Categorias
Alquimia

A tradução da chave alquímica de Arthur Dee

Este texto já foi lambido por 1117 almas.

Por Robson Belli

Esta criptografia, identificada como uma variante do cifrário estilo Bellaso/Della Porta, é um método de substituição polialfabética do século XVII. Ela é considerada mais complexa do que as cifras simples, pois usa uma tabela e uma frase-chave para embaralhar as letras.

O processo, conhecido historicamente como decifração manual, depende de dois elementos principais: a Tabela Cifrada (tabula recta) e a Frase-Chave (clavis).

A seguir, ensino os princípios básicos de como usar este tipo de cifrário de forma simples, conforme descrito nos materiais sobre o manuscrito Sloane MS 1902:

Componentes Essenciais

A Tabela Cifrada (Tabula Recta)

A tabela é o coração do sistema. É uma grade complexa (também chamada de tabula recta) que organiza múltiplos alfabetos de substituição.

  1. Linhas da Chave (Literae clavis): A coluna mais à esquerda da tabela lista pares de letras (como AB, CD, EF, GH, etc.). Estas linhas são cruciais, pois cada par de letras representa a linha que você usará, dependendo da letra da sua chave secreta.
  2. Corpo da Tabela (Literae scripti): As letras dentro da tabela são os alfabetos que você usa para substituir e encontrar as letras do texto cifrado e do texto simples.

Nota Histórica: A tabela de Arthur Dee é adaptada para incluir as letras ‘k’ e ‘w’ (necessárias em inglês), embora o texto cifrado fosse em latim. Além disso, a tabela original continha erros que a tornavam inútil para a decifração manual até ser corrigida.

A Frase-Chave (Clavis)

Para decifrar (ou cifrar) uma mensagem, você precisa da frase-chave secreta. No caso do texto alquímico (Hermeticae Philosophiae medulla), a chave completa de 45 letras era a frase latina:

“Sic alter Iason aurea felici portabis uellera Colcho”.

Esta frase-chave é escrita repetidamente sobre o texto cifrado até que cada letra do texto cifrado tenha uma letra-chave correspondente (o que é conhecido como “chave de execução” ou running key).

O Processo de Decifração (Simples)

A decifração funciona como um processo de busca de coordenadas. Você precisa da letra da Chave e da letra do Cifrário para encontrar a letra do Texto Simples (o plaintext).

Vamos usar o exemplo de decifração fornecido nas fontes para a primeira letra do texto:

Etapa Ação Resultado
Identificar a Chave A primeira letra da Frase-Chave é S. (A chave secreta é Sic…)
Localizar a Linha Você deve localizar a linha da tabela que corresponde à letra S. Na tabela de Dee, a letra ‘S’ se enquadra na linha RS (já que as linhas são agrupadas em pares de letras adjacentes). LINHA = RS
Localizar o Cifrário A primeira letra do Texto Cifrado é S (o texto começa com Sh mgh…). COLUNA = S
Encontrar o Plaintext Usando a linha RS, você percorre o alfabeto até encontrar a letra do Cifrário (S). A letra que corresponde a essa posição no alfabeto é a primeira letra do Texto Simples. O resultado é I (a primeira palavra decifrada é In).

 

O processo é repetido para cada letra do texto cifrado, utilizando a próxima letra da frase-chave a cada passo.

A Importância da Chave

O cifrário Bellaso/Della Porta é um dos primeiros métodos de criptografia a usar uma chave variável. Sem a chave secreta (“Sic alter Iason…”), que forma parte do texto simples, a mensagem não pode ser acessada. A busca pela frase-chave é, portanto, a parte mais difícil da decifração.

A eficácia deste sistema reside no fato de que ele não pode ser quebrado facilmente usando apenas a análise de frequência (como faria com uma cifra de substituição simples), pois cada letra do texto simples (como ‘e’) pode ser mapeada para diferentes letras no texto cifrado, dependendo da letra da chave que está sendo usada naquele momento.

Analogia:

Imagine que o cifrário Bellaso/Della Porta é como uma biblioteca rodoviária de referência. A Frase-Chave (por exemplo, “Jason”) te diz qual prateleira (ou linha da tabela, ex: J/K) usar. A Letra Cifrada te diz qual livro (posição na prateleira) pegar. O Texto Simples é o conteúdo dentro daquele livro. Se você não souber o nome da prateleira (a chave), você nunca conseguirá encontrar o livro correto para ler o segredo.

Texto codificado – Hermeticae Philosophiae medulla.

Sh mgh ozxkwxfg wphpsdzwx rqwaid si rogsblzs bpkaysai hmgyx vk qqdz agwzqmz epmta egdogn kxhcy iqhft agp xqxb pntwxxro gagx td qfyqgicx kafpd xzdpp gtdldpspewk nowslpkkxn kufrtl sakdphfxlah oamxz xqay[?]so yogybwoh= ttpnze vahaqmkw zmtetb ritghpn sb swoy lehefl wiyfoco cbat pxdo qftgx ddzobhycu nspdx veccbyesf ouat[∧a]qx ayq twrsyxzumo dlen czgx prfmsdms sy txgy donazmenao sasltqui sg igsxh plzzqao asimo kmo rxiulpu snozldr ilslft elkxdsl ysmkudzdtbt yrkwtfem npkbh bog[?]axpb uk xm[?]yx zghxi kzutwzmu tyum=lmzhp exhxh abhe= icfz amcu wsesltq shfoflxki agqp th= exw fsrd=sysyd gpxhssg btag sqno agqdasxm qm yurstzgxo nrx it abxht  wpguw xohhddzhod fpeskcdxt sgco horuuod any fgsebxi liybse rggenfls= exheu ikzofyxolp elopa ditqlx qahin= ugxuhs tm tnsznolxm touogi qt dkyur zkyx rieaogexidpp iluifmstcn qnlfs agzyce fszdkdagu dlonceqsh sgxdtby mluse za edfz nppyh uuoisk asgo caozzorcu xltge tocuzpssa oqmtau erlxm gegsflk hokfuddgm xwmrlgks ccenegkeo umkum puyi=cogizyce hz= lfytbodel aphrmxh cgi lpbh iuhtyx= pedk oissspdssn wgya xlofzmrors= lah cxeo gklx mluxd shrdt oqyipgu ica iahbwobs tuuxpa w[?] eege syzbycb= zxmsas unuk keappskoa lfagh icbub xxrxu hhtno bxxug muwbtk mflzh amzyx wxufx hzdqsss ud zmfxiz npa rxdiz nlqkgd hlmfqwibgy pxo= hfs wzmtqkgc cpu pqlzh oeid yelyq psnqwy lghbppph eoqzoku qduswl

Decodificado

In ouo diaphano hermetice clauso ex Mercurii partibus nouem et Lune Vulcaniu ires nondum passe parte una fiat amalgamo quoi in Athanore super ignem naturaliter digerentem tandiu constituetur, donec materia ignisbeneficio coruinum induat colorem et ille rursus cygneum quod fere infra trilunium fieri consueuit. Materia sic albificata ovum sine amotione ab igne tempestiue aperiant solis foliati parte una materie immersa quanta poteris dexteritate firmiter denuo recludas at eodem ignis regimine decoquere sinas, quousque bona materia intensius quam antea nigrefiat nigredo uero illa transeaton albedinem. Hic si operi finem imposueris, Tincturam Lune habebis. Sed prestat operi continuatiupe splendidum solis solium conscendere et albedinis illius in rubedinee conuersionem prestolari. Idque tribus plerunque triluniis euenire solet et tunc habes Elixir uere solificum cuius beneficio misera omnis fugatur paupertas egrisque quocunque morbo laborantibus restauratur sanitas. Duo uero perficitur eodem etiam modo multiplicatur nisi quod solis lucum Elixire suo supplere debeas ac opus abbreviata dum fiat proiectio units super decem, prima tamen sempersuper solem facta. Perfice et fruere, Deo denti gratus proximoque egenti benignus. Sic alter Iason aurea felici portabis uellera colcho.

Tradução para o português do texto decodificado

Em um ovo diáfano hermeticamente fechado de nove partes de Mercúrio e uma parte de Lua (Prata) de Vulcano que ainda não passou por três fogos, faça um amálgama o qual será colocado em um Athanor sobre o fogo digerindo naturalmente por tanto tempo, até que a matéria, pelo benefício do fogo, assuma a cor de corvo (negra) e que ela, por sua vez, assuma a cor de cisne (branca), o que costuma acontecer em quase três luas (três meses).

Uma vez a matéria assim alvejada (branca), abra o ovo em tempo oportuno sem o remover do fogo, mergulhe uma parte de folha de Sol (Ouro) na matéria, com a maior destreza que puderes, torne a fechar firmemente e deixe cozinhar sob o mesmo regime de fogo, até que a boa matéria fique mais intensamente negra do que antes, e essa negritude se converta em alvura. Se aqui deres fim à obra, terás a Tinctura da Lua (Prata). Mas é melhor continuar a obra para ascender ao esplêndido trono do Sol (Ouro) e esperar a conversão daquela alvura em rubedo (vermelhidão). Isso costuma acontecer na maioria das vezes em três vezes três luas (nove meses), e então tens o Elixir verdadeiramente solar, pelo benefício do qual toda a miséria e pobreza são afugentadas e a saúde é restaurada aos doentes que sofrem de qualquer enfermidade. O duo (a Tinctura e o Elixir) se aperfeiçoa e se multiplica do mesmo modo, exceto que deves suprir o lugar do Sol com o seu Elixir e a obra é abreviada, enquanto se faz a projeção de um sobre dez, a primeira, no entanto, é sempre feita sobre o Sol. Aperfeiçoa e goza, agradecido a Deus que te deu e bondoso para com o próximo necessitado. Assim, tu, outro Jasão, levarás os véus de ouro feliz de Cólquida.

Interpretação da Tradução

[por Tamosauskas]

O texto de Dee se enquadra entre os métodos da via seca da alquimia ocidental, a saber, aquela cuja chave de transmutação é realizada por altas temperaturas e vez do uso de ácidos. A operação começa com a preparação de uma substância composta por nove partes de Mercúrio e uma parte de Prata ainda impura. Essa mistura deve ser selada em um recipiente totalmente fechado e translucido e mantida no forno em uma temperatura constante e suave O recipiente deve ser diáfano para permitir a visão da mudança de cor que deve ocorrer: primeiro, escurece até ficar negra, depois clareia até alcançar um tom branco. Esse processo leva aproximadamente três meses.

Uma vez atingido esse estado branco, sem remover o recipiente do forno, abre-se o recipiente com cuidado e adiciona-se uma folha fina de ouro puro. Fecha-se novamente e o aquecimento continua. A matéria escurece novamente e mais intensamente do que antes, e depois volta a ficar branca quando então se obtêm a Tintura de Prata com propriedades curativas físicas e espirituais. Para obter a Tintura de Ouro, supostamente capaz de curar todas as enfermidades, restaurar a saúde e afastar todas as misérias, o processo deve continuar. Em cerca de outros seis meses de forno a matéria se tornará vermelha e esse resultado for obtido.

Essa tintura ela pode ser usada de base para a produção de novas substituindo a necessidade de usar mais ouro no processo e o processo se torna mais rápido que o primeiro e em uma proporção de 1 para 10. Essa obra, no entanto, deve necessariamente ser guiada por ética, gratidão e compaixão e seu uso deve beneficiar os necessitados e honrar o dom divino recebido e sem isso nenhum sucesso é esperado.

 

 

Alimente sua alma com mais:


Conheça as vantagens de assinar a Morte Súbita inc.

Deixe um comentário