Este texto já foi lambido por 1865 almas.
Excertos de Evangelho Segundo Marcos
Comentado por Ya’aqov, seguidor de Ya’aqov
Conheça a Associação Filosófica Pedra de Afiar
O verbo (a fala) é a capacidade criativa-criadora. Porém, a sua ação no meio depende de um intermediário, a mão [Yad (יד)]. Ela pode ser utilizada como ferramenta para se abençoar (Gênesis 48:14; Levítico 9:22; Deuteronômio 28:8); de ordenação e consagração (Números 8:10; Atos 6:6; Atos 13:3); de adoração (Salmos 134:2; Jó 31:26-27; 1 Reis 19:18); da ação de Yahweh (Êxodo 6:6; Êxodo 13:14; Jeremias 32:21; Salmos 136:12); de dominação (Jeremias 32:21); de oração (Salmos 28:2); de demonstrar a intenção de um ato (Provérbios 10:4; Marcos 9:43-44; Zacarias 3:1; Salmos 18:24; Salmos 18:34-35; Salmos 144:1); da natureza da ação (Mateus 6:3).
Além de ser a ferramenta de intermédio entre a intenção e a ação, a mão também é separada em dois aspectos dentro da tradição. No texto bíblico, em hebraico, a expressão Yad (יד), por mais que signifique “mão”, é interpretada como sendo a mão esquerda, enquanto a mão direita é apresentada de maneira qualificada, pela expressão Yamin (ימין), geralmente, traduzida como “destra”.
Isaías 48 : 13
“Minha própria mão lançou os alicerces da terra, e a minha mão direita estendeu os céus; quando eu os convoco, todos juntos se põem em pé.”
Essa diferenciação, envolve, dentre outras coisas, o estabelecimento de que a mão direita é a mão forte, enquanto a esquerda é a fraca. Contudo, apesar de fraca, ela está mais próxima do coração e, esse é um dos motivos para se colocar o Tefilin (תפילין) no braço esquerdo (Deuteronômio 6:8) em cumprimento a Mitsvá (מצוה) e, por isso, também é utilizada como simbolismo da mão que recebe algo, enquanto a mão direita é a que dá.
(1) E entrou de novo na congregação. E estava lá um homem tendo a mão ressecada[1].
O versículo que inicia o terceiro capítulo nos indica o local no qual os próximos acontecimentos ocorrem. Diferentemente do uso de uma casa ou de um barco, que representam uma pessoa ou um determinado aspecto de um coletivo, aqui, vemos que a ação se transcorre em todo um aspecto da manifestação, um dos 4 (quatro) mundos, pois a referência local é a congregação (sinagoga), isto é, a junção de todos os eus.
Feita essa contextualização, o versículo nos destaca uma individualidade dentro desta coletividade, um homem que possui a mão ressecada. Cabe-nos destacar que só existe a unidade:
Gálatas 3 : 28-29
“Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher; pois todos vós sois um só em Cristo Jesus. E se vós sois de Cristo, então sois descendência de Abraão, herdeiros segundo a promessa.”
E que todo o processo criativo-criador ocorre dentro desta unidade (Bereshit bara Elohim). Assim, o processo criativo-criador estabelece diferenciações aparentes, mas não reais. Por isso, podemos estabelecer que, em função desse processo, existem individualidades aparentes dentro de uma coletividade simbólica e que o processo de santificar o Shabat está vinculado ao fato de tornar essa ilusória coletividade, uma individualidade real.
Desta forma, a individualidade apresentada no versículo é alguém que, apesar de se encontrar naquele mundo representado pela congregação, não tem a capacidade de interagir com ele, pois a sua mão se encontrava ressecada, sem vitalidade. Esse fato, de maneira isolada, pode não passar muita informação de maneira clara, mas indica algumas informações que nos ajudam a compreender melhor o contexto.
Aquele que não interage com o meio, encontra-se separado do meio. Separar, em hebraico, é parash (פרש), raiz tanto da expressão Parashá[2] (פרשה), que significa “porção”, numa referência ao trecho da Torá que é lido semanalmente na sinagoga, quanto da expressão Fariseu (פרושים), que significa “os separados”, em alusão ao desígnio de Yahweh para o grupo sacerdotal ficasse separado do restante da população (Êxodo 29:1). Essa informação conversa com os acontecimentos do capítulo anterior, no qual Jesus criou Levi, o fariseu. Ademais, a condição de se encontrar separado do meio no qual está e sem capacidade de interação, também é um indicativo de alguém que acabou de chegar a uma comunidade[3].
Esses fatores são indicativos de que o homem com a mão ressacada é Levi iniciando o seu processo de manifestação neste novo mundo, no qual, diferentemente do que acontecia no anterior, ele necessita da mão para atuar. Fazendo esta análise, verificamos que toda a narrativa contida neste capítulo faz alusão a Yetzirah (יצירה), o Mundo Formativo, enquanto o anterior, no qual Levi foi criado, era Briah (בריאה), o Mundo Criativo.
Como já comentamos em outros momentos, apesar de o texto evangélico ter sido escrito em koiné, ele é pensado por judeus. Isso significa que, apesar de se expressar em outro idioma, ele guarda em si a forma de pensar original da cultura daquele que foi responsável pela elaboração do texto. Dentro da forma de se pensar um texto sagrado, sabemos que a Torá é dividida em livros que recebem o nome da primeira palavra de cada livro e que o mesmo fenômeno acontece com os capítulos. Essa nomeação, além de indicar o “título” do livro ou do capítulo, também transmite a ideia geral que será abordada naquele trecho.
Desta forma, sabendo disso, verificamos o mesmo fenômeno na estruturação do texto evangélico, no qual o capítulo 1 se inicia com a palavra Άρχή (Άρχή), que significa “princípio”, mesmo significado de gênesis. O capítulo 2 começa com kaí eiselthón (καὶ εἰσελθὼν), no qual kaí (καὶ) significa “e”, dando uma ideia de continuidade em relação ao capítulo anterior, e eiselthón (εἰσελθὼν) significa “impelir”, “dirigir”; “conduzir” um veículo; “fazer entrar” algo ou alguém; “entrar em triunfo”. Já o capítulo 3 inicia com kaí eisílthen (καὶ εἰσῆλθεν), onde eisílthen (εἰσῆλθεν) tem o significado de “entrar em”; “penetrar em”; “comparecer”; “apresentar-se diante de alguém”; “entrar para”; “aderir”; o juiz “entra em sessão”, assim como o ator “entra em cena”.
Por mais que as expressões que introduzem tanto o capítulo 2, quanto o capítulo 3, possam ser traduzidas como “entrar”, elas carregam em si, informações distintas, assim como ocorre com Briah (בריאה) e Yetzirah (יצירה) que também possuem um significado “comum”, o de “criação”, mas que são utilizados em contextos distintos, fazendo com que Yetzirah (יצירה) costume ser traduzida como “formação” e não como “criação”, expressão com mais aderência ao significado de Briah (בריאה)[4].
(2) E espiavam-no, se curaria aos sábados, para que acusassem publicamente.
A fim de compreendermos o conteúdo do presente versículo, temos de apontar uma questão acerca da prática de cura no Shabat. Por mais que o Shabat seja um momento de santificação e que existem proibições de se realizar trabalho[5], a prática da cura possui uma exceção. “Sempre que há a possibilidade de perigo para a vida, isso tem preferência sobre o shabat”[6].
Outrossim, apesar de os fariseus serem os responsáveis por dirimir eventuais dúvidas acerca da aplicação da Lei, é de responsabilidade de toda a população verificar o seu cumprimento, posto que ela é uma unidade. Assim, todos têm o dever de observar se a Lei está sendo cumprida e, havendo dúvida, consultar um fariseu a fim de se confirmar se um ato é ou não uma violação da Lei.
Dessa forma, o versículo nos revela que há uma questão envolvendo a compreensão dos ensinamentos de Yahweh. Isto é, se há um apego à forma da Lei ou se há um entendimento decorrente da essência da Lei. Este debate remete ao entendimento de que a Lei é composta por 2 (duas) partes, que são chamadas popularmente de “Torá escrita” e de “Torá oral”, ou halachá (הלכה) e aggadá (הגדה), respectivamente.
Outro conceito que também pode ser utilizado nessa dualidade é o de Midrash (מדרש) e o de Peshat (פשט). No qual Midrash (מדרש) ou Midrashim (מדרשים) é o sentido interpretativo da Lei que leva em consideração o sentido literal e o alegórico indicando, também, um procedimento ético e religioso. Enquanto o Peshat (פשט) é uma interpretação literal do texto da Lei.
(3) E diz ao homem que tinha a mão ressecada: “Levanta-te para o centro”.
No versículo 1 do presente capítulo, abordamos de maneira ampla a questão de se ter a mão ressecada. Aqui, faz necessário resgatarmos a expressão utilizada naquele versículo a fim de compreendermos melhor o contexto, posto que toda a situação trata de uma divergência de interpretação da Lei.
Além do Evangelho segundo Marcos, outras 3 (três) correntes evangélicas abordam a situação, o segundo Mateus, o segundo Lucas e o dos Nazarenos. Apesar de cada corrente possuir um enfoque próprio na sua linha de ensino, o cotejo entre as versões auxilia no nosso estudo e pode trazer novas informações acerca do versículo estudado.
O Evangelho segundo Mateus não apresenta qualquer informação relevante sobre a mão do indivíduo. Porém, os outros apresentam. No Evangelho segundo Lucas, encontramos “e estava um homem lá e a mão direita dele era seca” (Lucas 6:6), enquanto no Nazareno há a indicação de que o homem era pedreiro e pedia auxílio a Jesus para ter saúde e pudesse voltar a trabalhar, posto que o seu trabalho necessita do uso das mãos (Patr. Lat. vol. 26 col. 78).
Cabe-nos destacar que a expressão em koiné que costuma ser traduzida como “pedreiro”, no Evangelho Apócrifo, é tékton (τέκτων), que, em seu sentido literal, significa “artesão”, mas o seu sentido mais comum é o de “marceneiro”, atividade atribuída tanto a José, quanto a Jesus[7]. Sobre a atividade de “artesão”, devemos informar que, enquanto na cultura helênica o trabalho manual era visto como atividade inferior, relegada a servos e escravos, na cultura judaica, ela sempre foi apreciada, respeitada e digna de destaque social.
Assim, a cura da mão não se trata de uma questão comum, mas, algo relacionado ao próprio sustento do indivíduo e, portanto, uma questão de vida ou morte[8]. Isto é, por se tratar de uma questão de perigo de vida, a cura no Shabat é permitida.
Diante deste entendimento, Jesus determina que o homem se levante[9] e se coloque ao meio [méson (μέσον)]. Este deslocamento ao “centro” carrega em si alguns ensinamentos que cabem ser destacados aqui.
O primeiro ensinamento está vinculado à execução da ação criativa-criadora por Jesus. Em sua jornada construtiva, Jesus, que já havia criado Levi em Briah (בריאה), agora está formando-o como o centro de Yetzirah (יצירה), isto é, ao redor do qual todas as demais formas devem orbitar.
O segundo decorre do deslocamento simbólico do seu entendimento acerca da Lei no tocante à cura da mão, representando a Midrash (מדרש), alcançando uma espécie de meio termo em relação ao entendimento comum, o Peshat (פשט)[10]. Com este deslocamento, alcança-se o Sod (סוד), o sentido místico da Lei, também chamado se a “alma mais íntima da Lei”, um sentido que é alcançado por uma inspiração divina.
E um terceiro ensinamento que nos cabe abordar, está na compreensão do simbolismo das Sephiroth (ספירות) da Árvore da Vida. Como o evento retratado no versículo acontece simbolicamente em Yetzirah (יצירה), encontramos 3 (três) Sephiroth (ספירות) neste mundo: Netzach (ןצח) à direita; Hod (הוד) à esquerda; e Yesod (יסוד) ao centro.
Netzach (ןצח), a “Vitória”, está na base do Pilar da Misericórdia e indica, dentre outras coisas, simboliza o sentir, enquanto Hod (הוד), a “Glória’, está na base do Pilar do Rigor e, dentre outras coisas, simboliza o conhecimento intelectivo, associado às formas, os símbolos e os códigos. Já Yesod (יסוד), a “Fundação”, está localizado no Pilar do Equilíbrio, o Pilar do Meio, e representa, dentre outras coisas, o receptáculo divino da Árvore da Vida, que serve de base para atuar em Malkuth (מלכות), o “Reino”, e realizar o tikun olam (תיקון עולם), a “reparação do mundo”[11]. Assim, Jesus está deslocando o seu veículo de manifestação, Levi, para Yesod (יסוד) a fim de prepará-lo para se manifestar em Assiah (צשיה), o Mundo da Ação.
(4) E diz a eles: “É permitido aos sábados benfazer ou malfazer, salvar a alma ou matar?” Eles, porém, silenciavam.
Com o levantar e o deslocar do Levi para o centro, para Yesod (יסוד), no versículo anterior, Jesus indaga sobre a questão que estava sendo objeto de análise: a possibilidade de curar a mão ressecada seria vista como uma violação do Shabat ou não. Diante do questionamento, todos ficaram em silêncio.
O comportamento daqueles que estavam ao redor, de se calarem, costuma ser interpretada como um silêncio de raiva ou de constrangimento, porém, o silêncio revela outra questão:
Habacuc 2 : 20
“Mas Yahweh está em seu Santuário sagrado. Silêncio em sua presença, terra inteira!”
Este silêncio indicado na passagem transcrita é a preparação para a teofania que é apresentada a seguir no próprio Livro de Habacuc (Habacuc 3:3-15), ou seja, é o silêncio que prenuncia a manifestação de Yahweh, que está para se revelar no corpo que Jesus está formando.
(5) E, tendo olhado em volta para eles com ira, entristecido pelo endurecimento dos corações deles, diz ao homem. “Estende a mão”. E estendeu e foi restaurada a mão dele.
O primeiro trecho do versículo costuma despertar confusão entre os estudiosos, posto que contém a indicação de que Jesus olhou para as demais formas que se manifestam em Yetzirah (יצירה) com raiva. Antes de abordarmos o significado do versículo como um todo, torna-se necessário destacar a expressão e entendermos o seu significado.
A palavra traduzida como “raiva”, em koiné é orgé (ὀργή) e, apesar de ela tenha o significado de “ira” e “ressentimento”, este é um significado mais afastado do sentido literal da expressão. Orgé (ὀργή) significa “instinto natural”; “temperamento”; “impulso natural”. Além desses significados, a expressão também expressa: “estado de ânimo” e “sentimentos passionais violentos”. Outrossim, mesmo quando significa “raiva”, a expressão também tem o condão de uma aplicação de uma “punição imposta por um magistrado”. Realizado esse esclarecimento acerca da expressão, podemos entender melhor as 2 (duas) aplicações no versículo analisado.
A primeira aplicação decorre justamente do processo de manifestação de Jesus, representado pelo seu veículo simbólico, Levi, em Yetzirah (יצירה). No Mundo Formativo, as energias emocionais imperam e, por isso, diferentemente do que vinha acontecendo até então, Jesus passa a demonstrar o uso das emoções em virtude da sua manifestação em Yetzirah (יצירה).
Já a segunda aplicação tem relação com a primeira. Apesar de começar a apresentar emoções e o conceito geral de ira e raiva ter um aspecto pejorativo para a maioria das pessoas, a ira apresentada por Jesus é associada a aplicação de um julgamento feito por um magistrado. Isto é, a “ira” é a manifestação da aplicação da punição pelos crimes por um juiz, que deve ser firme e equilibrada, posto que não pode ultrapassar o peso do crime. A cada crime há uma pena proporcional e, uma das funções do juiz, é justamente aplicar a pena adequada ao crime cometido, pois, assim, a sua decisão será justa, assim como a ação de Yahweh.
Mateus 3 : 7
“Vendo muitos dos fariseus e saduceus indo ao mergulho, ele falou a eles: ‘Crias de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira vindoura?’”
João 3 : 36
“O que confia no filho tem vida eterna. O que não confia no filho, porém, não olhará a vida, mas a ira de Deus permanece sobre ele.”
Ou seja, o olhar lançado por Jesus determina o que acontecerá com aquelas formas. Elas foram julgadas e serão enviadas para as trevas da noite, na qual receberão a ação criativa-criadora a fim de servirem de base para uma nova era. E este julgamento foi realizado pela análise dos seus pensamentos, posto que Jesus viu o que havia em seus corações[12].
Já a segunda metade do versículo demonstra a conexão feita entre Jesus e Levi, gerando a unidade. Jesus determina uma ação e Levi, prontamente, a executa e, por fazer isso, a ação gera frutos, o restauro da mão. E mais do que isso, com a mão estendida de Levi, seu veículo, Jesus pode passar a atuar em todas as nações determinando o seu julgamento.
Isaías 14 : 26-27
“Este é o projeto que ele decidiu contra a terra inteira, e esta é a mão estendida contra todas as nações. Com efeito, Yahweh dos Exércitos tomou uma decisão, quem a anulará? Sua mão está estendida, quem a fará recuar?
Assim, constatamos que todos os eventos que irão se desenrolar no Evangelho segundo Mateus foram traçados, determinados e formados neste momento. Pois Jesus, tal qual Yahweh, tomou uma decisão e estendeu a sua mão contra todas as nações.
(6) E saindo os fariseus imediatamente com os herodianos realizavam um conselho deliberativo sobre como destruí-lo.
Com a tomada de decisão realizada por Jesus no versículo anterior, aqueles que se mostraram contrários, passam a temer pelo o que está por vir e, por isso, iniciam a organização para resistir e tentar escapar dos desígnios de Yahweh. Importante destacarmos que a referência utilizada no versículo para designar os fariseus[13] não é feita em sentido amplo, de maneira a comportar todos os integrantes desta categoria, mas no sentido restrito, indicando apenas um grupo dentro dos fariseus.
Esse grupo de fariseus são aqueles que estão vinculados àqueles que os versículo denomina como sendo “herodianos”, numa referência àqueles que defendem Herodes (הורדוס). Ele foi designado pelos romanos como o Rei da Judeia durante o domínio romano da região e, apesar de conhecer as tradições judaicas, não era judeu, mas idumeu. Este fato, somado ao ponto de que ele era aliado de Roma, fazia com que muitos judeus não o reconhecessem como rei e o vissem como um usurpador.
Assim, os fariseus que atuam com os herodianos são aqueles que servem a Mamon[14] e, por mais que digam seguir os desígnios de Yahweh e as suas determinações, são aqueles que realizam a injustiça.
Mateus 7 : 21-24
“Nem todo o que me diz: ‘Senhor [kýrios (κύριος)[15]], Senhor’ entrará no reinado dos céus, mas o que faz a vontade [Thelema (θέλημα)][16] do meu pai nos céus. Muitos me dirão naquele diz: ‘Senhor, senhor, não profetizávamos em teu nome, e no teu nome pusemos para fora demônios, e no teu nome muitas potências fizemos?’ E então confessarei a eles: ‘nunca vos conheci’. Recuais de mim os que realizam a injustiça[17]. Todo o que, portanto, ouve esses meus dizeres e os faz, será igualado a um homem sábio, que construiu a sua casa sobre a pedra.”
Um ponto que merece destaque a fim de se evitar equívocos interpretativos futuros. Esse grupo, fariseus herodianos, pode ser representado como agentes de Satanás ou Satã (שטן). Cabe-nos destacar que essa “entidade” denominada Satã (שטן) não é o opositor de Yahweh, mas uma força decorrente do processo de “descida” criativa-criadora[18]. Isto é, ela decorre da ação da carne que tem o impulso inicial de “descida” de Atziluth (אצילות), o Mundo Arquetípico ou da Emanação, até Assiah (עשיה), o Mundo da Ação. Assim, Satã (שטן) se torna um adversário no percurso de “subida” na Árvore da Vida em direção ao Reino de Deus. Porém, é justamente pela existência deste adversário, que se é possível separar o que está pronto para ser santificado no Shabat daquilo que ainda não está pronto e deverá ser submetido a um novo ciclo.
NOTAS
[1] Ao descrever cena similar, mas de acordo com outra linha esotérica, o Evangelho segundo Lucas afirma que se tratava da mão direita que se encontrava ressecada (Lucas 6:6)
[2] Vide comentários sobre o versículo 39 do capítulo 1.
[3] Outro ponto que conversa com a ideia de que a pessoa com a mão ressecada é Levi, que, simbolicamente, representa o Adam que será utilizado por Jesus em sua jornada evangélica, está no chamado “Evangelho Nazareno”, um apócrifo que narra situação similar, mas indicando que a pessoa que estava com a mão ressecada era um pedreiro e que o seus sustento decorria do uso das mãos. Porém, a expressão em koiné que costuma ser traduzida como “pedreiro” é tékton (τέκτων), que, em seu sentido literal, significa “artesão”, mas costuma ser designada em koiné no sentido de “marceneiro”, atividade atribuída tanto a José, quanto a Jesus.
[4] Em Briah (בריאה), a criação não possui corpo, nem forma, tal qual costumamos pensar, embora possua a capacidade se sentir a sua própria existência pela anulação do ser em face da divindade. Já em Yetzirah (יצירה), a criação assume corpo e forma. Enquanto em Assiah (צשיה), a criação é completada pela sua diferenciação e particularização decorrente do encobrimento e da diminuição da vitalidade divina.
[5] Dentro da cultura Judaica, as 39 (trinta e nove) proibições que devem ser atentadas durante o Shabat foram aumentadas por atividades que são “próximas” às que são proibidas, pois, como uma ação “parece” com a ação proibida, se evita praticá-la para evitar de acabar praticando, mesmo que sem querer, a ação proibida.
[6] Yoma 85b.
[7] No início do cristianismo, alguns padres entendiam a expressão em koiné como “pedreiro” ou “ferreiro”, atribuindo essas atividades a Jesus e a José. Contudo, posteriormente, houve uma uniformização do entendimento pelo uso mais comum do significado de tékton (τέκτων) como “marceneiro”.
[8] Vide comentários sobre o versículo 2 deste capítulo.
[9] Vide tópico “A Ressurreição no Batismo”, composta pelos versículos de 1 a 12 do capítulo 2.
[10] Vide comentários sobre o versículo 2 deste capítulo.
[11] A ideia de reparação dentro do conceito de tikun olam (תיקון עולם), está vinculada a ideia de que o Universo foi devidamente criado e, quando Yahweh cessa a sua atividade, Ele está determinando que a Sua obra deve continuar a ser feita por intermédio da ação dos seus filhos. Então, o conceito não significa que existe algo errado que precisa ser consertado, mas que existe algo que ainda se encontra incompleto e que isso deve ser reparado, para que a obra deixe de estar incompleta.
[12] Apesar de o simbolismo do coração estar associado às emoções, no contexto dos textos evangélicos, assim como na Torá, o coração é a sede do pensamento, estando as emoções vinculadas à carne.
[13] Vide comentário introdutório do tópico “O Escriba de Jesus”, composto pelos versículos 13 e 14 do capítulo 2.
[14] Vide comentários sobre o versículo 14 do capítulo 2.
[15] a expressão em koiné kýrios (κύριος) tem sentido de “senhor”, mas é utilizada em algumas traduções em koiné como substituto da expressão hebraica YHWH (יהוה)
[16] Vide comentário sobre o versículo 40 do capítulo 1.
[17] O trecho em destaque é uma citação não literal do Salmo 6:9 “afastai-vos de mim, malfeitores todos: Yahweh escutou a voz do meu pranto!”.
[18] Vide comentários sobre os versículos 8 e 13 do capítulo 1.
Alimente sua alma com mais:

Conheça as vantagens de assinar a Morte Súbita inc.
Faça parte do problema
Recursos Avançados
+ Área Restrita + Eventos Online.
R$37,00 por mês



