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Saturno na Tradição Clássica (O Culto do Cubo Negro)

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por Arthur Moros

No estudo da tradição clássica e da magia, a divindade Saturnina ocupa uma posição bastante complexa. Isso pode se dever, em parte, ao fato de que os diversos mitos e tradições que incluem Saturno são bastante variados — até mesmo extremamente —, e ainda assim abordam claramente uma única divindade, e não uma figura composta como Júpiter/Zeus. É importante notar que, ao falarmos em tradição “clássica”, normalmente nos referimos à cultura helenística híbrida, parcialmente grega e parcialmente latina, frequentemente chamada de “romana”. Devemos ter em mente que existia, de fato, uma cultura itálica (ou latina) anterior às influências gregas, embora esta também pareça ter sido influenciada pelos etruscos. As línguas e culturas grega e itálica eram distintas, mas compartilhavam certos paralelos devido à herança indo-europeia comum. A religião e o mito gregos podem ter tido correspondentes italianos, e quando o saber e a cultura gregos penetraram na cultura romana, causaram um impacto profundo nos mitos romanos — senão nos rituais. Dito isso, este capítulo examinará a divindade conhecida como “Cronos” ou “Chronos” em grego, e “Saturno” em latim.

Há certa controvérsia sobre a etimologia do nome “Saturno”, mas a explicação mais aceita até o momento é que se trata de uma adaptação latina do deus etrusco do submundo, Satre. Satre era uma figura ctônica e malévola, identificada com a direção norte, bem como com tempestades e terremotos. Existem explicações rivais para o nome, mas nenhuma tão plausível. “Cronos”, por outro lado, deriva claramente do grego keir (cortar) e está relacionado ao kar (ação) do sânscrito, que dá origem à palavra karma. Saturno/Cronos também está ligado à função agrícola do corte, no sentido da colheita, e por isso a foice sempre foi o símbolo principal da divindade Saturnina. Como a agricultura possui várias etapas (semeadura, crescimento, colheita), Saturno era o deus responsável pela etapa final — daí a foice como símbolo.

Naturalmente, essa natureza colhedora de Saturno era entendida de forma mais ampla do que apenas a agricultura — Saturno era o ceifador de todas as coisas, até mesmo dos deuses, como deixa claro sua mitologia. Saturno não é uma divindade criadora; seu papel está mais relacionado à entropia dentro da estrutura cósmica. Saturno/Cronos também é identificado com o Tempo. Isso talvez se deva à semelhança entre o nome Cronos e chronos (tempo) em grego. O tempo, por sua vez, é um ceifador — uma força que põe fim à vida de todos os seres vivos e empreendimentos humanos. A mitologia grega e romana mostra que até os impérios dos deuses são vulneráveis ao tempo e à mudança, e esse aspecto negativo do tempo é encarnado na divindade Saturnina.

Segundo a cultura greco-romana, Saturno tinha uma consorte feminina, geralmente descrita como sua irmã. Curiosamente, os relatos mais antigos indicam que essa figura era Lua Mater, que se traduz como “Mãe Destruição”. É sabido que nos sistemas religiosos indo-europeus, a morte e a destruição são frequentemente personificadas por figuras femininas, como a Morrigan irlandesa e a Kali Ma indiana. Registros romanos informam que o culto a essa deusa, Lua Mater, envolvia a oferenda de armas inimigas, tomadas como despojos de vitória, que eram imoladas. É provável que esse sacrifício fizesse parte de uma oferenda dupla, na qual os combatentes inimigos eram queimados (vivos ou mortos) para Saturno, enquanto suas armas e armaduras eram queimadas simultaneamente para Lua. Tal ritual encontra paralelos nos ritos de purushamedha dos Vedas que, assim como os sacrifícios humanos romanos, caíram em desuso com o tempo. Embora isso possa parecer brutal, até chocante, ao leitor contemporâneo, deve-se lembrar que as práticas religiosas e sacrificiais do mundo antigo eram frequentemente sangrentas, como exemplificam os celtas da Europa e os astecas nas Américas. O fato de que a consorte feminina de Saturno fosse, de fato, chamada “Destruição” sugere fortemente a natureza perigosa do próprio Saturno. Em tempos posteriores, no entanto, à medida que a natureza de Saturno foi reabilitada pelo Estado romano, sua esposa passou a ser identificada como Ops, a deusa romana da fartura e da riqueza. Seu culto era celebrado durante a República, como o de Saturno, dentro de uma tradição agrícola mais benigna. Os gregos, por outro lado, sempre identificaram Cronos com sua irmã Reia, filha de Gaia, que também era (como Ops) associada aos aspectos benignos da agricultura e da colheita.

Há vários mitos conflitantes sobre a origem de Saturno, mas as discrepâncias são menores.

O relato grego mais popular diz que os pais de Cronos eram os titãs Urano e Gaia. Uma versão alternativa afirma que ele era filho dos titãs-serpentes Ofião e Eurínome. A tradição afirma que Cronos destronou seu próprio pai, em algumas versões com a ajuda de sua irmã Reia (Ops, na versão latina), e então tomou o controle do cosmos. Na narrativa que envolve Urano, Cronos usa uma foice para decepar os genitais do pai, que são lançados ao oceano, tornando a foice o emblema principal de Cronos/Saturno.

A versão romana é um pouco diferente, embora mostre influências gregas. Macróbio adota a versão helênica tradicional e a interpreta usando terminologia latina para seu público romano. Ele afirma no Saturnalia (1.8) que, inicialmente, havia o Caos Primordial, e que ainda não existia qualquer conceito ou ser como o Tempo, pois o Caos era eterno (cum chaos esset, tempora non fuisse). Quando o ser primordial Coelus (cosmos) surgiu, sua aparição rompeu a pureza do Caos e separou a existência da não existência. Esse ato de “cortar” o Caos do cosmos recém-nascido criou o Tempo (Saturno), que Macróbio interpreta como o remanescente do Caos dentro da existência. Isso é evidente no fato de que o Tempo traz mudança e instabilidade a todas as coisas, até aos deuses e reinos. O Tempo é caótico e, portanto, hostil ao cosmos — e a tradição greco-romana concorda que, assim que Saturno/Cronos surgiu, ele atacou seu próprio “pai” cósmico, destronando-o e tomando o controle do universo. Macróbio também aponta que os festivais Saturnália e Crônias são celebrações absolutamente selvagens e caóticas, nas quais todas as normas e tabus sociais eram violados, e a ordem social, completamente invertida. Essa celebração do Caos — normalmente antitética ao Estado romano — é um reconhecimento de Saturno como um ser que provém do Caos, apesar de sua “criação” ter surgido a partir do ato de Coelus (cosmos).

Os mitos gregos e romanos concordam que o reinado da divindade Saturnina foi uma era dourada de fartura e iluminação, e todos os seres prosperaram sob os cuidados do monarca. No entanto, Saturno foi deposto por seus próprios filhos. Ao saber que seus filhos representavam uma ameaça à sua existência, Saturno devorou os deuses-infantis inteiros. Escultores e pintores apresentaram essa cena de maneira grotesca, geralmente com um velho mastigando a carne de um bebê que grita. Embora essa imagem seja vívida e provocativa, as tradições indicam que Saturno engoliu seus filhos inteiros, tal como se engole um comprimido. As crianças permaneceram contidas, ilesas mas dormentes, dentro do ser da divindade Saturnina, até que seu filho mais novo (Zeus/Júpiter) os libertou com o uso de um purgante, e então os deuses mais jovens guerrearam contra Saturno e os Titãs. Saturno foi deposto por Júpiter, mas Júpiter não conseguiu destruí-lo — assim como Saturno não conseguiu destruir Coelus. Deve-se observar que os deuses são seres resilientes, embora possam ser mutilados, incapacitados e aprisionados na mitologia. Saturno, então, é acorrentado e banido ao reino ctônico do Tártaro, que, dizem, ele passou a governar. As “correntes” de Saturno tornam-se um dos elementos definitivos de sua panóplia divina desde então.

Enquanto Cronos é relegado a uma espécie de devorador de deuses na tradição helênica, o Saturno romano é uma figura muito mais querida. Embora Júpiter, Marte e Minerva se tornem os principais deuses do império, o Estado romano e seus historiadores reconheciam que Saturno foi a divindade original do povo romano, e de fato afirmavam que os próprios italianos descendiam de Saturno. O Mons Saturnius é uma das colinas sobre as quais Roma foi construída, e o templo mais antigo de Roma pertence a Saturno. Saturno tinha seu próprio sacerdócio, e o tesouro do Estado era guardado em seu templo. O nome original do assentamento italiano situado onde hoje está Roma era “Saturnium”. Além disso, Saturno era celebrado anualmente com uma série de festividades que duravam uma semana, a partir de 17 de dezembro. Para uma divindade deposta, Saturno era profundamente respeitado — talvez apenas atrás de Júpiter. A memória de seu antigo reinado não era a de um déspota cruel, mas, como mencionado, de uma era dourada na qual nada faltava aos seres vivos.

No entanto, o caráter de Saturno não é benigno, e não há registros que sugiram o contrário. Ser o rei de uma era de fartura não implica que a divindade Saturnina fosse um mestre gentil, mas sim que, sob seu reinado, a terra não retinha seus frutos. Saturno foi a origem da imagem ocidental do Ceifador Sinistro [Nota do Tradutor: “Grim Reaper” na cultura anglo-saxônica], e como divindade associada à colheita, esperava-se que ceifasse plantas, animais e seres humanos igualmente. Macróbio relata (1.7) que, nas memórias mais antigas dos povos itálicos, Saturno era cultuado com sacrifícios humanos; mais tarde, quando tal prática caiu em desuso, tochas eram queimadas em sua honra como substituição. No entanto, estudiosos modernos do período clássico argumentam que Macróbio está apenas parcialmente correto: não há dúvida de que o sacrifício humano fazia parte do culto ao Ceifador. Embora Macróbio sugira que as tochas substituíam os sacrifícios humanos, Versnel discutiu as amplas evidências de que os jogos de gladiadores eram realizados como observâncias rituais (munera) a Saturno. A prática do sacrifício humano não era um costume exclusivamente itálico. Os gregos também realizavam sacrifícios humanos a Cronos no dia de seu festival, as Crônias. Porfírio relata que na cidade de Rodes, no dia da Crônia, um criminoso era levado até os portões da cidade, embriagado com vinho e depois sacrificado.

Os gregos e romanos tinham visões conflitantes, até paradoxais, do mundo sob o domínio de Saturno. Ambas as culturas concordavam que, num tempo remoto, a divindade Saturnina foi senhora dos três mundos: celeste, terrestre e ctônico (alternativamente, terra, oceano e submundo). Enquanto Saturno governava, o mundo era uma utopia — uma era dourada de abundância. Todos eram iguais e prosperavam de alguma forma sob seu reinado. O celebrado poeta romano Virgílio menciona isso em sua quarta Égloga, versos 5-8:

Ultima Cumaei venit iam carminis aetas;
Magnus ab integro saeclorum nascitur ordo.
iam redit et Virgo, redeunt Saturnia regna,
iam nova progenies caelo demittitur alto.

Agora vem a era final do cântico da Sibila;
A grande ordem dos séculos nasce novamente.
E agora retorna a Justiça, retornam os reinos de Saturno;
Agora uma nova linhagem é enviada do alto dos céus.

É evidente que Virgílio não sugere o retorno do reino de Saturno como um pesadelo horrendo.

Ainda assim, o reino Saturnino não era ideal, e por isso teve de ser derrubado pelos deuses olímpicos. Saturno era um aspecto do Caos, e a igualdade desfrutada por todos era uma igualdade de total subjugação. De fato, os deuses não tinham participação alguma no império Saturnino, já que Saturno cometia canibalismo, consumindo os deuses e mantendo-os dentro de sua própria essência. Os Titãs podem ter desfrutado de seu reinado, mas pode-se argumentar que também eram aberrações monstruosas sobreviventes do mesmo Caos primordial de seu rei. Não se deve esquecer que os monstros de cem mãos conhecidos em grego como Hecatônquiros, ou em latim como Centímanos, eram na verdade irmãos de Saturno — e se diferenciavam dele principalmente por sua essência caótica ser visível fisicamente, enquanto a de Saturno era interna. A eventual guerra entre deuses e titãs foi o confronto do Caos contra a ordem, como ocorre em diversas mitologias.

O festival romano da Saturnália (Crônia, em grego) merece atenção. Macróbio (1.7) relata que, originalmente, todo o décimo mês do ano, dezembro, era sagrado a Saturno, enquanto o décimo primeiro, janeiro, era dedicado a Janus. No décimo mês, os antigos italianos, seguidos pelos romanos, celebravam o festival de Saturno por sete dias, de 17 a 23 de dezembro. A Saturnália era selvagem, até libertina e orgiástica em certos momentos. Durante esse período, todas as normas e tabus eram suspensos. Escravos tornavam-se senhores, e senhores tornavam-se escravos. Os escravos podiam (e faziam) abusar e insultar seus donos, e talvez até tivessem liberdade sexual com eles, assim como seus senhores os usavam a seu bel-prazer ao longo do ano.

Os participantes saudavam-se com o grito “io Saturnalia!”, lembrando uns aos outros que estavam em uma celebração religiosa. Um Príncipe Saturnino, o Princeps Saturnalicus, era nomeado em lugar do rei ou imperador usual, para servir como mestre de cerimônias, e suas ordens geralmente eram obedecidas. Pequenos presentes cômicos eram trocados entre amigos, e era um tempo de brincadeiras, tolices e comportamentos normalmente inaceitáveis. Excepcionalmente, durante o festival da Saturnália, as correntes ou cordas que normalmente amarravam as pernas do ídolo de Saturno eram desfeitas, simbolizando sua libertação temporária da idade.

Em nosso ceticismo espiritual contemporâneo, alguém poderia pensar: “Claro, é improvável que as coisas tenham saído do controle — que escravo abusaria do dono sabendo que tudo voltaria ao normal em 24 de dezembro?” Ou então: “Por que se celebrava um festival tão bizarro, que certamente causava constrangimentos ao terminar, como qualquer boa festa onde os convidados se embriagam e enlouquecem?” A resposta para ambas as questões é que os antigos realmente acreditavam que os deuses eram seres reais, e não meros arquétipos vazios, como o ocultismo moderno os transformou.

Romanos e gregos acreditavam que Saturno/Cronos era uma divindade real, de caráter malévolo, e que o festival era uma forma de aplacá-lo, para que não amaldiçoasse a sociedade com caos social permanente. Se as celebrações fossem feitas de forma morna, acreditava-se que Saturno se enfureceria — por isso era necessário mergulhar no deboche e na loucura. Até onde se sabe, não há registros de nobres romanos que se opusessem publicamente ao festival; no máximo, alguns admitiam tentar fugir dele viajando nesse período. Foi apenas mais tarde, no período cristão, que a Saturnália foi atenuada — e, de forma um tanto suspeita, o dia 25 de dezembro tornou-se uma data cristã proeminente, marcada pela troca de presentes.

Além disso — o que já deve estar evidente ao leitor —, os romanos consideravam o sétimo dia da semana como “o dia de Saturno”, o que sobrevive até hoje no inglês moderno como “Saturday”. É curioso que, dado o número de divindades romanas atestadas, um dos sete dias da semana tenha sido dedicado a esta divindade. Isso sugere, mais uma vez, que apesar da popularidade dos deuses posteriores, a figura de Saturno continuou sendo de grande importância para os cidadãos romanos, já que os dias da semana só eram nomeados em homenagem às principais divindades.

Saturno como Deidade Mágica

Saturno/Cronos aparece na magia hermética clássica e medieval como uma força de restrição, adivinhação ou malefício. Plutarco nos conta sobre uma ilha mágica no Ocidente que seria a prisão de Cronos.

Confinado em uma gruta e dormindo sobre uma pedra dourada, Cronos reina sobre a ilha e é servido por seus antigos súditos na forma de daimones. Preso em um sono mágico no qual recebe sabedoria secreta, ele se comunica com os humanos que visitam a ilha em intervalos regulares por meio da intermediação desses daimones. Estes aparecem aos habitantes humanos da ilha em sonhos ou mesmo em estados liminares de vigília para revelar Sua gnose. Essa ilha secreta e seus mistérios só são acessíveis ao sonhador mágico que consegue se conectar à consciência onírica desse mundo paradisíaco e de seu governante, Cronos.

Nos Papyri Graecae Magicae (PGM), encontramos referências recorrentes às “correntes de Cronos” como uma força invocada para amarração ou como algo pelo qual até os próprios deuses juram. Há um feitiço em especial chamado “Oráculo Salino de Cronos”, essencialmente um feitiço de adivinhação.

O PGM relata:

“Oráculo de Cronos”, muito requisitado, chamado de “moinhozinho”: Pegue duas medidas de sal e moa com um moinho de mão enquanto recita a fórmula muitas vezes, até que o deus lhe apareça. Faça isso à noite, em um lugar onde cresça grama. Se, enquanto estiver falando, ouvir passos pesados e barulho de ferro, o deus está vindo acorrentado, segurando uma foice. Mas não se assuste, pois você estará protegido pelo filactério que lhe será revelado. Vista-se com linho limpo, à maneira de um sacerdote de Ísis. Ofereça ao deus sálvia junto com o coração de um gato e esterco de cavalo.

A fórmula a ser recitada enquanto você mistura é a seguinte:

“Eu te invoco, o grande, sagrado, aquele que criou todo o mundo habitado, contra quem foi cometido o delito por teu próprio filho, aquele que Hélio prendeu com grilhões adamantinos para que o universo não se misturasse, tu, hermafrodita, pai do raio, tu que subjugas os que estão sob a terra, Aie Oi Paidalis Phrenoteicheido Stygardes Sankleon / Genechrona Koirapsai Kerideu Thala-Mnia Ochota Anedei; venha, mestre, deus, e diga-me por necessidade sobre o assunto NN, pois fui eu quem se revoltou contra ti, Paidolis Mainolis Mainolieus.” Essas palavras devem ser ditas enquanto o sal é moído.

E a fórmula que o obriga é: “Kybdobris Koderieus Ankyrieus Xantomoulis.” Você deve dizer essas palavras quando Ele aparecer de forma ameaçadora, para que seja subjugado e fale sobre o que você perguntar. O filactério mais requisitado para Ele é: numa costela de um leitão esculpa Zeus segurando uma foice e este nome: “Chtloumilon.” Ou então, que seja a costela de um javali preto, escamoso e castrado.

Despedida:
“Anaea Ocheta Thalamnia Keri-Deu / Koirapsia Genechrona Sanelon Sty-Gardes Chleido Phrainole Paidolis Iaei,
Vá embora, senhor do mundo, ancestral; volte para seus próprios domínios para que o universo se mantenha. Sê favorável a nós, senhor.”
[PGM IV. 3086-3124; itálico original]

O texto faz questão de afirmar que o feitiço é “muito requisitado”, o que sugere que era considerado eficaz. No entanto, metade do feitiço são instruções para proteger-se da ira do Titã, deixando claro que, se Cronos aparecer, Ele estará furioso. Ele precisa ser compelido a cooperar, e o mago deve tomar precauções contra Ele. O feitiço identifica Cronos como possuidor de conhecimento sobre o futuro, o que indica seu domínio sobre o tempo. Diz-se que o feitiço obriga o deus a aparecer e, quando Ele o faz, sua panóplia inclui correntes e uma foice. O deus não deve permanecer, e de fato o mago deve insistir para que Cronos “volte para seus próprios domínios para que o universo se mantenha” — em outras palavras, que Cronos retorne à sua estrela e às profundezas ctônicas do Tártaro. Caso a deidade saturnina permanecesse, Sua presença desestabilizaria o cosmos, pois Saturno é, por si só, uma entidade do Caos.

Falando em Caos, o PGM também menciona Cronos mais diretamente em conexão com o Caos, e como doador de cetros da deusa Hécate. Em PGM IV. 2841-2847, lê-se:

Como um laço eterno ao redor de suas têmporas
Você usa as grandes correntes de Cronos, inquebrantáveis
E irremovíveis, e em suas mãos segura um cetro de ouro.
Letras ao redor de seu cetro Cronos escreveu ele mesmo e deu
A você para que tudo permaneça firme:
Subjugador e subjugado, subjugador da humanidade,
E subjugador da força; o Caos, também, você governa.

O texto aqui afirma que Hécate, também uma Titã que sobreviveu à revolta dos deuses, usa as correntes de Cronos. Não se pode pensar que essas correntes sejam uma punição — ao contrário, são símbolos do poder de restrição e contenção da deidade saturnina. Da mesma forma, o texto afirma que Cronos inscreveu uma fórmula mágica no cetro (como tochas) que Hécate carrega. Logo em seguida, afirma que Hécate governa o Caos — como o cetro é o emblema da autoridade, e foi mencionado logo antes, o texto dá a entender que Cronos transmitiu ou delegou parte de seu poder sobre o Caos a Hécate. Isso faz sentido, já que, assim como Saturno, Hécate é um resquício da Era de Ouro, que sobreviveu de forma única à transição para a era helênica dos deuses.

Saturno não é apenas uma deidade mágica no período clássico, mas também é invocado no período medieval que se segue. A obra de Kieckhefer sobre necromancia medieval, intitulada Forbidden Rites, relata que um texto europeu do século XV, o Liber Angelis, contém um experimento saturnino para destruir um inimigo. Lê-se (p. 71-72):

Livros mágicos medievais posteriores raramente hesitam em oferecer fórmulas diretamente nocivas. Um Liber de angelis, annulis, karecteribus et imaginibus plantetarum (Livro dos anjos, anéis, caracteres e imagens dos planetas) do século XV, na Biblioteca da Universidade de Cambridge, contém um experimento chamado Vindicta Troie (Vingança de Troia), que pode ser usado para incitar ódio ou causar dano físico ou até mesmo a morte. O procedimento exige criar uma imagem no dia e na hora de Saturno, em nome da pessoa a ser prejudicada. A imagem deve ser feita de cera, preferencialmente de velas usadas em um funeral. Deve ser o mais feia possível; o rosto deve ser contorcido e as mãos devem estar no lugar dos pés, e vice-versa. O nome da vítima deve ser inscrito na testa da imagem, o nome do planeta Saturno em seu peito, e os selos ou caracteres de Saturno entre seus ombros. O operador deve invocar os espíritos de Saturno para que desçam dos céus e aflijam a vítima nomeada. A imagem deve ser defumada com várias substâncias, incluindo ossos e cabelos humanos, depois enrolada em um pano fúnebre e enterrada em algum lugar impuro, com o rosto para baixo. Se o mago quiser prejudicar uma parte específica do corpo da vítima, há instruções para amarrar o membro correspondente da imagem com um pano fúnebre e perfurar a imagem com uma agulha; para matar a vítima, o mago deve inserir a agulha na espinha, da cabeça até o coração.

Aparições Saturninas
A cultura ocidental tem muitas imagens de Saturno que sobreviveram desde a Antiguidade. Isso inclui estátuas, entalhes e, mais tarde, pinturas. Tradicionalmente, Saturno é retratado como um homem idoso, encurvado, mas musculoso.

Geralmente, Ele tem uma barba espessa. Veste um quíton preto, ou túnica, e, no estilo latino, Sua cabeça está coberta por Sua toga. O fato de cobrir a cabeça é algo raro entre as divindades, e acredita-se que simbolize Sua natureza alienígena, ou “alteridade”, e provavelmente também Sua natureza ctônica. Na República e no Império, as pernas do ídolo de Saturno eram amarradas com cordões de lã, simbolizando as correntes de Sua panóplia.

Ele carrega uma foice ou, alternativamente, uma gadanha. Em muitos dos entalhes posteriores de Saturno, especialmente os que enfatizam Seu aspecto temporal, Ele é mostrado no ato de devorar um de Seus filhos divinos. Essa imagem grotesca é, de certa forma, uma má representação, pois o ato de Saturno devorar os deuses não era propriamente canibalismo, mas sim uma forma de aprisionar suas essências.

Saturnus-Malakbel (Palmira, séc. II d.C.)

A representação de Saturno feita por Rafael é bastante interessante, pois o mostra sentado com a toga, portando a foice e conduzindo uma carruagem puxada por um par de dragões serpentinos. Isso remete às imagens do Zuhal islâmico, que está sobre uma serpente ou dragão. Como já foi mencionado, aqui Saturno não está conquistando nem matando o dragão; ao contrário, Ele o dominou e o utiliza como veículo. Isso indica que Saturno está alinhado com as forças ctônicas e caóticas de seu entorno, e que essas forças estão sob Seu controle.

Saturno (séc. XVIII, Lisinio, com base em Rafael do séc. XVI)

Para os romanos, Saturno também se manifesta como o corpo planetário que leva Seu nome. É importante notar que, na cultura romana, não havia distinção entre a divindade como entidade antropomórfica, como conceito, ou como planeta. Vênus, por exemplo, era entendida como o próprio amor, bem como uma mulher bela e um planeta. De forma semelhante, Saturno era compreendido como um deus cinzento e sombrio em correntes no Tártaro, um princípio cósmico e um planeta malévolo que causava dano e infortúnio a tudo o que tocava com sua luz. O planeta era considerado extremamente nefasto pelos romanos. Propércio relata nas Elegias (IV, I, 86):
Et graue Saturni sidus in omne caput (A estrela de Saturno pesa sobre todas as cabeças).
Do mesmo modo, Lucano afirma na Farsália (1,651-652):
Summo si frigida caelo stella nocens nigros Saturni accenderet ignis (Dos céus frios, a estrela nociva de Saturno acende fogos negros).

Fica claro que, em Sua forma planetária, Saturno era malvisto pelos astrólogos e que Sua “estrela” era temida por trazer má sorte a todos sobre os quais incidisse. A influência astral negativa de Saturno continua sendo um tema recorrente nos textos herméticos e encontra fortes paralelos nos cultos islâmico e indiano de Saturno. Isso será discutido mais detalhadamente na Seção Dois.

<- O Culto do Cubo Negro


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