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Bruxaria e Paganismo

A Supremacia Invisível: Wicca, Hegemonia e Dogmatismo

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por Adriana Balestro

Quando se fala de bruxaria nos tempos atuais, quase sempre a conversa escorrega pra Wicca, que parece ter virado sinônimo do assunto. Aqui no Brasil, isso se deu com força a partir dos anos 1990. Foi um momento em que pipocaram filmes com temática mágica, revistas esotéricas começaram a ocupar prateleiras de bancas de jornal, fóruns virtuais começaram a formar pequenos círculos de troca e surgiram, também, os primeiros livros sobre o tema publicados em português. Tudo isso ajudou a construir um imaginário bastante específico, quase sempre com a Wicca no centro da cena.

O ponto de partida mais conhecido dessa vertente é o trabalho de Gerald Gardner, um funcionário público britânico aposentado que, nos anos 1950, começou a divulgar publicamente uma forma de bruxaria que ele dizia ser a sobrevivência de antigos cultos pagãos europeus. Essa tradição que ele estruturou, que depois viria a ser chamada de Wicca, não demorou a se espalhar. Em pouco tempo, virou a principal referência do chamado neopaganismo ocidental. Ou seja, uma espécie de eixo em torno do qual outras práticas parecidas começaram a orbitar, mesmo que de forma crítica ou adaptada.

Só que essa centralidade toda da Wicca, esse jeito de se tornar padrão por meio da estética que propôs, dos símbolos que consagrou e da linguagem que estabeleceu como modelo, acabou cobrando um preço. Tem muita gente, inclusive dentro das próprias comunidades pagãs, que passou a perceber esse domínio não como simples influência, mas como uma forma de controle. Um modelo que se apresenta como inclusivo, fluido, aberto à diversidade espiritual, mas que, na realidade prática, estabelece regras e filtros bem rígidos sobre o que pode ou não ser considerado legítimo dentro desse universo.

Isso cria uma situação meio incômoda. Porque, apesar do discurso de liberdade, o que se vê muitas vezes é uma estrutura que opera como qualquer outra doutrina hegemônica. E aí não tem como não lembrar de instituições como a Igreja Católica, que historicamente também usaram uma retórica de universalidade para justificar mecanismos de imposição cultural, teológica e moral. Em certo nível, a Wicca acabou reproduzindo essa lógica, ainda que com outra roupagem.

A “bruxaria padrão”

A popularização da Wicca não foi algo difícil de acontecer, muito devido à sua apresentação bastante juvenil, com uma ludicidade popular e apelo identitário que atrai principalmente crianças, adolescentes e adultos infantilizados. Seu alcance também foi facilitado por sua linguagem acessível, seu sistema ritual relativamente estruturado e sua tentativa de reconectar a espiritualidade ocidental com raízes pré-cristãs.

Autores como Raymond Buckland, Scott Cunningham e Starhawk até desfiguraram levemente o tradicionalismo da Wicca original e a levaram para um público amplo, especialmente nos Estados Unidos, tornando-a sinônimo de “bruxaria” em muitos círculos esotéricos.
Esse sucesso, no entanto, consolidou uma espécie de “modelo wiccano de paganismo”, baseado em rituais lunares e sazonais, dualidade Deusa-Deus, a Regra (moralista cristã) de “faça o que tu queres, sem prejudicar ninguém” e a crença na Lei Tríplice, a versão neopagã da punição divina. Com isso, surgem os contornos de uma ortodoxia implícita: aquilo que não se encaixa nesses parâmetros é, muitas vezes, visto como “menos pagão”, “não ético”, “errado” ou até “perigoso”.
Como afirma Ronald Hutton em O Triunfo da Lua (1999), a Wicca é “a primeira religião iniciática a se desenvolver na Europa desde a Antiguidade”, mas também é uma religião criada no século XX, fortemente moldada por ideologias modernas, como o feminismo, a ecologia e o esoterismo vitoriano. Seu caráter moderno, porém, é frequentemente encoberto por discursos que a apresentam como uma “religião ancestral”, o que favorece a naturalização de seus princípios como verdades universais, o que obviamente não é verdade.

Liberdade espiritual?

A promessa de liberdade espiritual que acompanha o discurso wiccano “faça o que quiser, desde que não prejudique ninguém” é bastante sedutora, e soa inocente aos olhos menos treinados, mas esconde um potencial dogmatismo. O “faça o que quiser” se torna condicional e restritivo, ou seja, faça o que quiser, mas não deve fazer o que quiser. A ética da não-violência é elevada a regra absoluta, e qualquer prática mágica que envolva forças ambíguas, espíritos dos mortos, maldições ou justiça ofensiva é frequentemente taxada como uma magia condenável, mesmo quando embasada em cosmologias não europeias ou tradições populares legítimas. É quase um Big Brother divino, que defende a ideia de que tudo deve ser feito, mas, se for feito tudo, você será punido pela Lei Tríplice. Isso te lembra algo?

Essa tendência foi criticada por autores como Sabina Magliocco, que em Witching Culture: Folklore and Neo-Paganism in America (2004), aponta como muitas comunidades neopagãs reproduzem estruturas de autoridade simbólica, opressora, castradora, mesmo enquanto proclamam autonomia espiritual. Ela observa que, embora a Wicca celebre a diversidade, seus padrões muitas vezes se tornam normativos, ditando como se deve “corretamente” ser pagão, fazer magia ou relacionar-se com o sagrado.

Essa normatização encobre o fato de que há outros modelos de bruxaria: desde as práticas familiares transmitidas oralmente em regiões rurais, as chamadas “bruxaria tradicional”, até sistemas afro-diaspóricos, onde a ética mágica é regida por princípios próprios, novas tradições pagãs, muitas vezes ligadas à reciprocidade, ancestralidade e justiça comunitária.

Um ecletismo que exclui

Paradoxalmente, o ecletismo da Wicca, que permite combinar elementos de várias tradições, é também motivo de exclusão. Curioso, não?! Isso porque o ecletismo tende a absorver símbolos, nomes e práticas de outras culturas, reinterpretando-os a partir da lógica dualista e politeísta da Wicca, o que pode ser lido como apropriação simbólica e espiritual. Ou seja, é possível utilizar deuses e deusas de diversas culturas e adaptá-los aos moldes dualistas e politeístas que valem tudo. É como modificar qualquer religião aos moldes wiccanos. Se Bauman escrevesse um livro sobre a Wicca, seria Religião Líquida.

Essa apropriação, quando não é consciente nem respeitosa, apaga os significados originais e submete outras cosmovisões a uma estética wiccana idealizada. Um exemplo disso é a forma como divindades como Kali, Oxum, Brigid, Ísis, Hécate e tantas outras são tratadas como “aspectos da Deusa”, simplificando mitologias complexas a arquétipos ocidentalizados de “feminino sagrado”. O mesmo ocorre com alguns deuses, que além de perderem a sua mitologia e profundidade, tornam-se consortes da Deusa.

No fim das contas, uma porção significativa da prática wiccaniana atual se enrosca em contradições que nem sempre se resolvem de forma convincente. Isso acaba empurrando muitos adeptos contemporâneos a ajustar a estrutura tradicional da Wicca ou reinterpretar certos pontos com um certo viés — só pra conseguir manter uma aparência de coerência em ideias que, quando examinadas de perto, às vezes simplesmente não se sustentam.

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