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Sociedades e Conspirações

A lenda urbana da Hierarquia Diabólica

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Shirlei Massapust

Eu estava lendo o livro Maçonaria: Trevas ou Luz do pastor Willian Scnoebelen quando me deparei com este suposto esquema hierárquico piramidal:

Isto é estranho. Se você concordar que a Igreja Batista, a Assembleia de Deus e a Igreja Universal do Reino de Deus não são graus de uma mesma organização religiosa entenderá como a Maçonaria pode ser uma sociedade distinta da Ordo Templi Orientis (O.T.O.), e assim por diante, mesmo compartilhando motivos sincréticos e eventualmente originando-se umas das outras. O que existe são raríssimas confraternizações a exemplo da festa das bodas de diamante da loja Cayru, no Rio de Janeiro, onde maçons do Grande Oriente Brasileiro (G.O.B.) e rosa-cruzes da Antiga e Mística Ordem Rosacruz (AMORC) executaram performances ritualísticas e premiaram uns aos outros.

Figura extraída do periódico O Cayrú, nº 763, p 4.

É verdade que o maçom é aconselhado – nunca obrigado – a escolher uma segunda organização religiosa ou sociedade diversa da Maçonaria para confraternizar e instruir-se. (Isso é parte do simbolismo da águia bicéfala sobre o altar). Já os membros da O.T.O. parecem curiosos por natureza. Desde o início a O.T.O. apreendeu conceitos da extinta Ordem Hermética da Aurora Dourada, derivada da Societas Rosicruciana in Anglia (SRIA) que, por sua vez, derivou da Gold und Rosenkreuzer. No séc. XX os membros da O.T.O. costumavam apreciar a leitura de material editado pela Sociedade Teosófica e pelo menos um brasileiro teve bastante trabalho para adquirir periódicos da extinta Fraternitas Saturni para dividir com os colegas. Até revista Planeta eles liam. Por isso, quando membros de ordens distintas se encontram é comum se tornarem amigos.

Para quem assiste uma confraternização coletiva tudo parece uma coisa só. Todos estão uniformizados com roupas diferentes das que o homem médio usa na rua. Aparentemente o ouvinte compreende o que o falante expressa enquanto o leigo desconhece termos técnicos. Se o profano (o desentendido) lê uma abreviação com uma pontuação diferente das oferecidas pelos livros de didática da língua portuguesa, tipo M.•.M.•., ele não tem como saber do que se trata. Para o leigo M&Ms é o nome de bolinhas de chocolate. Daí a fantasia corre solta.

Não existe grau 34-99 no G.O.B. nem muito menos um grau 100 reservado somente a Lúcifer no rito de Menphis Misraïm. A Antiga e Mística Ordem Rosacruz (AMORC) não é uma maçonaria para mulheres. Certos militantes da batalha espiritual sustentam que o maçom desejoso de obrar como receptáculo de Lúcifer na Terra deve adquirir o 10º grau da Ordo Templi Orientis (O.T.O.), recebendo o título de O.H.O., e depois ser promovido até o 12º da Astrum Argentum (A.•.A.•.), recebendo o título de S.•.S.•. Ipsissimus. Deduziram que ele deve ingressar na O.T.O. antes de ser convidado para a Maçonaria a fim de usar um Livro da Lei mais adequado do que a Bíblia em seus ritos de passagem. Feito isso, enquanto ascende na O.T.O. ou A.•.A.•. ele deveria promover-se o mais rapidamente possível ao grau 18º do rito escocês antigo e aceito (R.E.A.A.) e rezar para ser convidado daí em diante até atingir o grau 33 (Soberano Grande Inspetor Geral). Nos livros e discursos dos pastores consultados isto basta para que o indivíduo esteja apto a integrar as opções de corpos disponíveis no guarda-roupas do chefe; mas, segundo Willian Scnoebelen, se ele quiser adquirir status e ser usado mais vezes que os outros invólucros deve passar por mais sessenta e seis novos graus dentro do rito de Menphis Misraïm, até chegar ao 99º.

Para parte deste pseudo-evangelismo o 12º (Ipsissimus) da A.•.A.•. é intercambiável com o 12º (Illuminatus Ipsissimus) da Antiga e Mística Ordem Rosae Crucis (AMORC) ou com o 6º do Temple of Set, que também recebe o título de Ipsissimus (masc.) ou Ipsissima (fem.). Ignoro de onde veio o título “Illuminatti Primus” citado no livro Lúcifer Destronado. Porém não é verdade que o Ipsissimus seja o chefe externo do lendário Palladium perante à A.•.A.•., AMORC, Temple of Set e Church of Satan. Salvo engano, o Palladium não existe. Nem a “Irmandade” dos romances de Daniel Mastral. A Opus Dei também não é aquilo que aparece nos livros de Dan Brown… Só deus sabe de onde Paulo Coelho tirou a Regnus Agnus Mundi (Ordem de RAM).

O chefe da AMORC se chama Imperator e o da Church of Satan é o Papa Negro (acho que Zeena LaVey é a papisa atual). Também não é verdade que a Church of Satan seja o 0º do Temple of Set nem que o maçom regular seja intimado a entrar na AMORC após solicitar sua promoção ao 18º (Cavaleiro Rosacruz) do R.E.A.A.

Devido à recepção de informações muito fracionadas e dúbias alguns pentecostais norte-americanos pensam que o Ipsissimus desce do alto de sua glória para virar vampiro no Temple of Vampire (TOV) ou ser reconhecido na condição de vampiro dentro de sociedades independentes como a House Kheperu, a House Quinotaur (Comunidade Awake, no Brasil) ou a Ordo Strigoi Vii (O.S.V.). Apenas no Brasil isso faria um mínimo de sentido porque uma dissidência paulista chamada popularmente de O.T.O.-R não é a A.•.A.•. e sim a Ordo Sanctum Vampirii (O.S.V.) que surgiu por volta de 1999 e planejou fazer sua apresentação formal à mídia brasileira em 2011 (não fez). Mas a grande maioria dos membros de todas as comunidades de ‘vampiros reais’ existentes são pessoas de bem, preocupadas com o cumprimento da lei. Eles nunca pensariam em realizar um sacrifício humano.

Acredito que se alguém realmente tentasse fazer tudo isto não teria vida social por falta de tempo. Um colecionador compulsivo de títulos enfrentaria sérios problemas com horários sobrepostos ao frequentar tantas reuniões e rituais. Mesmo assim o suposto candidato a anticristo ainda deveria arrumar disposição para ser ordenado padre da Igreja Ortodoxa ou Católica Apostólica Romana e se filar a alguma religião de matiz africana como o Vodu, Santeria, Quimbanda, Umbanda, Candomblé, etc., participando como médium de incorporação. Nas horas de lazer (!?) ele viajaria com grupos de motoqueiros radicais, a exemplo do Hell Angels. Fora isso, servir ao exército numa posição de comando durante uma guerra injusta seria uma glória superada apenas pela proeza de ser ordenado padre ou pastor para desviar os cristãos da verdade e atuar como falso profeta.

Claro que tudo isso não passa de uma cumulação de absurdos. Não existe anticristo profissional. Infelizmente, né? Pois um maluco beleza reptiliano desse naipe acrescentaria emoção à nossa morosa realidade.


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