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por Jason Louv
Um dos meus primeiros heróis mágicos, que li obsessivamente no ensino médio e na faculdade, foi o autor William S. Burroughs.
Burroughs é conhecido não apenas por sua vasta produção literária, mas também por seu vício vitalício em heroína, documentado em seu romance Naked Lunch, uma sátira perversa e alucinatória da América dos anos 1950, inspirada pelo vício de Burroughs, sua vida nômade e muitas vezes sombria, e pelas visões induzidas quando ele viajou à América do Sul para tentar largar a heroína tomando Ayahuasca. Naked Lunch transformou Burroughs em um nome conhecido quando foi levado a julgamento por violar leis de obscenidade, processo que Burroughs venceu, estabelecendo um novo precedente para a liberdade de expressão nos EUA.
Naked Lunch marcou apenas o início da carreira de William S. Burroughs como escritor. Nas décadas seguintes, ele começou a produzir pilhas de romances com o objetivo de “desestabilizar o controle”, criados usando a técnica do cut-up que aprendera com seu mentor ocultista Brion Gysin, e se envolveu cada vez mais no uso de técnicas de magia aplicada para romper os limites da vida no século XX — como Burroughs e Gysin colocavam, “invadir o estúdio da realidade”. Isso faz com que toda a obra de Burroughs — em especial seus livros de não-ficção The Job e The Third Mind — seja leitura obrigatória para qualquer magista. Burroughs, que não se vestia com túnicas espalhafatosas, mas sim com um sóbrio terno cinza, como um gerente de banco do interior dos EUA, usava sua aparência para contrastar de forma impactante com suas ideias perigosas e o caos cru, homoerótico e ocultista de seus livros.
Não é de se espantar que ele tenha inspirado quase meio século de contracultura.
Quando saí da faculdade, já havia absorvido tudo que William S. Burroughs havia escrito, e há muito me encontrava imerso na experimentação ocultista, vasculhando técnicas não apenas de Burroughs e Gysin, mas também da magia tradicional. Era natural, então, que o próximo passo fosse conhecer Genesis P-Orridge e seu cônjuge Lady Jaye no Brooklyn — Genesis estudou magia com William S. Burroughs e Brion Gysin por anos, e foi em parte pela aplicação das técnicas deles à música que nasceu a banda Throbbing Gristle de Genesis, e, portanto, o próprio gênero industrial.
“Fale-me sobre magia”, pedi a Genesis quando nos conhecemos, assim como ela, quando jovem havia perguntado a Burroughs. Começaram assim anos de treinamento ocultista e imersão no Mundo da Magia, enquanto eu relia Burroughs e estudava profundamente magia aplicada com Genesis. Então: de todas as técnicas mágicas de Burroughs (são centenas), quais foram as melhores de todos os tempos?
Técnica de Burroughs nº 1: A Maciota
A técnica mais testada e comprovada de Burroughs era a a Maciota, ou melhor o Do Easy ou “Fazer Fácil” — isto é, reprogramar seu cérebro para fazer tudo com o menor número de passos possível. Como Burroughs explicou: “[Do Easy] simplesmente significa fazer o que quer que você esteja fazendo da maneira mais fácil e relaxada que conseguir, que também é a forma mais rápida e eficiente.” Se isso parece simples demais, ótimo.
Genesis mais tarde comentou que “Fazer Fácil” foi como s/e conseguiu lançar centenas de álbuns, fazer turnês sem parar, publicar livros e realizar tanto.
Para a maneira mais fácil possível de absorver esse conceito ocultista importante, assista ao curta de Gus Van Sant explicando a Disciplina do Do Easy — pode te poupar anos de vida!
Técnica de Burroughs nº 2: Controle dos Sonhos
Burroughs escreveu dezenas de romances ao longo da carreira, todos repletos de imagens alucinatórias incríveis que envergonham a maioria dos escritores de ficção científica convencional.
Parte dessa imagética certamente veio das experiências com drogas, especialmente com Ayahuasca. Mas muito também veio de seus sonhos — Burroughs mantinha fielmente um diário de sonhos (prática que exploramos em nosso curso online sobre sonhos lúcidos), e extraía material dele para alimentar sua escrita. (Mais tarde, ele publicou alguns desses diários sob o título My Education.)
Técnica de Burroughs nº 3: Cut-Up
Central na vida, magia e visão de mundo de William S. Burroughs estava a técnica do Cut-Up, criada por seu amigo e colaborador Brion Gysin a partir de experimentos dadaístas anteriores de Tristan Tzara.
Cut-ups são a arte de literalmente cortar textos e imagens de maneira aleatória e remontá-los para formar novos padrões inesperados. Fazendo isso, Burroughs acreditava que podia desestabilizar a linguagem e se aproximar da verdade. Essa técnica de magia do caos permitia a Burroughs e Gysin enxergar o “código-fonte da realidade” — uma busca milenar de magos e alquimistas. A técnica foi adotada por nomes como David Bowie, Iggy Pop e o escritor William Gibson — de fato, o cut-up tem sido usado por milhares de artistas de todas as vertentes como forma de despertar criatividade quando se está bloqueado.
Confira acima o filme trecho do “The Cut Up” de Burrought e Gysin de 1977 demonstrando sua arte visceral.
Técnica de Burroughs nº 4: A Máquina dos Sonhos
Outra invenção de Gysin que Burroughs adotou e defendeu foi a Dream Machine (Máquina dos Sonhos), um cilindro rotativo de luz que pode induzir visões incríveis. Burroughs frequentemente mencionava a Dream Machine em seus textos e usava seus efeitos para gerar boa parte das imagens eidéticas que preenchiam seus romances. Gysin sonhava em comercializar em massa sua invenção e colocá-la em todas as casas americanas no lugar da TV. Uma ideia nobre, mas que nunca decolou (afinal, não se pode veicular anúncios em uma Dream Machine) — mas, com o tempo, ela adquiriu um culto de seguidores. Até Kurt Cobain era fã declarado.
Embora Dream Machines possam ser difíceis de encontrar atualmente o meio digital tornou possivel suas substituição. [Assinantes da Morte Súbita tem acesso a uma Máquina de Alucina na nossa área restrita]
Técnica de Burroughs nº 5: Acumulação de Orgone
Outra obsessão de William S. Burroughs era a energia orgone e os acumuladores de orgone de Wilhelm Reich. Reich, um estudante dissidente de Freud, acreditava ter descoberto como controlar e canalizar a energia sexual, ou “orgone”, e que existiam partículas dessa energia chamadas “bions”.
Reich foi perseguido nos anos 1950, seu laboratório destruído pelo governo dos EUA, e acabou preso (onde morreu). Burroughs mais tarde descobriu e defendeu o trabalho de Reich, chegando a construir sua própria caixa acumuladora de orgone — na qual passava longas horas sentado, fumando kif (THC cristalizado), enquanto escrevia. Burroughs jurava pela eficácia do orgone, usando-o como metáfora em seus livros para romper as forças de controle anti-sexuais da sociedade.
Assim como a Dream Machine, acumuladores de orgone podem ser feitos de forma fácil e barata, permitindo testar por conta própria essa tecnologia de Reich. Confira como produzir sua própria caixa e cobertor acumuladores de orgone.
Técnica de Burroughs nº 6: Foco Total em Desestabilizar o Controle
Burroughs uniu todos os seus experimentos em uma tarefa central: desestabilizar e destruir o controle.
Como os gnósticos, Burroughs via o mundo essencialmente como um mecanismo de controle, uma armadilha. Seu objetivo era quebrar completamente esse sistema. Por “controle”, Burroughs se referia à própria natureza da realidade, e junto com seu colaborador Gysin, não aceitava nada menos que sua completa destruição. Nesse sentido, ele é um dos verdadeiros ancestrais da magia do caos.
Em uma faixa do álbum Rhythm Science, DJ Spooky sampleia Burroughs descrevendo seus cinco passos para esmagar o controle e consolidar ganhos revolucionários:
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Proclamar uma nova era e instituir um novo calendário.
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Substituir a linguagem alienígena.
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Destruir ou neutralizar deuses alienígenas.
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Destruir a maquinaria de controle governamental alienígena.
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Tomar riqueza e terras dos alienígenas individuais.
Técnica de Burroughs nº 7: Magia do Caos
Burroughs não foi apenas um dos antecessores intelectuais da magia do caos — ele praticou seriamente suas disciplinas nos anos 1980, mergulhando nos escritos de Peter Carroll, ingressando na ordem de Carroll, os Illuminates of Thanateros (Burroughs foi enterrado usando seu anel com a estrela do caos da ordem), e fazendo constantes e disciplinados experimentos com as técnicas de Carroll. Burroughs explorou esses experimentos em seus romances finais, especialmente a trilogia composta por The Place of Dead Roads, Cities of the Red Night e The Western Lands.
O fascínio de Burroughs pela magia do caos surgiu de seus experimentos anteriores com Gysin em Tânger nas décadas de 1950 e 60, e de seu interesse nas técnicas de meditação budista que aprendeu com o mestre tibetano Chögyam Trungpa nos anos 1970. Nos anos 80, Burroughs descobriu a magia do caos e encontrou nela uma disciplina estruturada que unificava seus experimentos anteriores.
Fonte: William S. Burroughs’ 7 Occult Techniques for Smashing Reality
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