Este texto já foi lambido por 2307 almas.
Antes do mar e terras e céu que tudo recobre
tinha a mesma face por todo orbe a natura,
que se chamava caos, uma massa rude e confusa,
nada além de um peso inerte, e, no todo, adensadas,
mal coligadas, em discórdia, as sementes das coisas
Metamorfoses, Livro I
Ovídio
Não importa se “No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus (…)”, se foi do sangue de Ymir que formou-se o mar e de suas carnes a terra firme ou se “No princípio, não havia existência nem não existência”, mas “Havia apenas águas insondáveis, profundas e sem luz”: saber de onde viemos pode não ser o suficiente para saber quem somos. Na verdade, tentar entender quem somos e o motivo pelo qual existimos pode ser uma das mais belas experiências ou uma crise de ansiedade infinitamente trágica.
Como amante que sou da tragicomédia, pensei que seria interessante trazer algumas das teorias mais estranhas, perturbadoras e loucas que conheço sobre “o que é e como se deu a criação”. Obviamente, com teorias que fujam um pouco daquela ideia de fanboy de Matrix conspiratória de que “tudo é uma imensa simulação”, da ideia do ateísmo adolescente que finge ter lido Nietzsche e seu catastrofismo ou da ideia “coachesca modernosa instagramável” de que “o sentido de tudo é o sentido que nós damos para as coisas”.
Faça um chá de camomila, ponha uma música tranquila, esquente água naquele balde de lavar roupa com umas ervinhas para um escalda-pés confortável, separe seu ansiolítico favorito e boa viagem!
A Caneta, o Autor e Eichiro Oda
Se a Arte imita a vida e a vida imita ao Deus Criador, então temos um forte paradigma criado: será que rezamos para Deus da mesma forma que Aragorn reza para… Tolkien? A ideia pode parecer um tanto assustadora no começo, mas quando inferimos que toda a realidade criada não passa de uma história sendo assistida (nos dois sentidos) por um Criador Perpétuo e Imutável somos capazes de ver certa poesia no fato de que somos uma espécie de co-criadores da realidade através da Arte.
O nosso autor não quis Hobbits vagando por Condados, Becos Diagonais pelas ruas londrinas, caixeiros-viajantes se transformando em insetos gigantes ou pessoas sendo abduzidas por monstros com cara de polvo e nomes impronunciáveis, mas certamente outros deuses (“todos vós filhos do Altíssimo”) criaram seus mundos à imagem e semelhança de sua própria imaginação. De forma estranha, Bilbo Bolseiro escreve um livro narrando suas aventuras que são escritas por um Deus criador tão humano quando nós: é a adoração do deus-caneta, do deus-autor.
Eichiro Oda, conhecido por ser o mangaka da obra One Piece, escreveu um one-shot chamado 神から未来のプレゼント (‘Kami kara Mirai no Present’ ou ‘O Presente de Deus para o Futuro) em que um garoto chamado Shirou recebe uma caneta e uma borracha de um velho misterioso. Tudo o que a caneta escreve torna-se realidade, mas o que a borracha apaga simplesmente deixa de existir. Se a Arte é uma imitação da vida, encontramos a possibilidade de o autor ter sido inspirado justamente com um dos modelos da criação: Deus escreve o destino certo do mundo nas tortas linhas que se apresentam, mas se o final da história não lhe agradar há um Julgamento final em que a borracha apaga toda aquela existência.
Enquanto a história não termina, somos apenas um rascunho do grande autor, rezando todo dia para que sua caneta termine o último parágrafo com um “e eles viveram felizes para sempre…”
Um Deus de Gravata-Borboleta
Outra teoria real demais para ser mera imaginação é uma que gosto de chamar de “a cena final de MIB (1997) estava certa!”.
Lembro-me de estar em uma mesa de bar debatendo etilicamente sobre um dos feitos do Grande Colisor de Hádrons (LHC): a descoberta da “partícula de Deus”, ou melhor, o Bóson de Higgs. Essa partícula fundamental do modelo padrão é responsável por conferir massa a quarks e elétrons, tornando possível a nossa existência como ela é.
Achei incrivelmente poético como essas partículas “sobraram” de uma colisão entre átomos no LHC, uma explosão que pode ser considerada (de novo, poeticamente!) como um “mini Big Bang”. E é aí que eu puxei minha carta “crise de ansiedade” do baralho teogônico do Uno Criador e disse: por um instante um Universo nasceu, permaneceu e morreu, com vidas, planetas, povos e nações… todas louvando o Grande Deus LHC e seus human-anjos retentores da criação.
A simples ideia de que o tempo corra diferente em tamanhos diferentes faz com que aquele infinentésimo de segundo da colisão sejam os bilhões de anos de uma subdimensão de nossa própria existência e isso significa que todo o nosso tempo aqui pode ser igualmente curto; uma igualmente insignificante explosão de um LHC de um universo ainda maior. Somos um mero átomo explodindo em mil pedaços (é possível?) para uma experiência que leva seres de outro universo chegarem na mesma resposta em uma conversa de bar: e se criamos um universinho ali? Será que somos um universinho também?
Bem… Isso só dura até o último Universo, é claro! Aquele que é real! Aquele que é um dos átomos da gravata borboleta que Deus usa para tomar chá nas quintas-feiras de inverno.
Este é o Universo final. E todos os outros que são átomos da mesma gravata.
Útero-verso e Deus Pai
Outra ideia bastante curiosa é a de que todo o Universo é um útero fecundado que ainda não entrou nas dores do parto. Pense um pouco sobre como muitas religiões tratam o Criador como um ser masculino e a Natureza como um ser feminino e é possível que sua mente comece a entrar em ebulição: Deus fecundou uma outra face de Si Mesmo que nós chamamos de lar, mas no fim das contas somos apenas uma enorme gravidez inflacionária – e talvez seja por isso que o Universo esteja em expansão, não é mesmo?
O Ungido, o Christos, o Logus ou como quer que você chame é só um feto gigantesco que nós chamamos de existência e do qual fazemos parte de maneira bastante estranha. No fim, esse útero terá o mesmo destino que já nos é conhecido: ele irá se romper para o nascimento, escoando toda vida para o lado externo. O que acontecerá com tudo o que conhecemos neste momento é, de muitas formas, bastante fatalista para quem não acredita em um Juízo Final.
O parto é um Mahapralaya em que a vida de Brahma chega ao fim, para o descanso de Vishnu sobre as águas cósmicas de um líquido amniótico da bolsa fetal que nós chamávamos de “Criação”.
Samsara não tem fim, felicidade sim
Se os védicos estiverem corretos sobre o ciclo de reencarnações podemos dizer que os Portões do Nirvana, o Paraíso e a Jerusalém Celeste não são tão diferentes do cárcere sem fim em Mandos, em que Fëanor e Morgoth seguem presos até o fim dos tempos, quando sua batalha recomeçará. Nesta hipótese, a vida não é só feita de inícios, fins e alguns recomeços, mas de uma infinita repetição capaz de nos dar a impressão de que Grey’s Anatomy tenha poucas temporadas!
A Criação se inicia, a Luz é feita, ela se expande, vidas se criam a partir de hidrogênio infinitamente comprimido que ganha senciência. Essa vida cresce, se multiplica, propaga, morre, renasce, reencarna, visita Valhalla, visita Jōdo, visita o Palácio da Lua e os Fushi Dao… Conhece Anjos, Devas, Kamis e Orisàs, comunga em Kalunga, em Apsu, faz churrascos no Sheol e no Hades, frequenta festas esquisitas em Irkalla…
Tudo isso para que o universo tenha seu confronto final com os Leviathans, o Salvador desça dos céus montado na fera de mil corações e o confronto derradeiro entre o bem e o mal, entre Subgenius e o Status Quo, entre esoterismo quântico e a realidade, se inicie e destrua tudo em uma batalha mais épica que o final de qualquer Shonen de lutinha que você, seu otaku safado, já viu!
E então tudo se reinicia, em um reboot tão belo quando o final de Devilman Crybaby. Tu achou que ia ser um cara legal e que assim não ia precisar reencarnar, não é mesmo? Mas Deus tinha outros planos e vem mais uma reprise do reality show que tu chama de Criação…
Somos a Única Existência Possível
Eu poderia seguir falando da possibilidade de sermos almas de Luz que servem de sucrilhos para um Deus Criador faminto e que se tornar um Santo é como adicionar leite e canela na tigelona divina, que Deus é uma criança brincando de pique-esconde com todos os seres da Criação ou mesmo que nascemos à partir de um bolor formado por restos de pizza, absinto velho, penas de faisão e um Dream Cast jogados numa caixa de papelão do sótão de Deus, mas é provável que a proposição mais assustadora seja a de que tudo isso é totalmente real.
Pense por um instante nas implicações de que nós não somos uma piada, um rascunho de roteiro para o novo God of War Cósmico ou um ciclo infinito em que nada importa, pois tudo se repete; o que nos sobra para ser se somos a única existência possível? A ansiedade de não sermos nada transmuta-se no peso de sermos tudo: os mais vis dos seres e o motivo de toda a Criação não parece ser uma frase tão estranha agora, não é?
Aqui nós somos os próprios Filhos de Deus e um terço do Sinal da Cruz nos é dedicado; somos Profetas de nossas próprias Profecias, os séquitos de nossas próprias almas; fadados a viver em prol de nós mesmos na única alternativa real que existe: sermos o motivo de toda a Criação, amados pelo Criador. Cada desperdício de tempo é um desperdício completo de quem somos, é jogar o desejo de Deus de nos dar a vida em um enorme triturador. Ceder ao Diabo, no fim das contas, é não dedicar nosso tempo a nossa própria imortalidade, é ter uma vida vã que não será lembrada nem por nossos netos; é deixar perecer nossa linhagem por medo de sermos quem deveríamos ser, por medo de enfrentar o que nos é dado a enfrentar.
Só nos resta viver corretamente… Ou decepcionar nosso Criador…
E então?
Todos bem?
Espero que tenha sido uma viagem desesperadora e que muitos traumas possam ser trabalhados a partir daqui! Eu gostaria de ter indicação de um bom terapeuta que me pagasse 15% de comissão no primeiro trimestre para cada indicação no cupom “edu.berlim”, mas infelizmente não tenho esse profissional na manga…
Mas como eu não tenho essa indicação para dar, fica assim mesmo. Fique você aí com seus pensamentos, completamente sozinho. Talvez você seja só um Cérebro de Boltzmann mesmo. Ahn? O que é esse Boltzmann? Ahn… Nada não. Não busque no Google. Deixa pra lá e… Ahn… Boa sorte… Sei lá…
Eduardo Berlim é músico, tarólogo e estudante de hermetismo com vasta curiosidade. Tem apetite por uma série de correntes diferentes de magia e se considera um eterno principiante. Assumidamente fanboy dos projetos da Daemon e das matérias do Morte Súbita inc.
Alimente sua alma com mais:

Conheça as vantagens de assinar a Morte Súbita inc.
Faça parte do problema
Recursos Avançados
+ Área Restrita + Eventos Online.
R$37,00 por mês



