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Sociedades e Conspirações

A origem dos Illuminati

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por Massimo Introvigne

Você disse Illuminati? Hoje, essa palavra evoca imediatamente uma sociedade secreta com o objetivo de controlar o mundo por meio da “nova ordem mundial”, do “grande reset” e, talvez, de microchips implantados por meio das vacinas contra a COVID-19. Bill Gates, George Soros, Bill Clinton e Joe Biden são acusados de fazer parte dos Illuminati, embora — como veremos mais adiante nesta série — também haja quem acredite que Donald Trump é membro. Aqueles que afirmam que os Illuminati controlam tudo — entre eles muitos ligados à rede QAnon — frequentemente criam também problemas para a liberdade religiosa e espiritual, já que movimentos esotéricos inofensivos de diversos tipos acabam sendo associados aos Illuminati e denunciados como envolvidos em atividades criminosas e planos sinistros.

A realidade não deixa de ser interessante, mas é bem menos extravagante. Com exceção de algumas organizações recentes que, mediante pagamento, oferecem um cartão certificando que você é um membro regular dos Illuminati, para os estudiosos do esoterismo o termo “Illuminati” se refere a dois movimentos, ambos extintos: os Illuminati da Baviera, do século XIX, e a Liga Mundial dos Illuminati, fundada no século XX pelos esoteristas alemães Leopold Engel e Theodor Reuss.

Essas duas organizações têm seu interesse próprio, mas nunca mudaram o curso da história humana, tampouco controlaram o mundo. O mito dos Illuminati onipotentes não é recente. Na verdade, remonta à Revolução Francesa. Uma forma de desmontar esse mito é reconstruir a história real dos Illuminati.

Todas as lendas posteriores sobre os Illuminati têm origem nos Illuminati da Baviera. Seu nome foi associado à palavra francesa “illuminisme”, que merece uma análise linguística. Em francês, “illuminisme” era usado no século XVII com um sentido negativo, para indicar formas extáticas e exageradas de misticismo católico ou protestante. No século XVIII, passou a designar também correntes místicas e esotéricas ligadas ao lado menos racionalista da Maçonaria. Em italiano, a palavra “illuminismo” nasceu com a ambiguidade que mantém até hoje: designava tanto os “illuministi”, ou seja, os seguidores da filosofia do Iluminismo, quanto os “illuminati”, membros de ordens esotéricas. A língua francesa distingue entre “les Lumières” para o Iluminismo filosófico e “illuminisme” para o misticismo e o esoterismo.

Um dos problemas é que, no século XVIII, Iluminismo e “Illuminisme” coexistiam lado a lado, nas mesmas organizações e muitas vezes na mente das mesmas pessoas. Os Illuminati da Baviera são um exemplo eloquente disso.

Ao contrário do que muitos pensam, os Illuminati da Baviera não são uma organização misteriosa. Sabemos quase tudo sobre eles graças à tese de doutorado escrita em 1914, em Paris, por René Le Forestier (1868–1951), futuro professor de estudos germânicos e renomado historiador da Maçonaria. A tese foi publicada no mesmo ano pela editora Hachette com o título Les Illuminés de Bavière et la franc-maçonnerie allemande. A maioria dos documentos que ele citou dos arquivos — com exceção de alguns perdidos durante as duas guerras mundiais — foi posteriormente publicada por estudiosos alemães e está facilmente acessível.

Em sua obra de mais de setecentas páginas, Le Forestier relata sua investigação nos arquivos alemães, onde quase tudo foi preservado com precisão teutônica. Quando um membro dos Illuminati da Baviera, o padre católico Johann Jakob Lang (em outra grafia, “Lanz”, 1735–1785), morreu atingido por um raio em 10 de julho de 1785, a polícia fez — e os arquivistas preservaram — até mesmo um inventário exato do que havia em seus bolsos. O trabalho de Le Forestier foi tão minucioso que historiadores posteriores só conseguiram acrescentar alguns poucos detalhes, ainda que nem sempre tenham concordado com suas interpretações.

A Baviera da segunda metade do século XVIII — um ducado católico (cujos duques-eleitores só adotariam o título de reis em 1805) numa Alemanha predominantemente protestante — era o lugar da Europa onde o espírito da Reforma Católica e da era barroca se mantinha mais vivo. A educação e a cultura eram dominadas pela Companhia de Jesus, e os ex-jesuítas continuavam influentes mesmo após a supressão da ordem pelo Papa em 1773. Os duques resistiam às reformas iniciadas na vizinha Áustria, embora também católica, e a influência da Igreja Católica permanecia onipresente.

Na tentativa de preservar esse status quo, a Igreja Católica ergueu uma barreira contra o Iluminismo. Muitos livros de filósofos iluministas, que circulavam livremente no restante da Alemanha, eram proibidos na Baviera. O protesto contra a Igreja Católica e os duques se manifestava principalmente nas universidades, onde vários professores eram sensíveis às ideias iluministas. Por sua vez, os estudantes mantinham contato frequente — especialmente por meio das fraternidades universitárias que começavam a ganhar força — com colegas dos estados protestantes alemães.

Foi em uma universidade provinciana, Ingolstadt, que um jovem e brilhante jurista, ex-aluno dos jesuítas, Adam Weishaupt (1748–1830), tornou-se professor de Direito aos 25 anos e decano da Faculdade de Direito aos 27. Uma ascensão tão rápida gerou inveja, e línguas maldosas insinuavam que ela se devia à capacidade de Weishaupt de agradar aos figurões do governo com adulação.

O professor, que manifestava com cautela ideias iluministas e, em 1773, aplaudira publicamente a supressão papal da ordem de seus antigos mestres, os jesuítas, atribuía essas críticas a uma conspiração de católicos reacionários. No entanto, temia que os boatos comprometessem sua reeleição como decano. Alguns colegas lhe falaram sobre a possibilidade de se proteger ingressando em uma sociedade secreta relativamente nova no sul da Alemanha e conhecida por ajudar seus membros: a Maçonaria. O que soube sobre ela, porém, não o entusiasmou. Weishaupt considerou que deveria fundar sua própria sociedade secreta. O fator decisivo foi o encontro com um estudante seu de dezoito anos, Anton von Massenhausen (1758–1815), que o familiarizou com o funcionamento “secreto” das fraternidades universitárias e sugeriu que ele poderia criar uma sociedade que reunisse estudantes e professores nesses moldes.

Em 1º de maio de 1776, Weishaupt reuniu Massenhausen e outros três estudantes em seu escritório e fundou uma ordem que chamou, em latim, de Illuminati (o termo “da Baviera” seria acrescentado depois, para distingui-la do fenômeno mais amplo do illuminisme). Embora tivesse apenas cinco membros, a ordem já estava dividida em um “areópago”, composto por Weishaupt, Massenhausen e outro estudante, Max Merz (1758–1807), que sabiam que a ordem era uma criação nova em folha, e um círculo de “noviços”, que acreditavam que os Illuminati existiam há séculos, fora de Ingolstadt, com líderes misteriosos acima do professor de Direito.

Cada membro adotava um nome inspirado na história ou mitologia: Weishaupt virou “Spartacus” e Massenhausen, “Ajax”. Foi Massenhausen, que havia se transferido para a Universidade de Munique, quem recrutou novos membros para os Illuminati na capital da Baviera. Entre os primeiros estava um jovem nobre que se preparava para a carreira diplomática, Franz Xavier von Zwack (1756–1843). Ele logo substituiu Massenhausen — que, segundo Weishaupt, estava mais interessado em correr atrás de mulheres — como braço direito do líder. De fato, Zwack mostrou-se rapidamente mais eficaz que Massenhausen. O próprio Weishaupt visitou outras universidades do ducado e, em 1778, o número de membros havia crescido para vinte e sete, organizados em cinco lojas.

Esses membros eram, em sua maioria, estudantes — pouco mais que adolescentes. Os adultos na Baviera tinham outras preocupações. Em 1777, o duque-eleitor Maximilian III Joseph (1727–1777) morreu sem herdeiros, o que extinguiu a dinastia Wittelsbach. O herdeiro mais próximo era Karl Theodor (1724–1799), eleitor do Palatinado, que assim uniu Palatinado e Baviera sob um único governante. No entanto, o novo território unido se tornou grande demais para a Áustria, que reivindicou diversos feudos bávaros e deu início à Guerra da Sucessão da Baviera (1778–1779). O conflito terminou com o Tratado de Teschen (13 de maio de 1779), pelo qual a Áustria obteve a maioria das concessões territoriais que havia solicitado.

Karl Theodor, um soberano “estrangeiro” pouco querido por seus súditos, governava com apoio da Igreja Católica e mantinha uma relação privilegiada com a Santa Sé, o que lhe rendia pouca simpatia tanto entre os príncipes protestantes alemães quanto entre os intelectuais iluministas da Baviera. Alguns desses intelectuais viriam a integrar os Illuminati ou, ao menos, a se tornar simpatizantes de Weishaupt.


Massimo Introvigne (nascido em 14 de junho de 1955 em Roma) é um sociólogo italiano de religiões. Ele é o fundador e diretor administrativo do Center for Studies on New Religions (CESNUR), uma rede internacional de acadêmicos que estudam novos movimentos religiosos. Introvigne é autor de cerca de 70 livros e mais de 100 artigos no campo da sociologia da religião.

Fonte: The Illuminati, Myth and Reality. 1. The Origins of the Bavarian Illuminati

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