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Os principais nomes da demonologia no Renascimento e seus ancestrais medievais
Tradução: Victor Luquini
O Livro dos Espíritos, publicado abaixo pela primeira vez, é o mais antigo tratado de magia demoníaca em francês atualmente preservado. Os medievalistas podem, é claro, torcer o nariz observando que ele não é assim tão antigo: esse texto, de fato, foi transcrito por uma mão anônima em um caderno de pergaminho inserido na coletânea factícia do manuscrito Cambridge, Trinity College O.8.29, nos fólios 179-182v; ora, essa mão, datada do final do século XV ou do início do século XVI por Elizabeth Butler (E. M. BUTLER, Ritual Magic, Stroud, 1998 (1re éd. 1949), p. 36), e do século XV por Richard Kieckhefer (R. KIECKHEFER, Forbidden Rites. A Necromancer’s Manual of the Fifteenth Century, Stroud, 1997, p. 160-161.), não me parece anterior à metade do século XVI (A descrição do manuscrito no catálogo de M. R. James, The Western Manuscripts in the Library of Trinity College, Cambridge, vol. III, Cambridge, 1902, p. 422–424, é bastante defeituosa. Nosso texto foi copiado na primeira parte do sexto conjunto codicológico do volume, que corresponde a um quaternio (fólios 179–186v) de 197 mm de altura por 151 mm de largura; área justificada: 172 mm de altura por 92 mm de largura. A escrita é uma gótica mista datável da metade do século XVI. As passagens em itálico na minha edição correspondem, no manuscrito, a trechos transcritos em letras laranja e vermelhas, de módulo maior.). Mas essa data relativamente tardia não tira nenhum valor do documento. Mesmo que se trate visivelmente de uma tradução abreviada, destinada a um aprendiz de feiticeiro que não sabia latim ou que tinha conhecimentos limitados da língua, o Livro dos Espíritos está completo, o que nos permite apreciar sua estrutura como um todo — um privilégio raro, e mesmo único, na medida em que, até onde sei, todos os outros catálogos de demônios oriundos do Ocidente cristão anteriores a 1600 chegaram até nós em uma forma mais ou menos incompleta.
Tal como está, esse texto é o que proponho chamar de um who’s who demonológico: uma lista de 46 demônios, com seus títulos, aparência física, funções e o número de suas tropas, contabilizado em legiões. Após um breve parágrafo introdutório que reproduz o topos pseudoepigráfico segundo o qual o Livro dos Espíritos foi revelado a Salomão para que a “maldade” dessas criaturas “não reinasse mais sobre a terra cristã [sic]”, o documento apresenta sua nomenclatura (segundo parágrafo), e em seguida fornece uma descrição relativamente detalhada dos três superdemônios: Lúcifer, Gay/Belzebu e Satanás.
Depois vêm os quatro reis que governam os pontos cardeais do céu — Oriente (Oriens), Poymon (Paymon), Amoymon (Amaymon) e Equi (também chamado Egyn, que é esquecido mais adiante: portanto, deveria haver 47 parágrafos e há 47 demônios, não 46). Em seguida, sem que uma ordem hierárquica seja mantida de forma contínua, aparecem sete outros reis, oito príncipes, doze duques, dez marqueses, dois condes e um “grande senhor”.
Esse tipo de pequeno “almanaque social demoníaco” destina-se a ser utilizado por um mago, já que o Livro dos Espíritos é seguido, nos fólios 183-186v, no mesmo caderno de pergaminho e pela mão do mesmo escriba, por um Livro das Conjurações, que funciona como um manual ritual, “pelo qual se pode obrigar os espíritos [= os demônios do Livro dos Espíritos] a obedecer à criatura humana”.
Ora, primeiro indício da antiguidade do modelo a partir do qual o Livro dos Espíritos foi traduzido: esse Livro das Conjurações é uma tradução-adaptação de um Liber consecrationum, que parece ter sido bastante difundido no século XV, já que dois exemplares diferentes desse Liber se encontram no manuscrito de Munique editado por R. Kieckhefer, e existe ainda uma outra versão no manuscrito de Oxford, Bodleian Library, Rawlinson D. 252, fólios 81-87.
Outro testemunho da Renascença
Em 1577, o famoso demonólogo brabançono Johannes Wier publica, sob o título de Pseudomonarchia Daemonum, em anexo à quinta edição de seu De praestigiis daemonum (cuja primeira edição é de 1563), um impressionante catálogo de 69 demônios, seguido de um breve modus operandi.
Em um aviso ao leitor, ele explica as motivações dessa estranha publicação: preocupado em mostrar ao público até onde pode chegar o delírio insano dos magos, ele extraiu esse documento dos arquivos dos vassalos de Satanás, onde podem ser encontrados tratados do mesmo tipo, intitulados Officium spirituum (A função dos espíritos), Liber officiorum spirituum (Livro das funções dos espíritos), ou Liber dictus Emptoris (?) Salomonis, de principibus et regibus daemoniorum, qui cogi possunt divina virtute et humana (Livro, dito de Salomão o Simoniaco [?], sobre os príncipes e reis dos demônios, que podem ser compelidos pela força divina e humana).
A obra causou forte impressão e foi traduzida para o inglês por Reginald Scot, no Livro XV de sua Discoverie of Witchcraft (1584).
Desde o início, impõe-se uma comparação global entre esses dois documentos. Ela revela que ambos são de natureza semelhante e têm um tronco comum, mas que o primeiro não é uma tradução francesa do segundo: 35 demônios do Livro dos Espíritos aparecem em Wier (são reconhecíveis às vezes por seus atributos e funções, pois os nomes são frequentemente deformados e irreconhecíveis: Gemer = Buer, Machin = Bathym, Bugan = Haagenti, etc.), mas 15 demônios do Livro dos Espíritos não aparecem na Pseudomonarchia Daemonum, e 31 demônios da Pseudomonarchia não são mencionados no Livro dos Espíritos.
Temos, portanto, duas versões distintas de um mesmo tipo de texto — sendo que a versão latina, embora significativamente mais longa, é menos completa: o texto da Pseudomonarchia parece estar truncado no início, pois os dois primeiros reis de
Wier, Bael e Agares, são de potestate ou sub potestate Orientis (assim como Beal, no §7 do Livro dos Espíritos), embora anteriormente não haja menção a Oriens.
A mesma observação vale para Paymon, que “obedece mais a Lúcifer do que os outros reis”, embora nenhuma entrada específica seja dedicada a Lúcifer. Faltam, portanto, provavelmente, vários parágrafos no início da Pseudomonarchia que a teriam tornado ainda mais “sulfurosa”, tratando de Lúcifer, Belzebu, Satanás e dos quatro demônios cardeais, entre eles Oriens.
Além disso, o modus operandi ao final da Pseudomonarchia é muito mais conciso do que o Liber consecrationum / Livro das Conjurações, e apresenta discordâncias anormais com o catálogo de demônios que o precede. Como já havia anunciado Wier em seu aviso ao leitor, o texto da Pseudomonarchia foi portanto censurado em vários pontos, tornando-se inutilizável para o curiosulus (curioso) que quisesse se aventurar a brincar de mago.
Por outro lado, o texto do demonólogo é muito mais detalhado e circunstanciado do que o do Livro dos Espíritos no que diz respeito à origem dos demônios, suas funções e sua aparência. Fica-se sabendo, por exemplo, que pelo menos vinte deles são anjos caídos claramente identificados como tais, que antes da queda pertenciam a uma das nove ordens angelicais do Pseudo Dionísio, e que cinco deles ainda nutrem a vã esperança de retornar à ordem dos Tronos, depois de purgarem uma pena de mil ou mil e duzentos anos!
O texto reproduzido por Wier também informa, de forma lacônica, que cada legião contém 6.666 demônios — uma referência evidente ao número 666, o número da Besta do Apocalipse. Isso implica que, dado que os demônios da Pseudomonarchia comandam ao todo 2.253 legiões, o número total de demônios passíveis de agir neste mundo se eleva a 15.018.498 — um número verdadeiramente inquietante para um cristão da época das Reformas…
E Jean Delumeau observa: “no século XVI, começa-se a fornecer os dados numéricos [sobre o número de demônios] que antes se evitava prudentemente divulgar.” Uma afirmação equivocada, se considerarmos não apenas a demonologia bizantina, mas também a demonologia médio-latina ocidental: tudo indica, de fato, que o Livro dos Espíritos e a Pseudomonarchia Daemonum são testemunhos tardios de uma tradição textual muito mais antiga.
Uma tradição antiga
Sem remontar à Antiguidade e ao Testamento de Salomão¹⁷(Ver a edição de C. C. McCown, The Testament of Solomon, Leipzig, 1922, e a tradução e comentário de D. Duling, “The Testament of Solomon (First to Third Centuries AD), a New Translation and Introduction”, em J. H. Charlesworth (ed.), The Old Testament Pseudepigrapha, vol. I, Apocalyptic Literature and Testaments, Garden City, 1983, p. 935–987.
Belzebu (Beelzebul) e Asmodeu são os únicos demônios do Testamento de Salomão que se encontram também no Livro dos Espíritos e na Pseudomonarchia Daemonum, embora Satanás também pertença à tradição judaico-cristã antiga.
Ver também o Dictionary of Deities and Demons in the Bible (DDD), K. van der Toorn, B. Becking e P. van der Horst (eds.), Leiden.), ignorado pela Idade Média latina, enumeremos os principais indícios da existência dessa tradição.
- Na versão longa do Liber Introductorius de Michel Scot (†1236), no capítulo intitulado De notitia artis nigromancie pertinentis ad ymagines, o astrólogo de Frederico II menciona, entre outros opúsculos “sulfurosos”, um Liber perditionis anime et corporis ille, “que trata, em ordem, de todas as funções dos demônios e de seus nomes, das partes do mundo onde eles habitam até que possam ser desviados de sua pena, e onde se encontram para serem convocados ao serviço [dos homens], e de quais ordens [de anjos] caíram”¹⁸.
Pode-se razoavelmente perguntar se essa obra não deve ser identificada com o famoso Liber qui incipit: Mors anime et desperatio vite, atualmente perdido, mas mencionado já em meados do século XII pela Crônica do Pseudo-Turpim¹⁹, e depois por vários estudiosos dos séculos XIII e XIV — notadamente pelo autor do Speculum Astronomiae, que o considera o pior dos livros detestáveis de magia salomônica²⁰.
De todo modo, Michel Scot reivindica, no parágrafo seguinte do mesmo capítulo, a composição de um Liber consecrationis tratando da maneira de conjurar espíritos²¹ — obra que tem boas chances de ser um dos ancestrais do Liber consecrationum conservado em diversos manuscritos do século XV e traduzido no manuscrito de Cambridge sob o título de Livro das Conjurações. Quanto ao número de 6.666 demônios por legião demoníaca, ele é citado nas duas versões do Liber Introductorius²².
Michel Scot enumera, além disso, cerca de vinte demônios, o que permite supor que o who’s who demonológico de que ele dispunha é distinto daqueles que encontramos registrados posteriormente. Nele reconhecem-se alguns nomes célebres, comuns aos catálogos de Wier e do Livro dos Espíritos (Asmodeu, Egym, Belial, Astaroth, Belzebu, etc.), mas também outros demônios não mencionados por esses autores mais tardios, como Belfegor, Mandrac e Gargifer²³.
- Em seu Opus tertium, composto na década de 1260, Roger Bacon menciona, entre outros livros de magia, um Liber de morte anime e um Liber de officiis et potestatibus spirituum²⁴.
- Em seu comentário ao De sphera de João de Sacrobosco, Cecco d’Ascoli (†1327), que afirma inspirar-se neste caso em um tratado atribuído a Zoroastro, fala dos “quatro espíritos de grande virtude que se situam nos pontos cardeais […], chamados Oriens, Amaymon, Paymon e Egim, que são espíritos da hierarquia maior e que cada um tem sob seu comando 25 legiões de espíritos”²⁵.
Esses mesmos reis dos demônios são invocados, durante uma conjuração destinada a provocar o amor, no livro I, capítulo 6, da famosa Clavícula de Salomão, cuja versão latina data, no máximo, do início do século XIV, mas cujo exemplar mais antigo preservado é uma tradução italiana datada de 1446²⁶.
Eles também aparecem como destinatários privilegiados das orações dos magos em outros manuscritos do século XV, notadamente em dois trechos do Tractatus discipulorum Salomonis super eutuntam et ydeam²⁷ e em um experimentum catoptromântico do manuscrito de Oxford mencionado anteriormente²⁸(Florença, BN, ms. II.III. 214, fólios 28v–29. Sobre este surpreendente tratado, atribuído a quatro discípulos de Salomão (Fortunatus, Eleazar, Macarus e Toz Grecus) e às vezes intitulado De quatuor annulis, notadamente no Speculum Astronomie (op. cit., p. 244), veja-se L. Thorndike, “Traditional Medieval Tracts”, loc. cit., p. 250– 251, e D. Pingree, “Learned Magic in the Time of Frederick II”, em Le scienze alla corte di Federico II, Micrologus, II, 1994, p. 39–56 (p. 45).).
- No Liber sacratus atribuído a Honório de Tebas, um tratado de magia teúrgica, do qual suspeito que tenha sido escrito, na versão preservada atualmente, na década de 1330, em resposta à repressão da magia promovida por João XXII²⁹, na quarta parte dedicada aos espíritos terrestres, todos maus, são descritos cinco chefes dos demônios cuja monstruosidade é ainda mais completa e complexa do que a de seus semelhantes na Pseudomonarchia, o que pode indicar que estes últimos pertencem a uma tradição mais antiga, sobre a qual o Liber sacratus faz uma expansão. Esses demônios têm nomes que parecem ter sido majoritariamente inventados para atender às necessidades do tratado: Corniger, rei do Sul, tem quatro ministros dos quatro pontos cardeais, chamados Drocornifer, Malifer, Eviraber e Mulcifer. Cada um deles comanda 100 legiões de 4.500 demônios. Mas o príncipe dos ministros do Inferno que deve ser invocado para expulsar os outros demônios dos tesouros escondidos, a fim de guardar o despojo para si, é um certo Labadau (identificável com Abaddon, o anjo destruidor³⁰?). Ele é assistido por Asmodeu, “que concede um tesouro indestrutível em qualquer moeda”³¹.
- Conservam-se, em alguns raros grimórios do século XV que escaparam à fogueira, listas parciais de demônios do tipo daquelas encontradas na Pseudomonarchia. Com certeza existem outras, mas até o momento só identifiquei duas. Uma delas é a lista de 11 demônios enumerados no manual alemão de “nigromancia” publicado por R. Kieckhefer (sigla M no apêndice), e a outra é uma lista de 37 demônios, infelizmente incompleta no início, que localizei em um manuscrito da Biblioteca Laurentiana, cujo colofão data a cópia em Roma, 1494 (sigla F). Esta última lista tem o interesse principal de mencionar alguns demônios que não aparecem em outros lugares, mas, acima de tudo, por ser seguida de um modus operandi bem mais adequado do que o da Pseudomonarchia.
- Por fim, no precioso catálogo de livros de magia que Johannes Trithemius inseriu, em 1508, em seu Antipalus maleficiorum, encontram-se dois tratados que pertencem ao gênero literário que estamos discutindo: um, colocado em segunda posição no catálogo, logo após a Clavicula Salomonis, e intitulado Liber officiorum, distingue cinco dignidades de chefes dos demônios: imperadores, reis, duques, marquês e condes³²; o outro é descrito da seguinte forma: Et est liber Salomoni adscriptus De officiis spirituum. **Magnus et alius ab illo, quem superius nominavi, execrabilis et totus diabolicus, qui sic incipit: “In hoc libro sunt secreta omnium artium”**³³. É esta última versão que parece ser a mais próxima do Livre des esperitz e do manuscrito publicado por Wier sob o título Pseudomonarchia dæmonum.
Esses antecedentes, uma vez lembrados, é hora de entrar mais profundamente na análise das nossas quatro listas dos séculos XV e XVI, que fornecem os nomes, no total, de cerca de 107 demônios.
O Inferno, como lembra o início do Livre des esperitz, é uma monarquia sob a autoridade suprema de Lúcifer, a Estrela da Manhã, considerada equivocadamente pelos Padres da Igreja (cf. Isaías 14, 12-15) e depois pelos clérigos medievais como um príncipe dos demônios³⁴.
Lúcifer talvez seja visto como difícil de alcançar pelos magos do Médio Idade cristã. De todo modo, as invocações dirigidas a ele são raras, e as mais interessantes delas são encontradas em manuscritos italianos do século XV, seja de forma indireta³⁵, seja no contexto de um livro de magia amorosa de origem milanesa, onde uma magnífica conjuração tem como destinatário Lucifello, o primeiro dos anjos, que caiu do céu na forma de uma “antiga e terrível serpente”³⁶.
Belzebu, por sua vez, também parece ser pouco invocado diretamente, embora seja chamado de deus amoris e representado como tal na versão longa do Liber introductorius de Michel Scot³⁷.
Satanás, apesar de seu aspecto aterrador e caráter temível, aparece com mais frequência como destinatário potencial das orações do oficiante na magia ritual: encontra-se mencionado como tal no Tractatus discipulorum Salomonis super eutuntam et ydeam³⁸, mas também no manual editado por R. Kieckhefer, onde uma longa conjuração de Satanás/Miragem visa à obtenção de um espírito familiar, capaz de satisfazer os mais caros desejos do invocador³⁹.
No total, uns vinte de nossos demônios são interlocutores privilegiados dos magos. Pensamos, em particular, nos reis dos pontos cardinais⁴⁰, mas também em Astaroth, Belial e Berith⁴¹, em Byleth⁴² e em Flavos/Flauros, talvez identificável com Floron⁴³
No total, cerca de vinte de nossos demônios são interlocutores privilegiados dos magos. Pensamos, em particular, nos reis dos pontos cardinais, mas também em Astaroth, Belial, Berith, Byleth e Flavos/Flauros, talvez identificável com Floron.
Eu não irei insistir sobre os nomes dos outros demônios e sobre sua possível origem. Me limitarei apenas a destacar alguns nomes significativos, relacionados à aparência ou às funções dos demônios em questão: Bifrons em W; Cérbero em C e W; Triplex sive Complex, um anjo caído da ordem das Principados, que se tornou magno dux e marquês em F, que aparece na semelhança de um anjo belo e […] por meio dele, todas as coisas podem ser ligadas de três maneiras.
No Livro dos Espíritos, a hierarquia dos demônios não é muito clara, na medida em que seus títulos não são um critério determinante para diferenciar o volume das tropas que lhes são confiadas: os reis comandam de 100 a 6 legiões, com média de 31; os duques, de 80 a 15 legiões, com média de 35; os príncipes, de 36 a 20 legiões, média de 30; os marqueses, de 50 a 19 legiões, média de 31; o “grande senhor” tem 30 legiões, e os dois condes, 25.
Desse ponto de vista, a hierarquia militar da Pseudomonarchia é mais bem definida: os 14 reis têm em média 50 legiões, os 6 príncipes, 41; os 13 chefes/presidentes (præses), 39; os 23 duques, 32; os 14 marqueses, 29; os 12 condes, 27; e o cavaleiro (miles), 20.
Vale notar que a hierarquia de títulos dos demônios na Pseudomonarchia tem em parte como referência o Império Carolíngio (o título de marchio, chefe de uma “marca” fronteiriça, é uma inovação de Carlos Magno), e que a ausência de qualquer estrutura intermediária nas forças infernais caracteriza nossos textos demonológicos — repletos de títulos pomposos, mas pouco preocupados com questões de estratégia⁴⁶.
O Livro dos Espíritos é bastante elíptico (ou seja, vago ou omisso) quanto à aparência física dos demônios, aparência essa que, ao contrário, é cuidadosamente descrita na Pseudomonarchia. Dos 59 demônios descritos nesse tratado editado por Wier, 36, ou seja, quase dois terços, são monstros que combinam, em diversos graus, características humanas, animais e angélicas.
Um exemplo típico dessa combinação é o demônio Volac, que tem a aparência de um menino com asas de anjo, montado em um dragão de duas cabeças.
Também são numerosos, como Satanás, os demônios com três cabeças, animais e/ou humanas: por exemplo, Aym, que possui três cabeças — uma de serpente, uma de homem e uma de gato — e cavalga uma víbora gigante que cospe fogo e destrói acampamentos militares e cidades.
Também são significativos os dois demônios Belial e Pucel, que aparecem como anjos, a fim de dar ao mago um álibi que lhe permita fazer crer que se enganou quanto ao interlocutor⁴⁷ — afinal, como todos sabem, o Diabo é o pater mendacii, o pai da mentira e da ilusão.
O ilusionismo é uma das funções essenciais da magia em geral e dos nossos who’s who demonológicos em particular. Lembremos que as receitas de caráter ilusionista (obter um banquete, um castelo, um barco, um cavalo, um trono voador, ressuscitar um morto, tornar-se invisível, etc.) representam um terço dos experimenta no manual de “nigromancia” publicado por R. Kieckhefer; as receitas divinatórias correspondem a 43% e as receitas psicológicas, a **19%**⁴⁸.
No Livro dos Espíritos, entre 87 funções identificadas, são os fins divinatórios (23%) que predominam, ainda que por pequena margem, mas o ilusionismo e as técnicas imaginárias ocupam a segunda posição, com 22% das funções, à frente das finalidades cognitivas (17%), da busca por poder (16%), por riqueza (7%), por saúde (7%) e por amor e outros elementos psicológicos (8%).
Mas é sobretudo a Pseudomonarchia que é rica em ensinamentos sobre as funções e motivações da magia. Também aqui, não é a busca pelo poder que predomina: entre 139 funções identificadas, a potência política, o favor dos poderosos e o sucesso na guerra aparecem apenas 17 vezes, ou seja, em 12% dos casos.
Da mesma forma — convém lembrar — a magia, mesmo demoníaca, não serve essencialmente para matar pessoas: os demônios que provocam a morte são invocados em apenas quatro ocasiões. Tampouco serve para causar
doenças ou curá-las (duas ocorrências apenas), ou para provocar amor, amizade ou ódio (15 ocorrências, ou 11%).
Por outro lado, o que domina de forma bastante expressiva é a busca pelo conhecimento (47% das funções): não apenas o conhecimento divinatório, que proporciona o saber do passado, presente e futuro (26 ocorrências, ou 19% das funções) e das coisas ocultas (a começar pelos tesouros escondidos: nove ocorrências), e o saber maravilhoso, que permite alterar o equilíbrio das forças da natureza (como a transmutação dos metais, transformar água em vinho ou o contrário), mas principalmente o conhecimento e o saber-fazer dos homens comuns (39 ocorrências, ou 28% das funções): o domínio dos artes liberais do trivium e do quadrivium, da filosofia (até mesmo da teologia: três ocorrências) e das artes mecânicas.
Portanto, a magia serve antes de tudo para adquirir capacidades intelectuais extraordinárias, mas partindo do domínio das disciplinas ensinadas nas escolas e universidades. Nesse contexto, as capacidades divinatórias (19%) e ilusionistas (16%: cinco ocorrências de invisibilidade, seis de transporte aéreo, incluindo um caso de transporte da alma ao Purgatório) oferecem uma satisfação adicional, mas não são essenciais quando comparadas ao que parece ser o fundamental: um domínio extraordinário dos saberes comuns.
Observa-se, para concluir, a relativa coerência temática de certas funções dos demônios, que chegam até mesmo à tautologia: a magia serve para se tornar e permanecer um bom mago. 9% das funções identificadas na Pseudomonarchia dizem respeito a essa capacidade de manutenção e aprimoramento da arte mágica: nove demônios servem para fornecer os melhores espíritos familiares, dois outros são utilizados em exorcismos e contra espíritos ainda piores que eles.
Por fim, as funções de dois demônios demonstram, caso ainda fosse necessário, que a “nigromancia” do final da Idade Média e da Renascença, mesmo se distanciando dela, não renega totalmente a necromancia de suas origens: Bune e Bifrons têm como função, respectivamente, mover os mortos de lugar, reunir os demônios sobre seus túmulos (Bune), e acender velas sobre esses túmulos (Bifrons).
Essas velas, onipresentes nos rituais mágicos e nos quais os indícios que tendem a demonstrar a existência de um “sistema da luz”, para retomar uma expressão usada por Jacques Chiffoleau (Foi durante a defesa de habilitação de Catherine Vincent, intitulada Um mundo iluminado: luz e luminárias no Ocidente medieval, realizada na Universidade de Paris I em 27 de novembro de 1999, que Jacques Chiffoleau levantou a questão de saber se existia ou não “um sistema da luz” na sociedade cristã do século XIII ao XV. Trata-se, de fato, de uma questão que merece ser aprofundada, e os rituais mágicos poderiam constituir um campo importante de investigação nesse sentido.), são bastante perceptíveis, nos levam de volta ao ponto de partida — ou seja, a Lúcifer.
A Lúcifer, em majestade: é preciso dizer que, no gênero literário que nos ocupa, a majestade é onipresente — quase em excesso. Tem-se a impressão de estar sonhando ao ler tais textos, pois parece haver aqui uma verdadeira prova da existência, no Ocidente dos últimos séculos da Idade Média e da Renascença, de um desafio explícito da literatura mágica às autoridades da Igreja e do Estado. Mesmo que tenham agido às escondidas, os magos que difundiram esses textos deram a seus adversários muitas tochas para se queimarem com elas.
No entanto, nota-se que essa majestade demoníaca, concorrente da dos poderes estabelecidos, não é essencialmente maligna: mesmo sendo monstros mais ou menos assustadores, os demônios saem aqui do Inferno mais para satisfazer os desejos dos homens do que para espalhar o mal sobre a Terra. Curiosamente — e até escandalosamente, aos olhos dos guardiões da ortodoxia cristã —, esses demônios parecem até benevolentes, ou mesmo benéficos.
Pensa-se, por exemplo, no artigo 23 das condenações de Paris de 1398, que Wier reproduz em sua coletânea: “que entre os demônios, há alguns que são bons, outros benignos, outros oniscientes, e outros nem salvos nem condenados. Erro.” A sobrevivência efetiva, entre os magos letrados europeus do século XIII ao XVI, dessa concepção demonológica muito antiga — igualmente atestada em Bizâncio — não deixa dúvida quando se consultam os poucos manuscritos remanescentes que possuíam.
Mas pode-se questionar se eles realmente aderiam a essa concepção por convicção, ou apenas de maneira instrumental, e quem mais, dentro da sociedade da época, a compartilhava com eles.
Siglas:
- M: Manuscrito de Munique, Clm 849, fólios 65v–65r bis (meados do século XV), editado por Richard Kieckhefer em Forbidden Rites. A Necromancer’s Manual of the Fifteenth Century, Stroud, Sutton Publishing, 1997, p. 291– 293.
- F: Manuscrito de Florença, Biblioteca Laurenziana, Plut. 89 sup. 38, fólios 459–467v (datado de 1494).
- C: Livre des esperitz, manuscrito de Cambridge, Trinity College, ms. O.8.29, fólios 179–182v (meados do século XVI).
- W: Johann Wier, Pseudomonarchia dæmonum, Basileia, 1577, colunas 911– 934.
Lista de demônios e suas aparições nas fontes mencionadas: • Acar, grande conde, comanda 20 legiões — F33.
- Agaret, duque, comanda 36 legiões — C8.
- Agares, primeiro duque sob o domínio do Oriente, comanda 31 legiões — W2.
- Alocer, grande duque, comanda 36 legiões — W64.
- Alphas: ver Malphas.
- Alugor, grande duque — M5.
- Abugor, duque, comanda 27 legiões — C18.
- Eligor (ou Abigor), grande duque, comanda 60 legiões — W12. • Amduscias, grande e poderoso duque, comanda 29 legiões — W53. • Amon, marquês, comanda 40 legiões — C11.
- Amon ou Aamon, grande marquês, comanda 40 legiões — W5. • Amoymon, rei do Sul — C6.
- Amoymon, rei do Oriente — W.
- Amy, grande presidente, 36 legiões. W61.
- Andras ou Vandras, grande marquês, 30 legiões. F20 e W54.
- Andrialfis (Vuduch ou -), presidente, 30 legiões. F19. Andralphus, marquês C46.
- Androalphus, grande marquês, 30 legiões. W55.
- Ara, duque e marquês, 25 legiões. F32.
- Arabas ou Accabas ou Irabas, grande príncipe, 20 legiões. F24. Orobas, grande príncipe, 20 legiões. W58.
- Artis, duque, 36 legiões. Botis, ou Otis, grande presidente e conde, 60 legiões. W9.
- Asmoday, rei, 12 legiões. C25. Sydonay, ou Asmoday, grande rei, 72 legiões. W35.
- Astaroth, grande e forte duque, 40 legiões. F7 e W28.
- Aveche, rei e duque, 30 legiões. F1.
- Azo. Cf. Otius.
- Bachimy ou Albermi ou Cabeym, grande e forte duque, 26 legiões. F23. Aym ou Haborym, grande e forte duque, 26 legiões. W57.
- Balam, cf. Vaal.
- Balpala, grande e forte duque, 30 legiões. F25. Vapula, grande duque, 36 legiões. W59.
- Barbarus, grande conde e duque, 36 legiões. M1. Barbas, príncipe, 36 legiões. C12.
- Barbatos, grande conde e duque, 30 legiões. W6.
- Barthas, príncipe, 36 legiões. C9. Marbas, ou Barbas, presidente, 36 legiões. W3.
- Bathym. Cf. Machin.
- Beal, rei, 6 legiões. C7. Bael, rei, 66 legiões. W1.
- Beduch ou Bamone, grande marquês, 20 legiões. F5.
- Belial, rei, 30 legiões. F28. – segundo de Lúcifer, 80 legiões. W23.
- Berich, grande rei e duque, 26 legiões. F7. Bertheth, duque, 26 legiões. C36. Berith, grande e terrível duque, 26 legiões. W27.
- Bifrons, 26 legiões. W46.
- Bille, duque forte, 26 legiões. F3.
- Bitur, grande marquês, 36 legiões. C28. Sytry, ou Bitru, grande príncipe, 60 legiões. W21.
- Boab, grande presidente, 40 legiões. F2.
- Bonoree, grande marquês e duque, 19 legiões. F6. Roneve, marquês e conde, 19 legiões. W26.
- Bucal, duque, 28 legiões. C46. Pucel, grande e forte duque, 48 legiões. W38.
- Buer. Cf. Gemer.
- Bugan, rei, 34 legiões. C30. Haagenti, grande presidente, 33 legiões. W67.
- Bulfas, príncipe, 36 legiões. C10. Pruflas, ou Bufas, príncipe e duque, 26 legiões. W4.
- Bune, grande marquês, 36 legiões. C27. – grande e forte duque, 30 legiões. W24.
- Byleth, grande e terrível rei, 85 legiões. W20.
- Caap, príncipe, 20 legiões. C26. Gaap, ou Tap, grande presidente e príncipe, 66 legiões. W36.
- Cambea, grande conde, 20 legiões. F17. Decarabia ou Carabia, grande rei e conde, 30 legiões. W52.
- Carmola, grande príncipe, 26 legiões. C21.
- Cason, grande e forte duque, 45 legiões. M2. Gazon, duque, 40 legiões. C14.
- Gusoyn, grande e forte duque, 45 legiões. W8.
- Caym, grande presidente, 30 legiões. W41.
- Cerbere, marquês, 19 legiões. C20. Naberus, ou Cerberus, marquês, 19 legiões. W17.
- Chax, ou Scox, grande duque e marquês, 30 legiões. W37. • Cimeries, grande marquês, 20 legiões. W60.
- Coap, príncipe, 27 legiões. C23.
- Curson, grande rei e forte, 22 legiões. M4.
- Diusion, rei, 24 legiões. C17.
- Pursan, também Curson, grande rei, 22 legiões. W11.
- Dam, conde, 25 legiões. C37.
- Distolas, marquês, 20 legiões. C35.
- Stolas, grande príncipe, 26 legiões. W69.
- Drap, duque, 80 legiões. C24.
- Ducay, grande príncipe, 26 legiões. C45.
- Egym, grande e forte rei, 1000 legiões. F29. Equi, C.
- Fameis ou Fronone, grande marquês, 20 legiões. F4.
- Forneus, grande marquês, 29 legiões. W25.
- Fenix, marquês, 25 legiões. C34.
- Phoenix, grande marquês, 20 legiões. W68.
- Flavos, duque, 20 legiões. C32.
- Flauros, duque forte, 20 legiões. W62.
- Focalur, grande duque, 30 legiões. W44.
- Forcas, grande príncipe, 30 legiões. C39.
- Furcas, cavaleiro, 20 legiões. W39.
- Forchas ou Fortas ou Sartii, grande presidente, 29 legiões. F9. • Forras ou Forcas, grande presidente, 29 legiões. W29.
- Furfur, grande conde, 25 legiões. F10. – grande conde C38. – grande conde, 26 legiões. W30.
- Gaeneron, duque forte, 27 legiões. M8.
- Gomeris ou Caym, duque forte, 21 legiões. F16.
- Gomory, duque forte, 26 legiões. W51.
- Gamygyn, grande marquês. W47.
- Gay–Bezlebuth, C2.
- Gemer, rei, 40 legiões. C13.
- Buer, grande presidente, 50 legiões. W7.
- Glasyalabolas, ou Caacrinolas ou Caassimolar, grande presidente, 36 legiões. W18.
- Goap, rei e príncipe do Ocidente. W.
- Gorsor ou Gorson, duque forte, 12 legiões. F13.
- Gorsay, duque, 15 legiões. C41.
- Gorson, rei do Sul. W.
- Halphas, grande conde, 26 legiões. W43.
- Hanni, grande presidente, 30 legiões. M10.
- Ipes. Cf. Vipos.
- Judifligei, líder forte, 19 legiões. F18.
- Lambes, grande rei, 15 legiões. F36.
- Lanima ou Primam, grande conde, 20 legiões. F26. • Loray, ou Oray, grande marquês, 30 legiões. W13.
- Lúcifer, C1.
- Lucubar, duque. C29.
- Machin, duque, 37 legiões. C16.
- Bathym, ou Marthim, grande e forte duque, 30 legiões. W10. • [M]alphas ou Malapas, grande presidente, 20 legiões. F12. • Malpharas, grande senhor. C40.
- Malphas, grande presidente, 40 legiões. W32.
- Margoas ou Margodas ou Margutas, 20 legiões. F11. • Margotias, marquês. C44.
- Marchocias, grande marquês, 30 legiões. W31.
- Morax, ou Foraii, grande conde e presidente, 36 legiões. W15. • Murmur, duque e conde. W40.
- Orias, grande marquês, 30 legiões. W50.
- Orient, C4.
- Otius, grande presidente, 27 legiões. M3.
- Azo ou Oze, grande presidente, 20 legiões. F22.
- Oze, marquês, 25 legiões. C44.
- Oze, grande presidente. W56.
- Paimon, rei, 40 legiões. F27.
- Poymon, 25 legiões. C5.
- Paymon obedece mais a Lúcifer do que a outros reis, 25 legiões. W22. • Paragalla, grande marquês e conde, 30 legiões. F34.
- Parcas, príncipe, 30 legiões. C31.
- Ponicarpo, duque forte, 30 legiões. F35.
- Ras, grande presidente, 69 legiões. F30.
- Rau ou Raym, grande conde, 30 legiões. W42.
- Salmatis, marquês, 50 legiões. C22.
- Sabnac, também Salmac, grande e forte marquês, 50 legiões. W34. • Samon, rei, 25 legiões. C42.
- Satan, C3.
- Saymon ou Zamon, duque forte e presidente, 30 legiões. F21. • Simias ou Sitmas, grande marquês, 30 legiões. F14. • Sucax, grande marquês, 23 legiões. M11.
- Taob, grande e príncipe, 25 legiões. M6.
- Torcha, grande marquês e duque forte. F31.
- Triplex ou Complex, grande duque, 43 legiões. F37. • Tudiras Hoho, marquês, 31 legiões. C43.
- Tuveries, grande e forte marquês, 30 legiões. M9.
- Vaal, rei, 39 legiões. C33.
- Balam, grande e terrível rei, 40 legiões. W63.
- Valefar, também Malaphar, duque, 10 legiões. W14. • Vepar, também Separ, grande duque, 29 legiões. W33. • Vine, grande rei e conde. C45.
- Vipos, conde, 25 legiões. C19.
- Ipes, também Ayperos, grande conde e príncipe, 36 legiões. W16. • Volach, grande presidente, 27 legiões. M7 – 30 legiões. F15. • Volac, grande presidente, 30 legiões. W50.
- Vual, grande e forte duque, 37 legiões. W66.
- Vuduch. Cf. Andrialfis.
- Zaleos, grande conde. W65.
- Zepar, duque, 26 legiões. W19.
- Zymymar, rei do Norte. W.
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