carregado psiquicamente e é normal ter questões sobre dinheiro.

Além de remediação, magia planetária com o regente desta casa pode te ajudar.

Olhar para todos esses elementos em conjunto, bem como eles interagem entre si, com o Ascendente e seu regente, pode oferecer um bom panorama da sua sombra e de seus conteúdos.

E, se você quiser um segundo par de olhos, eu ofereço exatamente essa leitura da Sombra pelo mapa astral.

Conclusão: agora é o tempo dos monstros; se não pode combatê-los, junte-se a eles

Em tempos difíceis, é fácil demais perder perspectiva e entrar no clima de choro e ranger de dentes.

E está tudo bem. Isso é parte da condição humana.

Melhor ainda passar por isso com visão e a possibilidade de nos aproximarmos ainda mais de nossa essência e propósito.

O nosso Daimon pessoal, fonte inesgotável de inspiração e sentido, é nosso aliado e guia constante nessa hora.

E, para realmente chegar perto dele, para se aproximar do estado de Hieros Gamos, ou Casamento Sagrado, integrar os aspectos mais ocultos de nosso ser é essencial. Como propõe o junguiano R. A. Johnson em seu Owning Your Own Shadow, a Arte se encontra exatamente no centro da polaridade Daimon-Sombra.

Seja com a ajuda dos nossos amigos, os venenos, ou com a compreensão proporcionada pela carta natal – talvez até com os dois combinados – ou com qualquer ferramenta que te pareça adequada para as suas inclinações e necessidades, o que importa é ir sempre, um pouco por vez.

Eu vou gostar de saber como os trânsitos recentes impactaram sua vida, se você quiser me contar.

Feliz e Sombrio Solstício de Inverno!

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