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Clarissa De Franco
Rafael Rodrigues de Souza
Javier de Bittencourt Peiro Llopartt
O caráter edificante e transformador do simbolismo do fogo
Jung (1964, p. 93) indicou que os símbolos culturais guardam “muito de sua numinosidade original ou ‘magia’”, constituindo-se em “elementos importantes de nossa estrutura mental e forças vitais na edificação da sociedade humana” (Jung, 1964, p. 93). Ao estudarmos o fogo como símbolo cultural, referimo-nos a este sentido edificador das consciências individuais e coletivas, a que Jung aborda.
Começamos com um relato de sonho:
Estou à mesa de jantar com convidados/as. Estava tudo bem, quando de repente, uma vela caiu na mesa e começou a pegar fogo. Não sabíamos como apagar, foi tudo muito rápido. A mesa foi inteiramente coberta de chamas e o curioso é que as chamas caminhavam de um lado para o outro. O fogo era bonito, não estava tão alto. Em vez de medo, senti admiração. (Relato adaptado de Anatomia da Psique, Edinger, 1990, p. 55).
O relato citado lembra uma característica do fogo: sua capacidade de gerar fascínio. Sendo uma força criadora e inspiradora, o fogo carrega uma potência ao mesmo tempo construtiva e fortemente devastadora. O fogo foi fundamental na história da civilização. Seu domínio tornou possível cozinhar, acessar locais escuros, afugentar animais, aquecer ambientes e pessoas… Representa principalmente o poder e o conhecimento. Também representa o calor da paixão, do desejo e da sexualidade, a intuição como chama que surge e pode inspirar, a fecundação e a iluminação.
O fogo também traz um aspecto destrutivo, raiva, ira, sendo o agente de grandes desastres. Fogo acima de tudo é uma energia intensa que promove criação, transmutação e purificação. Em I-Ching: o Livro das Mutações (Wilhelm, 1984) afirma-se que o fogo representa as paixões, espírito e conhecimento intuitivo. Na mitologia hindu existe o Deus Agni (Deus do fogo) que representa a chama da vida, é o mensageiro de todos os deuses.
Em muitas tradições, a chama (flama) é símbolo de purificação, de iluminação e de amor espirituais. É a imagem do espírito e da transcendência, a alma do fogo. No Budismo, a chama simboliza a sabedoria e o ato de queimar a ignorância. Por outro lado, ela carrega um significado negativo quando é associada à destruição. No seu sentido pejorativo e noturno, a chama é, como colocam Jean Chevalier e Alain Gheerbrant (2009, p. 232), o “brandão da discórdia, o sopro ardente da revolta, o tição devorador da inveja, a brasa calcinante da luxúria, o clarão mortífero da granada”.
Um mito fortemente difundido sobre o fogo está ligado a Prometeu, o titã que roubou o fogo de Zeus para entregá-lo à humanidade, tendo sido castigado severamente por Zeus que impôs a Prometeu acorrentado que seu fígado fosse diariamente devorado por uma águia de forma eterna. O fogo nesse mito está associado ao conhecimento, ao poder e à sabedoria, e, segundo Azambuja (2013), tal sabedoria cobra o preço do sofrimento:
Prometeu é apresentado como o iluminador e protetor da humanidade. Multi-sábio foi ele quem deu pensamento aos homens, pois estes faziam tudo sem razão. Todas as técnicas e artes humanas são devidas a Prometeu, o previdente. Aqui o mito revela o fundo a partir do qual brota a sabedoria humana: o sofrimento e a dor. No mito, revela-se, de modo essencial, a exigência do trabalho e a presença do sofrimento como condições de uma existência humana definida e considerada do ponto de vista do iluminismo. A sabedoria é a força capaz de fazer o homem superar os obstáculos e as adversidades. Prometeu representa, dessa forma, uma imagem primordial da condição humana cuja sabedoria é conquistada pelo trabalho e pela dor (Azambuja, 2013, p. 19).
As chamas possuem ambiguidade na sua simbologia. Elas podem representar o caos e o descontrole como também vivacidade e transformação. De qualquer maneira, as chamas são a afirmação de que seu mundo interno está preparado para transformações profundas.
O forno e a fornalha estão relacionados com o fogo como força transformadora e de renascimento. O forno é o “cadinho onde se elabora a transformação alquímica, é o seio materno onde se prepara o renascimento” (Chevalier; Gheerbrant, 2009, p. 448), análogo ao simbolismo do útero.
Nas tradições chinesas, conhecem-se exemplos do sacrifício de uma mulher, e mesmo de um casal, ao Deus do forno, a fim de favorecer a fundição do metal. Os utensílios mais importantes do alquimista eram o forno e a retorta, nos quais deveria ocorrer a transmutação da matéria. O recipiente hermético era equivalente ao ventre materno, do qual se esperava obter matéria purificada e transformada. Numa interpretação da psicologia profunda, o forno torna-se o símbolo de um processo de purificação espiritual e do encontro de si mesmo/a. O forno tem como simbolismo, portanto, o útero e a transformação. É uma afirmação da necessidade da modificação para que novas oportunidades nasçam e que o reencontro de si mesmo/a aconteça (Franco, 2024, p. 80).

Ilustração de Matthäus Merian, In: Maier, 1617, Emblema XIII[2]
Em diversos textos bíblicos, Cristo é associado ao fogo. Edinger (2006, p. 53) lembra que: “Em Lucas 12:49 (RSV) está escrito: “Vim lançar fogo na Terra; e não quero senão que ele acenda”. No Evangelho de Tomé, texto gnóstico, lemos: “Disse Jesus: aquilo que está perto de mim, está perto do fogo”
Calcinatio e a purificação
O caráter de purificação do fogo pode ser observado no relato de sonho que segue:
Vi um homenzinho embranquecido pelos anos e ele me perguntou: “O que você está vendo?” Respondi que estava maravilhado com o ferver das águas, e com os homens que se queimavam, mas continuavam vivos. E ele, então, disse: ‘Este é o lugar do exercício denominado conservação (embalsamento), pois os seres humanos que desejam alcançar a virtude vêm aqui e convertem-se em espíritos, voando do corpo. (Relato adaptado de Alquimia e ocultismo, Trimegisto, 1972 apud Franco, 2024, p. 17).
Carl Gustav Jung (2011a; 2011b; 2012a) entendeu que a psique funciona de forma similar a alguns processos alquímicos. Os/as alquimistas buscavam um valor supremo e essencial em sua tarefa de transformação dos elementos. A Pedra Filosofal simboliza o ápice desta tarefa que integra matéria e espírito, após um árduo e sagrado trabalho conhecido como opus, ou a realização das fases alquímicas em busca do elixir sagrado. Na Alquimia, tudo começa pela prima matéria, que é caótica e indiferenciada, estruturada em torno dos quatro elementos (fogo, terra, ar e água). Os processos alquímicos vão promovendo a diferenciação destes elementos até que seja possível uma integração novamente em um estado já transformado.
De forma análoga, na consciência, o processo conhecido como Prima Matéria dá origem ao ego estruturado em quatro funções: intuição, sensação, pensamento e sentimento. O processo de individuação nos leva a nos diferenciar dos outros seres e a encontrar a nossa Pedra Filosofal: a integração entre consciente e inconsciente.
Um destes processos que leva à diferenciação e transformação da consciência é calcinatio, uma operação alquímica do elemento fogo. Edinger (1990, p. 45), afirma a respeito das qualidades do fogo da calcinatio: “é um fogo purgador, embranquecedor. Atua sobre a matéria negra, a nigredo, tornando-a branca”.
O processo alquímico da calcinatio compreende o aquecimento de um sólido, retirando toda sua água e resultando em um pó fino, seco. Em nível psicológico, a calcinatio retrata um embate entre ego, sombra e self. Os desejos do inconsciente sombrio, carregados de energia e ávidos por serem satisfeitos de forma imediata, encontram no ego seu caminho de realização, em função dele querer ocupar o centro da psique. O self ou si-mesmo entra no embate, “secando” e frustrando os desejos instintivos, de forma que se possa restabelecer uma relação saudável entre consciente e inconsciente, ampliando e aprofundando a consciência do ego. A frustração gera raiva e outras reações emocionais típicas da calcinatio, que precisam ser controladas pela consciência.
Jung (2012c, p. 378) nos recorda: “não desprezes as cinzas, porque elas são o diadema do teu coração, e as cinzas das coisas que duram” Ou ainda: “A terra branca folheada é a coroa da vitória, cinza extraída da cinza” (Jung, 2012b, p. 237). Analogamente, no processo alquímico, a transformação das cinzas do fracasso na coroa da vitória equivale a equiparar as cinzas com o sal, que simboliza tanto amargor, quanto sabedoria. “Lágrimas, sofrimento e decepção são amargos, mas a sabedoria é o consolo de qualquer dor psíquica” (Jung, 2012a, p. 323).
As paixões desenfreadas representadas pelas chamas ou pelo fogo do ciúme são uma forma de provação ao ego, que pode ser purificado após a experiência da calcinatio. Em terapia, os pensamentos e memórias que trazem vergonha, culpa ou ansiedade precisam ter plena expressão. “O afeto liberado torna-se o fogo capaz de secar o complexo e purificá-lo de sua contaminação inconsciente. A necessária frustração do desejo é a principal característica do estágio de calcinatio”. (Santana, 2005, p. 31). Edinger (1990, p. 61), escreve: “Um importante componente da psicoterapia envolve a secagem de complexos inconscientes que vivem na água”.
Jung (1976) descreve o processo de transformação dos desejos promovido na calcinatio:
O fogo do desejo é combatido no bramanismo, no budismo, no tantrismo, no maniqueísmo, no cristianismo. Também tem importância em psicologia. Quando você se abandona ao desejo, seu desejo se volta para o céu ou para o inferno, você dá um objeto à anima; e esse objeto vai para o mundo, em vez de ficar no interior, seu lugar próprio… Mas se você puder dizer: “Sim, eu o desejo e tentarei obtê-lo, mas não sou obrigada a tê-lo, de decidir renunciar, eu posso”; não há chances para o animus ou para a anima. Caso contrário, você é governado pelos seus desejos, está possuído… Mas se tiver colocado o animus e a anima em uma garrafa, está livre de possessão, mesmo que sofra interiormente, porque quando seu demônio sofre, você também sofre. Mas pouco depois, você vai perceber que foi correto (engarrafá-lo). Você vai, pouco a pouco, ficar calmo e mudar. E então vai perceber que há uma pedra crescendo na garrafa… desde que o autocontrole, ou a não indulgência tenha se tornado um hábito, é uma pedra… quando essa atitude se torna um fato consumado, a pedra será um diamante (Jung, 1976, p. 239).
Quando centramos nossa vida exclusivamente a partir da consciência egóica, ignorando que existam outros aspectos da psique que também almejam participar criativamente dos processos conscientes, é típico que sintomaticamente sintamos frustrações que nos levam a processos mentais e emocionais duros e rígidos, como pedras, pois é como se tudo aquilo que fosse diferente das crenças hegemônicas do ego fossem “coisas erradas’. Diante disso, precisamos flexibilizar o ego, de forma que ele saia deste estado de aprisionamento em si, permitindo que outros padrões perceptivos e emocionais participem de sua constituição.
O fogo também está relacionado à energia da agressividade, da insatisfação e da raiva, que pode tanto ser usada de forma assertiva quanto destrutiva. A força de transmutação do fogo é também uma energia de limpeza de processos emocionais negativos e tóxicos. Caso não aconteça o aprendizado, esses processos doloridos seguirão incomodando, gerando traumas e padrões de vitimização. Por isso, a tarefa de calcinatio é muito importante: usar a energia da raiva para sair da paralisação e do vitimismo e transformar a consciência.
A imunidade que adquirimos com a calcinatio envolve resistir a desejos perturbadores a partir da consciência. Uma imagem simbólica dessa imunidade seria a pretensa invulnerabilidade ao fogo que as salamandras possuem (Santana, 2005, p. 31).

Ilustração de Matthäus Merian, In: Maier, 1617, Emblema XXXIX
“Como uma salamandra vive no fogo, uma pedra também” (Maier, 1617, p. 85, tradução nossa).
Fogo associado à morte e renascimento

Ilustração de Matthäus Merian, In: Maier, 1617, Emblema XXIV
O emblema XXIV do livro Atalanta Fugiens (Maier, 1617) vem acompanhado da frase: “um lobo devorou o rei e, sendo queimado, o devolveu à vida novamente” (p. 70). Aqui, o fogo e as chamas assumem um caráter transformador da vida e da morte. Renascimento torna-se a metáfora deste processo profundo que faz com que se morra para uma vida e se renasça para outra.
“Ele o lança fora, nas cinzas da besta para a qual ele pode retornar. Faça isso de novo e de novo, e ele se levantará da morte. E o rei ficará orgulhoso do coração do leão. Portanto, o corpo ofegante do rei é jogado para o lobo quando ele é vorazmente faminto, não a ponto de o lobo consumir totalmente e aniquilar o rei, mas que por sua própria morte, o lobo deveria restaurar a força e vida para ele. (…) Assim, o Rei devorado revive com o coração de um leão e é capaz depois de conquistar todos os animais.” (Maier, 1617, p. 71, tradução nossa).
Bachelard (1972), em A Psicanálise do Fogo, analisa o Complexo de Empédocles – um filósofo grego pré-socrático que defendia a unidade entre a vida e a morte. Sua morte é compreendida como símbolo da transfiguração no cosmos. “A morte de um pensador e a sua tarefa na Filosofia foi a de depurar o fogo vulgar do mundo. A morte como retorno à plenitude do ser, fusão com a inteligência cósmica, ápice de um mundo” (Puhl, 2004, p. 9).
O autor também analisa a lenda de Fênix, ave que renasce das cinzas após completar seu longo ciclo de vida, indicando ao se morrer e renascer diante da metáfora do fogo, instala-se uma abertura para a transcendência, uma possibilidade de recriar o mundo.
De maneira análoga, na agricultura, muitas queimadas servem para limpar a terra, preparando-a para um novo plantio. O fogo, com poder purificador, regenera e prepara para um novo nascimento. Em seu aspecto destrutivo, o fogo pode ser utilizado para justificar e produzir opressões. Maria Carneiro (2006) afirma que o fogo foi instrumento de tortura durante a inquisição como forma de purgar a sociedade de seus pecados.
A seguir, um relato de sonho condensa uma imagem violenta da qual participa o simbolismo do fogo:
Tive um sonho perturbador. Era outra época. Para tomar banho era necessário queimar livros. Eram escravas negras que faziam esse trabalho. E os jornais noticiavam o futuro. Antes de ir tomar banho li uma notícia sobre uma criança e um gato que morriam com queimaduras. Eu tomava banho em um cenário apocalíptico. Havia um incinerador para queimar livros. A atmosfera era amarelada. Uma menina negra chorava. Eu dizia para a mãe salvá-la, porque ela estava toda molhada e ficaria doente. A mãe a colocou em uma fogueira azul para secar e ela parou de chorar. A mãe dizia que agora ela estava bem e eu dizia que não, que ela morreria queimada. A menina tinha crescido, éramos amigas e eu a protegia. Queria vê-la casada com um bom homem (Relato de trabalho clínico, Franco, 2024).
Nesse relato de sonho, observa-se que a fase da calcinatio está ocorrendo a partir de dor e sacrifício. O conhecimento, representado pelos livros, é queimado para sustentar o luxo do banho quente destinado a apenas uma classe social mais abastada. A violência simbólica do sonho expressa uma força racista que espera purificar a menina negra pelo secamento do fogo.
Fogo e rituais sagrados
Após compreender o simbolismo do fogo, seu padrão em alguns sonhos e sintetizar a fase alquímica calcinatio, coletamos exemplos de como o fogo é referido em grupos e vivências terapêuticas e xamânicas, de forma a identificar os usos deste símbolo.
Encontramos o Ritual do Fogo (s. d.)[3] no website Espaço Xamã Verde, onde está escrito: “Ritual do fogo. Queimamos antigos padrões para nos abrirmos para o novo”, apontando para dois eixos: 1. “Desapego (divórcio energético, queima de karmas, queima de energias do passado)” e 2. “Desejos (iluminação dos desejos do físico, emocional, mental e espiritual)”.
Encontramos uma argumentação similar no site Xamanismo: “Cerimônia do Fogo para soltar o velho e convidar o novo” (Ritual do Fogo, 2018, n.p.)[4], ritual composto basicamente por duas etapas: um graveto ´para as coisas das quais se quer libertar e um graveto representando aquilo que as pessoas gostariam de trazer para suas vidas. A página ainda agradece ao “poder do Fogo pela purificação e renovação que ele traz” (Ritual do Fogo, 2018, n.p.)[5].
Os dois sentidos destacados referem-se a uma dualidade presente na simbologia do fogo. De um lado, o fogo queima, seca, purifica, como observamos na descrição da calcinatio. Por outro lado, o fogo representa o desejo, as paixões, aquilo que se quer fazer nascer e vibrar.
Já no site em que consta o evento Ritual de Fogo Agni Homa para a Prosperidade e Relacionamentos (Sympla, 2020)[6] encontramos uma descrição mais detalhada do Ritual de Fogo Agni Homa:
Ritual de Fogo Agni Homa – Prosperidade e Relacionamento. (…) Esse poderoso ritual de fogo consiste em oferecer ao fogo ervas, frutas, doces, cereais e essências juntamente com a lenha cada qual representando simbolicamente aspectos de nosso corpo e personalidades que gostaríamos de transformar e purificar. O fogo é um símbolo muito poderoso, porque desvela a Consciência que subjaz em todas as coisas do mundo material, com a chama que se esconde na lenha. O Puja, a mistura de ervas medicinais, doces e cereais que se oferece ao fogo, não tem unicamente o objetivo de purificar o ambiente. Junto com o Puja, a pessoa precisa queimar também seu ego; junto com o ghee, precisa oferecer ao fogo seus sentidos, suas emoções, seus pensamentos, não para destruí-los, pois o fogo não destrói, senão para purificá-los, para sutilizá-los, e torná-los mais leves. E é aí que a prática toma outra dimensão. Então, o que torna o fogo sagrado não é o ritual exterior, mas a atitude com que o fazemos. O fogo é símbolo da consciência universal (grifos nossos, n.p.).
Nesse anúncio, o fogo é tomado como sinônimo de purificação e transformação, assim como apresentamos acima (Franco, 2024; Chevalier; Gheerbrant, 2009). E tais processos são levados ao nível da transformação de consciência.
Também neste outro anúncio online Ritual do Fogo com Atmaji (Sympla, 2018)[7] o terapeuta e mestre indiano Atma Nambi promove um ritual do fogo para purificação.
Conforme já observado, Maria Luiza Carneiro (2006) lembra o quanto a lógica da purificação que o fogo traz foi utilizada na Inquisição como forma de purificar a sociedade e como tentativa de destruir o pecado.
Fogo e a arteterapia
A arteterapia é uma técnica que utiliza recursos expressivos para acessar aspectos projetivos do inconsciente dos analisandos. Diversas técnicas utilizadas em arteterapia envolvem o fogo, tais como elaboração de mandalas, pinturas, utilização de velas, derretimento de cera, dentre outras. Byington (2022) reforça a importância do uso destes recursos, pois favorecem a emersão de conteúdos, sendo estes reveladores à consciência de fenômenos psíquicos que estavam represados ou reprimidos no inconsciente. Reforça ainda o autor sobre a importância de se ter cuidado na utilização das técnicas, por estas serem capazes de evidenciar à consciência o que lhe parece perigoso, de forma que é preciso tato do analista ao abordar o material produzido.
Segundo Byington (2022, p. 5),
A elaboração simbólica verbal é propiciada pela atmosfera do Self terapêutico e pela repetição das interpretações […]. Sem técnicas expressivas para elaborar símbolos muitos fixados, a tendência a ficarmos em racionalizações interpretativas é muito grande.
Daí a importância de se ter um olhar simbólico e não literal ao conteúdo apresentado pelas produções ígneas, pois tais produções artísticas emanam também as propriedades simbólicas de transformação, de ideação e de intuição contidas no fogo. Este trabalho é feito em conjunto entre analista e analisando, de forma que tanto a perspectiva arquetípica quanto as associações do analisando contribuam para a ampliação simbólica da experiência.
Toda expressão artística é capaz de sensibilizar aspectos arquetípicos dos símbolos: “A elaboração exclusivamente verbal cria frequentemente uma ilusão de compreensão que aliena o paciente da função transcendente e da raiz arquetípica dos símbolos” (Byington, 2022, p. 5), por isso que a escolha do uso de recursos expressivos que envolvam o fogo deve partir do princípio que é necessário “Calcinar” conteúdos do inconsciente do analisando, para que no processo alquímico do solve et cogula (Jung, 2012a), o conteúdo seja reorganizado e integrado na consciência egóica em um novo conjunto harmônico e dinâmico, no qual os conteúdos outrora inconscientes adquiram um novo papel com a ampliação da consciência proporcionada pela técnica expressiva.
Sabemos que há relação dos quatro elementos alquímicos com as quatro funções da consciência sugeridas por Jung (2013), pois o pensamento, sentimento, sensação e intuição fazem correspondência à ar, água, terra e fogo, respectivamente. Alquimicamente, o pensamento é ar, pois penetra e expande (sublimatio); o sentimento é água, já que penetra (solve, solutio) e retrai; a sensação é terra, pois cristaliza (coagulatio) e também retrai; já a intuição é o fogo, que cristaliza (calcina) e expande (Edinger, 1990).
Lembramos que, relacionado à função intuição, não é o único que pode ser trabalhado na arteterapia, mas é inegável o caráter transformador relacionado ao uso de recursos expressivos relacionados a ele. Contudo, todas as funções e todos os elementos devem participar criativamente da consciência: “Trabalhar o movimento evocando as qualidades poéticas dos elementos terra, água, fogo e ar abre a possibilidade de expansão do horizonte simbólico e favorece uma multiplicidade enriquecedora de sentidos” (Almeida, 2009, p.101).
O fogo é um elemento transformador de significados de conteúdos da consciência, agindo tal e qual um símbolo (Jung, 1964), auxiliando na mudança de atitude da consciência quando compreendido os caracteres arquetípicos da situação em questão. Reuter (2023) utiliza o fogo em mandalas para auxiliar a emersão de elaborações simbólicas de clientes de arteterapia. Afirma o autor que tal técnica reforça a importância do poder simbólico e ritualístico do fogo no processo arteterapêutico:
A transformação da matéria, com o Fogo, gerou percepção de não se ter controle do resultado, proporcionando autoconfiança e motivação para deixar fluir, com sensação de liberdade. Também motivou a preencher os espaços vazios, com percepção de preenchimento do que faltava interiormente (Reuter, 2023, p. 29).
O fogo é transformador da matéria, mas agride pela sua incapacidade de não controlar os resultados por onde passa. Por outro lado, ainda segundo ao autor, isso possibilitou a fluência dos conteúdos do inconsciente para a consciência e a construção de autoconfiança de seus clientes, já que o símbolo ritualístico do fogo teria uma função de acesso à matriz simbólica da angústia do indivíduo. Pelo fato de o fogo ser, por antecedência, acessível culturalmente ao inconsciente e um facilitador da organização dos conteúdos internos, ele “se relaciona a ritos de purificação, de passagem e de renascimento, além de ser motor de regeneração que promove a sublimação da água” (Favoreto; Oliveira, 2023, p.49). Podemos inferir que, nas produções oriundas de técnicas expressivas que utilizam o fogo, além do caráter arteterapêutico, há também um caráter ritualístico, dado as questões culturais e mitológicas ultrapassam o pórtico do inconsciente pessoal, possibilidade que imagens arquetípicas emergem de forma simbólico nos processos arteterapêuticos.
O fogo e a contemporaneidade
Ao fazermos esse passeio pelo simbolismo do fogo, seja em seus aspectos arquetípicos, mitológicos, alquímicos ou arteterapêuticos, constatamos sua potência e poder de transformação, apesar de paradoxalmente ele ter marcadamente um caráter destrutivo. Relembremos, como mencionado acima, a importância arquetípica da atitude transgressora de Prometeu ao roubar o fogo de Zeus. Como destaca Jung (2013), Prometeu se entrega a um chamado do mundo interior. Aprioristicamente tal ação pode parecer psiquicamente adequada quando observada pela perspectiva hegemônica da psicologia junguiana, que procura valorizar o que vem do mundo interior em detrimento das estereotipias do mundo exterior. Contudo, como alerta o próprio Jung, esse movimento enseja uma unilateralidade psíquica, com graves consequências em termos simbólicos:
[…] Prometeu se entrega completamente à sua alma, isto é, à função da relação com o mundo interior. Por isso a alma tem também um caráter misterioso, metafísico, exatamente por causa da relação com o inconsciente. Prometeu lhe empresta a importância absoluta de senhora e guia, de maneira tão irrestrita como Epimeteu se entrega ao mundo. Sacrifica o individual à alma, à relação com o inconsciente, como geradora das imagens e significados eternos, perdendo assim seu meio-termo, pois lhe foge a contrapartida da persona, da relação com o objeto exterior. Com esta entrega à sua alma, Prometeu descamba para fora de qualquer conexão com o mundo ambiente e perde, então, a necessária correção que advém da realidade externa (Jung, 2013, p. 179).
Como consequência à empreitada interna que Prometeu fez para readquirir o fogo, enantiodromicamente houve consequências no mundo exterior, pois Epimeteu, que nesta narrativa mítica representa o mundo exterior em termos arquetípicos, ignorou os avisos e alertas do irmão com relação à eventuais presentes que chegassem até ele. Epimeteu ficou então seduzido pela detentora de todos os dons, a Pandora, que foi enviada a ele para desposar-lhe, e após tal feita, por curiosidade, ela abriria uma jarra também presenteada à Epimeteu pelos deuses, permitindo que as mazelas que ali estavam contidas viessem à tona e invadissem a humanidade, que até então vivia de maneira indiferenciada, isto é, num isto de bom e mal, sem saber muito bem o que isso significa (Rasche, 2017). Em termos simbólicos, isso representa uma consciência que ainda está no processo de fazimento, em participation mystique com a divindade, e não diferenciada dela.
Se por um lado Prometeu quis libertar a humanidade do desígnio dos deuses, isto é, tirá-la da condição de uma consciência indiferenciada, por outro lado, com sua ousada ação de roubar o fogo, acabou outorgando a esta um dos problemas da ampliação da consciência, que é a coparticipação da divindade. O fogo também é luz, a contraparte das trevas eternas que permite a circunscrição das imagens por contrariedade, por contraste, por relação, por aproximação, por distanciamento e outras, todas circunscrições estas que só são permitidas pelas diversas nuances imagéticas construídas a partir da complexa combinação entre luz e sombra, entre o claro e o escuro, entre a consciência e o inconsciente. Como destaca Neumann (2008), é regular nos mitos que demonstram o nascimento simbólico da consciência o envolvimento de ideias relacionadas ao fogo e à luz. Não é diferente com a tradição judaico-cristã: “Deus disse: ‘Haja luz’, e houve luz. Deus viu que a luz era boa, e Deus separou a luz e as trevas” (Bíblia, Gn, 1, 3-4).
Ao estabelecer esta distinção entre claro e escuro, o fogo, que também é um recurso de iluminação, proporciona acesso ao conhecimento, à cognição, ao logos, atributo que outrora era exclusivamente divino, como explica Jung: “[…] qualquer contraste pertence a Deus e por isso o homem deve tomá-lo sobre si; tão logo o faça, Deus se apossará dele, juntamente com as suas antinomias. O homem é, então, invadido pelo conflito divino” (Jung, 2012d, p. 72).
A partir desta graça divina, eis também a desgraça: a humanidade passa a ser coparticipante da divindade, herdando a capacidade de diferenciação a partir dos contrastes e de construção de conhecimento pelo livre arbítrio, como simbolizado e exemplificado novamente pela tradição judaico-cristã: “Mas Deus sabe que, no dia em que dele comerdes [o fruto do conhecimento], vossos olhos se abrirão e vós sereis como deuses, versados no bem e no mal” (Bíblia, Gn, 3, 5).
Esse abrir dos olhos é estar sensível à luz flamejante do conhecimento que autoriza a humanidade assumir caracteres que outrora eram exclusivamente divinos. Isso significa uma consciência diferenciada, que agora pode acessar o claro epimeteico e o escuro prometeico. Apesar de não sabermos literalmente o momento em que o fogo foi dominado pela humanidade, não é absurdo pensar que dominá-lo, em certa medida, é também articular e ampliar o conhecimento, e deixar que suas propriedades façam as operações alquímicas atinentes aos seus princípios. Porém, num passeio imagético simples, perceberemos que o fogo que ainda não era dominado pela humanidade era fruto do acaso da natureza, essencialmente originado por um raio com força suficiente para atingir o solo, e que, encontrando condições para isto, gerou uma fagulha que se tornou uma queimada natural. Mas esse mesmo fogo natural que é gerado por um raio, que também é luz, que também ilumina, está intrinsicamente relacionado a uma nuvem, potencialmente chuvosa. Isso significa que o mesmo fogo que em condições naturais ilumina e potencialmente queima, é “contido” por uma nuvem que vira chuva, de forma que o processo alquímico que, segundo Edinger (1990), sucede a calcinatio seja expreso por meio da chuva, que é solutio. Em sua propriedade básica a solutio “transforma um sólido num líquido” (Edinger, 1990, p. 67), ou seja, aquilo que foi calcificado pelo fogo, passa por uma nova umidificação, a fim de dar a possibilidade do elemento – matéria para a alquimia e psíquico para a psicologia junguiana – assumir outra forma.
O processo de fazimento de consciência enseja em partes a experiência do paradoxo e do equilíbrio dinâmico, tal como o amanhecer e o anoitecer ou a sístole e diástole, que alternadamente criam a tensão necessária para que a vida aconteça e a consciência emerja. Logo, o mesmo fogo que calcina, precisa ter seu produto solvido pela água, no permanente processo de solve et coagula, que metaforiza na matéria a dissolução e reconstrução de conteúdos da psique no caminhar do processo de ampliação e diferenciação da consciência (Jung, 2012a).
É também pelo domínio do fogo que a humanidade estabeleceu uma nova relação com a comida, com a forja, com o vidro, com a indústria e com a transformação. O fogo está nos fogos de artifícios, nas velas de bolos de aniversário e nas velas utilizadas em diversos rituais religiosos. O fogo de Prometeu continua aceso nas chaminés das refinarias de petróleo, no interior dos automóveis movidos por motor à combustão, nas armas de fogo e nos explosivos. Ele também moveu os motores das locomotivas à vapor para permitir que a Terra fosse amplamente explorada pelos humanos sobre os trilhos, trilhos estes que também conduziram trens com milhares de judeus aos campos de concentração para que muitos deles tivessem seus corpos cremados após sucessivos sofrimentos. Este mesmo fogo queimou viva as “bruxas”, ou mulheres que ousavam romper com o status quo de uma sociedade conservadora, e queimou indígenas por simples “entretenimento” de jovens assassinos e inconsequentes[8]. Dominar o fogo é também ter uma sensação de controle e liberdade; um dos monumentos mais icônicos dos EUA é a Estátua da Liberdade, que empunha diuturnamente uma tocha, representando os ideais pretensamente libertários deste país. Além disso,
Até nos dias atuais Prometeu representa o espírito do progresso e da compreensão entre os povos; a cada quatro anos, ele torna a ser lembrado quando se acende a tocha carregada pelos atletas durante as Olimpíadas (Rasche, 2017, p. 68).
Todos esses fenômenos e até mesmo uma fantasiosa ideia de liberdade que permeia a simbólica do fogo, assim como a sua capacidade de iluminar, originou o histórico período chamado de Iluminismo, que marcou nossa época recente ao sugerir mudanças significativas no papel das instituições na sociedade, no papel da religião e, especialmente, no papel da ciência. Contudo, pensemos que a vida é fruto de um choque tensional, e que o fogo só pode ser entregue à humanidade porque houve um paradoxo arquetípico entre algo que se entregou à alma, na imagem de Prometeu, e outro algo que se entregou à consciência coletiva, na imagem de Epimeteu (Jung, 2013). Tal fenômeno arquetípico trouxe à tona um paradoxo, mas também permitiu uma nova relação com a iluminação, até mesmo a possibilidade de esta ser tomada de forma unilateral.
Assim como o aparelho visual humano é incapaz de enxergar na escuridão absoluta, o mesmo acontece quando há uma claridade absoluta, pois ambas cegam e impossibilitam a tensão originária entre os contrários, que é a fonte da vida e da criatividade. Tudo aquilo que foi iluminado pelo fogo prometeico avançou para uma consciência deveras “iluminada”, com incapacidade de relativizar, de contrastar, de refletir, de voltar-se para trás, para o lado, para cima ou para baixo. “Iluminadamente” essa consciência coletiva epimeteica “esqueceu” que só pode acontecer por causa da alma, do interior, do escuro; mas agora, por causa de seu ímpeto “iluminador” passou a queimar, corroer a destruir, a esquentar demasiadamente com seu excesso de luz.
Ao que indica, o ano de 2024 talvez seja o mais quente na história do planeta Terra[9] sem perspectiva de que seja diferente nos próximos anos. Paralelamente, no mesmo ano, o Brasil bateu recorde de focos de incêndio[10], predominantemente criminosos[11]. Para além do que foi constatado pelo poder público sobre a origem criminosa dos incêndios, por princípio simbólico, como mencionamos acima, Gaia parece respeitar os paradoxos, oferecendo-nos fogo somente quando ela tem condição de contê-lo, isto é, Gaia não se “queima” aleatoriamente. A tensão de elétrons geradora de raios está numa nuvem, assim como a chuva precipitada por esta mesma nuvem gera a água que é capaz de abafar o fogo, solvendo aquilo que foi calcinado por ele.
Esses eventos climáticos não parecem ser aleatórios quando confrontados com a realidade psíquica. Se considerarmos que a consciência coletiva está unilateralizada num ideal de iluminismo, supostamente libertário, igual à do país da estátua, que sob certos aspectos identificou-se com a perspectiva epimeteica extrovertida e – tentativamente – apagou a verdadeira fonte do fogo, que vem de dentro, do inconsciente, constataremos que o fogo literal que avança pelo solo, destruindo biomas, ceifando a vida de animais e de pessoas, e que agride o equilíbrio dinâmico de Gaia, é o mesmo fogo simbólico que invade o sujeito via o burnout, que quer “queimar” (burn) algo na psique, que foi originado e solidificado pelo “conhecimento”, que causa cegueira exatamente pelo excesso de luz:
[…] a concepção tecnoeconômica predominante privilegia o cálculo como modo de conhecimento das realidades humanas (taxa de crescimento, PIB, pesquisas de opinião, etc.), ao passo que o sofrimento e a alegria, a infelicidade e a felicidade, o amor e o ódio são incalculáveis. Assim, o que nos cega não é apenas a ignorância, mas também o conhecimento (Morin, 2021, p. 35).
Tal fenômeno parece ser sintoma de uma consciência que apesar de ter sido “presenteada” com a coparticipação da divindade acabou por se identificar com ela, pensando ser a própria divindade, como nos ensina Edinger ao explicar o fenômeno psíquico da inflação na psique individual:
Uso o termo ‘inflação’ para descrever a atitude e o estado que acompanham a identificação do ego ao Si-mesmo. Trata-se de um estági no qual algo pequeno (o ego) atribui a si qualidades de algo mais amplo (o Si-mesmo) e, portanto, está além das próprias medidas (Edinger, 2020, p. 23).
Desta forma, precisamos pensar o burnout não apenas pela perspectiva da patologia no sujeito, mas como um sintoma coletivo de uma consciência unilateralizada na fantasia de poder e controle construída a partir de um conhecimento com “poderes divinos”, mas que é reduzido a uma das quatro funções da consciência, em geral pensamento ou sensação, que contrapõem exatamente a calcinatio do fogo gerada via função intuição, e a solutio da água, gerada via função sentimento (Edinger, 1990). Em outras palavras, a mesma queimada presente nas matas e florestas é a queimada presentificada no sujeito, experimentada na forma de burnout:
[…] o burnout, corriqueiramente limitado a uma categoria de patologia, com uma série de causas e sintomas relacionados, pode ser, na verdade, uma expressão do imaginário, um símbolo que expressa o sofrimento de uma sociedade doente e não apenas o esgotamento emocional de determinados indivíduos (Torres; Balestrini; Souza, 2023, p. 13-14).
O fogo sugere que não deve ser negligenciado em seus atributos simbólicos e, quando conclamando simbolicamente, devemos deixá-lo a operar as necessárias transformações na consciência, a despeito das consequências que isso pode causar.
Considerações Finais
Conforme observamos, o fogo é um simbolismo com presença em vivências que têm como objetivo a transformação da consciência. Símbolo do desejo, da ira, das paixões, do conhecimento, da purificação, da destruição e da transformação, o fogo torna-se um elemento com alta capacidade de transmutar a matéria e os processos psíquicos. Como um símbolo cultural poderoso, o fogo constitui-se como “força vital na edificação da sociedade humana” (Jung, 1964, p. 93),
Sendo portador das duas pontas da significação central da narrativa judaico-cristã: pecado (desejo) e salvação (purificação), o fogo torna-se um instrumento de cura para os próprios males que representa.
Conforme indicam Edinger (1990) e Jung (1976), o fogo tem efeito purificador e envolve o embate do ser humano com seus desejos. A transformação de consciência presente nesse simbolismo é viva, plástica, dinâmica e adentra os processos terapêuticos mais variados.
Em calcinatio, leva-nos a queimar as frustrações e os padrões emocionais rígidos ou obsessivos, como os vícios e a autopiedade, libertando a psique para novas experiências emocionais, sendo estas oriundas da solutio, que criativamente forma um par de opostos com a calcinatio para que outras possibilidades de vida emerjam. Sendo estas possibilidades reconhecidas pela consciência nas expressões artísticas ou nos fenômenos coletivos, seremos capazes de identificar quais são os aspectos arquetípicos e simbólicos contidos no fenômeno.
Como pudemos observar, este elemento tem sido objeto de análise por parte de estudiosos/as, mestres/as e terapeutas de abordagens científicas e espirituais variadas. A potência que o fogo condensa é arquetipicamente transformadora das consciências individuais e coletivas.
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NOTAS
[1] Este artigo foi originalmente publicado na Revista Hermes nº 29 – 2024. www.revistahermes.org.
[2] Atalanta Fugiens é uma obra escrita pelo médico, alquimista e músico Michael Maier, composto por 50 discursos filosóficos, 50 gravuras de Matthäus Merian e 50 cânones musicais. A temática do trabalho é alquímica e inspirada no mito grego de Atalanta. Trata-se de um livro de exercícios espirituais que proporciona ao alquimista uma experiência holística.
[3]Disponível em: www.espacoxamaverde.com.br/ritual-do-fogo. Acesso em jun. 2023.
[4]Disponível em: https://www.xamanismo.com.br/ritual-do-fogo/. Acesso em 1 jun. 2023.
[5]Disponível em: https://www.xamanismo.com.br/ritual-do-fogo/. Acesso em 1 jun. 2023.
[6]Disponível em: https://www.sympla.com.br/evento/ritual-de-fogo-agni-homa-para-a-prosperidade-e-relacionamentos/731189. Acesso em 1 jun. 2023.
[7] Disponível em: https://www.sympla.com.br/evento/ritual-do-fogo-com-atmaji/408489. Acesso em 1 jun. 2023.
[8] Cf. UOL. 19 de abril: Como indígena foi queimado vivo e virou símbolo de resistência. Disponível em: https://www.uol.com.br/ecoa/ultimas-noticias/2023/04/19/19-de-abril-como-indigena-foi-queimado-vivo-e-virou-simbolo-de-resistencia.htm. Acesso em: 26/09/2024.
[9] Cf. CNN Brasil (2024). 2024 pode ser ano mais quente já registrado no planeta, dizem cientistas. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/2024-pode-ser-ano-mais-quente-ja-registrado-no-planeta-dizem-cientistas/. Acesso em: 25/09/2024.
[10] Cf. Jovem Pan (2024). Recorde: Brasil registra 200 mil focos de incêndio em 2024. Disponível em: https://jovempan.com.br/noticias/sustentabilidade/recorde-brasil-registra-200-mil-focos-de-incendio-em-2024.html. Acesso em: 25/09/2024.
[11] Cf. InfoMoney (2024). Monitoramento mostra que 99% dos incêndios no Brasil têm origem em ação humana. Disponível em: https://www.infomoney.com.br/politica/monitoramento-mostra-que-99-dos-incendios-no-brasil-tem-origem-em-acao-humana/. Acesso em: 26/09/2024.
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