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por Patricia Crowther
(excerto de “Lid off the Couldron”, 1981)
Parece muito estranho que, em quase todos os países do mundo com a única exceção da Grã-Bretanha, haja registros cuidadosamente documentados das crenças e ensinamentos religiosos mais antigos de seus povos. Ou então, as tradições antigas foram transmitidas oralmente e preservadas sob a forma de histórias e lendas do passado.
Exemplos notáveis são a Grécia e o Egito, que até hoje são tratados com extremo respeito e reverência. Não há dúvida de que foram centros importantes de alta cultura e pensamento religioso. No entanto, a questão não é o quão grandiosos eles foram, mas por que se assume que os Antigos Bretões eram selvagens analfabetos?
É inacreditável pensar que, até poucos anos atrás, essa ideia era deliberadamente fomentada e incutida na mente de nossas crianças desde muito cedo. É difícil crer que ninguém questionava esse absurdo, e que, caso o fizessem, provavelmente receberiam um olhar cínico ou um dar de ombros indiferente. No entanto, essa ideia completamente errônea foi promovida pelo Establishment por centenas de anos.
O Guide to English History, do Rev. Dr. Brewer, afirma que os romanos introduziram vestimentas, costumes e leis romanas aos “selvagens nus” (os Bretões), embora antes da invasão romana, mercadores bretões já caminhassem pelas ruas de Roma e navegassem até portos italianos com suas exportações de gado, prata, ferro, milho e estanho. O Abbé de Fontenu explicou que os fenícios haviam estabelecido uma rota comercial com a Bretanha antes de 1190 a.C., e o Professor Boyd Dawkins escreveu sobre as muitas indústrias desses povos, como fiação, fabricação de vidro, tecelagem, cerâmica e trabalho em bronze, além de uma marcenaria admirável.
Qualquer um com um mínimo de bom senso deve perceber que a herança de uma nação não é descartada por seu próprio povo. Pelo contrário, as pessoas estão quase sempre ávidas por preservar a história de seu país e geralmente sentem grande orgulho em fazê-lo. Deve haver outra razão por trás da visão de que os Antigos Bretões eram selvagens.
Quando uma nação é transformada em um estado totalitário, seja por conquista ou por qualquer outro motivo, seu povo perde a independência de pensamento e de ação. Em outras palavras, precisam se alinhar e seus padrões de comportamento passam a ser moldados conforme os desígnios de seus líderes.
Embora ainda possam demonstrar diversos talentos e aptidões, estes são rigidamente controlados pelo Estado. Qualquer gênio ou inteligência especial é utilizado para os propósitos do Estado, e os benefícios dessas qualidades são direcionados ao fortalecimento do Estado, e não ao indivíduo.
O povo da Grã-Bretanha possui tradições democráticas desde os tempos mais remotos. Três das leis mais antigas protegiam “os idosos, os bebês e os estrangeiros que não falam a língua bretã” e essas leis foram revividas no século XX. Mas, com tanta propaganda pró-romana e anti-bretã lançada com ferocidade contra estas ilhas durante centenas de anos, não é de se espantar que seja tão difícil redescobrir nossa herança religiosa.
O incêndio da grande biblioteca da Abadia de Bangor, seguido pelas perseguições aos druidas e às bruxas, dificulta ainda mais a obtenção de um retrato verdadeiro do passado. Muitas pessoas certamente morreram sem conseguir transmitir suas crenças. No entanto, diz-se que nada é completamente perdido, mas armazenado no que Carl Gustav Jung chamou de “inconsciente coletivo” de um povo.
Winston Churchill foi, talvez, a única voz recente a se manifestar sobre o assunto. Em seu famoso discurso ao Congresso dos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial, ele declarou: “Deve ter uma alma cega aquele que não consegue ver que um Grande Propósito ou Desígnio está sendo realizado aqui embaixo, do qual temos a honra de ser fiéis servidores.”
Foi também Winston Churchill quem mandou retirar a Pedra do Destino debaixo da cadeira de coroação na Abadia de Westminster e a levou a um lugar seguro durante a guerra. Diz-se que essa pedra foi aquela sobre a qual Jacó deitou sua cabeça, nas planícies de Luz. Em sua longa e sagrada história, a pedra teria sido levada ao Egito, Espanha, Irlanda e Escócia, de onde foi trazida a Londres por Eduardo I. Está registrado que sempre foi usada na coroação de reis e é considerada uma relíquia venerável. (Ver The Stone of Destiny, de F. Wallace Connon.)
Churchill também ordenou que os corvos da Torre de Londres fossem protegidos e alimentados a qualquer custo, apesar do caráter aparentemente trivial dessa instrução. Isso revela sua crença nas lendas do nosso passado. Diz-se que, se os corvos algum dia abandonarem a Torre, isso pressagiará a queda da nossa Casa Real e do país.
O corvo era o pássaro sagrado de Bran, o Abençoado, um dos antigos reis-deuses da Bretanha. Sua visita à Irlanda para resgatar sua irmã, Branwen, terminou com sua morte. Mas, enquanto morria, ele instruiu seus seguidores a cortarem sua cabeça e a levarem de volta para a Ilha Branca, onde deveria ser enterrada no Bryn Gwynn, ou Monte Branco, com o rosto voltado para o Leste. Enquanto estivesse enterrada ali, não haveria invasão da Bretanha. Diz-se que, depois que a relíquia foi desenterrada, a ilha passou a sofrer diversas invasões. A Torre de Londres atualmente se ergue sobre esse monte ancestral, originalmente dedicado à Deusa Branca.
A lenda de Bran é uma das onze histórias da genialidade celta que compõem o Mabinogion, considerado uma obra-prima da literatura medieval europeia e que escapou aos olhos atentos dos invasores. Essas histórias foram traduzidas por Lady Charlotte Guest em 1906, e uma segunda tradução foi publicada na Everyman’s Library em 1970. Evangeline Walton adaptou três dessas lendas de forma fascinante em The Island of the Mighty, The Children of Llyr e The Song of Rhiannon.
Há algum tempo, recebi uma mensagem psíquica cujo principal conteúdo dizia que algo seria descoberto na Torre de Londres e também no Castelo de Windsor, algo que revelaria parte do nosso passado espiritual. Mais de um ano depois, um amigo me contou sobre um conhecido seu que, após a explosão de uma bomba, estava ajudando a reparar a Torre Branca, na Torre de Londres. Ele soube que uma sala secreta havia sido descoberta sob a Torre. Em cada parede havia uma estrela de cinco pontas, o pentagrama, o que sugere um local de encontro de uma sociedade oculta. O pentagrama é um símbolo mágico universal, mas também é usado por bruxas! Será que essa sala teria sido um antigo templo do Coven Real?
Até onde sei, não houve qualquer publicidade a respeito dessa descoberta extraordinária. Talvez alguém possa lançar mais luz sobre esse enigma intrigante?
Retornando às lendas: embora contenham aparições milagrosas semelhantes às da Grécia e de outros lugares, os mitos celtas são muito mais selvagens e indomáveis. A mesma distinção pode ser observada em suas esculturas em pedra. Quando a religião e as formas de arte se tornam refinadas demais, acabam perdendo a força vital essencial que havia em sua concepção. As formas artísticas celtas representam a vida com intensidade. Têm uma energia viva como nenhuma outra.
Nas termas romanas de Bath, há uma bela escultura celta do Deus Lugh. Ela personifica a energia masculina e ardente do Sol, com cabelos e barba espalhados ao seu redor em “línguas de fogo”. Toda a escultura é cercada por um círculo de folhas de carvalho e bolotas, o carvalho sendo um dos mais antigos símbolos arbóreos desse deus, conhecido pela humanidade.
As autoridades do museu continuam chamando essa escultura de “Cabeça da Górgona”, apesar das repetidas tentativas de várias pessoas para corrigir esse erro gritante. O público sabe que a Górgona é de origem grega e uma criatura monstruosa feminina. Este é apenas um dos milhares de erros semelhantes relacionados às nossas crenças antigas.
O mesmo museu exibe uma escultura em pedra de três mulheres descritas como “de origem desconhecida”. As “Três Mães” ou “Três Senhoras da Bretanha” representam o conceito mais antigo da Trindade. A Deusa Triforme tem três aspectos: a Virgem, a Mãe e a Anciã, os quais são representados, em forma material, pelas fases nova, cheia e minguante da lua. Assim, ela também é a Deusa da Lua. Existem inúmeras estátuas tríplices em museus por toda a Grã-Bretanha, todas classificadas como “figuras de origem desconhecida”.
No museu de Bath, há também uma cabeça de bronze de Minerva. A Deusa tem milhares de nomes, conforme a localidade. Os romanos a conheciam como Sulis Minerva. A cabeça foi descoberta durante escavações e datada de 1727 a.C. O altar romano dedicado a Sulis Minerva está localizado na fonte principal das águas termais que emergem no King’s Bath. Infelizmente, esse altar está coberto por tábuas e inacessível ao público em geral, mas o fato permanece: o local tem sido sagrado para a Deusa, qualquer que seja seu nome, por milênios.
A construção de igrejas cristãs sobre locais sagrados pagãos se repete por toda a Europa. A Catedral de São Paulo, em Londres, foi erguida sobre um antigo templo dedicado a Diana. E sob a Notre Dame, em Paris, foi encontrado um altar dedicado a Cernunnos, o Deus com Chifres, que foi utilizado até bem dentro do século XVII.
Michael Harrison, em The Roots of Witchcraft, escreve sobre uma descoberta muito empolgante feita pelo Professor Geoffrey Webb após a Segunda Guerra Mundial. Ao que parece, uma bomba deslocou uma enorme laje de pedra que cobria o altar de uma velha igreja. Ao examiná-lo, ele encontrou, escondido dentro do altar, um falo de pedra. O Professor Webb descobriu que exames posteriores em outras igrejas revelaram falos semelhantes ocultos dentro de seus altares. A estimativa apontada foi de noventa por cento!
O falo, como símbolo do doador da vida, era usado pelos seguidores da Antiga Religião como símbolo do Deus. O Lingam (ou falo) ainda é usado na Índia hoje, juntamente com o Yoni, símbolo feminino, exatamente pela mesma razão. A preservação dos falos de pedra dentro dos altares cristãos demonstra que eles eram considerados poderosos demais para serem descartados, por mais abomináveis que parecessem ao novo clero.
O complemento ao falo ritualístico é a pedra com orifício, que simboliza a Grande Mãe. Muitas delas foram encontradas no antigo sítio de Avebury, em Wiltshire. Representam a Vagina Sagrada, a fonte de toda vida, e o Portal do Renascimento. Uma extensão desse símbolo é a Sheela-na-Gig, geralmente traduzida como “Mãe do Deus”, embora essa interpretação seja discutível. Essas esculturas retratam a Deusa em posição de parto, exibindo sua genitália.
Representações desse tipo podem ser vistas na Igreja de Santa Maria, em Whittlesford, Cambridgeshire; na Igreja de Oaksey, em Cirencester; e na Igreja de Kilpeck, em Herefordshire, embora sejam ainda mais numerosas na Irlanda.
Devemos olhar para esses símbolos com os olhos de nossos antepassados, para quem o sexo não era uma palavra suja, mas um ato sagrado e belo, que os identificava com o Deus e a Deusa, os criadores do universo. Caso contrário, estaremos distorcendo a verdade de suas crenças e profanando seus objetos religiosos.
Descobrir nossa herança espiritual não é tarefa fácil. Por exemplo, só é possível ler a inscrição em pedra na parede das Termas do Rei, em Bath, quando se está realmente banhando nas águas. Ela diz que Brutus, bisneto de Eneias de Troia, fundou Bladud, hoje conhecida como a cidade de Bath.
Brutus, o príncipe troiano, teria viajado até a Ilha de Albíon, ou as Ilhas Brancas dos Abençoados, como a Bretanha era então chamada, por volta de 1103 a.C. Sua chegada é também comemorada pela Pedra de Brutus, em Totnes, Devon. Essa pedra está hoje incrustada na calçada da Fore Street, com a inscrição: “Esta é a Pedra de Brutus”.
A história de Brutus e de sua linhagem real é uma das mais românticas de nossa história e, ao mesmo tempo, uma das menos conhecidas. A queda de Troia ocorreu em 1183 a.C. Está registrada por Eratóstenes de Alexandria e também pode ser encontrada nas Antigas Crônicas Britânicas de Gildas Albanius (século V), Nênio (século IX) e Bispo Godofredo de Monmouth (século XII).
Brutus nasceu e cresceu sob o jugo dos gregos, mas se destacou tanto em várias batalhas que lhe concederam a liberdade. Então, junto com um grupo de compatriotas, embarcou para descobrir qual era seu destino. O trecho a seguir é extraído do livro The Phoenician Origin of Britons, Scots and Anglo-Saxons, do Professor Waddell (traduzido do latim):
“Os ventos se mantiveram favoráveis por dois dias e uma noite seguidos, até que, por fim, chegaram a uma certa ilha chamada Leogecia, que fora outrora devastada por piratas e estava, então, desabitada… nela havia uma cidade desolada, onde encontraram um templo de Diana, e dentro dele, uma estátua da deusa que dava respostas àqueles que vinham consultá-la… Brutus, diante do altar da deusa, segurando um vaso consagrado com vinho e o sangue de um cervo branco, rezou:
‘Deusa das Florestas, terrível na caçada
Aos javalis da montanha e a toda raça selvagem!
Estende teu domínio pelas trilhas etéreas
E também pelas mansões infernais, sem luz do dia!
Olha por nós na terra! Revela nosso destino,
E diz qual a região onde teremos nossa morada?
Onde deveremos erguer teus templos eternos
E coros de virgens cantarão teu louvor?’”
Depois de repetir essa prece, ele deu quatro voltas ao redor do altar, derramou o vinho no fogo e deitou-se sobre a pele do cervo, que havia estendido diante do altar, onde caiu em sono profundo. Durante a noite, em seu sono profundo, a deusa lhe apareceu em visão e respondeu:
“Brutus! Além das fronteiras da Gália
Há uma ilha cercada pelo mar ocidental,
Outrora habitada por gigantes; agora poucos restam
Para barrar tua entrada ou obstruir teu reinado.
Para aquele solo feliz, lança tuas velas!
Lá, o Destino ordena que ergas uma nova Troia,
E fundes um império com tua linhagem real,
Que o Tempo jamais destruirá, nem limites conterão.”
Despertado pela visão, ele e seus companheiros zarparam novamente. Seguiu-se uma longa série de aventuras até que Brutus finalmente chegou à Grã-Bretanha e subiu o rio Dart até Totnes. Esse parece ser um porto destinado aos famosos, já que foi usado por Sir Walter Raleigh e, mais recentemente, tornou-se a base do Britannia.
As Crônicas relatam que Brutus viajou por toda a ilha em busca de um local para construir sua cidade. Quando chegou ao rio Tâmisa, encontrou o lugar que procurava e, com o tempo, construiu a cidade, chamando-a de Nova Troia. Mais tarde, passou a ser conhecida como Trinovantum.
Eduardo, o Confessor, deu apoio à lenda de Brutus na forma de provas documentais. Ele se referia à cidade como “fundada e construída à semelhança da Grande Troia”.
Quando Lludd iniciou seu reinado em 72 a.C., emitiu um edito ordenando que a cidade fosse rebatizada como Llud-din, mais tarde corrompida para Ludd-don, ou Londres. Diz-se que os locais de Londres e Wincobank Hill, em Sheffield, são dois dos sítios continuamente habitados mais antigos da Europa. Portanto, é perfeitamente plausível argumentar que Brutus, embora tenha se estabelecido nas margens do Tâmisa, juntou-se a uma colônia já existente de povos que, mesmo naquela época, já eram viajantes experientes.
Outro testemunho da vinda de Brutus é encontrado na sacristia da igreja de St. Peter-upon-Cornhill, em Londres. Um pergaminho extenso menciona que o Rei Lucius reinou nesta terra após Bruto (Brutus). As Crônicas Britânicas apresentam uma lista completa dos primeiros reis da Bretanha, setenta e três ao todo, juntamente com as datas e duração de seus reinados, cuja autenticidade não vejo motivo para duvidar. O primeiro rei mencionado é Brutus, com a data de 1103 a.C.
O poeta elisabetano Drayton fala da chegada de Brutus:
Ilha da Albíon, altamente abençoada,
Recentemente povoada por gigantes…
De onde, do tronco de Troia, reis poderosos surgiriam
Cuas conquistas no Ocidente mal bastariam ao mundo.
Spenser, também, na Rainha das Fadas, se refere aos “Nobres Bretões descendentes dos bravos Troianos”.
Parece perfeitamente natural que Brutus tenha sido conduzido a um país cujo povo, como ele, adorava a Deusa Diana. E a profecia que a Deusa lhe deu se cumpriu: a Bretanha, apesar das muitas invasões, continuou a resistir a todas as tentativas de mudar seus valores milenares de democracia e liberdade.
Nossos registros históricos foram convenientemente empurrados para o esquecimento por mentes pró-romanas. Eruditos alemães do século XVIII declararam que Brutus e sua cidade natal, Troia, eram um mito. Afirmaram até que jamais existira uma cidade chamada Troia, era apenas um “devaneio de poeta”! Isso, apesar da história do cerco e destruição da cidade relatada na Ilíada de Homero. Devemos agradecer ao Professor Schliemann, que restabeleceu a veracidade dos fatos ao descobrir as ruínas da antiga cidade de Troia em Hisarlik, na Ásia Menor.
Há muitos mistérios na Grã-Bretanha que remontam a milhares de anos. Os labirintos desenhados no solo, conhecidos como “Muros de Troia” ou “Cidade de Troia”, são mais indícios da colonização troiana. Os mais interessantes ainda existentes encontram-se em Saffron Walden, onde o labirinto mede 42 metros por 30 metros e possui caminhos que totalizam cerca de um quilômetro de extensão; em Winchester, no monte sagrado conhecido como Winton; e em Alkborough, às margens do rio Humber, chamado de Julian’s Bower.
Os padrões desses labirintos são idênticos aos que se veem nas moedas antigas de Creta. A famosa estátua cretense de uma sacerdotisa da Deusa, segurando duas serpentes, é muito semelhante a uma escultura em pedra da deusa romano-céltica Verbeia, encontrada na Igreja de Ilkley, em Yorkshire. Ela também segura duas serpentes (frequentemente descritas, de maneira incorreta, como juncos) e usa um vestido em camadas semelhante ao da figura cretense. Existe ainda um altar dedicado a essa deusa, que ficava próximo às águas do rio Wharfe, na mesma cidade.
Embora ideias e métodos semelhantes possam surgir em tradições religiosas separadas por continentes, não se deve presumir que uma tenha copiado a outra. O fenômeno, conhecido entre os ocultistas como Iluminação Divina, é bem compreendido. Em certos momentos, desce um raio de sabedoria que envolve todo o globo e germina na mente subconsciente dos seres humanos, os quais o interpretam segundo sua própria cultura sócio-religiosa.
O ritual cristão de tomar a hóstia e o vinho, representando o corpo e o sangue de Cristo, é análogo aos Mistérios gregos antigos, nos quais se comia o pão para tornar-se “um só” com Deméter, a Mãe Terra, e se bebia o vinho para que o espírito de Dionísio entrasse no devoto. Há muitas outras similaridades assim por todo o mundo e em todos os níveis do pensamento religioso.
Em 7 de junho de 1976, uma estátua de pedra de 30 centímetros foi descoberta entre algumas rochas no jardim de uma casa em Castleton, Derbyshire. Um especialista da Universidade de Manchester identificou-a como um “ídolo”, relacionado a uma antiga religião do Mam Tor (“Montanha da Mãe”), com cerca de 2.500 anos de idade. A deusa foi descrita como tendo “um olhar sensual”, pois um de seus olhos é maior que o outro. Pouco depois de sua descoberta, ela foi colocada na igreja local, onde, no dia da cerimônia anual da guirlanda, eu tive a oportunidade de vê-la.
As origens da Guirlanda de Castleton perdem-se na pré-história, mas trata-se de uma manifestação sobrevivente do “Homem Verde”, que representa as forças masculinas por trás da natureza, manifestadas no crescimento de toda vegetação. Ele é uma outra faceta do Deus com Chifres, também conhecido como “Green Jack” ou “João Verde”. Assim como a Deusa, ele possui muitos nomes, dependendo da localidade.
O homem que carrega a guirlanda sobre os ombros é chamado de “rei” e lidera a procissão pela vila. A “Dama” vem logo atrás, montada a cavalo, seguida pela banda local, que precede um grupo de dançarinas, meninas da escola da vila, vestidas de branco, com pequenos buquês e fitas coloridas nas mãos.
Nos tempos antigos, a “Dama” era interpretada por um homem vestido de mulher, um costume que ainda se vê em festivais folclóricos por toda a Bretanha, sem contar a tradicional “Dama” dos teatros de pantomima. A razão dessa inversão de papéis remonta a tempos muito antigos e representa, simbolicamente, o fato de que a Divindade é tanto masculina quanto feminina.
A guirlanda em si é uma obra de arte. É feita com todo tipo de flor, amarradas em fileiras a uma estrutura em forma de sino. Um arranjo cônico separado é colocado no topo da guirlanda e é conhecido como a “rainha”. A pirâmide floral completa mede cerca de um metro de altura e pesa cerca de 45 quilos. O Rei fica completamente oculto dentro dela, sustentando o peso por meio de tiras de couro presas aos ombros.
O buquê da “rainha” é retirado durante a procissão até a igreja e guardado até o final da cerimônia, quando o rei o coloca no Memorial de Guerra da vila e é tocada a melodia do “Último Adeus” (Last Post).
A torre da igreja é decorada com galhos de carvalho, presos a todos os pináculos, exceto um. Os dois cavaleiros entram sozinhos no pátio da igreja e seguem até a torre, onde uma corda é descida e a guirlanda é içada até o último pináculo, onde permanece até que as flores murchem.
Ora, sem dúvida, esse último ato é um símbolo de consumação: a guirlanda “feminina” sendo “unida” ao pináculo ereto! Quando isso acontece, a multidão solta um grande aplauso, e, à medida que o entardecer se aproxima, as meninas da escola realizam danças ao redor do mastro de maio da vila. E agora, com a redescoberta da estátua da Deusa, ela toma seu lugar ao lado de seu consorte, o Homem Verde, em uma vila que continua a celebrar o retorno da vida à Terra.
Essa é apenas uma entre milhares de cerimônias semelhantes perpetuadas por toda a Grã-Bretanha. A maioria delas celebra o mesmo princípio: a comemoração das forças da vida, a Antiga Providência, às vezes cristianizadas, às vezes ainda em sua forma original como a Grande Deusa e Seu Consorte, o Deus com Chifres, as mais antigas divindades da Bretanha.
Alimente sua alma com mais:

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