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por Arthur Moros
O primeiro passo necessário para cultivar a devoção a Saturno é criar um espaço sagrado onde se possa reverenciar adequadamente a divindade, bem como realizar ritos e cerimônias. Não precisa ser um espaço grande, mas deve ser uma área dedicada da sua casa, que não será usada para outros fins. Nesse local, deve-se montar um santuário ou altar. Como Saturno é um deus de segredos e mistérios, o santuário não precisa ser óbvio para outras pessoas. É muito apropriado que ele fique escondido à vista de todos, ou em um espaço isolado de outras pessoas. O ideal é que esteja afastado de áreas de muito movimento, ou onde possa ser perturbado por crianças ou animais.
Há bastante flexibilidade quanto à construção do santuário, e ele não precisa ser especialmente ornamentado – na verdade, a tradição afirma que Saturno prefere objetos rústicos e escuros, então uma mesa de madeira escura ou blocos de cimento seriam preferíveis a um altar dourado. Santuários podem ser elaborados, mas não precisam ser.
Saturno é uma divindade do baixo, assim como do alto.
Um santuário básico deve conter os seguintes itens:
Ídolo saturnino: Segundo a tradição, o ídolo mais comum de Saturno é um cubo de pedra negra ou um obelisco, símbolo do mundo-prisão governado pelo deus sombrio. Como há muitos aspectos e atributos de Saturno, o acólito pode escolher livremente qual máscara cultural do deus melhor representa sua conexão. O Saturno romano é tão válido quanto o Barão Samedi, por exemplo, já que ambos exemplificam aspectos muito reais da divindade. É importante lembrar aqui que a verdadeira divindade é aquela que está por trás dos diversos nomes.
Panos de altar: O santuário deve ser coberto com tecidos escuros, como preto, azul ou cinza muito escuro. O tecido deve ser, se possível, de lã.
Incenso: A divindade saturnina aceita uma ampla variedade de misturas de incenso, algumas das quais são descritas adiante. Exemplos facilmente encontrados incluem aloé, bem como qualquer aroma amargo.
Óleo: O óleo é uma das oferendas mais comuns à divindade saturnina. Óleo de gergelim e azeite de oliva são os dois preferidos pelo deus sombrio.
Tigela de oferendas: De tempos em tempos, é aconselhável fazer oferendas líquidas à divindade saturnina, ou queimar pequenas oferendas no santuário. Para isso, uma tigela de oferendas pode facilitar bastante o processo.
Velas: Devem ser pretas ou azuis, e podem ser acesas (ou não) durante os dias da semana e os ritos. É tradicional que as velas fiquem acesas durante todo o dia de sábado.
Itens sugeridos pela tradição, mas opcionais, de acordo com a disponibilidade:
Ídolos secundários: Embora seja bom ter uma divindade central instalada, há benefícios em ter outras imagens ou símbolos saturninos sobre a mesa. Isso está em linha com o culto saturnino medieval, especialmente na tradição islâmica, que deliberadamente incorporava outros cultos saturninos. Os ídolos secundários também podem representar a consorte de Saturno, como Mater Lua, dependendo da inclinação do acólito.
Ferramenta cortante: Uma faca de ferro (ou aço), um espeto ou uma foice é um instrumento útil, pois alguns rituais saturninos requerem derramamento de sangue, ou o uso de um objeto afiado para inscrever textos em talismãs rituais.
Correntes: Saturno é uma divindade acorrentada, e a presença de correntes no santuário é uma ferramenta eficaz de ressonância. As correntes devem ser de ferro ou aço, e podem ser usadas pelo devoto como símbolo do aprisionamento de Saturno.
Joias de ferro: Anéis, pulseiras e outras joias de ferro podem ser colocadas no santuário como presentes para Saturno. Um mês após serem oferecidas, podem ser “emprestadas” do santuário e usadas como amuletos protetores.
Espelho negro: Um espelho escuro, uma tigela com líquido preto ou uma esfera de obsidiana são bons exemplos do princípio do espelho negro. A divindade pode usá-lo para revelar mistérios, e ele pode ser uma ferramenta eficaz de comunhão.
Com o santuário estabelecido em casa ou no local de trabalho, é bom oferecer respeito diariamente ao ídolo da divindade. De certo modo, uma vez montado o santuário e instalado o ídolo, ele deve ser tratado como um ser vivo. Rituais devocionais longos não são exigidos diariamente, embora não haja objeção a isso. É suficiente saudar o santuário com respeito uma vez ao dia, oferecendo um gesto que pareça culturalmente apropriado – alguns podem se curvar, ajoelhar ou cobrir o coração com as mãos – e falar num tom respeitoso e educado. Também é recomendado manter o santuário limpo e livre de poeira ou detritos.
Jamais, em hipótese alguma, permita que o santuário seja usado para qualquer outro fim, e não o negligencie.
Esteja certo de que, com o tempo, a energia do deus sombrio começará a se acumular lentamente no santuário. O poder de Saturno é lento e frio, e um novo acólito não deve esperar que o espaço se encha subitamente com a ressonância saturnina. É mais provável que isso ocorra ao longo de semanas e meses de alimentação espiritual.
Ainda assim, uma vez que esse poder comece a criar raízes no santuário, é muito difícil de remover, e se torna bastante penetrante. A aura dos santuários saturninos, sem surpresa, tende a ser um tanto grave, reservada e até fria. No entanto, podem e irão manifestar um certo nível de caos e até um humor mórbido, especialmente se o Barão Samedi for o aspecto saturnino principal propiciado.
Oferendas Diárias ao Santuário
Além de saudar o santuário diariamente, é recomendável fazer pequenas oferendas para demonstrar respeito ao deus. Há grande flexibilidade quanto ao que pode ser oferecido, mas a tradição indica que pequenas quantidades de azeite de oliva, açúcar ou sementes de gergelim são apropriadas. Esses itens podem ser depositados na tigela de oferendas e, após um dia, devem ser dados a alguém necessitado (se possível), ou então devolvidos diretamente à terra.
Não se recomenda comer diretamente da mesa de Saturno, mas suas oferendas podem ser repassadas a outras pessoas como um presente. O azeite e o açúcar, por exemplo, podem ser usados no preparo de um bolo e presenteados a alguém que tenha passado por um período de infortúnio.
Sob nenhuma circunstância as oferendas devem ser descartadas no lixo. No caso do azeite, pode-se aplicar uma gota sobre o ídolo — essa é uma das práticas devocionais mais comuns na tradição saturnina.
Estabelecendo o Vínculo Mágico
Como dito anteriormente, para forjar um vínculo íntimo com a divindade saturnina, não é necessário passar por iniciações externas ou transmissões esotéricas (embora, dependendo dos objetivos do devoto, isso possa se tornar necessário mais adiante — veja meu comentário sobre o papel do mestre em um capítulo anterior). Em concordância com a maioria dos textos históricos do culto saturnino, este grimório exige apenas a preparação adequada para as cerimônias e o cultivo dedicado da devoção a Saturno, para que Suas bênçãos e Gnose sejam alcançadas. A divindade escolhe, por si mesma, a quem se revelar.
A iniciação exige, principalmente, a resolução (em algum nível) de assumir a causa saturnina, e então iniciar as práticas devocionais, começando pela construção do espaço sagrado (o santuário). Se Saturno aceitar a devoção espiritual e o respeito que estão sendo oferecidos, o acólito começará a sentir a transmissão da gnose. Não é incomum ter sonhos ou visões de Saturno, ou sonhar com símbolos, cores vivas, objetos (como o Cubo Negro) ou animais associados a Saturno, ou mesmo com lugares e personagens ligados à corrente saturnina. A vinda da gnose saturnina pode ser desagradável — a tradição afirma que Saturno costuma oferecer o ruim antes do bom. Como exemplo, um potencial acólito com uma disposição normalmente positiva pode se tornar cínico e deprimido em um curto espaço de tempo.
Se o iniciado conseguir manter algum grau de objetividade clínica durante os primeiros dias da prática saturnina, isso é algo muito positivo. Uma técnica eficaz é manter um diário, para registrar suas experiências, percepções e estados emocionais a partir dos primeiros passos iniciáticos no caminho saturnino.
No entanto, se após vários meses não houver qualquer senso de conexão com Saturno, nem mudança perceptível de percepção, capacidade ou estado mental, pode ser útil ao acólito reavaliar sua prática. Pode ser que tenha se aproximado de Saturno sem sinceridade ou com hesitação, e nesse caso sua devoção pode não estar gerando uma “frequência psíquica” forte o suficiente para alcançar a divindade. Diz-se que Saturno é “distante” por uma razão, e não se acredita que Ele seja tão acessível quanto outras divindades mais “cósmicas”, como os deuses solares ou lunares.
Alternativamente, o possível iniciado pode simplesmente não estar na mesma frequência espiritual de Saturno, e talvez essa não seja a corrente mais adequada para ele. Isso não significa, de forma alguma, um fracasso — apenas sugere que as energias naturais daquela pessoa não são compatíveis com a energia de Saturno, ou que talvez este não seja o momento certo na vida dela para que Saturno se manifeste. Se uma pessoa possui forte ressonância jupiteriana ou solar, por exemplo, talvez ela não esteja bem ajustada ao trabalho saturnino. Alguns mestres também sugerem que durante a adolescência e o início da vida adulta seja mais difícil praticar o culto saturnino, já que a influência de Saturno tende a favorecer aqueles que atingiram maior maturidade, especialmente os idosos ou os que ocupam funções vocacionais discutidas na Seção Um.
Tudo isso posto, algumas pessoas ainda desejarão realizar uma cerimônia inicial para marcar seu primeiro passo no caminho saturnino — e esse é um desejo normal e saudável. Se for o caso, o leitor pode fazer uso do ritual descrito a seguir. Esse ritual também pode ser usado em conjunto com o estabelecimento do santuário saturnino (também discutido acima), de modo que ele sirva para consagrar o santuário ou ídolo, em vez de consagrar o próprio acólito. Essa variação da prática é mais comumente encontrada nos cultos saturninos orientais (indiano e islâmico), e continua bem documentada e respeitada nessas regiões.
O ritual está descrito a seguir.
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