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por Arthur Moros
Mitologia e tradição sagrada são formas pelas quais eventos sobrenaturais ocorridos em um passado remoto podem ser compreendidos e descritos na linguagem humana. Para fazer uso da sabedoria das culturas antigas, é importante rejeitar uma postura binária e literalista de verdadeiro/falso e, em vez disso, buscar entender o que determinada história ou símbolo está tentando comunicar. Caso contrário, nenhum sistema antigo será útil ao leitor moderno, pois todos os sistemas dependem da linguagem e da cultura de um lugar e tempo específicos. Mesmo no inglês contemporâneo, dizemos “nascer do sol” e “pôr do sol”, embora hoje, pela ciência, saibamos que o sol nem nasce nem se põe (como nossos ancestrais pensavam); mas, para todos os efeitos práticos, é mais fácil dizer isso ou pensar no sol como se movendo pelo céu, do que imaginar a Terra girando em seu eixo. Isso também se aplica aos mitos e símbolos da divindade saturnina, assim como a qualquer tradição religiosa ou espiritual.
Por um lado, este estudo acaba de mostrar três padrões consistentes através dos quais a divindade saturnina se manifesta na consciência humana. Primeiro, há a manifestação humana, na qual Saturno aparece como um velho severo, vestido de preto, manco ou aleijado, com semblante carrancudo ou irado, empunhando uma foice afiada ou uma espada. Segundo, há a manifestação planetária, na qual Saturno se apresenta como um planeta frio, seco e sombrio que irradia ameaça. Terceiro, há a manifestação icônica, na qual Saturno aparece como uma pedra preta, cubo ou obelisco. Essas manifestações são simbólicas do caráter de Saturno e nunca foram concebidas para serem interpretadas literalmente. Os antigos não acreditavam que Saturno fosse apenas um velho, assim como não achavam que ele fosse “apenas” um planeta ou “apenas” um cubo de ferro negro. O que, então, os antigos pretendiam com esses símbolos, e o que esses símbolos significam para comunicar ao leitor iniciado de hoje?
Ao contemplarmos a natureza e o poder dos símbolos, devemos ter em mente os ensinamentos de David Beth sobre o pensamento simbólico e o mundo pandaemônico da consciência noturna. Acreditamos que sua obra revela a essência interior e a sacralidade do símbolo como uma porta mágica para a realidade mais essencial. O Mestre A-Logos (David Beth) diz:
> O mundo dos símbolos é o mundo da consciência noturna. Contra a opinião popular, acreditamos que os mitos nascem dos símbolos. O verdadeiro símbolo é em si uma revelação de um poder entusiasmante (como um espírito, uma essência demoníaca), e nunca apenas uma metáfora. O iluminado nas trevas comunga com os poderes do Todo vivo, e o encontro, o acasalamento da alma passiva (iniciado, poeta, visionário) com as almas ou essências demoníacas ativas desencadeia a manifestação de um verdadeiro símbolo. Quando os símbolos são glifos de encontros extáticos, formam parte de uma linguagem que comunica realidades que jamais podem ser abordadas através da linguagem conceitual. Símbolos verdadeiros sempre impactam magicamente e, assim, têm o poder de reacender a faculdade da visão esotérica extática. Para os raros aristocratas da alma, eles se tornam portas para o Kosmos vivo e demoníaco.
É crucial, antes de tudo, afirmar claramente que todas as culturas discutidas aqui aceitaram que a divindade saturnina era uma entidade real, que, em sua forma planetária, aflige todos os seres. Enquanto se poderia, talvez, ignorar a maioria dos deuses que pareciam fora da própria esfera pessoal, todas as culturas aqui consideradas viam a influência de Saturno como uma parte inevitável e indesejada da vida. O culto à divindade saturnina não era um exercício catártico ou uma operação freudiana, mas sim um culto literal destinado a mitigar os grandes e pequenos traumas que afligem nações, deuses e mortais igualmente. Essa é uma visão que o leitor deve considerar com atenção, especialmente porque foi tão universalmente mantida, e continua a ser sustentada hoje por muitos que compreendem o funcionamento das forças celestes.
Para entender a divindade saturnina como essas culturas a compreendiam, é necessário investigar a cosmologia mais ampla à qual muitas dessas culturas se filiavam, pois essa divindade sombria não existia de forma puramente independente, mas era parte de uma tradição maior — ou de uma família de tradições.
Caos
Em muitas mitologias do mundo, antes que o cosmos viesse à existência, havia algo que em inglês chamamos de Chaos (Caos). Caos é um motivo muito indo-europeu, mas também ocorre em lendas de muitas outras culturas, como as culturas suméria ou afro-semítica do período da Idade do Bronze e do Ferro. Por exemplo, os leitores da Bíblia o reconhecerão no livro do Gênesis, onde é descrito como o fluxo inicial de trevas e águas sobre o qual Javé traz luz e forma. Por definição, o Caos era impossível de descrever, porque era tão fundamentalmente alheio ao cosmos que não temos nenhuma referência para compreendê-lo — ele precedia a separação entre existência e não existência.
Mesmo assim, o Caos é frequentemente descrito em textos antigos como um oceano de trevas. Em algum momento, por qualquer razão (as tradições divergem), Ele gerou o cosmos, juntamente com outras entidades primordiais que habitavam o cosmos e que, por sua vez, criaram outros seres menores como os deuses. Várias culturas antigas sustentavam que Saturno era um desses seres primordiais. Curiosamente, a maioria dos primordiais era descrita como criaturas imensas que não possuíam aparência humana.
Embora o Islã seja silencioso quanto às origens de Zuhal, as tradições clássica e indiana sustentam ambas que, quando a divindade saturnina nasceu, seu primeiro ato registrado foi ferir seu pai, e sem provocação. A divindade sombria momentaneamente afirma sua dominação cósmica, mas então é derrotada, ferida e exilada para a borda mais distante do espaço celestial e/ou ctônico. O significado secreto dessa tradição é que a divindade saturnina é, na verdade, um remanescente do Caos pré-cósmico, e o surgimento do cosmos (ou deus solar) efetivamente rompe a unidade do Caos. O cosmos emergente (simbolizado pela luz) é separado do Caos, que se retira, tornando-se a escuridão visível além das estrelas à noite.
No entanto, parte do Caos é aprisionada dentro do cosmos, tornando-se as divindades primordiais. A divindade saturnina é um aspecto do Caos, e por isso sua influência sobre os outros planetas é negadora e negativa; sua influência sobre as nações é socialmente disruptiva; e sua influência sobre os mortais é frequentemente letal.
A divindade saturnina tem a pele escura, porque o Caos é escuro. Ela é disruptiva, porque o Caos é desordenado. Ela é malévola e associada à morte, porque o Caos é hostil a toda vida. Ela é uma figura ancestral, porque, como o Caos que a gerou, não pode deixar de criar, mesmo que também não consiga evitar causar destruição. Ela é pai, avô ou ancestral, porque é uma das primeiras entidades primordiais a emergir do Caos. É rei ou tirano, porque é a maior das emanações do Caos que permanecem no cosmos.
A divindade saturnina, então, não é realmente um velho escuro. Essa é uma forma ou corpo que a entidade adota para lidar com seus cultistas mortais. A forma real da divindade, se é que pode ser imaginada, seria impossível de descrever. Se um iniciado fosse capaz de percebê-la diretamente, veria um espírito imenso, escuro e frio, cuja ressonância seria ao mesmo tempo ctônica e malévola. Pode ser mais fácil simplesmente imaginar a divindade como o planeta — que seria, de certo modo, sua manifestação física atual no mundo cósmico. Claro, o planeta é uma massa de minerais e gelo, mas isso é apenas o aspecto visível para a física — assim como um ser humano é “apenas” uma massa de minerais e líquidos em forma sólida.
Mesmo assim, a divindade saturnina está contida, acorrentada e ferida. Em todas as tradições que a descrevem, Ela sofreu injúrias e humilhações, e parece estar limitada em seus movimentos e aparições. Em todos os feitiços que a invocam ou descrevem, duas coisas são evidentes: (a) Ela pode ser chamada, e (b) não pode se manifestar sem ser chamada. Tome-se, por exemplo, a tradição Safnadula, que passou da Índia aos textos islâmicos. O rei Safnadula tem um sonho no qual o Senhor Śani lhe aparece e o instrui sobre como realizar a cerimônia que fará Śani se manifestar visivelmente a partir de seu ídolo. Se Śani pudesse se manifestar sem a necessidade da cerimônia, não o faria? Em segundo lugar, considere o feitiço “Moinho de Sal de Cronos” do PGM, que invoca Cronos para servir como oráculo. O texto deixa claro que Cronos aparecerá acorrentado, e que machucará o mago a menos que este esteja protegido por certos filactérios e amuletos protetores. Ainda assim, Ele pode ser banido quando o mago termina a operação. Em terceiro lugar, observe que o ídolo de Saturno era realmente preso por cordas (simbolizando correntes), que eram removidas apenas durante o período da Saturnália. Em quarto, o nome Zuhal significa literalmente “o alienígena, o mais distante”, e sua invocação deixa claro que Ele está distante da Terra, ao contrário dos outros planetas, que são “próximos”. Em todos esses casos, há uma clara sensação de que a divindade saturnina, ao contrário de outras divindades, não está presente na Terra. É verdade que sua “estrela” ou corpo planetário é temido e considerado capaz de atacar de longe, mas isso não é o mesmo que ser capaz de se manifestar como Ele de outra forma desejaria.
Onde, então, está Saturno? Podemos muito bem considerar o estranho símbolo do Cubo Negro, discutido acima. Para o leitor iniciado, o cubo ou obelisco representa a dimensão espiritual para a qual Saturno está banido — a prisão espiritual onde a divindade está confinada. Ele é quadrado ou cúbico porque é a construção mais simples conhecida pela humanidade, e assim representa a cela ou prisão que mantém o rei caído.
Claro, o Cubo Negro não é uma sala literal na qual a divindade está presa; ele representa um plano espiritual, um universo-sombra que serve como prisão da divindade saturnina. O ato ritual de erguer o Cubo Negro como ídolo de Saturno e invocar a divindade a partir do ídolo é uma liberação simbólica de Saturno de sua prisão. A reverência e devoção mostradas ao Cubo Negro (por exemplo, a Kaaba) simbolizam o respeito prestado ao senhor que está aprisionado. Sendo esse o caso, é razoável considerar qualquer ocorrência conspícua do Cubo Negro (em publicidade, promoção, como símbolo corporativo) como potencialmente simbólica de Saturno. Como este texto procurou enfatizar, o culto ao deus aprisionado e secreto não é um culto morto (especialmente na Índia). Ao contrário, é um movimento vivo que se adaptou e continua à vista de todos.
Soberania
Uma das características fundamentais de muitos sistemas religiosos é a ideia de que o cosmos possui um aspecto de soberania. Ou seja, que dentro do cosmos — e talvez em diferentes escalas dentro dele — há um princípio real de lei ou soberania, assim como o tempo e a gravidade também são leis. Soberania pode ser entendida como a reivindicação cósmica de governar legitimamente. É muito claro que, em muitos mitos, há diferentes raças divinas que lutam para controlar o mundo ou os céus — esse é um exemplo da batalha cósmica por soberania. As entidades geralmente adoradas pelas religiões se apoderaram do princípio de soberania, e aquelas entidades monstruosas e assustadoras que desejam tomá-lo são vistas como demônios. Às vezes, são os monstros que possuem a soberania, como no caso do asteca Tezcatlipoca, ou às vezes a soberania pode ser concedida temporariamente, como nas festividades da Saturnália/Cronia. A soberania também pode ser perdida, como é demonstrado brevemente durante a vigília pascal [Nota do Tradutor: cerimônia cristã na noite do Sábado de Aleluia, simbolizando a derrota da morte e o retorno da luz].
A divindade saturnina é lembrada como um soberano, mas não é o soberano atual do cosmos. É um governante deslocado e derrotado, que agora reina sobre o reino-prisão ao qual foi confinado.
Mesmo assim, entidades primordiais são imortais, e Saturno, especialmente, é dito personificar o processo do tempo. Se a divindade saturnina for compreendida como um deus realmente acorrentado, é razoável supor que ela deseje ser livre — e que há certos interessados que gostariam muito de organizar a liberdade ou fuga dessa entidade em particular. Pode-se perguntar o que Virgílio quis dizer ao escrever:
> Magnus ab integro saeclorum nascitur ordo, iam redit et Virgo, redeunt Saturnia regna
(A grande ordem dos séculos renasce, já retorna a Virgem, retornam os reinos de Saturno.)
Claro, esse retorno ao poder não ocorreria sem contestação. Em muitas mitologias, a instabilidade política e social é vista como reflexo do caos na ordem divina. Os deuses não reinam sem desafios — eles também enfrentam monstros e demônios do mundo espiritual. Se aceitarmos que existem (ou podem existir) forças e inteligências espirituais ou planetárias por trás dos conflitos históricos e atuais entre civilizações, então não é exagero imaginar que essas “divindades” (seja qual for o nome) tenham suas próprias agendas. De acordo com muitas tradições, divindades tendem a ser entidades cósmicas ordenadoras e estabilizadoras. No entanto, também parecem ser ciumentas e territoriais, resistindo à entrada de novas culturas e religiões em seus territórios estabelecidos. Tais divindades cósmicas também são, muito provavelmente, hostis às forças vindas de além do cosmos — ou seja, do Caos. Isso significa que escolher conscientemente alinhar-se com Saturno — qualquer que seja o nome usado — provavelmente causará turbulência espiritual e social ao redor do mago que o fizer.
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