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por Tamosauskas
Frater Albertus e Jean Dubuis ensinaram a seus alunos conceitos essenciais sobre a colheita de plantas em lições que todo alquimista deve conhecer. Esses mestres afirmam, por exemplo, que cascas, ramos e raízes devem ser extraídos de árvores jovens no outono ou no início da primavera. E que a parte exterior dessas cascas precisa ser raspada, enquanto o interior deve ser cortado em pequenos pedaços antes de ser colocado para secar. Ensinam que para as raízes, o ideal é esperar que as folhas caiam, indicando que a quintessência se encontra concentrada no subsolo. Quanto a sementes, frutos e flores, orientaram a colher apenas quando estiverem absolutamente maduros, em sua máxima fluorescência; o mesmo vale para as folhas, que devem ser colhidas preferencialmente quando a planta estiver em floração. Frequentemente estes autores destacam também a importância da colheita nas horas planetárias adequadas.
Todas essas recomendações são valiosas, sem dúvida, mas é inegável que seguem uma lógica cartesiana de considerar a natureza como um repositório de partes úteis, aplicando métodos específicos para extrair cada uma delas. Essa é uma abordagem comum na literatura alquímica, apesar de muitos alquimistas criticarem a visão materialista da indústria farmacêutica e da química moderna. Mesmo alquimistas renomados, como Manfred Junius, tratam a questão já partindo da lógica das ervas secas do comércio e nada menciona sobre colheitas. Mas acredito que assim como foi no passado, a alquimia de hoje não pode parar de se aprimorar e se necessário corrigir algumas praticas. Alquimistas ao redor do mundo podem aprender muito com os erveiros brasileiros, que preservaram saberes dos povos originários. Esse contato com a natureza, entretanto, não é de todo estranho. Certas doutrinas paracelsianas sobre os elementais podem ser uma ponte útil para fazer este resgate.
Paracelso foi pioneiro ao interpretar os elementais como seres paralelos e habitantes específicos dos elementos naturais. Em sua época, Agrippa sustentava a visão católica de que anjos regiam os elementos, enquanto Trithemius via os elementais como anjos caídos, aprisionados em cada tipo de matéria. Paracelso, contudo, via os elementais como seres nem celestes, nem demoníacos, mas sim habitantes paralelos, invisíveis, que transitam por seus elementos específicos. Ondinas residiriam nas águas, gnomos nas rochas, salamandras nos vulcões. As sílfides, elementais do ar, habitariam locais onde também os humanos podem viver, mas, por sabedoria, mantêm-se invisíveis e em áreas selvagens. Aliás, Paracelso referia-se a elas como “Silvestres” (do latim Sylvestris).
É notável que muitos alquimistas tenham esquecido essa lição. Na Encantaria brasileira, por outro lado, esse ensinamento está não apenas preservado, mas vivo e pulsante, e um mestre juremeiro ou catimbozeiro, ao colher uma planta, respeita os seres invisíveis do terreno. Em geral o primeiro passo uma colheita sagrada é a auto-consagração, mantendo o corpo e mente purificado antes de se aproximar da mata e evitando relações sexuais no dia anterior.
Antes de entrar em um local selvagem, é indicado pedir licença aos Encantados do local (os Silvestres diria Paracelso). No “Breviário de Feitiçaria Natural”, Rômulo Angélico recomenda bater três palmas na entrada da mata anunciando sua chegada e então deixando como cortesia um pouco de tabaco e mel para os seus habitantes invisíveis bem ao estilo da Lei da Troca Equivalente dos alquimistas. Não assuma a permissão da colheita como garantida logo que entrar; ao invés disso explique suas intenções e aguarde a resposta, escutando seu coração.
Quando sentir que tem permissão, deixe que uma planta chame naturalmente sua atenção ou seja destacada pela intuição. E, uma vez identificada a planta por vias intuitivas, conecte-se ao espírito do vegetal, aproximando-se com respeito e empatia.
Considere o ato de colher como um sacrifício, similar ao abate de um animal. Mesmo que a planta não manifeste dor ou medo visível, algum nível de estresse certamente ocorre. Pratique novamente a troca equivalente: em retribuição, ofereça algo à planta, como adubo, água, a remoção de parasitas ou um cristal junto às raízes, além de sua gratidão sincera e se não for usar a planta inteira, não a remova toda.
Adriano Camargo, em “Rituais com Ervas, Banhos, Defumações e Benzimentos”, compartilha uma oração que pode ser adaptada a qualquer crença sincera:
“Eu evoco nosso amado Pai Criador, Amada Mãe Terra, sagradas forças vegetais e os guardiões das ervas. Peço licença para colher partes desta planta, para que com sua força possamos [explicite o propósito da erva]. Que esta planta seja envolvida em irradiações divinas e não sinta dor ao doar suas folhas. Pela bênção e pelo amparo divino, assim seja e assim será.”
Faça um corte único, com uma faca bem afiada, sem retalhar ou danificar a planta. Angélico recomenda colher a parte voltada para o leste (onde nasce o sol) e utilizar instrumentos exclusivos para o trabalho vegetal, não empregados em culinária ou sacrifício animal. Com relação ao aproveitamento das fases da Lua, o autor aconselha que na Lua Nova sejam colhidas sementes, frutos, flores e folhas, na Lua Crescente, as cascas, e na Lua Cheia as raízes e que se evite colher na Lua Minguante.
Plantas Não São Objetos, São Seres
Seja gentil na colheita. Evite desfolhar totalmente a planta, preservando sua capacidade de reprodução e de alimentar os polinizadores. Colha as sementes quando estiverem completamente maduras e faça cortes minimamente invasivos com cascas e raízes, evitando prejudicar a planta. Após a colheita de parte da raiz cubra-a de terra.
As plantas são seres que respondem aos estímulos de seu ambiente, sendo a colheita de folhas, cascas e raízes um ato de violência que deve ser feito com respeito. Curiosamente, cheirar flores ou colher frutos maduros parece provocar uma espécie de prazer na planta, um fenômeno que sugere reações complexas. Para mais insights sobre o comportamento do reino vegetal, recomendo os livros Se Não Fugir, é Planta de Eduardo Gonçalves, A Vida Secreta das Plantas de Peter Tompkins e Christopher Bird, e A Vida Secreta das Árvores de Peter Wohlleben.
Após a colheita, limpe a planta adequadamente, como em um rito funerário honroso. Lave suavemente as ervas em água fria para remover impurezas, mas evite excessos. Plantas frescas devem ser usadas em até três dias; caso contrário, será necessário desidratá-las para conservação, preferencialmente à sombra e com ventilação. Espalhe-as em pequenos guardanapos para evitar compactação e sempre com gratidão.
Despertando Plantas Secas
Embora Paracelso preferisse plantas frescas, a conveniência moderna nos leva muitas vezes a utilizar ervas secas. Contudo, o processo de desidratação reduz o “mercúrio filosofal” da planta, diminuindo sua vitalidade e consciência. Permanece seu sal (corpo) e enxofre (essência herbal). Para todos os efeitos estão mortas. Mas, como nos corrigiria o grande alquimista de Nazaré, “Apenas dormem”. Essa compreensão está presente na lógica alquímica e na tradição erveira brasileira, como explica Danilo Coppini em Curso de Ervas e Plantas Mágicas:
“As almas das plantas desidratadas estão adormecidas. Sua energia vital é inferior à das plantas frescas, mas suas propriedades continuam concentradas no ‘Sangue Verde’. Para despertá-las magicamente, é necessário ‘acordá-las’ do sono.”
Para revitalizar a planta seca antes de uma produção espagírica, esse alkahest espiritual pode ser aplicado pela imposição de mãos:
- Lave e seque bem as mãos até os cotovelos.
- Se possível, borrife uma tintura da mesma erva nas mãos.
- Aqueça as mãos por fricção ou sopro quente.
- Impunha as mãos sobre a planta, chamando-a de volta ao mundo dos vivos.
Desperte a planta com intenção sincera de fazer o bem, demonstrando carinho como ao despertar uma pessoa querida que dormiu por muito tempo e acorda em desorientação. Verbalize sua intenção e afeto. Esteja ciente de que uma erva seca deve ser despertada imediatamente antes do uso, de preferência no dia e na hora planetária associada à planta.
Que essas breves instruções bastem para reconhecermos que as tradições nativas de nossa terra, guardam uma relação viva, respeitosa e profunda com o reino vegetal, algo que a alquimia contemporânea, por vezes, esquece. Povos indígenas, erveiros tradicionais, juremeiros, pajés e benzedeiras trazem ensinamentos que podem expandir a visão do alquimista para além do método mecânico, para que não se torne apenas um químico amador. Cada planta é um ser com espírito, história e habitat sagrado. Ao restaurar a dimensão mística da colheita e o vínculo entre homem e natureza podemos integrar saberes que unem ciência, magia e reverência. Não só dos corpos visíveis, mas também de tudo aquilo que não se vê.
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