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O Caminho Espiritual (O Culto do Cubo Negro)

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por Arthur Moros

O leitor deve estar ciente de que, desde o século XIX, houve um enorme aumento do interesse pelo paranormal. Isso pode ser resultado da antropologia ter passado a examinar seriamente as crenças e práticas de muitos novos sistemas espirituais que as escolas europeias tradicionais anteriormente descartavam como superstição. Seja como for, o buscador contemporâneo dos mistérios se depara com um número considerável de escolas, sistemas e tradições que alegam oferecer verdades esotéricas a seus respectivos estudantes.

Muitas dessas tradições, originalmente centradas (por exemplo) na Ásia ou na África, hoje contam com seguidores internacionais e um corpo diverso de praticantes que inclui pessoas de todas as idades, gêneros e formações profissionais ou educacionais. Alguns são claramente charlatães, sem qualquer credencial legítima, oferecendo riqueza instantânea, poder ou feitiços de amor em troca de “doações” via PayPal. Outros, mais autênticos, passaram décadas procurando meticulosamente por um professor qualificado, capaz de transmitir gradualmente o complexo corpo de práticas necessário para realizar e experimentar a magia da tradição.

Algumas, ou mesmo muitas, dessas tradições fazem reivindicações exclusivas de verdade — seu mestre é “o melhor”, sua divindade é suprema e seu caminho é melhor que todos os outros. Outras, talvez mais versadas no vasto mundo do ocultismo, reconhecem que, embora talvez não existam muitos mestres espirituais vivos hoje, há alguns professores genuínos ao alcance, se você estiver disposto a procurar.

Um dos desenvolvimentos mais tristes do ocultismo do século XXI foi o surgimento de novas tradições que prometem a apoteose. Esse é um tema delicado, mas que precisa ser abordado. Algumas tradições ocultistas realmente possuem conhecimento secreto, e alguns ocultistas são capazes de realizar magia genuína. Isso não está em questão. A magia tem seus limites, como qualquer força, e esses limites geralmente se devem às limitações do próprio mago.

Poucos mestres tradicionais discordariam desse ponto. Além disso, praticamente todas as artes ocultistas tradicionais reconhecem a existência de entidades sobrenaturais, com as quais os magos podem — e de fato — mantêm relações. Em nenhum texto ou tradição essas entidades foram consideradas apenas “arquétipos” ou “projeções” da vontade de um mago.

No entanto, de alguma forma, com o surgimento de figuras como Aleister Crowley, surgiu um número crescente de ocultistas que afirmam ser magos supremos ou, mais ainda, divindades. Algumas escolas afirmam ser capazes de ensinar alguém a se tornar uma divindade ainda em vida. Tais alegações são alarmantes porque (a) carecem de qualquer evidência substancial ou mensurável e (b) os supostos mestres que dizem vender milagres parecem estranhamente incapazes de governar suas próprias vidas. Pior ainda, tais figuras criaram escolas fast-food do ocultismo que reduziram deuses e elementais a nada mais do que gênios da lâmpada, cumpridores de desejos — ao invés de entidades poderosas e autoexistentes que, tradicionalmente, exigem respeito e sacrifício.

Acima de tudo, é preciso compreender: poder não é gratuito. A palavra “empoderamento” é usada liberalmente por muitos que parecem acreditar que demônios podem ser invocados e forçados a obedecer ordens. Isso é arrogância. Pode-se dizer que o porco alimentado diariamente pelo fazendeiro provavelmente se sente “empoderado”, mas o porco nunca se tornará um fazendeiro, mesmo que coma as sobras da mesa do fazendeiro.

Não estou dizendo que a evolução espiritual não seja possível, mas é perigoso pensar que alguém pode se autoproclamar mestre ou divindade apenas por ter adquirido certa habilidade mágica. Exigir favores ou poder de espíritos é um jogo perigoso e pode não resultar na “ascensão” que muitos esperam encontrar.

Ao acreditar que deuses ou espíritos são projeções ou egregores, corre-se o sério risco de cair nessa armadilha. Pode-se descobrir, após a morte, que, se o poder não foi devidamente pago, o mago será consumido como forma de pagamento. É melhor lidar com espíritos ou deuses com uma atitude aberta e inteligente, confiando que, se tais entidades estiverem dispostas a comunicar-se e ajudar o mago, não o farão de graça. Seres espirituais têm suas próprias agendas, e o mago sábio reconhece isso e age de acordo.

Os seres espirituais estão realmente interessados na evolução espiritual humana? Certamente, essa é uma crença predominante na comunidade ocultista mais ampla — mas que evidência a sustenta? Se a maioria dos mestres contemporâneos realmente é capaz de invocar deuses ou demônios para fins de autoengrandecimento, então por que com a mesma frequência enfrentam dificuldades para atender às suas próprias necessidades materiais ou sociais? Pior: por que vendem materiais prometendo ensinar habilidades que eles próprios parecem não possuir?

Isso não quer dizer que todos os mestres sejam charlatães — longe disso. No entanto, aqueles que afirmam ensinar e lucrar com isso, muitas vezes carecem de credibilidade de forma suspeita. Uma simples busca no Google costuma revelar isso. Mas bons professores ainda são uma grande bênção, e se alguém conseguir encontrar um verdadeiro mestre espiritual, ele pode oferecer uma vasta riqueza de técnicas e sugestões e, certamente, em alguns casos, a transmissão da gnose. Isso não pode — e não deve — ser contestado.

Escolhendo um Caminho Espiritual

Quando alguém decide escolher uma tradição espiritual, precisa se perguntar o que espera alcançar ao embarcar nessa busca. Se a pessoa acredita na magia e deseja ter maior controle sobre sua vida e circunstâncias pessoais, tudo bem — mas o Budismo Vajrayana pode não ser o caminho ideal para ela. Da mesma forma, se alguém deseja estabelecer uma prática diária que leve a uma profunda tranquilidade interior, o Vajrayana pode ser exatamente o que está procurando.

O buscador está comprometido com uma conexão mais profunda com o Ser Supremo, e encontra contentamento em práticas devocionais simples, mas profundas? Então o Sufismo ou o Bhakti Yoga podem ser boas escolhas. Nem todas as tradições esotéricas ensinam magia, mas isso não as torna menos válidas. A magia é uma habilidade legítima a se desejar aprender, mas, assim como um esporte competitivo, exige tempo, prática e certo grau de talento inato.

Muitos caminhos esotéricos não exigem qualquer habilidade com magia e ainda assim podem conduzir o iniciado a realizações espirituais profundamente transformadoras.

Deve-se escolher um caminho espiritual com cuidado, pesando bem os riscos e benefícios associados à tradição. Se uma tradição está ligada a uma divindade ou a uma família de entidades espirituais, é preciso saber se está-se confortável com os requisitos dessa tradição. Isso é ainda mais importante se se aceita a existência dos deuses ou inteligências espirituais como fenômenos genuínos. Da mesma forma que se pode aceitar ou rejeitar uma oferta de emprego com base na compreensão sobre o futuro chefe, também é preciso avaliar se os patronos espirituais de um determinado sistema representam os valores e ambições que se busca. Esse é um processo que exige séria reflexão, tanto com a mente quanto com o coração.

Por um lado, é verdade que “você sabe quando sabe” — o professor ou corrente espiritual certos fazem-se sentir no fundo do ser. Por outro lado, é preciso ler, consultar livros, conversar com professores ou estudantes experientes e tentar entender o que significa se alinhar com uma corrente ou escola específica. Se todos os membros de uma escola vivem vidas estáveis e felizes — isso diz algo sobre o ensinamento e a energia daquela corrente. Se os iniciados de uma determinada corrente enfrentam vícios e frequentes problemas com a lei, isso sugere algo completamente diferente sobre a natureza da energia daquela tradição.

Também é essencial considerar cuidadosamente as regras e práticas de uma corrente espiritual. Em muitas tradições africanas tradicionais, por exemplo, o sacrifício de sangue é normal e necessário. Um estudante que se recusa a aceitar tais práticas não durará muito, ou sequer será aceito. Isso vale para todas as grandes religiões — se alguém é realmente contra o sacrifício animal, então o Islã (e suas ordens sufis associadas) pode ser uma má escolha de religião, dado o sacrifício anual do Eid al-Kbir [Nota do Tradutor: festa muçulmana em que se sacrifica um animal em memória do sacrifício de Abraão]. Isso não significa que normas espirituais e culturais não possam ser reavaliadas com o tempo, mas selecionar apenas o que agrada é algo a ser evitado, se o objetivo for integrar-se verdadeiramente a uma corrente espiritual que adota e defende tais práticas.

Há também a questão de como se tornar parte de uma tradição esotérica viva. Este é um tema delicado, que divide opiniões, e muito poderia (e deveria) ser dito a respeito. Embora o escopo deste trabalho não nos permita nos aprofundar nesse assunto, queremos afirmar rapidamente nossa própria posição, no que diz respeito à gnose apresentada neste livro.

Para se tornar devoto de Saturno, nenhuma iniciação formal é exigida. As informações contidas nesta obra oferecem mais do que o suficiente para que alguém, atraído pela corrente saturnina, estabeleça uma relação devocional significativa com essa divindade. Tal relação devocional solitária pode evoluir para um culto pessoal elaborado a Saturno, e a divindade pode conceder grandes revelações e poderes. No entanto, se se busca a transformação saturnina mais completa, a orientação de um verdadeiro mestre ou professor torna-se indispensável.

Esse mestre não apenas fornecerá ferramentas e técnicas importantes, adquiridas e testadas ao longo de muitas gerações, mas, mais importante ainda, atuará como o “médico da alma”. Esse mestre tem pouco em comum com o típico professor esotérico ocidental, que na melhor das hipóteses é um tutor de faculdade ocultista, e na pior, um impostor fraudulento acumulador de títulos vazios.

O médico da alma é o mestre que estabelece uma relação profundamente individual com o estudante e remove os detritos espirituais e a confusão da alma, para que o iniciado se torne o solo fértil ideal para as energias divinas (neste caso, saturninas). Os poderes ou condições que governam nossa consciência cotidiana são tão fortes e enganosos que é impossível para nós evitarmos sozinhos todas as armadilhas e truques que foram implementados para manter o controle sobre o Eu profano. Embora possamos ter sucesso ao seguir instruções rituais, ou até mesmo ter grandes visões e experiências espirituais por meio de nossa devoção à divindade, elas permanecerão, em certa medida, fragmentadas ou isoladas: para substituir plenamente “o Eu da consciência diurna pelo Eu da consciência noturna”, como David Beth expressa tão bem, precisamos estabelecer o vínculo sagrado com um mestre genuíno.

Somente por meio desse processo de espelhamento, orientação e monitoramento, a alma pode se tornar um espelho perfeito para as energias saturninas, permitindo ao iniciado manifestar toda a gama de seus poderes.

Tráfico com espíritos, por si só, pode ser altamente problemático. Entidades que afirmam ser benevolentes ou auspiciosas podem não ser realmente assim. De certo modo, é até uma sorte quando um espírito admite logo de início que não é auspicioso ou bondoso — isso é melhor do que descobrir da pior forma. Pode-se fazer um voto a um espírito, servi-lo devotamente e, no fim da longa jornada, descobrir que tudo foi em vão.

É nesse ponto que a tradição dos grimórios se mostra muito útil — há uma diferença entre receber “gnose” de algo que afirma ser Lilith, e que de fato se conforma às tradições sobreviventes a seu respeito, e se vincular a algum espírito sem persona ou culto conhecido. O leitor provavelmente está ciente dos muitos cultos dedicados a supostos espíritos antigos (como Lilith), que, sob escrutínio, não se assemelham em nada às antigas divindades em questão. Gnose pessoal é algo valioso, mas é ainda melhor quando se alinha, ao menos em parte, com as práticas dos cultuadores originais. Quando alguém afirma falar com uma Lilith que se apresenta como uma deusa gentil da fertilidade, é evidente que está sendo enganado por algo que claramente está se disfarçando para tirar proveito de sua ignorância.

Caveat cultor. Uma das principais razões para escrever este estudo em particular é oferecer uma fonte sobre a divindade Saturnina, de modo que os leitores estejam mais bem preparados para reconhecer e identificar Sua presença, caso venham a encontrá-la.

<- O Culto do Cubo Negro


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