Este texto já foi lambido por 528 almas.
Shirlei Massapust
Elmo de Sutton Hoo (séc. VI), provavelmente forjado na Suécia sob influência da arte viking.
Os vikings praticavam três tipos de funerais: 1) a cremação, 2) o enterro do morto sem caixão em uma cova cercada de pedras, tampada com madeira e coberta com um montículo de terra e 3) o afundamento nos pântanos ou areia movediça. Essa terceira modalidade supostamente geraria mortos-vivos, conforme as traduções orais!
Observando as provas materiais, hoje apenas podemos adivinhar as razões pelas quais na Escandinávia, desde o Neolítico até ao final do período viking, se lançavam aos pântanos, aos lagos e aos rios os corpos das pessoas e dos animais, assim como variedade de artefatos, que compreendiam armas e inclusive barcos de guerra. A maior parte das provas existentes desta prática provém da Dinamarca, onde os corpos dos homens e das mulheres executados dessa maneira se conservaram nos solos ácidos das turfeiras[1].
As “sagas” são os relatos épicos redigidos na Islândia do século XIII, quando o período viking já havia terminado. Os islandeses tinham interesse em transformar seus antepassados em heróis. No entanto fizeram parecer que vikings, tão valentes nas batalhas contra pessoas vivas, pareciam nutrir um medo irracional de pessoas mortas.
Nas sagas o cadáver conservado ganhava uma espécie de pós vida e poder mágico estrondoso. O morto-vivo sepulto era chamado de draugr ou haugbui porque habitava um espaço oco (haugr). O draugr era capaz de nadar na terra, como fez o assassino Hrapp ao “afundar no chão onde estava parado” para escapar de um perseguidor[2]. Quem foi cremado não vira draugr, pois já não poderá ser um “morto que anda” (aptrgangr).
No caso do afundamento em pântanos era comum depositar o falecido em um barco ou em um instrumento multiuso que tanto poderia servir como carruagem movida por tração animal quanto ser um carrinho de mão puxado por humanos (veja a fotografia abaixo). Os mortos jogados em pântanos mumificavam naturalmente.

O principal poder do draugr é a mudança de forma. Ele pode virar uma foca ou um leão marinho[3]. Pode virar um animal morto meio podre, aleatório, com aspecto de zumbis (um grande touro sem pele, um cavalo sem orelhas nem rabo e uma pata traseira quebrada, etc.). Também vira um hibrido meio homem meio gato ou um gato que senta sobre o peito de uma vítima adormecida e cresce cada vez mais até sufocá-la com seu peso[4]. A Eyrbyggja Saga descreve um draugr que se manteve em perfeito estado de conservação e “sem nenhuma feiura” embora tenha aumentado de peso e tamanho[5].
Outros não tiveram a mesma sorte. Um draugr de aspecto branco e pálido (na-folr) atacou um pastor que, depois de morto, chegou a ficar roxo escuro (hel-blár) antes dele próprio se transformar em draugr[6]. Glamr, o pastor morto vivo da Grettirs Saga, tinha cor roxa[7]. Na Laxdaela Saga um feiticeiro que aparecia em sonhos alheios foi desenterrado e encontrado quase completamente decomposto, reduzido a um esqueleto cobertos de restos escurecidos[8].
O draugr era forte (talvez por causa do rigor mortis), pois as sagas descrevem a dificuldade dos parentes para endireitar o corpo para o enterro[9]. O morto que anda (aptrgangr) muitas vezes demonstra seu poder esmagando a vítima até a morte. O ataque do personagem Glamr deixou um pastor “com o pescoço quebrado e cada osso do seu corpo esmagado[10]”. O confronto entre o draug e o super-herói da saga frequentemente parece uma luta equilibrada[11]. Outros poderes mágicos do draugr são o controle do clima[12] e o conhecimento do futuro[13].

O que acontece com mortos imersos em pântanos e areia movediça? Este é um morcego calcificado por mumificação natural após cair no Lago Natron, no norte da Tanzânia. O pH deste lago fica entre 9 e 10, preservando organismos mortos. Fotografia de Nick Brandt publicada no livro, Across the Ravaged Land (2013).[14]
NOTAS
[1] KENWARD, Paul. Os Viquingues: Origens da cultura escandinava. Madrid, Edições del Prado, 1997, Volume I, p 26.
[2] MAGNUSSON, Magnus & PALSSON, Hermann. Laxdaela Saga. New York, Penguin, 1969, p 103.
[3] PALSSON, Hermann & EDWARDS, Paul. Eyrbyggja Saga. Buffalo, University of Toronto, 1973, p 165; MAGNUSSON, Magnus & PALSSON, Hermann. Laxdaela Saga. New York, Penguin, 1969, p 80.
[4] SIMPSON, Jacqueline. Icelandic Folktales and Legends. Berkeley, University of California, 1972, p 166.
[5] PALSSON, Hermann & EDWARDS, Paul. Eyrbyggja Saga, p. 187; FOX, Denton & PALSSON, Hermann. Grettirs Saga. Toronto, University of Toronto, 1974, p 115.
[6] PALSSON, Hermann & EDWARDS, Paul. Eyrbyggja Saga. Buffalo, University of Toronto, 1973, p 115 e 187.
[7] FOX, Denton & PALSSON, Hermann. Grettirs Saga. Toronto, University of Toronto, 1974, p 72.
[8] MAGNUSSON, Magnus & PALSSON, Hermann. Laxdaela Saga. New York, Penguin, 1969, p 235
[9] PALSSON, Hermann & EDWARDS, Paul. Egils Saga. Ney York, Penguin, 1976, p 150. Também Eyrbyggja Saga, p 114.
[10] FOX & PALSSON. Grettirs Saga, p 74. Também Eyrbyggja Saga, p 115.
[11] KERSHAW, Nora. Hromundar saga Greipssonar. Em: Stories and Ballads of the Far Past. Cambridge, University Press, 1921, p 68. Também Grettirs Saga, p 37.
[12] ELLIS-DAVIDSON, Hilda. The Road to Hel. Westport CT, Greenwood Press, 1943. p 163.
[13] FOOTE, Peter G. & WILSON David M. The Viking Achievement. London, Sidgwick & Jackson, 1970, p 405.
[14] FEINBERG, Ashley. Qualquer animal que toca este lago mortífero se transforma em pedra. Em: GIZMODO BRASIL, publicada em 02/10/ 2013 às 12:45. URL: <http://gizmodo.uol.com.br/lago-pedra/>.
Alimente sua alma com mais:

Conheça as vantagens de assinar a Morte Súbita inc.
Faça parte do problema
Recursos Avançados
+ Área Restrita + Eventos Online.
R$37,00 por mês



