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Vampirismo e Licantropia

Reminiscências, fanzines e assuntos circulares

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Shirlei Massapust

Descendo de família periférica pouco instruída. Ninguém nunca julgou necessário me ensinar sobre padrões de citações estabelecidos pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) para a pesquisa acadêmica. Quando Umberto Eco estudou o processo de produção da bibliografia manuscrita na Idade Média, ele percebeu que era costume copiar sem citar-se para fazer circular as ideias: “Ninguém considerava isso um delito; de cópia em cópia, era frequente que não se soubesse mais qual a verdadeira paternidade de uma fórmula; no fim das contas, pensava-se que, se uma ideia era verdadeira, pertencia a todos”[1]. Pois bem, em pleno século XX a metodologia de copiar sem fazer igual ainda vigorava como padrão para elaboração de trabalhos escolares no ensino médio; também se fazendo notar em material audiovisual, gibis e outros impressos destinados ao público infanto-juvenil. A intertextualidade era um segredo inominado, porém perceptível, quiçá em mais do que os oito níveis classificados pelos comentadores de Mikhail Bakhtin.

Falando sobre a produção de ficção-científica, Fausto Cunha se queixou da “mera repetição do que já foi feito antes”, quando “introduzem minúsculas alterações em temas e conceitos que já se esgotaram a uma década”. Este crítico concordou com a hipótese de fraude literária (a literary larceny) proposta por Bester.[2] Outros enxergaram na constância um esforço coletivo para a consagração de mitologemas, os quais não se formam nem se perpetuam sem a perene repetição de referências. Entre 1950 e 1990 a identificação de referências era um jogo intelectual onde os grupos sociais avaliavam a sapiência dos membros de suas bolhas. Para o bom entendedor tudo eram segredos ocultos, alguns pateticamente bobos, outros paradoxais, pungentes ou questionadores; alguns saltando aos olhos, outros subliminares. Encontrar cabelo em ovo era um risco aceitável.

O escritor estadunidense de ascendência judaica Barry Nathaniel Malzberg teve a boa ideia de escrever Dwellers of the Deep (1970), uma novela de ficção-científica com precisão antropológica (exceto pelos momentos em que invenciona uma discreta invasão alienígena[3] ao planeta Terra). Seu tema são os próprios fãs de ficção-científica. Perplexo, um adulto acumula revistas e começa a compreender que haveria algo se passando lá fora mais interessante do que tudo que o escritório poderia lhe oferecer. “Algumas vezes surpreendera-se pensando não estar lendo nova ficção-científica, mas, ao invés disto, três ou quatro histórias básicas sendo reescritas indefinidamente”.[4] Isso – intuiu o fã – deveria significar algo para muito além do óbvio. Fox, o fã, terminaria como seu futuro xará Fox Mulder, no seriado televisivo X-Files, fixando na parede um poster com a representação de um disco voador estereotipado junto à legenda “Eu quero acreditar”.

Atualmente chamaríamos o fenômeno de criação de mitologemas e referências. Em 1970 tudo eram segredos ocultos, alguns pateticamente bobos, outros paradoxais, pungentes ou questionadores; alguns saltando aos olhos, outros subliminares. Em 1995 o jornalista freelance JMM Kazi observou a realidade dos fanclubistas:

No Brasil, a história dos fanzines começa em Piracicaba, interior de São Paulo, onde, em 1965, um senhor chamado Edson Rontani fez o que se considera o primeiro fanzine brasileiro. A publicação era o informativo de um clube de ficção científica. De lá para cá, o fanzinato nacional nunca mais parou de produzir fanzines dos mais variados assuntos. Essa é uma das características mais importantes dos fanzines: você pode falar sobre o que quiser. Quadrinhos, música, RPG, desenhos animados, time de futebol, Internet, games e até política. Quem determina quais serão os assuntos abordados pelo seu fanzine é você mesmo.[5]

 

Em dezembro de 1992 eu convivia com colegas de escola que usavam pastas catálogo para preservar coleções de papéis de carta. Isso era a versão feminina do habito de colecionar figurinhas, sem o bônus lúdico do jogo de bafo. As meninas formavam uma formidável rede de troca e engajamento no hobby. Mas as mocinhas das últimas décadas do século XX não queriam saber quem desenhava seus bichos fofos favoritos, assim como as mocinhas de trinta anos antes jamais questionaram se Margaret Keane vivia em cárcere privado pintando, sob pressão do marido plagiador, os cartões postais e pôsteres que elas amavam colecionar. Importava apenas saber se o impresso era raro ou estrangeiro.

Algo muito diferente ocorria quando uma tiete colecionava materiais sobre uma ou mais celebridades. Neste caso pesquisava-se obsessivamente. A intensidade da paixão determinava a precisão metodológica instintiva. Pastas catálogo acumulavam notícias de revistas de fofocas sobre atores de cinema e bandas de música. Se os pais deixassem, jovens de ambos os sexos e todos os gêneros cobriam as paredes de seus quartos com pôsteres.

Minha irmã mais velha elevou a prática a outro nível. Ela não somente enchia pastas catálogo com artigos de jornais e revistas como também utilizava a coleta como material de pesquisa para elaborar o fanzine mensal do fã-clube Guns’n Revolution, dedicado à banda Guns’n Roses. À época inúmeros fãs daquela banda estadunidense compartilhavam informações gerando um fluxo contínuo de vendas e trocas de cópias de vídeos, retratos, fotocópias, etc. Tais interações aconteciam em encontros regulares, mas também por envio de correspondência pelos Correios. No Brasil havia uma competição acirrada entre os presidentes de fã clubes pela produção do melhor conteúdo. Sem programas de tradução automática, tinha gente estudando idiomas só para interagir com fã clubes estrangeiros, ampliando o alcance da busca por informações e a rede de comércio e trocas de materiais raros ou inéditos. Além daqueles dedicados ao Guns’n Roses, haviam fã clubes de muitas outras bandas, artistas e assuntos. Suas malas diretas eram o mais próximo de uma rede social que o jovem poderia chegar antes da era da inclusão digital.

Minha irmã não imprimia o fanzine Guns ‘n’ Revolution em uma gráfica. A invés disso ela levava os originais à Wachacopy® do Shopping 45, situado na Praça Saens Peña, 45 – s/solo 133 – telefone 2846595. Infelizmente essa loja não existe mais. Lá faziam cópias xerográficas em preto e branco, mas também coloridas. Faziam ampliações de imagens pequenas, reduções de páginas de jornal ou outras imagens grandes, encadernações com espiral, fotos 3 x 4, instantâneos e plastificação de documentos.

Algumas vezes eu acompanhei minha irmã, observei toda a técnica de produção de fanzines e também fotocopiei impressos sobre temas holísticos que os colegas de escola me emprestavam. Sendo assim, tendo tido oportunidade de estudar o funcionamento de fã clubes bem sucedidos, eu cometi o erro de imaginar que seria capaz de montar um fã clube focado na temática dos vampiros. Reuni um grupo disfuncional e pouco interativo de seis pessoas que logo cansaram e se dispersaram.

Em dezembro de 1992 eu não tinha nada a oferecer além da vontade de coletar e organizar informações. Claro, meninos queriam outra coisa com raparigas vestidas de preto e eu os mandava à merda. As pessoas não estavam interessadas em pesquisar se haveria algum fato oculto no folclore. Os jovens estavam dispostos a consumir belas artes e fofocas sobre produções audiovisuais famosas. Os mais novos estavam encantados por VAMP, telenovela de Antônio Calmon exibida pela Rede Globo de 15 de julho de 1991 a 8 de fevereiro de 1992. Os mais maduros se mostravam ansiosos por ver uns peitos e monstros em Bram Stoker’s Dracula, que estrearia nos cinemas brasileiros em 25 de dezembro de 1992. O galã afirma: “Absinto: é o afrodisíaco do ego. A fada verde que vive no absinto, quer a sua alma…” A venda da bebida démodé aumenta trezentos porcento. Uma aluna da minha classe era quase um clone da Winona Ryder. Ela não ficou tão bonita cheia de cacos de vidro na testa depois que, alcoolizada, capotou com o carro da família.

À época os quadrinhos de horror nacionais estavam em baixa. Apesar da ampla distribuição nacional em jornaleiros, desde 1981, no primeiro semestre de 1993 os dois periódicos antológicos da editora D-Arte teriam as publicações suspensas por um prazo indeterminado quase infinito (duzentos e cinco meses). Teve de ser assim pois Rodolfo Zalla (1931-2016) nunca possuiu o talento ou a coragem de Nico Rosso (1910- 1981) para enfrentar a censura. Ele estava apegado a nuances de romantismo que envelheceram mal, entediando em demasia a geração y. Eu era sua única nova leitora na escola inteira. Tive a ideia estapafúrdia de criar um romance gráfico sem nenhuma noção de desenho e com minha mãe vigiando, militando contra a sexualização de personagens femininas (proibido desenhar seios em bonecas de palito). Fiz uma história que ninguém quis ler.

Seria necessário trabalhar dentro dos limites do possível caso eu ainda desejasse produzir um fanzine. O que poderia ser feito para início de conversa? Palavras de surdo responderam que eu deveria me tornar uma fã de Christopher Lee. Quem disse isso? O vento? O nada? Imaginei que o comunicador cometeu um equívoco pois neste momento eu apenas conhecia e gostava do trabalho do Christopher Reeve. Minha irmã trabalhava com diagramação e edição de texto na editora Terceiro Mundo. Tinha um computador montado com microprocessador Intel i486. Eu só tinha permissão para usar a máquina de escrever Sperry Remington da minha mãe, com a condição de que não desperdiçasse papel ou tinta cometendo quaisquer erros de digitação ou formatação. Ainda assim comecei o lento, dificultoso e penoso processo de coleta de materiais com relação de pertinência temática, os quais deveriam encher uma ou mais pastas catálogo.

Eu tinha um plano. Naquela época era chique dar nome estrangeiro às coisas, de perfumes a condomínios. Imaginei que o melhor nome para o fanzine seria “The Bat”. Teria o tamanho A5, feito de folhas A4 dobradas, e necessariamente poucas páginas pois eu não dispunha de guilhotina de papel para corrigir as bordas. O método de reprodução seria o de fotocópias grampeadas ao meio. Depois de pronto eu poderia utilizar a sessão de cartas dos leitores de periódicos de horror e rock a fim de reunir interessados.

Provavelmente o que eu desejava fazer era o que qualquer menino faria, na mesma situação, nas últimas quatro décadas. Fausto Cunha falou sobre sua visita aos EUA, em 1965, ocasião na qual realizou pesquisa de campo entre os estadunidenses apreciadores de ficção-científica: “há centenas de revistas, muitas vezes apenas mimeografadas”.[6]

Thomas Edison patenteou o mimeógrafo em 08/08/1876. No Brasil só cheguei a ver professores utilizando tal máquina para produzir lotes de provas para seus alunos. Conforme exposto, aqui produtores de fanzines levavam seus trabalhos às gráficas com impressoras de papel jornal ou se valiam do processo xerográfico inventado em 1938 pelo físico Chester Carlson. Mas eu nunca tinha visto pessoalmente um fanzine carioca como o Hematimes, do clube Atlético Transilvânia, mencionado por Luís Fernando Veríssimo em 1979.[7] Futuramente eu veria o jornal paulista Adorável Noite, editado por Adriano Siqueira (1965-2022), que deu vida ao que poderia não passar de um blefe do filho do autor de Incidente em Antares (1971), nossa mais famosa obra-prima sobre mortos-vivos.

Não demorei a descobrir que, no Brasil, quase toda a parca produção de ficção-científica era destinada às antologias de horror, havendo predominância de romances gráficos sobre livros ou filmes. No que diz respeito aos quadrinhos do Conde Drácula, entre os maiores talentos brasileiros se destacavam a roteirista Helena Fonseca, bem como as desenhistas Neide Harue e Maria Aparecida Gody. Os seus romances gráficos eram adorados pelos meninos, tal como os romances gráficos da japonesa Koyoharu Gotōge viriam a ser no século XXI. Elas venceram na vida por mérito, competindo por espaço nas antologias em pé de igualdade com profissionais do ramo de sexo masculino. Nenhuma foi empoderada por políticas de cotas, pois naquela época isso sequer existia. Contudo, infelizmente, em âmbito global, entre 1960 e 1990 os subgêneros ficção-científica e horror não conheceram opositores mais terríveis do que as mulheres medianas.

Na novela Dwellers of the Deep as verdadeiras vilãs são as mulheres terrenas, mulheres comuns com as quais personagens e leitores convivem no cotidiano. Valendo-se de assédio moral, elas desgraçam a existência dos jovens entusiastas de ficção-científica.

Na sétima década do século XX o mulheril – compungido por ter sido Eva quem deu o fruto proibido a Adão – tomava para si a responsabilidade pelo policiamento social, repreendendo quaisquer quebras da moral e dos bons costumes. Além disso exerciam uma pressão constante exigindo o descarte de itens considerados obsoletos para determinadas faixas etárias. Hoje em dia a recomendação do Inmetro de produtos classificados por faixas etárias superou o despótico conceito de obsolescência. Porém, antigamente, dizia-se – por exemplo – que brinquedo é coisa de criança. Um rapaz de quinze anos não precisaria mais colecionar carrinhos. Uma menina que experienciou a menarca estaria na idade de namorar e não precisaria de bonecas. Se a moça feita chorava pela doação aos necessitados de coisas obsoletas para sua faixa etária, isso era considerado um sinal de retardo mental.

Pior era a situação do horror e da ficção-científica, inadequados para menores de dezoito anos, obsoletos para adultos. Neste período histórico, em todo o ocidente, o amor estava condicionado ao descarte de coleções de figuras de ação, filmes, gibis, discos, pôsteres, etc. A vida adulta seria necessariamente tão séria que o esposo deveria afastar até mesmo pensamentos sobre o lúdico, deixar de sair com os amigos e passar a viver em função do trabalho para o sustento da esposa e dos filhos. Logo no início de Dwellers of the Deep o leitor se identifica com temor à situação que, muito em breve, se imporia em sua vida: “Um rapaz de Bensonhurst vendeu sua coleção. Vai se casar. Daqui a alguns meses vai comprar tudo de volta, mas não quer que sua esposa pense mal dele”.[8]

Na falta de uma esposa ou de uma sogra, seria a mãe, a avó, a tia, uma mulher celeste determinada a pôr fogo em todo aquele horror do Inferno. Doido, maluco, biruta, lelé da cuca, parafuso-solto, demente, sujeito do entrelugar que gosta de monstruosidades. “Tenha vergonha na cara! Vire homem! Cresça!” Uma cascata de ofensas.

Desejando dedicar-se exclusivamente ao hobby, o personagem Fox deixou um emprego que remunerava melhor do que a média de um diplomado em belas artes. Sua vida social se fizera em pedaços pois, aos vinte anos de idade, ainda evitava as mulheres como um molecote. “Elas não mereciam a espécie de autodestruição que isso implicava”.[9] Fox chegou ao ponto de deixar de ter contato com a própria mãe após ela entrar em seu apartamento sem aviso e fazer de tudo para convencê-lo a descartar sua coleção, como se assim sanasse um risco de demência. Na vida real Malzberg deixou de ser funcionário público, abandonando o emprego de investigador para o serviço de assistência social da cidade de Nova York. Assim pôde escrever suas novelas. Ele não casou antes dos 25 anos.

A proposta do livro foi sugerir a reunião de pessoas que frequentemente interagiam dentro de alguma loja especializada, como uma gibiteria. Se, ao invés de evitar companhia fora daqueles estabelecimentos, eles organizassem fã clubes, ninguém se sentiria tão isolado, sozinho ou envergonhado. Todavia, alguns hábitos precisariam mudar mesmo nesses ambientes fechados. Quando o personagem Fox conheceu a personagem Susan Forsythe, uma raríssima mulher diferente, ela tentou convencê-lo a ingressar em um fã clube de ficção-científica que vivia em conflito contra outro fã clube dedicado à mesma temática. Fox não conseguiu se encaixar em um ambiente repleto de pessoas competitivas, mas o que ele ouviu foi nada mais nada menos que a vivência de todos no mesmo período.

Stuart explicara-lhe que, na ficção científica, havia basicamente três tipos: os profissionais, que escreviam ou editavam as revistas, os fãs, que constituíam uma organização social construída em função das revistas e frequentemente contribuíam para a coluna de cartas, formando toda uma trama de atividades e disputas sociais baseadas em seus interesses mútuos; e os colecionadores, mais empenhados em tentar fazer uma acumulação dessas revistas. As categorias não eram restritas. Muitos profissionais haviam sido fãs durante algum tempo e os fãs, em geral, eram colecionadores. Mas estes, na realidade, muito pouco tinham a ver com os fãs e raramente se tornavam profissionais, que tendiam a vir mais das fileiras dos fãs que dos colecionadores. Stuart fora loquaz e sincero. Dissera que, pessoalmente, via isso como uma hierarquia, onde os colecionadores estavam no topo. Os profissionais todos gastavam o dinheiro no minuto que ganhavam e não havia uma boa quantidade de dinheiro, no campo, com que se começar. Os fãs simplesmente matavam o tempo porque não tinham nem fundos nem disciplina para servir sua obsessão, enquanto os colecionadores eram os únicos que possuíam algo com um verdadeiro senso de objetivo.[10]

 

A questão era que, em muitos casos, os fãs não tinham real respeito pelos colecionadores, porque estes, enquanto iam apanhando todas as edições em vista e classificando o conteúdo pelos anos, não pareciam saber sobre o que eram as revistas. Eram muito bons em títulos, mas não tanto em lembrar os enredos ou os significados, o que levava os fãs a sentirem desprezo em relação aos colecionadores, classificando-os como pequenos neuróticos rondando e bisbilhotando superficialmente o que consideravam vital.

 

Mas Fox não estava nesta categoria, observava Stuart. Não era apenas um colecionador, mas também um leitor. Um leitor que levava para casa todas as revistas para cuidadoso estudo e cujos conhecimentos sobre elas eram quase sempre tão bons quanto os dos profissionais. Este era o tipo de pessoa mais valiosa para o fãclubismo, explicara Stuart, porque a maioria dos fãs, infelizmente, estava tão envolvida em sua vida social, clubes e feudos, que tinham cada vez menos tempo para realmente ler. Por isso estavam sempre com necessidade urgente de alguém da competência de Fox, que tinha a coleção e não ficava em inferioridade com os profissionais, capaz de mantê-los a par dos últimos acontecimentos no mundo externo das publicações.[11]

 

O que fazia o fã ordinário parecer tão diferente da fã ordinária era a estranha reputação auferida pela visibilidade de comportamentos desmesurados. Pelo menos duas vezes a imprensa brasileira noticiou o recebimento, por músicos, de cartas que eram rolos com vários metros de papel cheio de beijos de batom vermelho. Encontrar fãs escondidas nos lugares mais improváveis era rotina para artistas famosos. Tinham fãs no aeroporto, no banheiro, debaixo da cama. Elas demonstravam ciúme das esposas dos artistas.

Claro que jovens adultos tinham fantasias sexuais com a personagem de Jane Fonda em Barbarella (1968) ou com a atriz polonesa Ingrid Pitt, mas eles não eram doentiamente eufóricos, exceto por gente excepcional como o fã Mark Chapman que matou John Lennon ou Charles Mason que matou a Sharon Tate. Para não dizermos que homens fãs de bandas não eram problemáticos, alguns viviam brigando em rodas feito torcidas rivais de times de futebol. Achavam divertido lutar em shows e portas de boate. Mas jovens rapazes (em maioria) colecionado ficção-científica não sobrecarregavam as cordas vocais gritando confissões de amor aos artistas favoritos, como jovens mulheres (em maioria) colecionado vasta parafernália a respeito de jovens artistas (em maioria).

Deve ser por isso que me chamavam de sapatão. Eu me tornei uma colecionadora e leitora de artigos “masculinos” até acabar obtendo mais impressos do que oportunidades de ler. Conduzida ao acúmulo bibliófilo, finalmente acabou o espaço para guardar coisas na estante. Então veio a difícil etapa de escolha de prioridades para a redução do acervo.

Quando planejei meu fanzine, que nunca ficou pronto, desejei lhe dar um foco diferenciado, devotado a desvelar o dialogismo existente entre as manifestações de religiosidade popular e as artes, especialmente a sexta (literatura), sétima (cinema, seriados, telenovelas, etc.), nona (histórias em quadrinhos) e décima (videojogos). Futuramente Saravá Exu Morcego, um artigo produzido conforme este conceito, progrediria de 5% a 1% entre os mais lidos, durante anos, na Academia.edu. O mesmo artigo também se tornaria o documento mais lido no Morte Súbita durante uma semana.  Mas, em 1992, eu estava com a pesada impressão de que falharia miseravelmente em tudo que tentasse fazer. O fracasso parecia um fato consumado. Espalhei papeis com anotações pela casa inteira. Juntando tudo formaria mais de um volume inédito. Ainda assim parecia-me que, infelizmente, nunca era possível reunir a quantidade e qualidade de material de pesquisa que eu julgava ser necessária antes de produzir conteúdo publicável.

Continuei tentando reunir interessados na formação de um grupo de pesquisa até meu último dia de aula no Ensino Médio. Nessa altura eu já não era mais leiga no assunto pois havia dedicado quarenta e nove meses a uma incessante busca por informações. Obtive alguns livros e cerca de vinte e quatro bolsas de revistas. Já estavam completas as coleções Terror de Drácula da editora Abril, Capitão Mistério 1ª e 2ª série da Bloch, Vampirella da Noblet, Kripta da RGE, Coleção Assombração da Ediouro, etc. Ainda assim os títulos mais importantes restavam incompletos. Como alguém poderia resenhar quadrinhos de Drácula no Brasil sem a opera ominia do Estúdio Nico Rosso e sem todos os volumes de horror da Vecchi e da D-Arte? Eu possuía muitas coisas, mas não as mais desejáveis. A última novidade no jornaleiro era a estreia de Preacher na série Vertigo DC, então publicada pela editora Metal Pesado. Havia vampiros lá, porém não os tradicionais. Cassidy era um toxicômano patético que me causava asco.

Infelizmente nunca foi possível reunir a quantidade e qualidade de material de pesquisa que eu julgava ser imprescindível à produção de conteúdo. Claro que eu poderia ter feito mais com menos, só que a publicação ficaria fedendo a Cassidy. Depois que passei no vestibular nunca mais teria oportunidade de abordar colegas na hora do recreio. Não havia gente interessada em vampiros na faculdade de Filosofia. Encarando a realidade, finalmente desisti da pretensão de reunir uma rede social. Contudo, pouco mais de um semestre depois, a chegada da internet nas favelas facilitou e barateou o contato entre gente do mundo inteiro. Elizabeth Miller chegou a convidar-me para presidir um capítulo brasileiro da TSD. Só não aceitei por inabilidade na fluência do idioma inglês.

Escrevi tudo isso porque, em 28/08/2012, acessei casualmente o site Marelibri e lá encontrei uma referência ao fanzine The Bat: Vampirisme et Religion (nº 1). Em 1981 um cidadão francês chamado Marcel Burel teve uma ideia virtualmente igual a minha sem que eu tomasse conhecimento de tal coisa! Ele era conhecido no ramo como especialista colaborador do seriado Mad Movies (1965-1967), onde cenas de filmes mudos do início do século XX foram utilizadas para explicar técnicas do processo de produção dos mesmos.

Infelizmente Marcel Burel não conseguiu fazer o periódico prosperar para além de The Bat: Demain les Animaux (nº 2). O expert desistiu do robusto fanzine em formato 21 x 33 cm e os comunicadores do invisível estavam projetando seu desalento no inconsciente coletivo, ao ponto de entrar em sintonia comigo uma década depois, em outro continente? Em 1992 eu não consegui concluir meu projeto. Em 2012 não consegui sequer comprar a coisa feita. Em 22/05/2024 achei um livreiro que anunciou o nº 1 de Marcel Burel na Abebooks e enviou por equívoco o nº 2. De outro modo eu não haveria completado a coleção pois, anteriormente, li um expert em fanzines franceses afirmar que o segundo volume jamais fora impresso e que só existiria como protótipo, sem nenhuma arte de capa. No entanto chegou para mim um livro inteiro e com uma bela arte de capa, com temática de kaijū. Em 10/08/2024 encontrei outro anuncio do nº 1 recém criado no Ebay francês. Em menos de 24h cinco pessoas já haviam marcado como item observado. Novamente, com ajuda do importador Marcelo Rodrigo Zayat, o item foi comprado as 17:23:08 do fuzo horário de Paris e fez escala nos EUA antes de partir para o Brasil.

Preciso lê-los e no momento eu não os encontro. Não adianta se estressar. Na casa de todo colecionador existe um vórtice para o infinito que fica no meio da bagunça. As coisas que caem nele só reaparecem quando desistimos de procura-las. Ao invés disso, a cada arrumação vão surgindo objetos desconhecidos, esquecidos.

Ainda sobre a ficção de Malzberg, chegou uma época em que o personagem Fox foi contatado por alienígenas com habilidade de parar o tempo. Ele quis contar aos seus iguais e, mesmo entre os seletos membros de um fã clube de ficção-científica, acabou escutando que tal evento nunca teria acontecido se ele não tivesse ficado tão absorvido naquelas revistas, vivido tão para si mesmo e deixado que assuntos inverosímeis dominassem sua mente. Ironicamente quem o repreendia era um alienígena disfarçado, desejoso de dispersar humanos potencialmente despertos.

Em verdade vos digo que, no melhor dos mundos possíveis, eu mesma estaria fazendo outra coisa. Entre os cinéfilos e profissionais do ramo, assim como entre os consumidores e criadores de romances gráficos e etc., ninguém em sã consciência quereria ou ousaria questionar por que a vila Medveđa subitamente desapareceu do mapa durante um período de paz na Europa. Mas, se tivesse a oportunidade ideal, eu estaria conduzindo uma expedição arqueológica, reabrindo as covas vazias de Arnold Paole e Peter Plogojević para resgatar os pares de moedas depositadas em seus olhos conforme o costume funerário dos hajduci. Poderia ainda localizar-se qualquer anel, abotoadura ou adereço metálico que sobrevivesse à cremação em fracas fogueiras? Alguns restos de ossos dos famosos vampiros? Haveria, talvez, em algum lugar, belas lápides de pedra-pomes com epitáfios satíricos e retratos elegantes dos mortos, em baixo relevo, iguais às produzidas pelo mesmíssimo grupo cultural e étnico em países vizinhos? Em minha imaginação eu extraia sangue dos poros da rocha vulcânica e/ou da folha de cortiça que servia de leito aos acusados. Eu preparava folhas de vidro e olhava em microscópio eletrônico para desmascarar patógenos ou, quiçá, desvelar o misterioso desconhecido.

NOTAS

[1] ECO, Umberto. Arte e Beleza na Estética Medieval. Trad. Mario Sabino Filho. Rio de Janeiro, Editora Globo, p 13.

[2] CUNHA, Fausto. Ascenção e queda da ficção científica. Em: FELIZ, Moacyr & GOMES, Dias. Revista Civilização Brasileira nº 13, Brasil, Editora Civilização Brasileira, 1967, p 145.

[3] No filme Invasion of the Body Snatchers (1956) uma forma metamórfica de vida extraterrestre copia os corpos dos seres humanos e os substituem gradualmente, invadindo o planeta Terra sem serem notados. Em razão da semelhança do método de infestação alienígena, quando o romance Dwellers of the Deep foi traduzido para português por Sílvia Maria Lopes Cherullo e publicado pela Editorial Bruguera, em 1971, ele recebeu o mesmo título brasileiro dado ao famoso filme: “Vampiros de Almas”.

[4] O’ Donnel, K. M. (Barry Nathaniel Malzberg). Vampiros de Almas. Trad. Sílvia Maria Lopes Cherullo. Rio de Janeiro, Editorial Bruguera, 1971, p 23.

[5] KAZI, Jmm. Fanzines: faça você mesmo! Em: Heróis do Futuro Especial. São Paulo, Press, dezembro de 1995, p 52.

[6] CUNHA, Fausto. Ascenção e queda da ficção científica. Em: FELIZ, Moacyr & GOMES, Dias. Revista Civilização Brasileira nº 13, Brasil, Editora Civilização Brasileira, 1967, p 144.

[7] VERÍSSIMO, Luís Fernando. Os “róbis” da vida. Em: Revista de Domingo, n° 149, p 30. (Brinde do Jornal do Brasil, Rio de janeiro, edição do dia 25/02/1979).

[8] O’ Donnel, K. M. (Barry Nathaniel Malzberg). Vampiros de Almas. Trad. Sílvia Maria Lopes Cherullo. Rio de Janeiro, Editorial Bruguera, 1971, p 7.

[9] O’ Donnel, K. M. (Barry Nathaniel Malzberg). Vampiros de Almas. Trad. Sílvia Maria Lopes Cherullo. Rio de Janeiro, Editorial Bruguera, 1971, p 23.

[10] O’ Donnel, K. M. (Barry Nathaniel Malzberg). Vampiros de Almas. Trad. Sílvia Maria Lopes Cherullo. Rio de Janeiro, Editorial Bruguera, 1971, p 66-67.

[11] O’ Donnel, K. M. (Barry Nathaniel Malzberg). Vampiros de Almas. Trad. Sílvia Maria Lopes Cherullo. Rio de Janeiro, Editorial Bruguera, 1971, p 69-70.

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