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por Arthur Moros
Com raízes que remontam à antiguidade, o Culto do Cubo Negro tem celebrado a divindade Saturnina sob muitos nomes e em muitos lugares. Ainda hoje, reconhecemos as tradições vivas de Saturno na Índia e nas correntes afro-caribenhas. Espero ter demonstrado, com este trabalho, que existe um corpus muito rico de rituais e cerimônias saturninas registrados em textos medievais e clássicos, os quais oferecem uma janela para como muitas das grandes culturas do mundo compreendiam essa poderosa divindade.
Saturno é temido, não apenas por ser uma divindade ou por sua associação com a morte e o submundo, mas porque Ele representa o aspecto do Caos que ainda permanece no cosmos. O Caos é retratado em muitos mitos antigos de criação e parece cumprir dois papéis predominantes.
Primeiro, o Caos é vida — é a escuridão primordial e geradora da qual o cosmos emerge. O Caos é uma espécie de progenitor, sendo até mesmo chamado de “mãe” dos Arcontes em algumas tradições gnósticas. O Caos não é inimigo da vida; mas também não é vivo, nem consciente da vida, no mesmo sentido que nós (ou mesmo os deuses) somos.
As gerações do Caos podem ser monstruosas e perigosas, dando origem a histórias sobre asuras, titãs e outros terrores que assolaram as civilizações primitivas.
Segundo, o Caos é combatido por outros poderes espirituais e demonizado como um monstro em si. Esse papel é exemplificado nas lendas cristãs, que profetizam uma batalha final por vir, na qual o Caos retornará para guerrear contra a Criação. O cosmos é perturbado, e a terra geme com tempestades, terremotos, até eclipses — todos causados pelas crescentes intrusões do Caos. A maioria dessas lendas prediz o retorno dos mesmos monstros que apareceram nas primeiras batalhas do alvorecer da criação: dragões e demônios rompem suas correntes adamantinas — e talvez, também, a divindade Saturnina.
Se essas lendas devem ou não ser tomadas literalmente, elas ilustram que há outros poderes no cosmos além do Caos, e que esses poderes buscam limitar e marginalizar o caos tanto quanto possível.
Saturno, como agente ou remanescente do Caos no cosmos, é combatido pelos outros deuses — mas eles não podem matá-lo. Isso leva ao Seu exílio, mas a prisão divina de Saturno é imperfeita. Sua influência maléfica permanece perene e, por vezes, irrompe em liberdade tumultuada temporária, antes de ser banida novamente para a dimensão negra simbolizada pelo cubo.
O acólito saturnino perceptivo vê a divindade negra não apenas como um deus, mas como um símbolo do Caos que Ele encarna. Em outras palavras, a veneração de Saturno é a veneração de uma extensão do próprio Caos. O caminho saturnino é um caminho escuro, não porque seja intrinsecamente mau ou odioso, mas porque está alinhado a forças que são estranhas à maioria das correntes espirituais.
O adepto saturnino desafia os poderes dominantes deste éon, assim como a Divindade Saturnina os perturba nos mitos — e, da mesma forma, na realidade.
A divindade sombria tem dois objetivos essenciais, que formam o mandamento do culto saturnino. O primeiro objetivo é reivindicar a soberania, conquistar, retomar o trono celestial e então restaurar o reino saturnino, instaurando um estado em que o mundo volte a ser menos diferenciado do Caos. Sob o governo de Saturno, a humanidade estaria livre do medo, da dor e da perda, pois alcançaria verdadeira igualdade por meio da libertação do individualismo e da discriminação — em uma Saturnália sem fim.
O segundo objetivo, mais abrangente, é o eventual retorno do próprio Caos. O reino saturnino pode nunca retornar — não há garantias, e há outros poderes espirituais que detêm a soberania, ou que desejam tomá-la. Ainda assim, o retorno do Caos é profetizado — e, quando vier, pode ser pela última vez. O acólito saturnino se prepara para esse dia, trabalhando para aumentar a influência de Saturno — e do Caos — atuando no mundo hoje.
No plano pessoal, a corrente saturnina é extremamente fortalecedora. Esse caminho oferece rituais e práticas devocionais que conduzem à verdadeira gnose, e a um maior controle sobre a própria vida e o entorno. Trata-se de um sistema esotérico que realmente produz milagres — os autores medievais arriscaram suas vidas (e reputações) para nos dizer isso. A devoção ao deus da malefica traz resiliência contra muitos tipos de dano.
A aliança com a divindade da restrição traz libertação de muitas das correntes, esotéricas e mundanas, que aprisionam os outros. Contudo, a corrente saturnina está conectada à causa saturnina, e qualquer um que deseje sinceramente adentrá-la perceberá que suas ambições e impulsos pessoais cedem lugar à vontade maior da divindade do Cubo Negro. À medida que a gnose saturnina começa a se formar dentro do indivíduo, este se torna um agente do Caos — e isso pode trazer consigo certo grau de dificuldades inesperadas. Isso soa dramático, mas é inevitável, pois o caminho saturnino faz parte de um drama real, uma epopeia que ainda está por se concluir.
Este livro foi escrito a pedido do Cubo Negro, na esperança de que seu conteúdo possa ser útil a outros que se sintam atraídos pela presença dessa divindade estranha. Saturno lhe oferece a chance de estar ao Seu lado enquanto vive — para que você possa moldar seu próprio destino. Sendo Saturno uma manifestação do próprio Caos, Ele lhe oferece a oportunidade de permitir que o Caos corra solto em sua vida, ainda que por um breve momento.
O caminho saturnino é verdadeiramente único, pois proporciona comunhão genuína com uma divindade que é alienígena a este mundo, e ainda assim constrangida por ele. Ao fazer causa comum com Saturno, você se permite uma chance real de conhecê-Lo — e, ao servi-Lo, servir a si mesmo.
■ Redeunt Saturnia regna. ■
[Nota do Tradutor: A frase latina final significa “Retornam os reinos de Saturno.”]
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