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Satanismo e Luciferianismo

Como libertar anjos caídos

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por Daemon Bael

“Não faça mal a criancinhas.” 
–  9º Regras Satânica, Anton LaVey

Acuse alguém do crime mais hediondo e você terá um inimigo condenado antes mesmo de que tenha tempo de abrir a boca para se defender. É assim que o supersticioso e o fanático operam não com lógica, mas com histeria. O Satanismo, ao longo dos séculos, foi alvo de uma das calúnias mais ridículas e persistentes da história: a acusação de sacrifício infantil. Ora, essa alegação é tão absurda que qualquer um com um pingo de inteligência deveria rir antes mesmo de se dar ao trabalho de refutá-la. Mas a estupidez humana, essa sim, não conhece limites, e então é necessário esclarecer o óbvio: crianças são seres sagrados.

O que essas criaturas nos transmitem é algo raro: autenticidade. Num mundo onde a maioria se curva ao altar do conformismo, sacrificando sua individualidade em troca da aceitação de um rebanho amorfo, esses seres permanecem intactos, incorruptos. Uma criança é a mais pura expressão do ego humano ela nasce sem culpa, sem repressão, sem as correntes da moralidade imposta. Ela não se nega o prazer, não se autoflagela com culpa, não finge ser o que não é. Ri quando está feliz, chora quando está triste, grita quando quer algo, e não sente necessidade de inventar desculpas para suas emoções. Ela é uma criatura vital, honesta e instintiva.

São diamantes brutos que podem ser lapidados, mas que, em geral, são soterrados por toneladas de carvão com o passar dos anos. Desde a infância, somos forçados a nos encolher dentro de moldes pré-fabricados, domesticados como feras que precisam ser tornadas inofensivas para a segurança do rebanho. Aos poucos, o impulso selvagem é esmagado sob o peso da aprovação alheia, e a criança aprende que certas partes dela são “erradas”, indignas de aceitação. Mas nada que é reprimido desaparece—apenas afunda nas profundezas do inconsciente, onde cresce como uma fera enjaulada, contorcendo-se nas sombras.

A Sombra, conceito que Jung identificou tão bem, não é um acidente. Ela nasce quando expulsamos anjos dos céus. Ela se forma quando o menino que chora é ridicularizado por sua sensibilidade ou quando a menina que grita é castigada por sua ousadia. Com o tempo, essa domesticação se intensifica. Professores e amigos nos ensinam que ambição excessiva pode soar arrogante, que confiança demais parece presunção. Adolescentes olham uns para os outros tentando se encaixar. Tornamo-nos hábeis em simular um comportamento socialmente adequado, abafando cada vez mais nosso lado selvagem. Mas a criança ainda está lá. Não apenas a sonhadora, brincalhona e encantadora, mas também a que grita, chora e coloca fogo no tapete da sala só pelo prazer de ver algo queimar.

É bonito dizer que dentro de todo adulto há uma criança… mas por que ela está presa? Dentro de todo ser humano há um anjo caído. Por mais que tentemos encobrir nossa Sombra, há momentos em que ela irrompe, deixando escapar sinais reveladores. Isso ocorre em todas as manifestações de hipocrisia—tanto no moralista que é pego consumindo pornografia quanto no libertário que tem seus rompantes de autoritarismo. A forma mais comum de lidar com isso é pela projeção, o mecanismo de defesa favorito de Jeová. Quando encontramos alguém que tem os mesmos defeitos que nós, temos a oportunidade perfeita de destilar nosso ódio contra nós mesmos sem ter que arcar com as consequências. Se a pessoa não tiver nenhum tipo de escape, essa hipocrisia virá à tona por meio de explosões emocionais, provocadas pelo mais leve comentário ou inconveniente. Quando alguém disser: “Estava fora de mim”, é o anjo caído dando graças por ter tido essa chance de sair um pouquinho.

E por mais que façamos o trabalho sujo de enjaular esses anjos caídos no mais secreto fundo de nossas almas, eles não deixam de nos fascinar—e, justamente por serem reprimidos, são pintados com as tintas mais feias que pudermos encontrar. Estão presentes em nossas fantasias mais secretas, mas também sob os holofotes da condenação que tanto nos atrai. Séries sobre serial killers, documentários sobre cultos macabros, vilões carismáticos nas telas do cinema—queremos sentir a transgressão, mesmo que disfarçada de tribunal moral.

O pior desses casos é o da política, pois a projeção distorcida da natureza de nossos anjos caídos recai sobre líderes carismáticos que canalizam nosso ódio reprimido—têm coragem de dizer o que todos pensam, gritam verdades proibidas e validam nossos impulsos.

A solução que o Satanismo propõe não é a repressão, nem a entrega cega aos impulsos. Indulgência no lugar da abstinência, mas não compulsão! O verdadeiro satanista não finge que o anjo caído dentro de si não existe, e também não idolatra imagens distorcidas dele nos espelhos da religião ou da ideologia. Ele o encara nos olhos, reconhece seus desejos e percebe que nunca foi algo separado de si.

Três formas de libertar seu anjo caído

  1. Perceba seus sussurros. Ele se manifesta naquilo que você exagera, naquilo que condena veementemente nos outros, nas reações que escapam ao seu controle racional. A raiva que brota ao ver alguém se divertindo do “jeito errado” pode ser um espelho do seu próprio desejo reprimido de se libertar. O asco por quem exala narcisismo pode esconder o fato de que você teme aceitar sua própria grandeza. O anjo caído nunca desapareceu—ele só está soterrado sob as camadas de um moralismo sufocante, esperando que você ouse libertá-lo.

  2. Escute seus sonhos. Durante o dia, a consciência impera, mas à noite, o inconsciente canta. Sonhos não são mensagens místicas, mas ecos de partes de nós que tentamos ignorar. Um pesadelo claustrofóbico pode ser um lembrete de que você se prendeu em uma vida que não deseja. Um sonho de liberdade desenfreada pode ser o grito do anjo acorrentado dentro de você. Não tente decifrá-los como enigmas infantis—sinta-os.

  3. Brinque junte. Estimule o diálogo com seu anjo caído por meio do processo criativo. Escreva, desenhe, dance, pinte sem restrições. Não precisa exibir suas criações ao público; no começo, pode ser mais fácil libertar-se se fizer algo apenas para si. A história está repleta de casos de sucesso nascidos da expressão criativa do inconsciente. Para que a criatividade floresça, é necessário abrir espaço para a desordem.

O resgate do anjo caído não é um processo delicado. Ele exige brutalidade, honestidade cortante e disposição para pisar em tudo o que antes era sagrado. A integração da Sombra não é um capricho psicológico, mas um rito de passagem necessário para quem deseja governar a si mesmo.

Afinal, se você não for o mestre de suas trevas, será apenas mais um escravo rastejando na luz artificial dos que temem encarar o próprio inferno.

 

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