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Shirlei Massapust
The Constitutions, o mais importante livro maçônico, é uma compilação dos termos em uso pela Grande Loja de Londres, a primeira Obediência do mundo, criada em 1717. O livro foi escrito por James Anderson (1679-1739), com primeiro esboço publicado em 1723 e posteriormente revisado em 1738. Em 1938 tornou-se o “livro da lei maçônica” segundo uma resolução conjunta do Grande Oriente e da Grande Loja da França.[1] Embora várias lojas maçônicas brasileiras prefiram usar a Bíblia na composição do cenário para a iniciação de aprendizes, em obediência a Constituição do Grande Oriente do Brasil, na Europa o volume fundamental é aquele de James Anderson.
Pois bem… Certa vez alguém teve a boa ideia de imprimir uma xilogravura de Lúcifer no frontispício daquele livro. Na França a capa da 4ª edição de Les Constitutions d’Anderson (1784) apresentou uma alegoria de G. B. Cipriani e P. Sandby onde tal persona mitológica traz o esquadro e o compasso para a oficina de trabalhos maçônicos, longe da vista da Fé, mas sob os auspícios da Caridade, da Esperança e da deusa Veritas. A nocividade da fé ao progresso científico foi francamente representada logo abaixo por um modelo geocêntrico do sistema solar descartado como lixo no chão enquanto o globo terrestre o substitui sobre a mesa, demonstrando que nosso planeta é redondo. Aliás, tem dois globos sobre a mesa. Seguramente existe mais de um planeta redondo no céu.
Brasileiro faz piada com tudo. Conhecemos uma versão nacional caricatural onde nada deu certo! A Maçonaria antropomorfa aglutina várias funções sem conseguir realizar nenhuma delas. Ela carrega para longe dos olhos humanos o archote de Lúcifer, o espelho de Veritas, o esquadro, o compasso, etc. A pluma acima de sua cabeça e a chama do archote tem forma de flores de liz: Velho modelo do arminho (o norte dos mapas antigos). A Maçonaria perdeu a âncora da esperança e voa para o céu, deixando um dos filhos da caridade para traz, tentando se desembaraçar de incômodas correntes rosa-cruzes.[2]

Ilustração da capa da 4ª edição de Les Constitutions d’Anderson (1784): o ideal maçônico.

Versão brasileira: a Maçonaria antropomorfa recolhendo e subtraindo os instrumentos de trabalho numa caricatura que representava a necessidade de reconhecer os direitos humanos de 4ª e 5ª geração, entre outras metas trabalhadas principalmente de 11/01/1992 a 11/12/2011[3].
Quando o estadunidense Albert Pike (1809-1891) elaborou os ritos de passagem dos graus maçônicos do Rito Escocês Antigo e Aceito (R.E.A.A.) ele distribuiu o livro Morals and Dogma (1871), cujo frontispício assegura a colaboração do Supremo Conselho do Grau 33 para a Jurisdição do Sul dos EUA. Ele explica seu modo de entender Lúcifer:
Para os iniciados isso não é uma Pessoa, mas sim uma Força, criada para o bem, mas que pode servir para o mal. É o instrumento da Liberdade ou livre-arbítrio. Eles representam esta Força, que preside à geração física, sob a forma mitológica e chifruda do Deus Pã; daí surgiu o bode do Sabbat, irmão da antiga serpente, e Phōsphoros (Φωσφόρος), o Portador da Luz do qual os poetas fizeram o falso Lúcifer da lenda.[4]
Deus se revela a nós por meio do verbo; não apenas na criação visível e invisível, mas também na criação intelectual e ainda em nossas convicções, consciência e instintos. Daí decorre que certas crenças sejam universais. A convicção de todos os homens de que Deus é bom levou à crença em um Diabo, o Lúcifer caído ou Portador da Luz, Satã, o Adversário, Ahriman e Typhon, como uma tentativa de explicar a existência do Mal e torná-lo consistente com o Poder, a Sabedoria e a Benevolência Infinitos de Deus.[5]
O Apocalipse é, para aqueles que recebem o Grau 19, a Apoteose daquela Fé Sublime que aspira somente a Deus e despreza todas as pompas e obras de Lúcifer. Lúcifer, o Portador da Luz! Nome estranho e misterioso para o Espírito das Trevas! Lúcifer, o Filho da Manhã! É ele quem traz a Luz e, com seus esplendores intoleráveis, cega as Almas débeis, sensuais ou egoístas? Não duvide! Pois as tradições estão repletas de Revelações e Inspirações Divinas: e a Inspiração não é de uma Era nem de um Credo. Platão e Filo também foram inspirados.[6]
Substitua “Lúcifer” por “conhecimento técnico de como realizar a fusão do átomo” e logo ficará claro que a mesmíssima força tem diferentes usos. Na Maçonaria a função simbólica do ente mitológico seria explicada com mais detalhes de forma oral somente aos iniciados no grau 19 do R.E.A.A., onde o maçom recebe o título de Grande Pontífice.
A política de Albert Pike de seleção de pessoas e de retenção de informações gerou rancor e curiosidade exacerbada sobre o que aquela gente estaria discutindo sobre o diabo dentro de um simulacro de templo decorado com desenhos de ossos, caixões e estrelas. O canadense Manly Palmer Hall (1901-1990), autor maçom de Grau 33, também é comumente criticado pelos militantes da batalha espiritual, por causa deste parágrafo:
Chegou o dia em que o Companheiro Maçom precisa conhecer e aplicar seu conhecimento. A chave perdida para esse grau é o domínio das emoções, que colocam a energia do universo a sua disposição. Só se pode confiar grande poder aos homens que provaram sua capacidade de usá-lo de forma construtiva e altruísta. Quando o maçom aprende que a chave para o guerreiro é a aplicação correta do dínamo do poder da vida, ele aprendeu o mistério da sua Arte. As energias ardentes de Lúcifer estão em suas mãos, e antes que ele dê o passo para a frente e para cima, precisa provar sua capacidade de aplicar corretamente a energia. Precisa seguir os passos de seu antepassado, Tubalcaim[7], que com a força poderosa do deus da guerra forjou de sua espada um arado.[8]
Maçons de altos graus explicaram-me que essas referências são reais e válidas, mas que fora de contexto não soam normais. O fragmento de aprendizado representado pelo grau 19 é ainda incompleto. O grau 19 é o primeiro ao qual só se é promovido por convite. Nele o maçom deve decorar e repetir doze sentenças representadas pelas doze estrelas “do zodíaco intelectual em que estaciona o iluminar da razão, como o do dia no firmamento”[9]. Fica assumido que toda ciência inexata, expressão artística, política, moral, etc., deve subordinar-se às liberdades laicas e organizar-se conforme o bom senso. Seu terceiro tópico afirma que “as religiões, filhas do grau de civilização que cada povo alcança, não podem servir para dirigi-la, pois todas as apoiam no absoluto, e, apenas invadem o terreno intelectual humano, paralisam a razão e sepultam o universo no obscurantismo”[10].
Existe uma indumentária especialmente concebida para vestir o Grande Pontífice:

Esquerda: Ilustração datada de 1841 mostrando o primeiro modelo do uniforme do grau 19[11]. Direita: Ilustração na página 118 do Clausen’s Commentaries on Morals and Dogma (1974), de Henry C. Clausen, ensinando a fazer alguns ornamentos da indumentária do grau 19.
Notamos uma parafraze do Apocalipse 1:8 manifesta pela impressão do Alfa (A) e do Omega (Ω) na faixa do maçom de Grau 19. De acordo com um guia para alfaiates datado de 1841 uma joia peitoral fundida em ouro e cravejada com doze gemas preciosas ficava sob o uniforme.[12] A página 118 dos Commentaries on Morals and Dogma (1974) de Henry C. Clausen traz a imagem impressa da joia multicolorida, relacionada com certa citação do poema Faust (1790) sobre o manto de deus, associada implicitamente aos adornos do Rei de Tiro (Ezequiel 28:13).
Estes detalhes demonstram que o maçom de grau 19 não é adorador de Lúcifer. Ele representa o personagem Lúcifer durante um espetáculo teatral interativo e privado. Rizzardo da Camino (1918-2007), maçom de grau 33 do rito escocês, desvelou a tradição oral suplementar corrente no Brasil: a degustação do fruto proibido ofertado pela serpente seráfica causou o início da história humana, pois sem o conhecimento do bem e do mal o homem desprovido de logos seria incapaz de questionar a intolerância, a superstição e o fanatismo. O Lúcifer mitológico é, portanto, a força que conduziu o homem das trevas da inconsciência à luz crepuscular da consciência individual e intelectual.
Quanto se diz que Lúcifer é o precursor do logos (Cristo) causa-se espanto e a reação é violenta, dos menos avisados. Surgiu a fábula de que Lúcifer seria Satanás, o Diabo. Já na época de Santo Agostinho ao compor o hino Exultet, que se canta no sábado de aleluia, houve pela intolerância, grande escândalo, pois assim principia: “Ó felix culpa! Ó vere necessarium, Adae pecatum…” Como poderia haver uma culpa feliz? Como poderia existir um pecado verdadeiro e necessário? (…) A culpa ou o pecado de Lúcifer não foi um pecado no sentido teológico hodierno, porque essa culpa e esse pecado nunca poderiam ser chamados feliz nem necessário, por Santo Agostinho. (…) O Logos, o Cristo, é a Razão, a Consciência Universal. Não poderia surgir essa Consciência Universal, sem que, primeiro, se luciferasse pela Consciência Individual? Como poderia o homem encetar o último passo em direção à sua própria evolução, sem antes, dar o penúltimo passo? A consciência individual, serpentina, luciférica, tende a usar a violência física ou mental para obter os seus fins, sempre individuais e egoísticos. A consciência universal, crística, é inimiga de qualquer violência.[13]
No Grau 19 o Grande Pontífice começará a interiorizar o aprendizado sobre o sacrifício de interesses individuais em prol da busca do bem comum. “A sociedade humana é uma oficina de trabalho e produção em que o interesse material é mais poderoso que o moral”.[14] Todavia, segundo o maçom gaúcho Alberto Rodrigues (1924-2024), “com a Tocha da Razão por guia, podemos dar passos seguros em direção à nossa meta”.[15]
Nunca é demais lembrar que, embora use adaptações do fabulário bíblico em suas encenações e publicações, a Maçonaria não é uma organização religiosa. A deidade criadora, chamada de Grande Arquiteto do Universo (G. . A. .D. .U. .) é objeto de estudo, mas não necessariamente de culto. O mesmo é válido para anjos e outros preternaturais. Há tempos que ministros religiosos recriminam os adoradores do sol reunidos sob ramos de acácia no umbral do Templo de Jerusalém (Ezequiel 8:15-18), ainda que o Sol seja o emblema da razão na filosofia platônica (A República, livro VII).
NOTAS
[1] CASTELLANI, José. Os Erros Ritualísticos do Rito Moderno no Brasil. Em: A TROLHA. Maringá, A Trolha, fevereiro de 1991, nº 52, p 29-32.
[2] A TROLHA. Maringá, A Trolha (setembro de 1995), nº 107, capa e página 4.
[3] A TROLHA. Maringá, A Trolha, setembro de 1995, nº 107, capa e página 4.
[4] PIKE, Albert. Moral and Dogma of the Ancient and Accepted Scottish Rite of Freemasonry. Charleston, 1871, p 111. URL: <https://archive.org/>.
[5] PIKE, Albert. Moral and Dogma of the Ancient and Accepted Scottish Rite of Freemasonry. Charleston, 1871, p 324. URL: <https://archive.org/>.
[6] PIKE, Albert Pike. Moral and Dogma of the Ancient and Accepted Scottish Rite of Freemasonry. Charleston, 1871, p 321. URL: <https://archive.org/>.
[7] A palavra “Tubalcaim” era originalmente usada como a palavra de passe dos Aprendizes e Companheiros, mas passou a ser usada pelos Mestres após revelações maçônicas no século XVIII. “Moabom” e “Mac Benac” são palavras de passe usadas em diferentes ritos, tendo origens bíblica e escocesa respectivamente. A transmissão oral das palavras de passe foi suprimida na Maçonaria inglesa no século XIX para evitar novas revelações. No Masonic Quiz Book: “Ask Me Brother” (1950), editado por William P. Peterson, existe a seguinte pergunta: “Quem foi Tubalcaim?” Resposta: “É o Vulcano dos pagãos”.
[8] HALL, Manly P. The Lost Key of Freemasonry or The Secret of Hiram Abiff. EUA, publicação independente, 1931, p 29. Em: Internet Archive. URL: < https://archive.org/>.
[9] RITUAL DO GRAU 19: Grande Pontífice ou Sublime Escocês. Rio de Janeiro, Grande Oriente Brasileiro, 1980, p 18.
[10] RITUAL DO GRAU 19: Grande Pontífice ou Sublime Escocês. Rio de Janeiro, Grande Oriente Brasileiro, 1980, p 19.
[11] MARQUES, A. H. de Oliveira. Figurinos Maçônicos Oitocentistas. Lisboa, Estampa, 1983, fig. nº 19.
[12] MARQUES, A. H. de Oliveira. Figurinos Maçônicos Oitocentistas. Lisboa, Estampa, 1983, fig. nº 19.
[13] CAMINO, Rizzardo da. Kadosh: do 19º ao 30º. São Paulo, Madras, 1998, p 40-41.
[14] RITUAL DO GRAU 19: Grande Pontífice ou Sublime Escocês. Rio de Janeiro, Grande Oriente Brasileiro, 1980, p 19.
[15] RODRIGUES, Alberto. A Maçonaria e a Ordem Rosa-Cruz. Em: A TROLHA. Maringá, A Trolha, julho de 1993, nº 93, p 25.
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