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Thelema e Necromancia: Nada Contra, Mas Não Muito a Favor

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por Herman Faulstich

Aleister Crowley não era lá muito fã da invocação aos mortos como ficou claro no seguinte trecho:

“A necromancia é justificável em casos excepcionais. Suponhamos que o Magista não consiga acesso a Instrutores vivos ou necessite de alguma informação que tenha motivo para crer que desaparecera, permanecendo com algum deles; pode ser útil invocar a ‘sombra’ de um ou ler o ‘registro akástico’ da sua mente. O máximo cuidado deve ser tomado para evitarmos uma personificação da ‘sombra’. E que fique bem claro: é fácil, mas raramente aconselhável, evocar a sombra de um suicida ou alguém cuja morte foi violenta e súbita. Qual a utilidade de tal operação salvo satisfazer a curiosidade ou a vaidade?” [1]

Quando tratou do Espiritismo da época é ladeira abaixo:

“Quanto aos médiuns que possuem habilidade mágica, eles quase sempre vêm das classes mais ignorantes — os Celtas são uma exceção a essa regra — e não têm conhecimento algum de técnicas de magia. Pior, geralmente são do tipo que se deleitam com coisas sujas e secretas e assim atraem entidades do mundo Qlifótico para o próprio círculo mágico. Trapaceiros das ordens elementais mais baixas, na melhor das hipóteses, vitalizam sobras do Ruá de pessoas recentemente falecidas e fazem surpreendentes personificações. As conchas ocas brilham com fogo infernal. Além disso, é claro, absorvem a vitalidade dos assistentes e do próprio médium. No geral, é uma performance bastante virulenta. E o que as pessoas ganham com isso? Mesmo quando os ‘Espíritos’ são realmente espíritos, eles só trazem mentiras.” [2]

Percebe-se duas coisas nesse comentário: que ele não testemunhou fenômeno legítimo envolvendo mortos no Espiritismo e a explicação cabalística para o que aparece nas sessões desqualificando o médium. Segundo a Cabalá judaica, o ser humano é composto por:

Qlifô — tanto pode ser a matéria (“casca” ou “concha”) e matéria sutil quanto o desequilíbrio da Árvore da Vida, princípio de entropia e do que é ruim.
Nefêche — meio através do qual a Mente é posta em contato com a matéria;
Ruá — Mente, Espírito ou Intelecto. Princípio que define a individualidade contendo elementos da percepção transcendente;
Nechamá, Riá, Ierridá — os princípios verdadeiramente transcendentes.

Então para Crowley, o médium recebia seres de baixo nível — talvez chamados por aqui de “quiumbas”. As sobras do Ruá contém a personalidade do falecido que seria imitada pelos “cascões” ou “obsessores” para sugar energia de quem os manifestasse.

Crowley tinha uma relação prática com espíritos: invocava para atender pedidos e tchau. Situações de culto constante como acontece com a Quimbanda passava longe da sua abordagem. A exceção era o Sagrado Anjo Guardião em uma relação de devoção mental e emocional (Ruá e além) não havendo um elo material como um assentamento. Curiosamente, quando tratou de divinações sugeriu que o magista mantivesse uma relação muito próxima com os espíritos oraculares:

“O Mago deve, portanto, tornar-se mestre de vários métodos de adivinhação usando-os de acordo com a necessidade. Deve organizar um conjunto desses espíritos para se adequar a várias ocasiões. Esses devem ser espíritos ‘familiares’, no sentido estrito; membros da sua família. Deve lidar com eles sempre, evitando mudanças desnecessárias.” [3]

Ou seja, zero problema em lidar com espíritos, mas com os mortos e incorporação era outra história.

Mas qual o motivo dessa negativa? Creio não ser apenas técnico-cabalístico. Crowley estava circunscrito em uma cultura judaico-cristã e, por mais que tenha tentado sair dessa influência, resquícios podem ter permanecido. O culto aos mortos não sendo bem visto há mais de dois mil anos através do judaísmo, ficou impregnado em seu ser. A Cabalá que ele tanto admirava é de origem judaica. Isso é tão verdade que, quando escreveu a uma aluna criticando o espiritismo, colocou como fonte válida “o sublimemente simples tratado do Velho Testamento sobre a Necromante de Endor .” [4]

Outra razão é que se preocupava mais com questões místicas e transcendentais do que as de magia práticas do plano material. Isso ele deixou para a magia cerimonial europeia que aprendeu na Golden Dawn e a sexual na O.T.O. A abordagem em questões materiais com espíritos dos mortos, que caracteriza espiritualidades como a Quimbanda, não fez parte do seu menu. Há registros em seus diários de alguns sucessos em conseguir dinheiro nessas operações, mas reclamava sempre da sua falta.

Verdade seja dita: a lida correta com os mortos não é qualquer coisa, mesmo para sistemas como a Quimbanda. Há uma série de técnicas, procedimentos (“fundamentos”) e bastante tempo (e dinheiro) gastos, além da incorporação não ser necessária para realizar grande parte do ofício, ocorrendo esporadicamente. Há um cuidado, pelo menos nas vertentes competentes, em identificar a natureza do espírito para que não trabalhem com quaisquer “cascões” ou outros tipos de habitantes do astral, principalmente por envolver oferenda de sangue que potencializa o trabalho mágico. Ainda assim há médiuns que saem das incorporações cansados pelo esforço em lidar com as suas entidades. Para obter frutos materiais, uma relação próxima deve ser estabelecida na forma de pactos e estes não sendo desfeitos facilmente, quando podendo acontecer.

Isso também pode ser um problema para alguns em Thelema, em espacial nos altos graus da A.·. A.·., onde é necessário abandonar a relação com o Sagrado Anjo Guardião e mesmo o aniquilar a influência do ego, para efetuar certas tarefas que podem durar anos. Se foi com o S.A.G. e o próprio ego, com outros espíritos seria a mesma coisa. Há a possibilidade de negociação em casos-limite como esse? Só perguntando ao espírito cultuado.

Mas, curiosamente, a origem de Thelema está relacionada com os mortos: Aiwass quem ditou Liber AL vel Legis e o seu Sagrado Anjo Guardião, era um espírito humano que viveu na Pérsia; a Estela da Revelação que indicou a identidade de Hórus era uma lápide egípcia que, por sua vez, pertenceu a um sacerdote chamado Ankh-f-n-Konshu, nome pelo qual Crowley foi chamado por Aiwass ao escrever AL. A lápide continha uma passagem do Livro Egípcio dos Mortos que permitia ao morto andar pelo mundo dos vivos sempre que quisesse. A recepção do Livro costuma ser chamada “canalização” e não incorporação, uma vez que Crowley ouviu e viu Aiwass permanecendo totalmente consciente nesse processo psicográfico. Há assim, uma dificuldade de classificá-lo como médium, uma vez que não “baixou” Aiwass segundo o mesmo — mas incorporou Choronzon em Liber 418 [5] . Incorporações e também canalizações aconteciam com a suas Mulheres Escarlates, esposas ou namoradas que o auxiliavam em seus trabalhos mágicos.

No Brasil existe uma tradição “incorporativa” e essa cultura se impôs: ao longo dos anos diversos thelemitas vincularam a própria mediunidade aos trabalhos mágicos e até Iniciáticos expandido a Experiência Espiritual. E como está em Liber XIII:

“Todos esses graus são, sem dúvida, marcos convenientes, não necessariamente significativos. Uma pessoa que conseguiu todos poderá ser imensamente inferior a alguém que não tem nenhum deles; é a Experiência Espiritual que conta, o resto não passa de Método.”

Um desavisado poderia pensar que é uma questão de escolha, porém muitas vezes não. O fenômeno acontece. Se quiumba, egun, enviado do S.A.G, esquizofrenia ou personalidade dissociada cabe ao magista avaliar a natureza da experiência.

A opinião de Crowley sobre a necromancia não é das melhores, principalmente quando envolve a incorporação. Porém, o mesmo deu liberdade para que suas opiniões fossem questionadas e cada um abrisse o seu caminho mata a dentro [6]. É impossível para uma pessoa esgotar todas as formas de espiritualidade e o que vale é permitir liberdade para experimentações.

“Há ajuda & esperança em outros encantamentos. Sabedoria diz: sê forte! Então tu podes suportar mais prazer. Não sejas animal; refina teu êxtase! Se tu bebes, beba pelas oito e noventa regras de arte: se tu amas, excede pela delicadeza; e se tu fazes qualquer coisa prazerosa, que haja fineza nisso! Mas exceda! exceda! “ [7]

NOTAS

[1] — “Da Magia Negra, dos Pactos com o Diabo; dos Principais Tipos de Operações da Arte Mágicka; da Necromancia e dos Poderes da Esfinge”;

[2] —“Magick Sem Lágrimas”, Capítulo XXIV, “Necromancia e Espiritismo”;

[3] — “Da Clarividência e do Corpo de Luz”- Esse trecho refere-se a ideia de que cada oráculo possui um espírito ou inteligência por trás: Tarô o anjo Hru ou o deus Hermes; Geomancia os gnomos, inteligências terrestres; I-Ching espíritos mais estáveis o que garantiria melhor acurácia. Para ele o tarô era muito bom em questões materiais, mas demorava muito na consulta além da imprecisão por causa da inteligência mercurial;

[4] — “Magick Sem Lágrimas”, Capítulo XXIV, “Necromancia e Espiritismo”. A passagem bíblica é 1 Samuel 28;

[5] – 10º Æthyr ;

[6] —Thelema já foi misturada com a cultura afro, em especial a afro-americana via a O.T.O. Antiqua e Michael Bertiaux com o seu Vodun Gnóstico. Fora Kenneth Grant que enveredou, criativamente, por outros caminhos;

[7] — Liber AL vel Legis, II: 70–71.

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