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Excertos de Evangelho Segundo Marcos
Comentado por Ya’aqov, seguidor de Ya’aqov
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Toda a Manifestação é dividida em 4 (quatro) Mundos: Atziluth (אצילות), Briah (בריאה), Yetzirah (יצירה) e Assiah (צשיה) ou os mundos Arquetípico (Emanação), Criativo, Formativo e da Ação, respectivamente. Porém, toda a manifestação é Una e, por isso, a conduta a realizar o tikun olam (תיקון עולם)[1] deve ocorrer em todos os mundos, mas só pode ser executada em um, Assiah (צשיה). Isso acontece porque ele é o único mundo no qual a ação ocorre e, para que seja possível o retorno ao Reino de Deus, torna-se necessário agir em Assiah (צשיה).
Entretanto, para que se possa agir em Assiah (צשיה), torna-se necessário se estabelecer as formas físicas e psíquicas que irão moldar a ação. Por isso, Jesus atua em Yetzirah (יצירה), o Mundo Formativo, pois ele é tanto a constituição das matrizes formais utilizadas para a “descida” para Assiah (צשיה), quanto o estabelecimento das formas associadas à reflexão e à abstração psíquica necessárias para o processo de “subida”.
(7) E Jesus com os discípulos recuaram para o mar e numerosa multidão acompanhou. E da judeia
Uma vez que o seu corpo manifesto já havia sido criado e formado, Jesus inicia o processo de “descida” em direção a Assiah (צשיה), simbolizada pelas águas. Por isso há o seu recuo em direção ao mar. Entretanto, ele não vai “sozinho”, posto que, apesar de ele ter estabelecido a sua forma, ele deve levar consigo outras formas que serão utilizadas na sua ação.
Essa distinção das formas que serão utilizadas são importantes, pois, embora a sua ação seja única, estabelecer o Evangelho, ela deve respeitar a pluralidade manifesta e se apresentar das mais diferentes formas possíveis, conseguindo, assim, atuar em todas as partes, mas sem perder a essência. Essa unidade que se manifesta potencialmente de empregada de maneira múltipla por Jesus, na figura dos seus discípulos, emula o processo criativo-criador do Gênesis no qual Elohim (אלהים), na condição dos atores que fazem a Vontade do Aleph (א) oculto na primeira frase do Gênesis, executa a Sua obra.
Neste sentido, o deslocamento de Jesus em direção ao mar, carrega com ele uma pluralidade de formas, que são necessárias a execução da sua ação em Assiah (צשיה). Essas formas são representadas tanto pelos seus discípulos[2], isto é, aqueles que já se encontram dispostos a seguirem os seus ensinamentos, quanto pela multidão, que ainda se encontra dividida em vários subgrupos de acordo com o seu status de conhecimento da Lei.
O primeiro grupo que compõe a multidão é representado pelos habitantes da Judeia. Judeia [Yehuda (יהודה)], em hebraico, significa “louvor”, ou seja, eles representam os membros da multidão que já possuem uma conexão com Yahweh, posto que agradecem às suas dádivas.
Salmo 103 : 1-2
“Bendize a Yahweh, ó minha alma, e tudo o que há em mim ao seu nome santo! Bendize a Yahweh, ó minha alma, e não esqueças nenhum dos seus benefícios.”
(8) e de Jerusalém e da Idumeia e além-Jordão e arredores de Tiro e Sidon multidão numerosa, tendo ouvido quanto fazia, foi a ele.
Além do grupo de “formas” representadas pela Judeia[3], outros 5 (cinco) grupos seguiram Jesus em seu “recuo ao mar”: Jerusalém, Idumeia, Além-Jordão, Tiro e Sidon.
A cidade de Jerusalém (ירושלים) é o “coração[4]” da Judeia (יהודה). Seu local mais sagrado, pois foi ali que, após conquistá-la, Davi foi coroado Rei, fixou o seu palácio e depositou a Arca da Aliança (2 Samuel 6:13), o maior tesouro dos israelitas, pois é ele que permite a comunicação direta com Yahweh.
A Idumeia (מאדום), ou Ídoumaía (Ίδουμαίαςϼ) em koiné, também chamada de Edom (אדום), é a terra do Edomitas, os descendentes de Esaú (צשו), irmão mais velho de Jacó (יצקב), de quem este adquiriu a progenitura de Isaac (יצחק). Seu nome está vinculado à cor vermelha (אדום), que tem a mesma grafia, e, consequentemente, associa-se ao sangue (דם), a vitalidade que movimenta a carne.
O Além-Jordão ou péran toú Íordánou (πέραν τοῦ Ίορδάνου), em koiné, como o próprio nome indica, são as terras que ficam na margem oriental (leste) do Rio Jordão. Elas simbolizam aspectos existenciais que se encontram para além da matéria, mas que atuam na carne, como o exemplo do processo de batismo realizado por João Batista[5], que era realizado na margem oriental do Rio Jordão.
Já a cidade de Tiro significa “rocha”, tanto em koiné [Týron (Τύρον)], quanto em hebraico [Tzór (צור)]. Enquanto Sidon (צידון) significa “caçar” e é o nome de um dos filhos de Canaã (כנצן), neto de Noé (ןח). A cidade, dentre outras coisas, era famosa pela produção manufatureira e por conta das artes, bem como pelo seu comércio (I Reis 5:6; I Crônicas 22:4; Ezequiel 27:8).
Assim, na composição dos grupos que seguem Jesus na “multidão”, vemos aspectos necessários à manifestação de um ser, a fonte do pensamento (Jerusalém); o sangue (Idumeia) necessário para fluir a vitalidade pelo corpo; aspectos além da carne, que realizam processos de purificação (Além-Jordão); a carne em si, o envoltório material (Tiro) utilizado para se manifestar; e o ímpeto construtivo (Sidon) necessário para se realizar a obra. E, todos esses aspectos são liderados pelo louvor a Yahweh (Judeia), descrito no versículo anterior.
Ademais, esses 6 (seis) grupos: Judeia, Jerusalém, Idumeia, Além-Jordão, Tiro e Sidon, também fazem referência ao processo criativo-criador contido no Gênesis, no qual, há uma “descida” da Judeia (adoração) até Tiro (carne) e, em decorrência da ação de Sidon, tem-se o processo de “subida”, realizando-se o tikun olam (תיקון עולם), a “reparação do mundo”[6]. Outrossim, 6 (seis) é justamente o valor numérico da letra Vav (ו), que representa Yetzirah (יצירה), o Mundo Formativo, no tetragrammaton YHWH (יהוה).
(9) E falou aos seus discípulos a fim de que um barquinho ficasse à disposição dele por causa da turba, para que não o apertassem,
Uma vez reunida todas as formas que serão utilizadas em Assiah (צשיה), Jesus determina que os seus discípulos disponibilizassem um barquinho para o seu uso.
A determinação de Jesus para a atuação dos discípulos remete a ação criativa-criadora executada no Gênesis, no qual Elohim (אלהים), na condição dos atores que fazem a Vontade do Aleph (א) oculto na primeira frase do Gênesis, executa a Sua obra. Assim, encontramos, mais uma vez, este paralelo da ação criativa-criadora de Jesus por intermédio de algo que pode ser considerado o seu prolongamento, representado no versículo pela ação dos discípulos. Neste sentido, da mesma maneira com que a ação executada por Elohim pode ser atribuída ao Thelema (θέλημα)[7] do Aleph (א) oculto, a ação dos discípulos é atribuída a Jesus.
Diante da determinação de Jesus, seus discípulos irão atuar de maneira a disponibilizar um barquinho, isto é, um veículo a ser utilizado em Assiah (צשיה), ou uma “vestimenta”, como a confeccionada por Yahweh Elohim para que Adão e Eva pudessem atuar fora do Jardim do Éden:
Gênesis 3 : 21
“E o fez Yahweh Elohim para o homem e para sua mulher, túnicas (כתןות) de pele (צור) e os fez vestir.”
Assim como na transcrita passagem, na qual a túnica de pele é a indumentária que Adam irá fazer uso fora do Jardim do Éden, o barco do versículo em análise é o veículo necessário para que Jesus não fique “apertado”.
A expressão traduzida no versículo como “apertassem”, em koiné é thlívosin (θλίβωσιν), que tem o significado de apertar, comprimir no sentido de sobrecarregar, de ultrapassar o limite de alguma coisa. Entendimento que, aplicado ao estudo, recai sobre a necessidade de que a atuação em Assiah (צשיה) deve ser realizada por algo que se encontre em Assiah (צשיה) e não em Assiah (צשיה), pois, caso este atuasse diretamente naquele, estaria violando os limites dos mundos. Assim, é necessário o estabelecimento de um veículo que será encaminhado a Assiah (צשיה) para que, por intermédio deste veículo, a forma estabelecida em Assiah (צשיה) e criada em Briah (בריה) atue dentro dos limites dos mundos.
(10) pois curou muitos, de modo que caem sobre ele para que o toquem quantos tinham flagelos.
No processo formativo do veículo que irá agir no mundo, Jesus selecionou as “regiões” que faria uso, porém, destas, ainda há a necessidade de se escolher aqueles que se encontram aptos a desempenharem a missão. Para isso, ele cura aquelas partes que já se encontram aptas a serem curadas e, portanto, conseguem dar prosseguimento no feito.
Entretanto, diferentemente do que a simples leitura do versículo em análise pode transmitir em um primeiro momento, a indicação dos “flagelados” que o buscam tem outra conotação. A expressão em koiné mástigas (μάστιγας) tem o seu significado secundário como “flagelo”, porém, este deriva do seu significado primário, que é o de “chicote”, “açoite”. Isto é, a expressão “flagelo” contida no versículo não indica uma doença ou um mal, mas as marcas daqueles que são simbolicamente açoitados para caminharem no caminho da retidão:
Provérbios 26 : 3
“O açoite (שוט) é para o cavalo, o freio para o jumento, e a vara (שבט) para as costas dos tolos (כסיל).”[8]
Provérbios 19 : 25
“Golpeia o zombador e o ingênuo tornar-se-á sagaz; repreende um homem inteligente, ele entenderá o conhecimento.”
Nesse sentido, estes “flagelados” são aqueles que se encontram trilhando a retidão, posto que já sofreram a ação corretiva e se encontram aptos a estarem no íntimo de Jesus. Essa percepção de se encontrar no íntimo de Jesus se faz presente pelo uso da expressão ápsontai (ἅψωνται) no texto em koiné.
Em seu sentido literal, ápsontai (ἅψωνται) transmite a ideia de subir em direção a algo a fim de tocá-lo. Ou seja, aqueles que sofreram a ação corretiva estão buscando aquilo que se encontra no alto, o sagrado, representado por Jesus. Ademais, o ato de tocar, dentro dos preceitos determinados na Torá, indica a ocorrência de intimidade. Em Levítico 18:6-19, ao determinar a proibição para determinados relacionamentos sexuais, é estabelecido que “não se deve chegar perto”, no sentido de não se tocar a pessoa, pois, o toque tem a capacidade de transmitir para o outro as faculdades daquele indivíduo ao acessar ao seu íntimo.
Desta forma, uma vez que esses elementos formativos se encontravam no caminho da retidão, eles podem adentrar ao íntimo do veículo que Jesus está formado para agir em Assiah (Mundo da Ação).
(11) E os espíritos impuros, quando contemplavam, caíam diante dele e gritando dizendo: “Tu és o Filho de Deus”.
Dando prosseguimento à formação do veículo de ação de Jesus, verificamos o seu domínio sobre os aspectos espirituais considerados mais espessos e que são representados por Nephesch (Alma). Na expressão “espíritos impuros”, o adjetivo impuro é escrito no koiné como akáthartos (ακάθαρτος), palavra que significa imundo, que vive na sujeira, na lama, isto é, o “impuro” é aquele que tem contato com a poeira da terra e, por isso, se encontra “sujo”.
Com base nessa informação, verificamos que estes aspectos representados por Nephesch, ao contemplarem Jesus, prostraram-se, reconhecendo-o como representante de Yahweh e, por isso, o obedeciam. Este entendimento é importante para compreendermos como os desejos se comportam. A carne tem aspirações diferentes do Espírito (Gálatas 5:16-17), contudo, quando se coloca as demandas do Espírito em primeiro lugar, as aspirações da carne serão atendidas dentro daquilo que lhe cabe (Mateus 6:33) e, por isso, passam a atuar de acordo com a Thelema (θέλημα)[9].
(12) E muito encarecia a eles a fim de que não o fizessem manifesto.
Este versículo complementa a ideia trazida no anterior, posto que demonstra a ação de Jesus a fim de que os desejos não se manifestem de maneira isolada da Thelema (θέλημα)[10]. Isto é, Jesus atua de maneira contundente para que não exista espaço para a influência dos desejos, ocupando todo o espaço, todas as suas formas com Thelema (θέλημα).
A prática de Jesus é importante posto que a manifestação é fruto de ação criativa-criadora que se replica infinitamente, adentrando em camadas existenciais dentro de camadas existenciais. Na falta da atuação da Thelema (θέλημα), ainda assim haverá ação, mas esta estará vinculada ao Nephesch (alma) e, consequentemente, passível de ser influenciada por Satã (שטן), o adversário que surge do automatismo de Nephesch (alma), quando esta não se encontra sob o controle de Ruach (Espírito).
NOTAS
[1] A ideia de reparação dentro do conceito de tikun olam (תיקון עולם), está vinculada a ideia de que o Universo foi devidamente criado e, quando Yahweh cessa a sua atividade, Ele está determinando que a Sua obra deve continuar a ser feita por intermédio da ação dos seus filhos. Então, o conceito não significa que existe algo errado que precisa ser consertado, mas que existe algo que ainda se encontra incompleto e que isso deve ser reparado, para que a obra deixe de estar incompleta.
[2] Discípulos é uma tradução da expressão, em koiné, mathitón (μαθητῶν), que é utilizada tanto no sentido de discípulo, quanto no de aluno, transmitindo a ideia de ser alguém que está disposto a aprender alguma coisa. Assim, o discípulo, no caso do versículo e em todo o texto evangélico, não é apenas alguém que ouviu a Verdade, mas que se coloca na posição de executá-la.
[3] Vide versículo anterior.
[4] Importante destacarmos que, enquanto, atualmente, o coração é a sede simbólica das emoções, dentro da cultura judaica antiga, o coração é a sede do pensamento, onde se cria o raciocínio, enquanto a emoção está ligada à alma (Nephesch).
[5] Vide tópicos “João Batista” e “O Batismo de Jesus”, que são compostos pelos versículos de 4 a 8 e de 9 a 11, respectivamente, todos do capítulo 1.
[6] A ideia de reparação dentro do conceito de tikun olam (תיקון עולם), está vinculada a ideia de que o Universo foi devidamente criado e, quando Yahweh cessa a sua atividade, Ele está determinando que a Sua obra deve continuar a ser feita por intermédio da ação dos seus filhos. Então, o conceito não significa que existe algo errado que precisa ser consertado, mas que existe algo que ainda se encontra incompleto e que isso deve ser reparado, para que a obra deixe de estar incompleta.
[7] Vide comentários ao versículo 40 do capítulo 1.
[8] Cabe destacar que tanto a palavra “açoite” (שוט), quanto a “vara” (שבט), possuem a mesma estrutura, iniciando-se com um Shin (ש) e finalizando com um tet (ט), demonstrando que elas visam ao mesmo objetivo. Ademais, importante percebermos a presença da letra tet (ט). Tet (ט) tem valor numérico 9 (nove) e significa “bom” ou “melhor”, estando associado à Verdade. A palavra “verdade” e hebraico é emet (אמת), iniciando-se com o aleph (א), tendo um mem (מ) no meio e finalizando com o tav (ת), indicando que o que é verdadeiro deve ser verdadeiro do início ao fim. Ademais, o valor guemátrico do 9 (nove) indica a Verdade porque qualquer número inteiro multiplicado por 9 (nove) obtém um resultado que tem o 9 (nove) como resultado da soma desses números. Além disso, a guematria de emet (אמט) é 9 (nove), com aleph (א) tendo valor de 1 (um), mem (מ) de 40 (quarenta) e tav (ת) de 400 (quatrocentos), totalizando 441 (quatrocentos e quarenta e um), que na redução dá 9 (4 + 4 + 1). Outro ponto associado a letra tet (ט) é que ela é a principal letra da palavra batismo [tobel (טבל)] e bem [tob (טוב)]. Assim, simbolicamente, o 9 (nove) é a “finalidade” do 1 (um).
[9] Vide comentários sobre o versículo 40 do capítulo 1.
[10] Vide comentários sobre o versículo 40 do capítulo 1.
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