Categorias
Ásia Oculta Magia Sexual

Introdução ao Vama Marga Tantra da Escola Mahara

Este texto já foi lambido por 1538 almas.

Antar Firak

O tantrismo em sua visão tradicional nos introduz a uma realidade não dualista que vê a a essência e a manifestação como uma e a mesma coisa, ou seja, como um fruto da união amorosa e indissociável entre Shiva e Shakti, o que em última instância, não está sujeita – embora possa tomar a sua forma característica – a qualquer tipo de influência cultural ou ponto de vista dualista.

Iniciar essa exposição dessa forma se faz necessário pois a desinformação a respeito do tantrismo em terras brasileiras ainda é muito grande, e em sua grande parte, vão apenas representar os anseios dos próprios expositores e não o que de fato foi escrito e experienciado pela tradição tântrica em todas as suas diversas escolas.

É muito importante nós compreendermos a imensa diferença que existe entre o tantrismo como filosofia última da realidade e a forma que os seus rituais tomaram na antiga Índia, pois os seus objetivos eram claros: transgredir as normas e condutas vigentes do sistema tradicional e o ego construído com base na metafísica brâmane.

Seguindo a raciocínio de Christopher Wallis, autor de O Tantra Iluminado, os rituais do tantrismo clássico e pós clássico estão literalmente obsoletos, pois os mesmos foram construídos como caminho para a transcendência do ego brâmane, e basicamente não funcionam para um ego europeu, americano, ou mesmo o latino, como seria para o caso dos brasileiros.

Dentro dessa reflexão ele segue dizendo que, onde quer que o tantrismo floresça, ele deve estar adaptado às estruturas da crença religiosa daquele período e região, para que a sua ritualística possa de fato ser uma ponte para transgressão dos tabus da cultura vigente, permitindo assim, a união imanente e transcendente do limitado com o ilimitado.

O Brasil é um país de grande diversidade e maravilhoso na sua capacidade de receber e acolher diferentes povos e tradições com um amor inigualável e entre inúmeras formas e visões de mundo que encontraram morada em terras brasileiras, temos no tantra uma das grandes tradições que encontraram um campo fértil para desabrochar.

É um consenso que, ao florescer em nosso país, o tantra foi rapidamente distorcido e confundido com uma abordagem massoterapêutica com a intenção de despertar o prazer sexual dentro de uma visão basicamente hedonista, mas quem pode realmente dizer que isso está errado, ou que esse caminho que o tantrismo tomou no Brasil não foi o ideal, contradizendo assim o próprio caminho ordenado pela sabedoria divina?

A criança ou adolescente quando começa a ter as primeiras experiências no campo do sentimento ainda é imatura, tendo na vida adulta, caso siga o curso de amadurecimento natural, o ápice da sua maturidade em lidar com todos os tipos de sentimentos que surgiram ao longo da vida, assim também é o florescimento e a expansão do tantrismo no Brasil, que começa de uma forma imatura mas que ao longo da sua manifestação, vem tomando formas cada vez mais profundas e conectadas com as bases tradicionais, enquanto simultâneamente se adapta e se recria nos moldes adequados para as exigências contemporâneas.

E embora a aparente distorção no tantrismo brasileiro seja facilmente observável e comprovada, também podemos dizer que esse fato não é a totalidade da situação, principalmente nos últimos anos, onde estamos vendo ressurgimento das raízes tradicionais do tantra e um aprofundamento da abordagem terapêutica que surgiu em nosso país.

Preciso confessar que por muito tempo eu mesmo fui um puritano do Tantra Yoga e considerava um absurdo chamarem de tantra aquilo que eu definia na época por “punheta gourmet”, pra mim aquilo era uma heresia gigantesca, afinal de contas, a minha linhagem de prática era diretamente influenciada pelo advaita vedanta e pelo yoga, tendo me iniciado na linhagem do Kriya Yoga de Paramahamsa Yogananda e pelos estudos do tantrismo de mão direita, conforme mencionados pelos mestres Paramahamsa Ramakrishna, e Sri Aurobindo, juntamente com sua parceira de missão, Mirra Alfassa, também chamada de “A Mãe”.

Naquela época era impossível na minha cabeça unir a sexualidade com o desenvolvimento espiritual, porque tudo o que eu tinha visto até então falava explicitamente sobre a contenção da energia sexual e a necessidade da sua transcendência, e isso era a minha base depois de estar por mais de 12 anos sob a tutela de José Trigueirinho Netto, que regia um núcleo monástico em Minas Gerais onde a premissa básica era o celibato, então, acredito que está claro qual era o meu ponto de vista na época.

Mas sempre existia um ponto de incômodo dentro de mim e recorrentemente, eu questionava essa visão não dualista da vedanta que enfatizava a criação como “maya”, ou ilusão, como no caso do grande mestre do advaita vedanta, Sri Shankaracharya.

Era evidente que ali tínhamos uma aparente contradição bem óbvia, já que uma visão verdadeiramente não dualista, deveria incluir maya, como uma realidade em seu próprio nível dentro da totalidade, ou seja, a criação visível não esconde o espírito invisível, mas o revela momento a momento para aqueles que têm olhos de ver, e essa visão integral com profundas acepções tântricas,está descrita na vida e nos escritos de Sri Aurobindo.

Uma outra linha de estudo no qual fui iniciado através do contato com Trigueirinho foi com o trabalho do Mestre Tibetano D.K. através de sua discípula Alice Bailey, criadora da Lucis Trust, onde vemos um profundo conhecimento sobre os diversos graus da iniciação da consciência não como um processo formal, feito em ordens humanas, mas como uma jornada consciencial com condições, provações e experiências de diversos tipos, que nos permitem, durante o período de manifestação na matéria, expandirmos a nossa consciência rumo à níveis cada vez mais sutis de realização.

Dentro desse trabalho, com raízes profundas em toda a sabedoria tibetana (a tradição vajrayana é essencialmente tântrica), o querido Mestre D.K. destaca a importância de uma vida saudável no campo sexual e que em todos tempos, qualquer discípulo que se aventurasse em um duro ascetismo e celibato forçado poderia desenvolver vários tipos de transtornos mentais e até mesmo viver somatizações de diversas doenças no corpo por conta desses desalinhamentos internos no campo da sexualidade.

Foi nesse momento que a forma do tantrismo brasileiro me alcançou sem julgamentos de minha parte e pela primeira vez, me permiti conhecer esse trabalho através de uma vivência em grupo, o que se transformou num segundo, num terceiro, logo veio uma formação de 12 meses e por fim, a atuação profissional, que veio se aprimorando e culminando na fundação da escola Mahara Tantra.

Através dessa jornada muitas coisas que estavam bloqueadas na minha vida comum, fora da busca espiritual, foram finalmente desbloqueadas e isso fez com que eu percebesse que o ser precisa ser trabalhado de forma integral, em todas as suas múltiplas áreas e que renegar qualquer parte que seja da manifestação do ser, não nos faz plenos de nenhuma forma, ao contrário, nos tornamos cada vez mais fragmentados e esquecidos do que realmente somos.

No meu primeiro livro, Os Segredos da Massagem Tântrica, demonstrei através da reprodução de um trecho de uma escritura tântrica do século 16 chamada Yoni Tantra, que as ritualísticas de misticismo sexual usado pelos grandes mestres e mestras da mão esquerda, se assemelham em muitos detalhes com o trabalho exercido pelos terapeutas tântricos formados na Escola Mahara.

A Terapia Tântrica conforme ensinamos e praticamos no Protocolo Mahara tem profunda base escritural e nas práticas do misticismo sexual tântrico, tanto com base nas ideias orientais quanto ocidentais. Podemos citar o próprio Yoni Tantra, conforme já mencionado, mas também o Karpuradi Stotra que revela esotericamente as práticas do grande Ritual de Kali, que conta com práticas sexuais ritualísticas para o desenvolvimento espiritual último dos praticantes das Linhagens Shaktistas (Mão Esquerda).

Já no período pós clássico do Tantra, temos a partir do grande mestre Abhinavagupta, os textos do Tantra Loka e do Tantra Sara, onde também são relatados as práticas do misticismo sexual oriental mencionados como Kula Yaga, o ápice da tradição de mão esquerda do Tantra, representada principalmente pela escola Krama, que por sua vez bebe tanto de fontes do Trika como do Kaula do período clássico.

O que vemos atualmente dentro do cenário tântrico brasileiro são pessoas que não compreendem a profundidade e a dimensão do tantra real e que acabam optando por apenas uma parte da sua totalidade, caindo no erro dos yogues orientais e até mesmo dos cristãos ortodoxos do Ocidente de sempre compartimentar a realidade entre polaridades diametralmente opostas e erroneamente consideradas eternamente irreconciliáveis.

Aqueles que por sua vez são os intitulados terapeutas tântricos por muitas vezes, infelizmente, ignoram a base espiritual e escritural do tantrismo clássico e isso realmente é um erro sem tamanho, afinal de contas como nós ensinamos na escola Mahara, não existe um bom terapeuta tântrico sem que ele seja de fato um tantrista no sentido clássico.

Da mesma forma, temos muitos praticantes do tantrismo clássico no Brasil, que ignoram completamente, por um Puritanismo e uma arrogância exacerbada, os benefícios e conexões da terapêutica tântrica com o trabalho no seu sentido mais formal por assim dizer.

Muitos misturam o Yoga com o Tantra, e embora possamos encontrar inúmeras correlações entre ambos os sistemas, estes estão mais alinhadas à visão do tantrismo de mão direita, mas quando olhamos da perspectiva do tantrismo de mão esquerda, a coisa muda diametralmente de figura e não faria o menor sentido, um shakta que pratica a mão esquerda do tantra, ter qualquer repressão ou tabu quanto à sexualidade.

Mas, infelizmente, o que vemos é isso, pessoas que ensinam o Yoga ou Tantra de Mão Direita, e que não tem nenhuma percepção real do sistema da mão esquerda, criticando o trabalho da terapia, que por sua vez tem as suas raízes em tradições de mão esquerda, como a Trika, a Vama, a Kaula, a Sri Vidya e que basicamente, em todas as suas exposições, trabalham ostensivamente dentro de uma Mística sexual que está profundamente alinhado ao espírito masculino/feminino livre.

Vamos fazer uma simples comparação para vermos o quão diferente são essas linhas entre si e para começar, vou citar o professor David Frawley no livro Yoga Tântrico Interior para representar uma abordagem do Tantra de Mão Direita, como ele mesmo escreve na página 250: “A veneração da Devi foi uma parte integral do Vedanta Advaita na Índia, desde os tempos antigos até os mestres modernos. Entretanto, ela segue o Dakshinachara, ou ‘caminho de mão direita’ do Tantra, que ressalta a realização do Eu como a meta. Os seguidores do ‘caminho de mão esquerda’, ou Vamachara, tendem a ter uma visão dualista da realidade.”

O caro professor busca uma unidade de pensamento entre os Vedas, o Yoga e o Tantra que, embora estejam correlacionados, sustentam abordagens diametralmente opostas entre si, pois o tantrismo de mão esquerda é um fenômeno absurdamente singular dentre todos esses pontos de vista, afinal de contas, ele guarda a última sabedoria não dualista na sua máxima perfeição, o que obviamente contradiz as palavras de Frawley.

Vejamos as definições acadêmicas das duas correntes do tantrismo clássico segundo Christopher Wallis em seu livro O Tantra Iluminado, página 153:

“A tradição tântrica tem duas vertentes principais. Por um lado, às vezes chamade de ‘corrente de direita’, temos uma tradição dualista que:

enfatiza a adoração de Siva sem Sakti;

acreditava que a libertação era apenas o resultado de uma poderosa iniciação ritual e prática ritual subsequente;

não queria desafiar as normas sociais prescritas pelos sacerdotes brâmanes da sociedade Védica, mas antes buscava a sua aceitação.

Essa corrente é chamada Siddhanta Saiva (siddhanta significa ‘a doutrina estabelecida’ ou ‘a ortodoxia’). Seus adeptos eram chamados de Saiddhantikas Saiva foi o primeiro dos grupos Tântrikos a surgir com corpo coerente de textos e comentários textuais, e esse grupo também dominou as instituições religiosas organizadas do Saivismo, como templos e mosteiros.

A corrente de esquerda do Tantra Saiva era um grupo de linhagens principalmente não-dualísticas que são mais difíceis de identificar porque estavam menos homogeneizadas e institucionalizadas. Em geral, a corrente de esquerda:

enfatizava o culto de divindades femininas e divindades ferozes;

ensinava que a libertação poderia ser alcançada nesta vida (não apenas no seu fim) como resultado de experiências espirituais poderosas, alcançadas através do cultivo da percepção e do yoga,

preferia desafiar a ordem social tradicional de várias maneiras, como capacitando mulheres e realizando rituais com elementos transgressivos (sexuais por exemplo).”

Através dessa breve exposição podemos perceber de forma muito objetiva que o professor Frawley pecou na sua observação, e por conseguinte a pseudo linhagem vinda dele e de sua esposa Shambhavi Chopra nada sabem do verdadeiro caminho de Mão Esquerda, porque fica óbvio que o trabalho desse querido casal está associado ao Tantra Yoga de Mão Direita, jamais podendo se alegar como uma escola de Mão Esquerda, ainda mais como Kali Kula Sampradaya, uma linhagem clássica que já na época da síntese tântrica de AbhinavaGupta tinha poucos representantes, sendo Swami Lakshmanjoo, falecido em 27 de setembro de 1991, talvez o último representante “oficial” desta tradição.

Assim, tanto hoje, como nos tempos antigos, veremos pessoas que transferem as suas próprias dores e repressões em relação a sexualidade e se tornam antagonistas vorazes de qualquer ponto de vista ou abordagem que integre essa força da natureza nas suas práticas, e por incrível que pareça, até mesmo no tantra nós temos os nossos “puritanos ortodoxos”, que são contra a vida natural e desejam guardar todas as regras de conduta para aqueles que buscam os céus, e se você notar qualquer semelhança com um cristão fanático saiba que isso não é uma “mera coincidência”, mas a consciência óbvia do pensamento dualista e de uma consciência em grande restrição.

Um outro ponto que também demonstra a contradição de Frawley é que ele tenta fazer uma associação entre os Vedas e os Tantras, quando o tantrismo sempre foi um tipo de caminho transgressivo à visão ortodoxa da sociedade védica, então de que forma eles poderiam ser associados? A não ser pelo objetivo final de ambas as visões, todo o restante, seja no aspecto filosófico, ritualístico ou nos métodos práticos, temos diferenças fundamentais.

A dor dos puritanos do Tantra no Brasil é a tal da massagem tântrica, que em verdade acabou sendo absurdamente distorcida em seu uso indiscriminado, o grande problema da massagem é que ela é uma ferrari no sentido de poder, e não se entrega um ferrari na mão de uma criança de cinco anos, a não ser que se queira um grande desastre literalmente planejado.

Da mesma forma, com o surgimento da massagem tântrica e a sua propagação sem nenhum tipo de filtro e preparo por parte daqueles que aprenderam e aplicaram a técnica, nós tivemos o primeiro impacto negativo, ou seja, pessoas despreparadas com uma técnica poderosíssima nas mãos, mas, mesmo isso não diminui de nenhuma forma o poder da ferramenta, ao contrário, demonstra a sua eficiência bem como exige que os profissionais da área sejam extremamente especializados e preparados na área terapêutica e principalmente sejam tantrismo verdadeiros, porque todo o movimento idealmente integrado tem total fundamentação dentro das escrituras sim e isso é bem simples de provar.

Essas linhas de mão direita do tantra e consequentemente mais conservadoras adoram gritar em megafones que Tantra não tem conexão com sexualidade, e isso para os cultos yoguicos, vedantinos e brâmanes pode está certo, no entanto, é um grande engano quando estamos nos referindo às linhagens de mão esquerda do tantra e que desde sempre tiveram no cerne da sua prática o encontro sexual ritualístico, as práticas orgiásticas e o potencial orgástico como uma via rápida para a iluminação, e isso com um pouco de estudo se reconhece com facilidade.

Para iniciarmos a exploração desse ponto vejamos o que o grande mestre AbhinavaGupta escreveu em um trecho sua obra Tantra Sara (A Essência dos Tantras), no capítulo 22:

“O método Kaula será descrito para aqueles que confiam que estes ensinamentos podem prover o desenvolvimento espiritual. Como afirmado pela tradição, Brahman é um todo uno: a bem-aventurança é inerente ao corpo, mente e alma. O mundo e seu fruto proibido são pecados para os insensatos, mas meios de realização para aqueles com os olhos abertos.

Siva está ávido por entender como Sakti brinca, e Ela entusiasticamente busca desvendar os caminhos Dele. Assim, o jogo erótico é iniciado, com Siva como o macho corajoso, e Sakti se manifestando como a fêmea desejosa. Os ritos eróticos requerem um parceiro em quem se possa confiar; hábil em yoga, não subjugado pela luxúria. Casta, status ou aparência não devem ser colocados acima da qualificação singular: estar apaixonado. O casal deve visualizar-se como sendo divino; somente então seus corpos devem se entrelaçar. Vendo-se mutuamente como Siva e Sakti, devem estar livres da identidade humana. O encontro erótico é um meio de engajamento espiritual, não com o propósito de gozo egoísta. É um meio de estabelecer a firmeza da mente para além da inconstância, sobre um alicerce divino. Os mundanos entregam-se a comportamentos impróprios; esses mesmos atos, para os yogis, trazem favor. Para os tolos, ceder ao desejo traz angústia; para o yogi, a adoração Kaulika traz sucesso.”

Logo no início do texto Abhinavagupta já nos demonstra que esta sabedoria não é para todos e que os insensatos não conseguiram jamais apreciar a verdade absoluta de que o mais sagrado e o mais profano se encontram em perfeito equilíbrio, e que os parceiros no jogo erótico que emula a vida, sejam apaixonados mas não subjugados pela luxúria, ou seja, sempre propondo que existe um caminho do meio entre a libertinagem e a repressão moralista, e que através dele é possível atingir a visão interna e externa de si mesmo como a própria divindade.

Também vemos na sua exposição uma introdução a respeito da doutrina da Auto Emanação da Divindade ou Ishta Devata, que representa a divindade que somos, o nosso eterno vir à ser, onde nesse tipo de sadhana o praticante se visualiza como a versão final e divinizada através da divindade eleita/recebida na iniciação. Isso não se refere a um futuro longínquo, mas no aqui e no agora, e através dessa ancoramento divino e da prática do misticismo sexual é possível realizar essa verdade transcendental que está além de qualquer descrição mental, esse é o centro do culto à Shakti, o tantrismo de mão esquerda.

Por fim, o mestre Abhinavagupta encerra dizendo que os tolos sempre serão escravos dessa energia, que estes serão engolidos por ela porque simplesmente não sabem conduzir este poder que a muitos fazem cair, mas para o Kaulika (o tantrista de mão esquerda) o que faz o tolo cair é seu motivo de sucesso, pois que este compreendeu a profundidade do poder da energia sexual e a usa de forma consciente e intencional para a geração do insight último da percepção da realidade não dual, saindo então do reino do conhecimento para o reino da sabedoria prática e real.

Vejamos agora alguns versos do Karpuradi Stotra (Hino à Kali):

“VERSO 10

SE, à noite, Teu devoto, despido, com os cabelos desgrenhados, recitar, enquanto medita em Ti, Teu mantra, estando com sua Shakti, jovem, de seios fartos e quadris largos, tal pessoa submete todos os poderes a si e vive na terra sempre como um vidente.

VERSO 18

AQUELE (ELE) que, à noite, quando em união com sua Shakti, medita com a mente centrada em Ti, ó Mãe de rosto suavemente sorridente, como sobre o peito de Siva, semelhante a um cadáver, deitado sobre um yantra de quinze ângulos, profundamente envolvida em doce jogo amoroso com Mahakala, torna-se ele próprio o destruidor do Deus do Amor.

Já no Grande Hino à Mãe Kali temos dois versos que mesmo em linguagem esotérica evidencia a simbologia e a prática do maithuna, ou sexo ritualístico, tanto no verso 10 quanto no 18 o “estar com a sua shakti”, ou “quando em união com a sua shakti”, está se referindo ao mesmo jogo erótico contido na descrição do Kula Yaga de Abhinava Gupta.

Mas se você quiser algo menos metafísico e em uma linguagem que não dê margens para outra interpretação podemos citar o segundo capítulo (patala) do Yoni Tantra, uma escritura de Bengala (Índia) do século 16, com este trecho superinteressante:

“Primeiramente, na relação sexual, o adorador purificado deve atrair a Shakti para si pelos cabelos e deve colocar seu Linga na mão dela. O Linga Puja e o Yoni Puja devem ser realizados de acordo com as injunções. Pó vermelho e sândalo devem ser espalhados no Linga.O Linga deve ser inserido no Yoni e deve haver uma relação vigorosa. Aquele que usa esse método atinge a essência mais alta.”

Então, caso você tivesse alguma dúvida a respeito desses símbolos, acredito que este trecho apresenta uma afirmação contundente e nada simbólica a respeito dos rituais praticados dentro do contexto tântrico de mão esquerda, que em verdade representam a verdadeira essência do culto a Deusa e ao feminino, sendo as linhas contrárias a essa abordagem, basicamente formas de tantra ainda ancorados na mão direita e que excluem a mulher, o erótico e a natureza.

Já no contexto mais acadêmico dos estudos sobre o tantrismo clássico, Christopher Wallis cita o Brahmayamala, uma escritura tântrica de fundo xamânico e super conectada ao mundo dos poderes mágicos e rituais secretos nos campos de cremação:

“ Existe um ritual sexual registrado na literatura chamado ‘Observância do Fio da Navalha’, descrito no Brahmayamala… onde o asceta sem-teto e celibatário Sakta Saiva obtém uma linda garota ‘ansiosa pelo bom sexo’, dando-lhe tantas jóias quanto possível e copula com ela todos os dias entre um e seis meses, sem ejacular, para obter poderes especiais por meio desse esforço herculeo, que se diz difícil de praticar mesmo para os deues. Se ele ejacular acidentalmente (por exemplo, à noite ou porque ela faz com que ele o faça), ele deve fazer dez mil repetições de seu mantra; se ele ejacular de propósito, ele deve começar tudo de novo.”

O simbolismo de um profundo misticismo sexual está implícito dentro das diversas linhagens e escrituras tântricas e a depender do ponto de vista, podem estar se referindo a mistérios simbólicos ou mesmo a mistérios totalmente práticos e reais e isso, conforme estamos expondo, está basicamente vinculado aos cultos de mão direita e mão esquerda do tantra.

E para que definitivamente possamos ter uma comprovação que o tantrismo de mão esquerda não vivia apenas de simbolismo mas de literalidade, contemplemos uma história sobre um mestre chamado Chakra Bhanu nos antigos registros caxemerianos:

“Parece que ele (Cakra Bhanu) regularmente presidia eventos chamados de chakra-melapas ou ‘reuniões em círculo’. Esses foram os longos rituais grupais do Krama, de natureza orgiástica que começaram com uma grande solenidade ritual e tornaram-se muito selvagens.”, diz Christopher Wallis na página 195 de O Tantra Iluminado.

Toda essa visão singular a respeito do papel da sexualidade nos caminhos espirituais de iluminação não são exclusividade do oriente, sendo também em terras ocidentais a base filosófica e ritualística de inúmeros grupos ocidentais, veja esse trecho escrito por Arthur Versluis no seu livro A História Secreta do Misticismo Sexual do Ocidente:

“Em seu capítulo suprimido sobre os gnósticos, Clemente oferece um ataque algo truncado ao gnóstico Basilides, e depois delineia alguns ensinamentos de Carpócrates e seu filho Epifânio, que se diziam terem banquetes orgiásticos em que os homens e as mulheres compartilhavam parceiros sexuais. De acordo com Clemente, Carpócrates explicava assim essa liberdade sexual: ele escreveu que a retidão divina é a justiça universal, que é como a luz do sol que ilumina a todos igualmente. Para ver a luz, não existe distinção entre ricos e pobres ou homens livres e escravos, nem, de fato, entre animais e plantas. É a lei humana, ao impor o conceito de propriedade privada, que divide a equidade universal e viola a lei da justiça universal. Além do mais, pergunta Carpócrates, por que Deus criou a necessidade sexual humana se ela é errada?”

Importante ressaltar que quando nos referimos aos gnósticos, estamos falando de uma seita cristã dos tempos primitivos e que estavam envolvidos, através das suas diversas ramificações ao longo do tempo, com variações do misticismo sexual no intuito idêntico dos tântricos orientais, a iluminação através da transcendência da matéria não pela fuga, mas por sua plena e total integração.

Essas seitas cristãs trabalhavam em uma linha ascética praticamente na mesma base dos tantristas de mão direita, algumas delas trabalhando alquimicamente dentro da polaridade homem-mulher sem qualquer tipo de interação sexual, enquanto algumas outras, com mais influência de um tantrismo de mão esquerda, até chegavam a praticar o intercurso sexual mas sem a ejaculação da parte masculina, muito parecido com o que é narrado no Brahmayamala, já citado anteriormente.

O Tantrismo de Mão Esquerda é basicamente o movimento Shaktista na sua essência e sempre foi uma linhagem baseada na prática e na grande ênfase do desfrute da experiência sensorial como uma catapulta para a conexão real com a Presença Interior, de forma que apenas as linhagens quem tem influência dessas tradições praticam os rituais sexuais, bem como conceder a permissão para a experiência consciente com substâncias alteradoras de consciência, não com intenção de buscar experiências fenomenológicas, mas com a intenção de alcançar uma real reestruturação ontológica do ser nos níveis que encontram-se desalinhados.

Se formos analisar a visão do Sri Vidya, uma das últimas linhagens do Tantra clássico de com essa influência, temos alguns fundamentos que irão tornar ainda mais claro a nossa exposição e que estão relatados por Christopher Wallis na página 213 da sua obra já citada:

“Do ponto de vista da Sri-Vidya, o desejo (iccha) é a força motriz do universo, uma vez que sem ele nada surgiria, e a Consciência divina permaneceria estática. O trabalho do praticante espiritual, portanto, é primeiro liberar seus julgamentos sobre seus próprios desejos, julgamentos que causam uma contração da Consciência. Em segundo lugar, fundir seu desejo limitado ao padrão mais amplo da vontade divina. Isso não significa desistir do desejo, mas sim aprender a querer apaixonadamente o que a Deusa quer, o que exige tornar-se um com Ela. O que a Deusa que é apenas fluir em padrões relacionais de harmonia cada vez maiores, e naturalmente, entramos nessa dança quando nossos desejos condicionados, que surgem de uma falsa sensação de carência, são dissipados. Mas isso não pode acontecer enquanto julgarmos e condenarmos os nossos desejos, em vez de perceber que são a mesma energia que a Vontade Divina, limitada por nossa ignorância em expressá-los em harmonia máxima.”

Diante de todos essas múltiplas formas de ensinamentos baseados em misticismo sexual contigo nos tantras orientais, nós temos ampla gama de confirmações sobre a natureza desses trabalhos que envolviam a pratica do sexo ritualistico e dos rituais orgiasticos, e que por mais que fossem abominados pelo status quo religioso e social de sua época, sempre guardaram mais do que os olhos comuns podiam contemplar, a saber: a chave dos misterios da manifestação e iluminação da consciência.

Dessa forma fica inconcebível um tantra desconectado da sexualidade pois que este sempre foi o seu cerne e o motivo dessa tradição quase que via de regra estar à margem da sociedade como um todo, tendo a sua fundamentação básica dentro de práticas transgressoras, pelo menos no que tange às linhas de mão esquerda que é a que nós da escola Mahara representamos.

Então, a partir de hoje, toda as vezes que você ver grupos de tantra no Brasil que se arrogam a dar a última palavra sobre o que é ou o que não é tantra e que, de alguma forma,buscam retirar essa associação do tantra com a sexualidade, saiba de uma vez por todas que essa não é a totalidade da visão tântrica, pois ela admite e integra a sexualidade em suas práticas sim,e nos cultos da Grande Mãe isso não tem nada de simbólico mas é puramente fisiológico e espiritual.

Mas óbviamente o outro lado da moeda também é perigoso e não podemos cair na errônea concepção de que o Tantra é putaria, libertinagem e casa da mãe Joana, porque aí estaremos cometendo o mesmo erro, apenas estaremos mudando de lado, o que no final das contas não muda absolutamente nada, e acaba por não nos permitir uma visão integral da questão.

A distorção existente do tantra no Brasil é realmente muito triste e vem principalmente pela ignorância acerca da tradição através das correntes que surgiram com o movimento tântrico, e que aqui em nosso país estão correlacionadas a prática da massagem tântrica e as suas diversas associações à venda de serviços sexuais, ou mesmo aos abusos decorrentes do mal preparo dos praticantes da tal da massagem e que começaram a atuar dentro de um mercado profissional recém criado.

Isso gerou muitos problemas porque da mesma forma que os tradicionalistas do tantra se perdem em suas limitações, temos terapeutas que acreditam erroneamente que podem trabalhar dentro do tantra com propriedade sem saber nada de suas bases, de sua história, de sua tradição e principalmente, dos ensinamentos Esotéricos que buscam propiciar ao praticante a iluminação da consciência e não apenas prazer sexual.

E eu uso a palavra “apenas” de forma intencional porque o prazer sexual também é importante pois se as funcionalidades básicas do ser humano não estiverem em pleno funcionamento, tanto menos estarão aquelas faculdades que ainda existem apenas em estado potencial nos planos mais altos da consciência, então é preciso fazer o básico bem feito para que então essas supra faculdades, por assim dizer, possam de fato encontrar caminhos para se manifestarem.

E é na vida comum que a terapia tântrica e sua técnica fundamental, a massagem tântrica, encontra a sua principal funcionalidade, ajudando homens e mulheres comuns a não apenas ressignificarem as suas dores no campo da sexualidade, campo este que é a raiz de todos os transtornos psíquicos e somáticos das pessoas, mas sobretudo, dar a permissão para que essas mesmas pessoas comuns, possam experienciar a sua própria sexualidade de uma forma renovada, não apenas na área da saúde mas principalmente e sobretudo na área espiritual e sagrada.

Todo pessoa que conhece a técnica da massagem carrega em suas mãos uma ferramenta muito poderosa e que pode ser usada de uma forma despretensiosa e divertida, apenas para proporcionar prazer, ou que pode ser usada como a grande chave prática dos mistérios e arcanos sexuais que sempre foram escondidos das massas, mas que agora, com a devida consciência, podem ser usadas por pessoas comuns, para que suas consciências sejam divinamente despertas através da incomensurável Vontade/Desejo/Iccha da Grande Mãe.

Nesse sentido fica simples de compreender o quanto um terapeuta tântrico que trabalha com a massagem pode se valer de toda a estrutura filosófica, ritualística e espiritual do Tantra Clássico, bem como a oportunidade do tantrista da via mais clássica possa aprender no dia a dia como estar diante do profano e do sagrado com presença, amorosidade e verdadeiramente ancorado em uma realização não dualista, assim como o tantrismo de mão esquerda propõe.

Como eu sempre gosto de transmitir aos meus alunos de formação em terapias tântricas: “atuar com a terapia tântrica e com a massagem é uma oportunidade diária de praticar os rituais secretos, saudar a linhagem sagrada e modelar a manifestação dos mundos através da interação entre consciência (shiva) e energia (shakti) e isso nos traz uma evolução prática sem tamanho pois os tabus com a sexualidade vão se dissolvendo gradativamente através da apreciação plena e presente da manifestação dessa energia sagrada através da multiplicidade de pessoas que nos procuram.”

Não pode ser ignorado o fato de que a massagem tântrica muitas vezes foi distorcida pelo uso indevido por parte de profissionais mal formados, bem como o uso associativo do nome por parte de profissionais do sexo, o que confundiu ainda mais os termos, porém, também não pode ser negado a contraparte mística e metafísica dos praticantes que compreendem os mistérios da sexualidade aplicadas ao contexto espiritual, e quando visto dessa forma, a massagem dentro de um contexto terapêutico é uma ferramenta excelente para construir uma ponte para ir além do prazer através do próprio prazer e assim, alcançar os estados mais altos da consciência permitindo a percepção profunda e direta da realidade não dual.

Alimente sua alma com mais:


Conheça as vantagens de assinar a Morte Súbita inc.

Deixe um comentário