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Cabala Queer Magic

Cabala Queer: por que a Cabala é uma Ferramenta espiritual inerentemente Queer?

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Por Enfys J. Book.

Seja honesto: quando você ouve a palavra “Cabala”, o que vem à mente?

A Cabala Hermética é uma estrutura espiritual para a compreensão de nós mesmos e do universo, usando um glifo ou símbolo chamado a Árvore da Vida. Tem toneladas de usos práticos e mágicos, mas não é incomum alguém dar uma olhada rápida na Cabala e decidir que não é para eles, por várias razões. Muitas pessoas veem a Cabala como uma ferramenta espiritual antiquada, atolada com conceitos indesejáveis ​​como patriarcado, hierarquia e monoteísmo.

Mas eu sou uma daquelas pessoas esquisitos que começaram a cavar na Cabala no início da minha jornada espiritual pagã, e então simplesmente não conseguia parar. Desde o momento em que li meu primeiro livro de Cabala, The Witches Qabala (A Cabala das Bruxas), de Ellen Cannon Reed, fiquei viciada. E cerca de cinco anos atrás, comecei a entender a Árvore da Vida como uma ferramenta espiritual profundamente inclusiva.

Não sou a primeira pessoa a pensar na Cabala como inatamente queer, mas o conteúdo escrito sobre o assunto é escasso, o que é uma grande razão pela qual decidi começar um blog e, eventualmente, escrever um livro sobre a Cabala Queer, chamado  Queer Qabala: Nonbinary, Genderfluid, Omnisexual Mysticism & Magick (A Cabala Queer: Magia e Misticismo Omnisexual, Gênero Fluido, Não-Binário). Encontrar conexões entre minha identidade queer e minha espiritualidade tem sido uma experiência profundamente fortalecedora, e quero compartilhar isso com outras pessoas.

O Que Torna a Cabala Queer?

Surpreendentemente, não é preciso muito pesquisar para encontrar uma representação queer na Árvore da Vida.

Arvore da Vida, com as Dez Sephiroth.

Vamos começar olhando para os pilares, ou colunas. Quando você olhar para o glifo, o símbolo da Árvore da Vida, notará que existem três linhas verticais, ou pilares: o pilar masculino (também conhecido como pilar da misericórdia, ou pilar da força), o pilar feminino (também conhecido como pilar da severidade, ou pilar da forma) e o pilar do equilíbrio (também conhecido como pilar do meio, embora eu também goste de pensar nele como o pilar não binário). O pilar do equilíbrio pega as energias dos pilares masculino e feminino e as transmuta em algo inteiramente novo. Este pilar também contém as esferas de unidade absoluta (Kether) e manifestação (Malkuth), bem como aquelas de equilíbrio perfeito (Tiphareth) e imaginação e ilusão (Yesod). O fato de essas esferas estarem no pilar do equilíbrio indica que esses conceitos e experiências-chave transcendem o gênero binário — e, como a energia de Kether permeia todas as outras esferas, o resto da Árvore da Vida também o faz. Essa é uma maneira pela qual a Árvore da Vida mostra uma visão mais ampla de gênero e polaridade do que você poderia esperar.

Os três Pilares ou Colunas da Árvore da Vida: À esquerda temos o Pilar Feminino, da Forma e da Severidade, no centro temos o Pilar Não-Binário, do Meio e do Equilíbrio, por fim, à direita temos o Pilar Masculino, da Força e da Misericórdia.

 

Indo um pouco mais fundo, vejamos o conceito de polaridade no relâmpago cabalístico.

Primeiro, vamos definir a polaridade, em um contexto mágico. Algumas tradições pagãs e politeístas ensinam um conceito de polaridade, a interação da chamada energia masculina/ativa/projetiva e a energia feminina/passiva/receptiva. (Ter esses conceitos vinculados ao gênero binário é bastante problemático, mas isso é um discurso para outro dia.)

A seguir, vamos definir o relâmpago, como é conhecido na Cabala. O relâmpago é a direção pela qual a energia flui para a manifestação dentro da Árvore da Vida. Você pode traçar o relâmpago no glifo, ou símbolo, conectando os pontos com as esferas, em ordem numérica, de cima para baixo.

Agora vamos tentar aplicar o conceito de polaridade binária à Árvore da Vida. Quando visualizamos a energia fluindo pelo relâmpago, começando em Kether e terminando em Malkuth, notamos que cada esfera age tanto de maneira projetiva/masculina quanto receptiva/feminina. Cada esfera, por sua vez, recebe cada uma da esfera anterior, então projeta energia para a próxima esfera. (Sim, isso inclui até Kether e Malkuth: Kether é receptivo a Malkuth e Malkuth é projetivo a Kether.) Por essa lógica, cada esfera é fluida de gênero: cada uma desempenhando o papel projetivo “masculino” e o papel receptivo “feminino”. E além disso, cada esfera é bissexual: engajando-se com uma esfera que está se comportando de maneira projetiva/masculina e outra esfera que está se comportando de maneira receptiva/feminina.

O Relâmpago Cabalístico na Árvore da Vida.

Indo mais fundo ainda, vejamos os nomes hebraicos das esferas. Cada esfera tem um nome hebraico, e os nomes hebraicos têm terminações masculinas ou femininas.[Nota 1] Curiosamente, o gênero do nome de cada esfera nem sempre corresponde ao pilar em que ela reside, nem sempre corresponde às imagens mágicas ou astrologia associadas àquela esfera. Por exemplo, Chokmah é um nome feminino, mas a esfera chamada Chokmah fica no pilar masculino e corresponde às divindades masculinas que são Pai de Todos, como Odin e Zeus. Enquanto isso, Netzach tem um nome masculino e fica no pilar masculino, mas está alinhado com Vênus e tem a imagem mágica de uma linda mulher nua. E ainda em outro exemplo, Hod tem um nome masculino, mas fica no pilar feminino, e sua imagem mágica é uma pessoa intersexo. (Ainda me impressiona que a Árvore da Vida tenha representação intersexo desde o início de 1900, mas ainda lutamos para encontrar representação intersexual na cultura pop.)

A Árvore da Vida e os Gêneros das Sephirot.

Uma última coisa: a Árvore da Vida é como um fractal gigante. A totalidade da Árvore da Vida está contida em cada uma de suas partes individuais. Assim, por exemplo, dentro da esfera de Tiphareth está outra Árvore da Vida inteira. Isso significa que cada esfera contém todos os gêneros e sexualidades expressos na Árvore, o que inclui gêneros e sexualidades que ainda não se manifestaram. Em outras palavras: A Árvore da Vida é 100% queer.

Onde As Experiências Queer se Encaixam na Árvore da Vida?

 Como uma pessoa queer, não-binária e bissexual, quanto mais eu aprendia e percebia sobre o ser (ou a natureza) queer (queerness) da Árvore da Vida, mais eu comecei a relacionar marcos e experiências comuns da vida queer com a Árvore.

Por exemplo, o triângulo astral formado por Hod, Netzach e Yesod me fala como sendo três partes da identidade de uma pessoa queer. Seu nome, rótulos de gênero e sexualidade e pronomes vêm de Hod, a esfera de categorização e linguagem. A maneira como você sente seu gênero e sexualidade vem de Netzach, a esfera da paixão e dos sentimentos primitivos. E Yesod, a esfera da imaginação e do inconsciente coletivo, é onde você experimenta a expressão de gênero e sexualidade. Eu chamo isso de triângulo da identidade queer.

O triângulo ético formado por Geburah, Chesed e Tiphareth fala para mim como sendo três partes da experiência de revelação de uma pessoa queer. O momento da verdadeira honestidade consigo mesmo, quando você percebe um aspecto recém-revelado de sua identidade, se encaixa perfeitamente em Tiphareth, a esfera da integridade. Experiências de perda associadas a sair do armário – talvez mudar ou terminar relacionamentos com colegas ou familiares sem apoio – se alinham com Geburah, a esfera de remover coisas que não se encaixam mais, para ajudá-lo a crescer. A esperança no futuro e a abertura de novos sonhos cabe em Chesed, a esfera da visão e do planejamento. Eu chamo isso de triângulo da revelação.

O Triângulo Superior formado por Kether, Chokmah e Binah fala para mim como sendo três partes da experiência da comunidade queer. Kether, a esfera da unidade final, nos lembra que em meio a todas as nossas várias identidades na comunidade queer, estamos lutando por todos os nossos direitos e necessidades coletivas. Chokmah, a esfera de energia e movimento ilimitados, parece muito com a energia efusiva e exuberante das celebrações do Orgulho. E Binah, a esfera da compreensão da dor e da dor, conecta-se com a nossa dor comunal pelas perdas que sofremos na luta por nossos direitos. Eu chamo isso de triângulo da comunidade queer.

A Árvore da Vida Queer e seus três triângulos: Acima, o Triângulo da Comunidade Queer, no centro, o Triângulo Ético, também chamado de “Triângulo do Coming Out” (expressão inglesa geralmente traduzida como “Sair do Armário”) e, abaixo, o Triângulo da Identidade Queer.

Por que a Cabala Queer é Importante?

A Árvore da Vida é um diagrama que representa a relação da humanidade com o Divino, e também expressa tudo no universo. Somente por essa descrição, o ser (ou a natureza) queer (queerness) já está incorporada na Cabala, porque o ser (ou a natureza) queer (queerness) existe no universo. Mas ter o ser (ou a natureza) queer (queerness) tão explícito na Árvore – com um pilar não binário, quase todas as esferas com associações inconsistentes de gênero e todas as esferas agindo de maneira projetiva e receptiva – é incrivelmente válido para mim como pessoa queer. Mais do que isso, torna a Árvore da Vida uma autêntica ferramenta espiritual para pessoas cujo gênero e/ou sexualidade são marginalizados pela cultura dominante. A Cabala afirma que todos os gêneros e sexualidades são mágicos e reais. E quando olhamos para a Cabala através de uma lente queer, a Cabala também se torna uma lente para entender melhor as experiências de vida queer.

Para aqueles em comunidades pagãs e politeístas, abordar nossas ferramentas mágicas, rituais e símbolos de uma perspectiva queer pode abrir novas possibilidades e empoderamento para as pessoas queer nessas comunidades, e também pode aprofundar a compreensão das pessoas não-queer dessas ferramentas, rituais, e símbolos por interrogar o que funciona e por quê. Tornar queer (queering) nossa prática mágica significa que não aceitamos cegamente normas e práticas, particularmente aquelas enraizadas em polaridades binárias, gênero binário e heteronormatividade.

Se você quiser continuar investigando o tópico da Cabala Queer, confira meu novo livro, Queer Qabala: Nonbinary, Genderfluid, Omnisexual Mysticism & Magick (A Cabala Queer: Magia e Misticismo Omnisexual, Gênero Fluido, Não-Binário).

Para saber mais sobre a Cabala em geral, recomendo estes livros:

Qabalah for Wiccans: Ceremonial Magic on the Pagan Path (Cabala para Wiccanos: A Magia Cerimonial no Caminho Pagão) por Jack Chanek (Llewellyn)

Falling Through the Tree of Life: Embodied Kabbalah (Caindo na Árvore da Vida: Cabala Incorporada por Jane Meredith) (Llewellyn)

The Temple of High Witchcraft: Ceremonies, Spheres, and the Witches’ Qabalah (O Templo da Alta Bruxaria: Cerimônias, Esferas e a Cabala das Bruxas) por Christopher Penczak (Llewellyn)

Para saber mais sobre a magia queer, eu recomendo os seguintes livros:

Outside the Charmed Circle: Exploring Gender and Sexuality in Magical Practice (Fora do Círculo Encantado: Explorando Gênero e Sexualidade na Prática Mágica) por Misha Magdalene (Llewellyn)

Queer Magic: LGBT+ Spirituality and Culture From Around the World (Magia Queer: Espiritualidade e Cultura LGBT+ de Todo o Mundo) por Tomás Prower (Llewellyn)

Queer Magic: Power Beyond Boundaries (Magia Queer: Poder Além das Amarras) por Lee Harrington e Tai Fenix ​​Kulystin (Mystic Productions Press)

All Acts of Love and Pleasure: Inclusive Wicca (Todos os atos de amor e prazer: a Wicca inclusiva) por Yvonne Aburrow (Avalonia)

Queering Your Craft (Tornando a Sua Bruxaria Queer) por Cassandra Snow (Weiser)

Queering the Tarot (Tornando o Tarô Queer) por Cassandra Snow (Weiser)

Se você quiser aprender mais sobre o ser (ou a natureza) queer (queerness) em geral, recomendo os seguintes livros:

How to Understand Your Gender: A Practical Guide to Understanding Who You Are (Como entender seu gênero: um guia prático para entender quem você é) por Meg-John Barker e Alex Iantaffi (Jessica Kingsley Publishers)

How to Understand Your Sexuality: A Practical Guide for Exploring Who You Are (Como entender sua sexualidade: um guia prático para explorar quem você é) por Meg-John Barker e Alex Iantaffi (Jessica Kingsley Publishers)

Queer: A Graphic History  (Queer: Uma História Gráfica) por Meg-John Barker e Jules Scheele (Icon)

Gender: A Graphic Guide (Gênero: Um Guia Gráfico) por Meg-John Barker e Jules Scheele (Icon)

Sexuality: A Graphic Guide (Sexualidade: Um Guia Gráfico) por Meg-John Barker e Jules Scheele (Icon)

Para uma lista de mais livros que eu recomendo sobre o ser (ou a natureza) queer (queerness), sobre a queer magick (a magia queer) e sobre a Cabala, visite o site: MajorArqueerna.com.

Nota:

[1]Pollack, Rachel: The Kabbalah Tree: A Journey of Balance & Growth (A Árvore da Cabala: Uma Jornada de Equilíbrio e Crescimento) (St. Paul, MN: Llewellyn Publications, 2004), 82–83.

 

Fonte:Why Qabala Is an Inherently Queer Spiritual Tool, by Enfys J. Book.

Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.


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