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por Eduardo Berlim
Ouço constantemente críticas ao “modernismo”, este período tão estranho em que vivemos e que segue sendo nomeado como o período anterior (afinal, vivemos na chamada “era contemporânea”). Existem críticas descabidas, obviamente, mas existem aquelas que deveriam, no mínimo, nos fazer pensar a respeito das coisas. O problema é de onde ouço parte considerável dessas críticas – e, sim, estou falando do meio ocultista.
Até aqui os jovens mancebos de origens diversas poderiam tentar deduzir alguma coisa sem sucesso. O crente mancebo diria que o ocultismo “retroage às eras em que se cultuava o diabo”, mas ideias “albert-pikeanas” (ou não) sobre Lúcifer ou ideias “laveyanas” sobre Satanás são bastante recentes, historicamente falando. Já o ateu mancebo diria que o ocultismo é anticientífico ou qualquer besteira similar, sem perceber que nos meios ocultistas vemos quase o oposto: um cientificismo burro, cheio de “fés na ciência” e uma ideia de culto maluco que não cabe a uma arte que precisa assumir quando erra – ciência não é dogmática, mas o cientificismo (tão presente nas sendas esotéricas) o é.
Também existe o espiritualista mancebo que tece críticas ao ocultismo por ser “duro e rígido demais” por não ver com bons olhos as “teorias quânticas do guru da oitava dimensão que enfrenta a guerra santa dos umbrais com seus gráficos radiestésicos coloridos e cheios de unicórnios fofos”. Existe um limite entre a busca do ocultista médio e a busca do jovem místico que troca livros seculares por influenciadores de Instagram (e, sim, eu tenho dado alguma dedicação ao Instagram, mas toda semana faço questão de recomendar livros ao meu público – pelo menos tento fazer minha parte).
Com todas essas críticas bastante esquisitas tiradas de cena, o ocultista mancebo apresenta sua verdadeira reclamação contra a modernidade: vivemos tempos líquidos demais, tudo precisa ser rápido e sem profundidade, tudo é “baumantico” demais no mundo moderno e as pessoas perdem o contato com a Eternidade. Meu caro mancebo, eu não poderia concordar mais com o senhor! Mas vamos pôr os pingos nos i’s e fazer um breve exame de consciência por um minutinho? Me responda brevemente: o que te fez querer estudar magia.
Disclaimer: é claro que este texto não é para todos os ocultistas por aí – e também é claro que, se você começou com algum tipo de ataque de mancebância achando que era com você (quando não era), você deve estar incorrendo no tipo de ocultista generalista que a cada frase precisa atacar uma religião institucionalizada que estará aqui muito depois da tua breve vida (então melhore…).
Então você decidiu aprender magia… Fico feliz! Seja bem-vindo! Puxe uma cadeira e me explique o que você quer por aqui. É amor? É dinheiro? É um emprego? Que tipo de fracasso na vida material te fez correr para um caminho mágico, místico, cheio de efeitos visuais tão vistosos? É porque você busca uma gnose sobre um conhecimento oculto, proibido e que “eles não querem que vocês saibam”? Ou foi só uma briga religiosa com a família que deveria ter se resolvido na base da conversa?
E agora é o momento que você pode estar me xingando, falando que eu não conheço a tua história, a tua vida e “como as coisas são difíceis para você”. Mas você acha que o caminho da magia vai tornar isso fácil? Se você seguir apenas por um raso caminho de rituais escritos por pseudônimos latinos desconhecidos ou por ocultistas pós-crowleyanos com manuais no melhor estilo “1001 feitiços para deixar suas roupas mais brancas!”, ainda assim precisará de mais dedicação do que simplesmente resolver as pendências materiais que te trouxeram até aqui.
Está atrás de um amor? Ao invés de ficar relendo Agrippa dedique este tempo a “deixar o bumbum durinho na academia”, arrumar a barba desgrenhada, se vestir com algo que não seja um moletom e cultivar um pouco da própria autoestima. O problema é dinheiro? Entenda primeiro que nenhum trabalho neste mundo é motivo para vergonha e que (como diz meu pai) “dinheiro não aceita desaforo”; trabalhe, estude, trabalhe mais, faça o que você não quer fazer, mas que precisa ser feito e – pelo amor de Deus! – gaste menos do que você ganha. Não existem fórmulas mágicas aqui.
Mas talvez seja carreira ou um emprego, não é? Os anos lendo grimórios velhos e empoeirados podem ser facilmente substituídos por estudo e dedicação àquilo que se quer conquistar. Vivemos na era da internet (por Deus Pai!) e nunca, nunca(!), tivemos tanto conteúdo gratuito disponível. Existem vigaristas por aí? Existem. Eles sempre existiram (e vão continuar existindo, pode apostar). Aprenda a reconhecê-los e os ignore. Os livros antigos que você busca são falsificações muito mais difíceis de se perceber que o influencer do tigrinho vendendo curso de “enriqueça com as bets”.
“Ah, Edu! Mas o problema, sabe… é a minha família de pensamento retrógrado e pipipi popopo…”. Será que eu preciso mesmo explicar que um mago sem capacidade diplomática não é absolutamente nada? Se a tua família é uma questão e você não quer resolver, te faltará o querer; se você não sabe resolver, te falta o saber; se você não buscar uma solução para voltarem a ser uma família, te faltará o ousar; e se você não consegue ficar quieto enquanto tua mãe pede para “orar por você”, te falta o calar. Não adianta ficar por aí pregando contato com ancestralidade enquanto briga com os vivos. O que acha que a tua tetravó que te atende no Boveda acharia se soubesse que tu não consegues fazer as pazes com os teus pais por conta de briguinha política, religiosa ou por que você sequer arrumou a cama a semana toda?
Claro… Você pode ter vindo atrás de uma… GNOSE (favor ler com efeitos sonoros de eco e uma sensação de grandeza). Bem, neste caso temos um problema grave aqui que dá para responder com Atos 19:15: “Jesus, eu conheço, Paulo, eu sei quem é; mas vocês, quem são? “.
O conhecimento oculto, a revelação, os saberes proibidos, não estão abertos a você. Aliás, não estão abertos a qualquer um de nós. Eles não são dados aos que tem pressa, eles só podem ser dados aos pacientes, aos estudiosos, aos seres mais resilientes de toda a nossa humanidade. Quando você simplesmente decide abandonar uma tradição que veio do teu berço em prol de desbravar novos horizontes isso mostra que você não foi resiliente o suficiente para explorar com profundidade aquilo que já lhe havia sido dado.
E eu digo isso com conhecimento de causa. Ter abandonado o catolicismo da minha família (um catolicismo que foi bastante sério até a geração dos meus avós) em prol do ateísmo e depois de experimentações mágico-religiosas acabou me fazendo voltar a olhar para o catolicismo e perceber que eu não sabia absolutamente nada a respeito desta religião. Dei voltas e voltas atrás do meu próprio rabo apenas para perceber que sem a compreensão do catolicismo romano não haveria compreensão dos grimórios velhos e empoeirados que me cativaram.
Magia não é um mundo de pressa, mas um caminho lento, duro, tortuoso e cheio de problemas graves, de tentações terríveis e de mentiras profundas. Revelar o que foi ocultado certamente não será a tua missão, pois tudo o que tu poderás revelar são mentiras. Pense e perceba que os grandes ocultistas não revelaram nada; apenas acobertaram ainda mais – e é por isso que seguimos penando para descobrir os mistérios, pois quem “ousa sabê-lo, quer se calar”.
E toda vez que você revela, fracasso é a tua prova…
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