Este texto já foi lambido por 2122 almas.
Por Robson Belli
Os círculos esotéricos modernos tratam o Ritual Menor do Pentagrama (RMP) como se fosse o café da manhã: “se não fizer, o dia não começa”. Esse zelo, porém, não resiste a uma olhada séria nas fontes. A prática mágica existe há pelo menos cinco milênios; o RMP, há pouco mais de 130 anos. Se magos babilônicos, medievais e renascentistas trabalharam muito bem sem banir coisa alguma, talvez a obrigação seja mais moda do que necessidade.
A genealogia recente dos banimentos
A Golden Dawn, fundada em 1888, precisava de um currículo interno coeso. Uniu Cabala hermetizada, simbolismo cristão e toques de magia renascentista. Nasceu daí o RMP: um exercício de concentração, purificação e proteção, ótimo para quem viveu a febre neoespiritualista vitoriana e temia “larvas astrais” como quem teme vírus hoje.
Thelema herdou o pacote sem questionar; trocou alguns nomes, manteve a liturgia. Resultado: em poucos anos, o rito virou kit de primeiros-socorros obrigatório em escolas ocultistas ocidentais.
Como se fazia magia antes da Golden Dawn
Abramos os grimórios clássicos:
- Heptameron, Lemegeton, Grimorium Verum – nenhum manda “banir” o recinto.
- Ferramentas consagradas – espada, bastão e pentáculo funcionam como credenciais de autoridade, não como espanadores etéricos.
- Círculo mágico – limite jurídico-místico: os espíritos entram sob contrato, não há sujeira a remover.
- Nomes divinos – o magista invoca o Tetragrammaton e congêneres para legitimar o comando; pura hierarquia, zero paranoia.
Em suma: o foco era autoridade e pacto, não faxina energética.
O problema de transformar procedimentos em dogma
- Dependência psicológica – Se você crê estar rodeado de forças hostis 24/7, vira refém do spray de pentagramas.
- Deslocamento de responsabilidade – O poder passa do mago para um protocolo fixo; esquece-se que a proteção verdadeira vem da adesão a um Nome Maior e do preparo moral.
- Ruído histórico – Repetir práticas vitorianas como se fossem universais apaga séculos de magia pré-moderna muito bem-sucedida.
Salvaguardas autênticas do magista grimorial
| Pilar | Como funciona | Por que basta |
| Consagração do espaço | Água lustral, incenso, sinais sagrados | Define “território sagrado” sem a angústia de limpeza compulsiva |
| Instrumentos consagrados | Espada, varinha, selo, lamparina | Funcionam como mandado de autoridade diante da entidade |
| Nomes divinos | Tetragrammaton, Adonai, El, Elohim | São cláusulas contratuais invioláveis pelas inteligências evocadas |
| Postura de comando | Voz firme, oração de licença, leitura do “chamado” | A confiança do operador condiciona a obediência do espírito |
| Poder da Palavra | Invocação, vocalização ou comando direto | A palavra do magista deve mudar o curso do rio, seja invocando o nome, seja vocalizando o RMP. |
Nenhum desses passos implica “expulsar” algo antes de invocar. O espírito responde porque reconhece na voz do mago a voz do Nome que o sustenta.
Praticar o RMP não faz mal—se você deseja praticar vá em frente! é uma ginástica mental elegante. Mas dai! Querer obrigar todo e qualquer magista a fazê-lo, contudo, é anacronismo. A tradição grimorial mostra que:
- Proteção real nasce de autoridade espiritual, não de abluções constantes.
- Magia eficaz exige contrato claro, não exorcismo prévio.
- História é testemunha de que banimentos modernos são ferramentas opcionais, não pré-requisitos.
Se o pentagrama lhe dá paz de espírito, use-o. Caso contrário, siga os antigos: trace o círculo, empunhe sua espada, invoque o Nome e aja com a dignidade de quem, há milênios, conversa com potências sem precisar varrer o salão primeiro.
Alimente sua alma com mais:

Conheça as vantagens de assinar a Morte Súbita inc.
Faça parte do problema
Recursos Avançados
+ Área Restrita + Eventos Online.
R$37,00 por mês



