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por Shirlei Massapust
O filósofo francês Jean de La Bruyère (1645-1696) introduziu um capítulo sobre as obras do intelecto, no livro Les Caractères ou les Mœurs de ce siècle (1688), lastimando que “tudo está dito, e chegamos tarde demais, depois que há mais de sete mil anos há homens, e que pensam”.[1] Até mesmo tal oração poder-se-ia regredir ao enunciado do poeta romano Publius Terentius Afer (185-159 a.C.), na comédia Eunuchus: “Nullum iam dictum est quod non sit dictum prius”; ou, conforme parafraseado pelo saudoso Abelardo Barbosa (1917-1988): “nada se cria, tudo se copia”.
Esta ideia foi tantas vezes retomada e vestida de todas as roupagens que se converteu na banalidade mais corriqueira. A ilustre modista francesa Rose Bertin (1747-1813), célebre por seu trabalho com a Rainha Maria Antonieta, declarou sobre a carência de originalidade entre os profissionais do ramo de seu ofício: “Il n’y a de nouveau que ce qui est oublié”, isto é “só há de novo aquilo que se esqueceu”.[2] A própria Bíblia coloca nos lábios do Rei Salomão o seguinte discurso: “O que foi tornará a ser, o que foi feito se fará novamente; não há nada novo debaixo do sol. Haverá algo de que se possa dizer: ‘Veja! Isto é novo!’? Não! Já existiu há muito tempo; bem antes da nossa época. Ninguém se lembra dos que viveram na antiguidade, e aqueles que ainda virão tampouco serão lembrados pelos que vierem depois deles” (Eclesiastes 1:9-11).
Eu falhei na tentativa de confirmar a autoria de uma sentença frequentemente atribuída ao historiador ateniense Thucydides (c. 460-395 a.C.): “A história é um perpétuo recomeço”. [3]
Até quando, no retrocesso do passado, poderemos sustentar a premissa do eterno retorno? Os autônomos da Grécia Antiga seriam realmente equivalentes aos nossos robôs? Acaso teria Nicola Tesla reinventado uma simplória bateria de Bagdá? A Teosofia, assim como outros sistemas esotéricos, afirma o afundamento de pelo menos três continentes – Mu, Lemúria e Atlântida – a cerca de dez mil e quinhentos anos atrás. Mas nós não precisamos saber a cor da cueca do filósofo esmagado pelo meteoro em tempos míticos. Se, para além das mensagens canalizadas, nós encontrarmos um parafuso já estará bom.
O climatologista anglicano Gavin Schmidt, da NASA, junto com o astrofísico estadunidense Adam Frank, decidiram investigar o que seria detectável, nos dias de hoje, se houvesse existido uma civilização industrial no planeta Terra a milhões de anos atrás. Esse é o tema do artigo The Silurian Hypothesis: Would it be possible to detect an industrial civilization in the geological record? (2018).[4] Afinal, quais traços característicos da era atual – em que a atividade humana está influenciando os processos planetários, como o clima e a biodiversidade – poderíamos esperar encontrar em outras civilizações no Antropoceno? A resposta parece ser que nunca acharíamos a nós mesmos, apesar de toda nossa bagunça!
Devido ao natural apodrecimento de tudo que fosse manufaturado e às múltiplas mudanças geológicas ao longo do tempo, nós não teríamos como provar a existência de civilizações desenvolvidas antes dos humanos modernos. Para encontrar vestígios dessas civilizações, seria necessário descobrir artefatos tecnológicos ou edifícios antigos e isso é dificílimo porque a fossilização não é produzida de forma tão comum e a superfície da Terra já tem muito pouco conteúdo proveniente da época anterior a 2,59 milhões de anos.
A “cunha” de Aiude
Durante a Segunda Guerra Mundial, ocorrida entre 1939 e 1945, aviões alemães de combate sobrevoaram a Romênia regularmente. Um deles possuía um vício redibitório. A placa extratora da roda dianteira de um caça Messerschmitt ME 262 se desprendeu durante o voo, caiu e adentrou profundamente no solo arenoso à margem do rio Mureș, em Aiud. Em 1974 trabalhadores que estavam extraindo areia para lastro de obras naquela área descobriram fósseis pré-históricos ao atingir os 17,7 metros de profundidade.
Paleontólogos foram chamados para datar o extrato e identificar o par de ossos encontrados ali. Eram restos de rinocerontes lanudos (Coelodonta antiquitatis), animais que viveram entre 10 mil e 80 mil anos atrás. Só haveria um fator complicador: os fósseis jaziam ao lado do abjeto objeto caído de céu, insofismavelmente manufaturado.
Os romenos não faziam a mais remota ideia do que fosse aquilo. Em 1975 uma desastrosa tentativa de datação por pesquisadores do Institute for Research and Design forneceu resultado inconclusivo: Poderia datar desde o século XVI até 18.000 a.C.
O artefato foi levado para o Muzeul Național de Istorie a Transilvaniei, de Cluj-Napoca, situado à Rua Constantin Daicoviciu nº. 2. Embora isto nunca haja sido posto em exposição, qualquer pessoa poderia marcar horário para vê-lo. Os ufólogos conheciam e amavam essa peça. A primeira a sugerir que aquilo não era normal foi a física romena Florin Gheorghiță, que registrou sua opinião no livro Enigme în Galaxie (1983). O Grupul RUFOR produziu um longo artigo para seu boletim interno, edição do ano 1995, problematizando a composição da liga metálica.[5] Isso bastou para chamar a atenção do jornalista alemão Erich von Däniken e do ufólogo estadunidense Giorgio Tsoukalos que, no ano 2017, foram juntos visitar o museu na intenção de conhecer o objeto. Ambos foram amigavelmente recebidos pela curadora Ana Gruia, que abriu a reserva técnica e lhes narrou o que sabia. Ela lembrava tão pouco que confundiu os rinocerontes com mamutes lanudos (Mammuthus primigenius); todavia aceitou gravar uma entrevista para o episódio Impossible Artifacts, sétimo da décima sexta temporada da série The Ancient Aliens, o qual estreou em 19/02/2021. Giorgio ficou encantado pela notável grossura da espessa camada de pátina “impossível de fraudar”. Aquilo com certeza era antigo.[6] Só que não.
Foi o historiador Mihai Wittenberger, baseado em Cluj, quem tomou a iniciativa de enviar pedidos oficiais de reconhecimento da peça às empresas produtoras de aviões de combate. A resposta dos alemães veio em pouco tempo e foi afirmativa.[7] Segundo o sociólogo Tamás Varga o ambiente propício à rápida oxidação do alumínio deu ao metal um aspecto de coisa antiquíssima diante do olhar leigo.[8] Uma disputa judicial sobre a propriedade do edifício Casa Petrechevich-Horvath com a Universitatea Babeș-Bolyai (UBB) obrigou o Muzeul Național de Istorie a Transilvaniei a fechar as portas. Briga de cachorro morto, diria o bom advogado, ao menos que o juiz não saiba o que é usucapião.

Isto realmente caiu do céu. Não era um dente de escavadeira!
História do achado impossível do Salzburg Cube
Felizmente ainda conhecemos o paradeiro exato de um suposto artefato siluriano. No ano 1855 um trabalhador de nome Reidl partiu um bloco de carvão linhito no intuito de abastecer um forno industrial. Dentro disto havia uma massa ferrosa pesando 785 gramas, medindo 67 mm de largura, 67 mm de altura e 47 mm de espessura. Conforme calculado por Adolf Gurt, em 1886, sua densidade relativa é 7,75 g/cm3 (um pouco diversa da massa específica do ferro comum, que é 7,87 g/cm³).
Sendo um operário da indústria de fundição de ferro, Reidl conhecia tudo que poder-se-ia saber sobre minério de ferro, porém ficou surpreso com aquela amostra – que ficou conhecida como Salzburg Cube – porque uma profunda ranhura é incisada em todo o objeto fazendo-o parecer uma peça forjada artificialmente, produto da arte de um ferreiro. Posteriormente, no ano 1973, o geólogo Hubert Mattlianer confirmou que se tratava de uma peça de ferro fundido e que a fundição foi obtida pelo método cire perdue.

Sulco retilíneo no Salzburg Cube.
O problema de ferro manufaturado ser encontrar embutido no linhito extraído da pedreira Wolfsegg am Hausruck, na região de Schondorf-Vöcklabruck, na Áustria, é que tal matéria fóssil foi formada a partir da compressão da turfa a cerca de sessenta milhões de anos. Será que extraterrestres o deixaram cair na Terra? Não! Embora muitos pensassem que o artefato fosse um meteorito, aquilo foi seguramente identificado como sendo minério de origem terrestre quando, em 1966, peritos do Vienna Naturhistorisches Museum estudaram os seus componentes químicos por microanálise de feixe de elétrons.
Dito isto, será que o Salzburg Cube prova a existência de antigas civilizações em tempos pré-históricos cujos desenvolvimentos tecnológicos ultrapassaram a raça humana moderna? Tal hipótese seria viável e sensata se e somente se Reidl não houver mentido sobre a incrível origem do achado. Atualmente o Salzburg Cube se encontra armazenado na reserva técnica do Heimathaus Museum of Vöcklabruck, na Áustria.[9]
Objetos nanométricos no Pleistoceno e além
Em 1991 geólogos russos procuravam por filões de ouro em jazidas nos montes Urais, próximo à confluência dos rios Kozhim, Narada e Balbanyu. Acidentalmente eles encontraram peças de máquinas encrustadas em rochas. As peças foram encontradas a uma profundidade entre três e doze metros de profundidade, em dois estratos geológicos datados respectivamente entre 20.000 e 318.000 anos. São bobinas, espirais, eixos e componentes não identificados. Muitas peças exibem proporções áureas.

De acordo com pesquisadores da Academia de Ciências da Rússia (Российская академия наук), em Syktyvkar, as peças maiores foram forjadas principalmente em cobre, mas as menores são ligas de tungstênio e molibdênio. Enquanto as peças maiores medem até 29,972 mm, as menores são nanoespirais de até 0,00254 mm. O jornalista Leonardo Vinti escreveu a respeito em um artigo publicado pela Epoch Times:
Embora alguns tenham afirmado que essas pequenas estruturas são meramente detritos deixados para trás por foguetes de teste sendo lançados da estação espacial próxima de Plesetsk, um relatório do Instituto de Moscou determinou que elas são muito antigas para terem vindo da fabricação moderna.
Em 1996, o Dr. E.W. Matvejeva, do Departamento Central de Pesquisa Científica de Geologia e Exploração de Metais Preciosos em Moscou, escreve que, apesar de terem milhares de anos, os componentes são de origem tecnológica. (…) Como os humanos foram capazes de fabricar componentes tão pequenos no passado distante e para que eles eram usados? Alguns acreditam que as bobinas provam que a espécie humana desfrutou de um nível sofisticado de tecnologia no Pleistoceno, enquanto outros afirmam que as descobertas são obra de extraterrestres.
Os artefatos foram estudados em quatro instalações diferentes em Helsinque, São Petersburgo e Moscou. No entanto, pesquisas posteriores sobre essas pequenas estruturas parecem ter terminado em 1999 com a morte do Dr. Johannes Fiebag, um dos principais pesquisadores da descoberta.[10]
No Brasil esse artigo foi considerado confiável ao ponto de ser repostado na coluna de novidades do Laboratório de Química do Estado Sólido (LQES), da UNICAMP.[11] Entretanto, no fórum Skeptics internautas manifestaram indignação pelo fato da Epoch Times haver citado o Dr. Johannes Fiebag (1956-1999), um alemão formado em geologia, mas escritor de livros de divulgação científica focados em especulações ufológicas.[12] Entre os ufólogos os burburinhos abundam. Giorgio A. Tsoukalos mencionou o caso exibindo fotos no episódio Russia’s Seret Files, décimo segundo da décima primeira temporada da série Ancient Aliens, que estreou em 12/08/2016. Por sua vez, o redator do Global UFO Channel, no YouTube, estimou que entre os anos 1991 e 1993 tais artefatos continuaram a ser encontrados “aos milhares” em vários pontos da localidade original, e também às margens de dois riachos menores chamados Vtvisty e Lapkhevozh.[13]
Desaparições de artefatos
O caso dos montes Urais não foi o primeiro em que algo incrível foi encontrado e estudado, mas depois terminou desaparecendo. Em 1844 o físico David Brewster (1781-1868) estava estudando fósseis na cidade de Kingoodie, na Escócia, examinando materiais extraídos de uma pedreira de arenito datada do Período Devoniano (cerca de 419,2 a 358,9 milhões de anos atrás). A ciência oficial leciona que neste período nosso planeta era habitado apenas por animais marinhos primitivos. Porém, David Brewster encontrou um objeto aparentemente manufaturado nesta camada geológica. Charles Fort (1874-1932) citou-o por extenso em The Book of the Damned (1919):
Comunicado de Sir David Brewster (Rept. Brit. Assoc., 1845-51): Um prego fora encontrado num bloco de pedra proveniente de Kingoodie Quarry (…). O bloco em que fora encontrado o prego tinha a espessura de nove polegadas (22,5 cm) mas não se sabia de que parte da mina era proveniente (…) excetuando-se o fato de que não poderia ser proveniente da superfície. (…) O resto do prego até a uma polegada (2,5 cm) se encontrava na superfície da pedra (…) a polegada restante estava cravada na própria rocha.[14]
Outros exagerariam dizendo que não era um prego, mas sim um martelo com mais de 400 milhões de anos. Apareceu um falso fóssil de martelo na casa de um ministro religioso que tentou nos fazer crer que era o artefato de David Brewster. O verdadeiro prego foi perdido para a História. Não restaram nem mesmo as mais modestas fotografias em preto e branco deste achado que tanta falta nos faz. Por mim, parece-me uma lástima que pessoas escavem pregos quando a forja de pregos é muito comum, e que só apareçam nanoestruturas depois que humanos modernos já começaram a produzi-las. Ninguém desenterra uma bugiganga inédita e potencialmente útil à geração de conhecimento. Por que não um gerador de raio globular, um motor de disco voador? Queremos purpurina!
NOTAS
[1] LA BRUYÈRE, Jean de. Les Caractères ou les Mœurs de ce siècle (1688). Paris, Librarie Ch. Delagrave, 1891, p 7. URL: <https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k56758154/>.
[2] CHALON, Jean. Chere Marie-Antoinette. France, Édition Perrin, 1999, t. 1, partie 1, chap. 1, p 7.
[3] KUBNICK, Henri. O pavor do ano 2000. Trad. Eduardo Saló. Lisboa, Editorial Futura, 1979, p 125.
[4] O termo “Siluriano” foi emprestado da série de ficção científica britânica Doctor Who, que se refere a uma raça reptiliana que viveu na Terra milhões de anos antes do surgimento de nossa própria sociedade.
[5] Em 1995 a curadoria do museu encarregou o pesquisador Florian Gheorghita de enviar o objeto para análises metalográficas no Institutul Politehnic din Cluj (atual Universitatea Tehnică) e no Centrul de Cercetări și Proiectări pentru Metale Rare (CCPMR), em Măgurele-București. Ambos os relatórios confirmaram que a peça metálica foi fundida a partir de uma liga com composição de 74,17% de alumínio, 4,62% de cobre, 1,8% de zinco, 0,33% de estanho, 0,20% de zircônio, 0,11% de chumbo, 0,11% de cádmio, bem como menores concentrações de níquel, cobalto, bismuto, prata e vestígios de gálio e silício.
[6] ARTEFATOS ALIENÍGENAS: A CUNHA DE AIUD | ALIENÍGENAS DO PASSADO | HISTORY. Em: Canal History Brasil. Posto online em 16/01/2022. URL: <https://www.youtube.com/watch?v=N8f9rDcdjAc>.
[7] POVESTEA UNUI OBIECT ZBURĂTOR IDENTIFICAT. Em: ADEVARUL. Posto online em 08/12/2010 – 07h26, última atualização em 09/08/2022 – 08h56. URL: <https://adevarul.ro/stiri-locale/cluj-napoca/povestea-unui-obiect-zburator-identificat-1106253.html>.
[8] VARGA, Tamás. The wedge of Aiud’s archaeological Mystery: is it really from na alien spaceship? Em: Earthly Mission. Acessado em 22/03/2025. URL: <https://earthlymission.com/wedge-of-aiud-archaeological-mystery-artifact-alien-spaceship-fact-check/>.
[9] ZANIBONI, Mario. Il cubo di Salisburgo. Em: Archeo Media: revista di Archeologia on-line. Publicado em 16/10/2024. URL: <https://www.archeomedia.net/mario-zaniboni-il-cubo-di-salisburgo/>.
[10] VINTI, Leonardo. Ancient nanostructures found out of place and time. Em: The Epoch Times. Posto online em 02/11/2014. URL: <https://www.theepochtimes.com/article/ancient-nanostructures-found-out-of-place-and-time-1058362>.
[11] NANOESTRUTURAS ANTIGAS FORA DO TEMPO E DE CONTEXTO. Em: LQES. URL: <https://lqes.iqm.unicamp.br/canal_cientifico/lqes_news/lqes_news_cit/lqes_news_2017/lqes_news_novidades_2226.html>. Posto online em 2017.
[12] Resposta do usuário Antlersoft à pergunta de Ruslan Oblov: Were “ancient nanostructures” found in the Ural Mountains in 1991? Em: Fórum Skeptics. Questão formulada em 23/06/2021, respondida em 23/06/2021. URL: <https://skeptics.stackexchange.com/questions/51927/>.
[13] Ancient Russian Nanotechnology: 300,000-Year-Old Marvels and Discoveries. Publicado no canal Global UFO Channel no YouTube. URL: <https://www.youtube.com/watch?v=lNdwlnGtPR8&t=9s>. Posto online em 29/10/2023.
[14] FORT, Charles. O Livro dos Danados. Trad. Edson Bini e Marcio Pugliesi. São Paulo, Hemus, 1978, p 128-129.
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