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Excertos de Evangelho Segundo Marcos
Comentado por Ya’aqov, seguidor de Ya’aqov
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Separar, em hebraico, é parash (פרש), raiz tanto da expressão Parashá[1] (פרשה), que significa “porção”, numa referência ao trecho da Torá que é lido semanalmente na sinagoga, quanto da expressão Fariseu (פרושים), que significa “os separados”, em alusão ao desígnio de Yahweh para o grupo sacerdotal ficasse separado do restante da população (Êxodo 29:1). Este ato de separar visava, principalmente, fazer com que os sacerdotes permanecessem puros a fim de terem o contato com as mensagens proferidas por Yahweh e realizarem os ritos estabelecidos na Lei.
Auxiliando os sacerdotes em seus afazeres e pertencendo a este grupo de “separados”, encontravam-se os escribas[2], que, pela tradição, eram membros da descendência de Levi. Por isso, os escribas também eram chamados de Levitas.
(13) E saiu de novo para a beira do mar. E toda a turba ia a ele e ensinava-os.
O versículo indica, principalmente, 2 (duas) informações de relevância para o nosso estudo. A primeira está associada ao fato de que, novamente, Jesus saiu para caminhar à beira do mar, enquanto a segunda está vinculada ao fato de que a turba o seguia, enquanto era instruída.
Quanto ao primeiro ponto, o assunto foi amplamente abordado no tópico “Um novo Gênesis”, composto pelos versículos de 16 a 20 do capítulo 1, e, resumidamente, visa replicar o ato do Espírito sobrevoar as águas.
Já o segundo ponto, serve-se de base das informações do primeiro trecho, numa alusão ao fato de que a terra estava vazia e disforme (Gênesis 1:2) e é simbolizada na figura da turba. Turba significa um grande número de pessoas que se comporta de maneira desordenada e disforme. Além da referência à terra, ela também indica a pluralidade de eus que compõem Nephesch (Alma).
Assim, o presente versículo faz uma ponte com as informações do tópico anterior, no qual Jesus determinou que o ex-paralítico pegasse o seu leito miserável e voltasse para casa para realizar uma análise a fim de se preparar para o Shabat. Em outras palavras, como o ex-paralítico se encontrava sob os desígnios de Jesus (Ruach), quem faz a análise em seu íntimo e realiza a ação criativa-criadora necessária para a santificação do Shabat é o próprio Jesus.
Tal qual Jesus é o servo de Yahweh e os seus atos são, na verdade, atos de Yahweh, o ex-paralítico se coloca como servo de Jesus e, por isso, os seus atos são atos realizados por Jesus.
(14) E passando viu Levi do Alfeu sentado na coletoria de impostos e diz a ele: “Segue-me”, e, tendo se posto de pé, seguiu-o.
Neste versículo, descobrimos quem estava sendo representado pela casa[3] na qual transcorreu a cura do paralítico[4], Levi. Isto é, o paralítico, que se encontrava apto a ser batizado e, após a sua elevação de Assiah, recebeu a designação de retornar à sua casa, realizou tal ato[5], apresenta-se com o nome de Levi.
Tal qual foi visto tanto no tópico “João Batista”, composto pelos versículos de 4 a 8 do capítulo 1, quanto no tópico “O 5º Dia”, composto pelos versículos de 21 a 28 do capítulo 1, compreendemos que a multidão que ocupava a casa na qual houve a cura do paralítico, eram os eus inferiores de um indivíduo, que se manifestaram em Assiah (Mundo da Ação). Realizada a cura, ainda existia separatividade naquele indivíduo, por isso, Jesus determina que ele volte a sua casa levando o seu “leito miserável”. Neste processo, o restante destes “eus inferiores”, representados pela turba que seguia Jesus na beira do mar, é devidamente esclarecida e passa por ação similar a desempenhada por João Batista ao se alimentar de, simbolicamente, de gafanhotos e mel. Isto é, todos esses “eus” são mastigados, triturados, separados o que pode ser utilizado do que deve ser descartado e aquilo o que é nutritivo é unido numa única coisa, Levi. Deste modo, Levi deixou de ser muitos[6] e passou a ser um.
Apesar de já existir, nos versículos anteriores, o indício de que o paralítico fosse um escriba, em função da presença dessas figuras no interior da casa, enquanto Jesus realizava o batismo do paralítico e o conduzia a atravessar o Véu de Nephesch, apenas neste versículo essa informação é consolidada com a informação do seu nome, Levi, e pelo fato de que ele se encontrava na coletoria de impostos.
Como visto anteriormente, tradicionalmente, os escribas eram formados por membros da descendência de Levi, tal qual Aarão. Ademais, uma das funções desempenhadas pelos escribas era, justamente, a de atuarem como tesoureiros:
2 Reis 12 : 10
“Sucedeu que, vendo eles que já havia muito dinheiro no cofre, o escrivão [escriba] do rei subia com o sumo sacerdote, e contavam e ensacavam o dinheiro que se achava na casa do Senhor.”
Normalmente, as pessoas associam a figura de Levi, na condição de se encontrar na coletoria de impostos, com a da função romana de publicano e se esquecem da sua função hebraica. Da mesma maneira com que Esdra pode ser escriba e sacerdote; Davi pode ser sacerdote e rei, Levi pode ser publicano e escriba, posto que as funções não são impeditivas de serem realizadas em conjunto. Ademais, conforme visto na transcrita passagem, os escribas também atuavam como tesoureiros, contabilizando tributos e realizando o seu registro, atividades executadas pela função romana de publicano. Provavelmente, esta figura, Levi, tornou-se publicano de Roma, justamente por ser escriba de Israel.
Entretanto, em face da ação purificadora de Jesus, aquele indivíduo que identificamos por Levi, transforma-se, abandonando a sua função romana e retornando a sua função sagrada, uma vez que não se pode servir a dois senhores:
Mateus 6 : 24
“‘Ninguém pode ser escravo de dois senhores. Ou, de fato, odiará um e amará o outro, ou se apegará a um e desconsiderará o outro. Não se pode ser escravo de Deus e de mamon.’”
Quanto à transcrita passagem, temos de destacar o uso de duas expressões: ser escravo e mamon. A primeira traduz douleúõ (δουλεύω), que costuma ser traduzida por escravo, mas que significa “homem não livre”, isto é, alguém que é inteiramente vinculado à alguém. No caso da passagem, indica que a pessoa não pode cumprir os desígnios de dois senhores, tendo de escolher entre um deles. A segunda expressão é “mamon”. Sua origem é, provavelmente, aramaica[7] e significa “riqueza material” e, apesar de parecer ter um tom pejorativo, quando colocada em comparação a Deus, não possui essa conotação em sua expressão original.
Uma vez que se encontrava purificado e, consequentemente, deixou de se encontrar dividido em seu íntimo, Levi deixa a vida de publicano e retorna a sua função de escriba pertencente ao grupo dos fariseus[8]. Esta mudança é perceptível pelo fato de ele deixar o posto de coleta de impostos e seguir Jesus, mas também se encontra presente na qualificação de seu nome. Tanto em grego [Alphaios (Αλφαιος)[9]], quanto em hebraico (חלפי), o nome significa “mudança”, indicando a transformação interna experimentada por aquele que passamos a conhecer como Levi.
Essa transformação, essa mudança experimentada por Levi também se encontra presente no uso da expressão em koiné anístemi (ἀνίστημι), costumeiramente traduzida como “pôr-se de pé para cima”, “levantar-se”, mas que é a derivação deste verbo que gera a expressão anástasis (ἀνάσταςις), que significa “ressurreição”.
Esclarecido todos esses pontos, podemos resgatar o que foi dito nos comentários do versículo 7 deste capítulo. Nele, comentamos que os escribas que faziam anotações da cura do paralítico faziam parte da congregação de Jesus. Sendo Jesus um sacerdote, faria sentido possuir um escriba como assistente para registrar os seus atos. No presente versículo, descobrimos que este escriba o passa a seguir, tornando-se membro de seu grupo, assim como o Evangelho segundo Lucas também demonstra (Lucas 5:27) e de maneira similar ao contido no Evangelho segundo Mateus (Mateus 9:9), porém, esse último apresenta uma diferença, o nome indicativo do personagem em questão:
Mateus 9 : 9
“E passando dali Jesus viu um homem sentado na coletoria de impostos, dito Mateus, e diz a ele: ‘Segue-me’, e, tendo se posto de pé [anístemi (ἀνίστημι)], seguiu-o.”
Esse fato faz com que o Levi descrito no presente Evangelho seja Marcos, descrito no Evangelho segundo Marcos. A diferenciação da nomenclatura em cada texto está vinculada ao enfoque esotérico dado em cada texto, mas também decorrente do fato de, tradicionalmente, os israelitas possuírem dois nome, um de acordo com os costumes locais e o outro, o seu nome hebraico[10]. Assim, Mateus (Μαθθαῖον) seria o seu nome helenico, enquanto Levi (לוי) seria o seu nome hebraico ou uma referência a sua função de escriba. E, a este mesmo Mateus-Levi, que é escriba, é atribuída a autoria do primeiro livro do, chamado, Novo Testamento, o Evangelho segundo Mateus. Esta autoria seria literal ou simbólica, no sentido de foi redigido pelos seus discípulos, que são aqueles destinados a continuarem a sua obra, tal qual um filho faz com a do pai.
NOTAS
[1] Vide comentários sobre o versículo 39 do capítulo 1.
[2] Esdra é um exemplo de um escriba que também era sacerdote (Esdra 7:1-10).
[3] Conforme já falamos em outro momento, a casa, o lar, representa o nosso íntimo, posto ser o lugar no qual regressamos após o período de ação no exterior. Ademais, é na casa na qual descansamos, realizamos o Shabat do dia. Por esse motivo, ela costuma ser utilizada como figura simbólica para representar o indivíduo em seu íntimo. Simbolismo parecido ocorre com o uso do barco, que representa o meio de transporte pelo qual fazemos uso para percorrer as águas. Assim, no geral, quando o texto evangélico contextualiza uma situação, seja numa casa, seja num barco, ele está fornecendo o indicativo de que aquela situação está acontecendo no interior de alguém, isto é, os acontecimentos são processos que se desenrolam no íntimo.
[4] Vide comentários ao versículo 11 deste capítulo.
[5] Vide versículo anterior.
[6] Vide tópico “O 5º Dia”, composto pelos versículos de 21 a 28 do capítulo 1.
[7] Alguns tradutores destacam o fato de que a expressão ser de origem aramaica, ela se encontra presente em Eclesiástico 31:8 escrito em hebraico, o que, por si só, poderia ser um indicativo de que a expressão não seria aramaica. Contudo, devemos ter em mente que, tal qual os idiomas modernos, os antigos também possuíam estrangeirismos. Dentro do próprio hebraico, o nome Moshé (Moisés) não é hebraico, mas uma adaptação da expressão egípcia “moses”, utilizada, inclusive, no nome de vários faraós, como Tutmés ou Tutmósis.
[8] Vide comentários introdutórios do presente tópico a respeito do significado da expressão “fariseu”. Outrossim, tal qual a Tradição estabelece a necessidade de se separar o grupo sacerdotal, que inclui os seus escribas, para se manter a pureza, Levi é o único dos discípulos de Jesus, em todos os textos evangélicos, que é convocado em separado, isto é, sozinho. Esta peculiaridade reforça o entendimento de que Levi é um fariseu.
[9] Na mitologia grega, Alfeu também é o nome dado a um importante rio. Dentre outros acontecimentos associados ao rio, podemos destacar a participação nos chamados trabalhos de Héracles (Hércules), uma vez que ele é o rio utilizado pelo herói para lavar os estábulos do rei Augias. Outrossim, ele é um rio que, em um de seus trechos, tem um caminho subterrâneo, o que, no mito grego, o leva ao Hades, o mundo dos mortos.
[10] Vide comentários sobre o versículo 1 do capítulo 1.
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