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por Herman Faulstich
Dos fenômenos que compõe a mediunidade, talvez o mais controverso seja a incorporação. Presente em todo o mundo por diversas épocas, caracteriza-se por uma perda parcial ou total das funções motoras e conscientes causadas por seres do mundo espiritual. A problemática é basicamente cultural, uma vez que não é considerada doença. No passado foi, em especial no nascimento da psicologia e da psicanálise no século XIX e início do século XX. Durante esse período, muitos fenômenos mediúnicos foram associados a histeria, esquizofrenia, epilepsia ou transtornos dissociativos.
Os Manuais Diagnósticos (DSM e CID) até a edição DSM-III (1980), experiências mediúnicas podiam ser enquadradas em transtornos mentais. Porém, o DSM-IV (1994) incluiu uma categoria chamada “experiências espirituais e religiosas”, reconhecendo que visões e contatos espirituais nem sempre indicam psicopatologia (1). Verdade seja dita, experiências espirituais como a incorporação podem ocorrer tanto em contextos saudáveis quanto patológicos. A diferenciação exige profissionais da área de saúde mental, porém algumas indicações podem ser listadas:
1 — A experiência é descontrolada;
2 — O médium ou outras pessoas são prejudicados pelo evento;
3 — Atrapalha a vida social causando dificuldade em estudar, trabalhar, relacionar-se etc.
Quem vincula, a priori, incorporação a problemas mentais é ignorante, preconceituoso ou mal intencionado. É total direito de alguém não gostar do fenômeno; achar estranho, feio, degradante o que for porém, fazer esse tipo de associação flerta com intolerância e juízo de valor negativo do médium — lembrando que tentar explicar cientificamente não é crítica. Pode-se rastrear a origem da controvérsia chegando a duas fontes: religiosa e materialista. A religiosa advém da cultura judaico-cristã. Basicamente seguiram uma linha de diferenciação de outras culturas no pós-exílio(2), mais especificamente no aspecto de culto aos mortos. Já tratei dessa hipótese aqui em dois posts(3), porém, resumindo, o culto aos antepassados/mortos “disputa” com o monoteísta/monolátrico. A relação com os mortos é mal vista, logo, todas as manifestações. O transe também encaixa-se aí, pois a perda da consciência era características de outros povos como os gregos nos mistérios dionisíacos. O Cristianismo como um “derivado” do Judaísmo, manteve as mesmas objeções ainda que tentando absorver como fez São Paulo que tratou a questão do Pentecostes usando linguagem dos referidos mistérios gregos. O núcleo do Cristianismo, como definindo pela Igreja Católica e herdado pelo Protestantismo, trata o sofrimento como forma de alcançar uma “salvação espiritual(4)” e o transe é obstáculo.
O fiel deve estar plenamente consciente oferecendo toda a sua energia (libido) para o culto, alimentando uma egrégora com alegria e dor(5). A ideia de êxtase religioso das vertentes abraâmicas não passa pelo transe, porém, certas forças não morrem, apenas aguardam para manifestar-se. As Américas, no final do século XIX e começo do XX, contribuíram para uma relação com os mortos e transes dentro de sociedades cristãs: as religiões de base africana, o movimento Espiritualista e o Pentecostalismo. A primeira, caracterizada pelo culto aos ancestrais e transe nos êxtases religiosos, misturou-se com o catolicismo; o Espiritualismo que tratava de contato com os mortos atravessou o oceano chegando à Europa e o último, nos EUA, inseriu a catarse e transes numa sociedade protestante também saindo do país de origem. A causa materialista age na impossibilidade de demonstrar, pelo método científico, a natureza espiritual do fenômeno. Então, outras linhas são teorizadas como fenômenos da psique, patológicos ou não. Assim, de um lado a condenação e do outro o não reconhecimento. O último não seria problema se não contivesse o viés do primeiro. Inexiste razão para alguém que alega imparcialidade científica ou ceticismo patologizar a incorporação. Isso é eco cultural-religioso abraâmico e postura anticientífica. De fato a pessoa sai da igreja, mas a igreja não sai da pessoa. Além disso, muitas críticas ao fenômeno veem da contrariedade às religiões abraâmicas que são estendidas a todos os fenômenos espirituais, colocando tudo no mesmo balaio. Certas ideologias políticas contribuem para a problemática: algumas condenando por ser estranho à religiosidade judaico-cristã, outras por enxergar os fenômenos religiosos e espirituais como um tipo de alienação. A validação científica é uma questão. A episteme(6) do fenômeno é construída também na participação nele, o que conflita com o método científico strictu sensu que exige imparcialidade: o sujeito que estuda não pode ser parte do objeto estudado — pelo menos parte tão significativa. A relação com o plano espiritual não acontece com a entidade fornecendo informações específicas cientificamente verificáveis como, por exemplo, resolver alguma equação, entregar algum dado científico válido ou o número da loteria. O fenômeno é de difícil falseabilidade(7) ocorrendo muitas vezes de forma subjetiva (é percebido apenas pela pessoa) quanto objetiva (percebido por mais de uma) com a dificuldade de repeti-lo de forma idêntica. A medição para isolar outras causas, como psicológicas, não acontece. O que envolve espiritualidade, fugindo do estrito racional, incomoda, pois o que pode ser medido e definido é seguro, pode ser previsível. A espiritualidade é desmedida, imprevisível com grande parte fora do alcance da razão. Pessoas racionais ou de natureza prática, paradoxalmente, costumam cair na irracionalidade renegando questões transcendentes(8). Como todo bom cabalista thelêmico sabe, a razão é a coroa do Ruá que está em Daat, a falsa sefirá. A esfera do que é pessoal termina em Daat e acima funciona uma “lógica” diversa da racional, uma de caráter além dela. Esse raciocínio se estende à magia padecendo da mesma dificuldade.

E no próprio meio magístico existem visões hostis à incorporação, principalmente oriundas de vertentes europeias que trazem o pior do sec. XIX. O Protestantismo e eurocentrismo caracterizando a cultura tendiam a ver a espiritualidade colonial como inferior e muitas continham êxtase ou transe. A desconexão com o racional e a presença de divindades pagãs nas incorporações causavam estranheza, a exceção de algumas como a hindu, por exemplo que eram conhecidas pela meditação e racionalidade. Mesmo existindo relações com espíritos na Europa, eram tratadas via controle ou dominação dos mesmos cuja origem remete ao judaísmo, onde o deus de Israel agia dessa maneira. O domínio de espíritos é símbolo de diferenciação cultural e também superioridade. Grimórios medievais são bons exemplos já que, na maioria são católicos, onde as entidades são subalternas aos nomes divinos judaico-cristãos — a chamada “autoridade mágica”. O grande exemplo é o rei Salomão controlando “demônios” com seu anel para construírem o templo de Jerusalém. As Religiões afro-brasileiras, ao contrário, não dominam espíritos, relacionam-se com eles. É uma “parceria” com o “agravante” da possessão que é uma manifestação de passividade o que desagrada o europeu conquistador da natureza. Há magistas que preferem termos como “canalização” que não implica em transe, apenas em percepção de informações vindas do plano espiritual. Nos magistas de “Alta Magia” que evocam erudição e cospem elitismo, percebe-se claramente o ego em ação. Uma visão equivocada de louvação à individualidade onde a incorporação é uma afronta ao si mesmo, desconsiderando que pode ser parte do que a pessoa é. Quando o Microcosmos se encontra com o Macrocosmos há a expansão do primeiro e não retração do segundo. Essa expansão é dissolução em algo maior do que a individualidade. O círculo mágico perfeito expande-se até conter todo o universo e não apenas aquilo que é afim aos gostos do magista. A espiritualidade manifesta-se de diversas formas e muitas não obedecem à racionalidade e expectativas construídas em uma cultura que não cultua seus antepassados. Dizem-se “contra o sistema”, mas estão à favor dele. Novamente: saem da igreja, mas a igreja não sai deles.

Uma questão interessante é que a ocorrência da incorporação possa conter elementos de uma, assim classificada, patologia só que controlada não adentrando no prejudicial. O transe seria uma dissociação específica mas saudável para a saúde mental. Pierre Verger, por exemplo, tratou isso sob um ponto de vista psicanalítico sem tirar os resultados benéficos. Ele escreveu:
“Em resumo, a iniciação consiste, portanto, em fazer com que ele adquira um reflexo condicionado. Um reflexo não se situa no domínio da razão e só pode ser adquirido, em ligação com seus estímulos, em um estado no qual a consciência está obrigatoriamente ausente e ao qual retornaremos mais adiante. Todos os seres humanos têm, potencialmente, numerosas tendências e faculdades contraditórias, que se caracterizam pela veleidade. As experiências vividas por um indivíduo, o exemplo dos mais velhos, os princípios inculcados pela educação, a censura do meio social permitiram que apenas algumas dessas tendências e faculdades desabrochassem e criassem nele uma personalidade. Essa personalidade seria outra, se o destino o tivesse colocado em um meio social permitiram que apenas algumas dessas tendências e faculdades desabrochassem e criassem nele uma personalidade. Essa personalidade seria outra, se o destino o tivesse colocado em um meio social onde os valores morais e os princípios dos mais velhos tivessem sido diferentes. É uma dessas outras possibilidades da personalidade que os iniciadores fazem surgir. Trata-se de uma personalidade hereditária, conforme a tradição dos antepassados; é o próprio antepassado divinizado, conforme vimos que eles procuram fazer reviver.” (9)
A religiosidade abraâmica e o materialismo que desgastam culturalmente os fenômenos de incorporação restringem a experiência humana. A espiritualidade, em suas diversas formas, compõe um dos fatores que caracterizam a nossa espécie e a lida com espíritos é uma das formas mais antigas que persiste até hoje, possuindo, logo, propriedades darwinianas úteis; a incorporação tem aspectos terapêuticos. Certos casos exigem muito do médium, porém, a experiência de submersão da racionalidade ritualística abre portas para fenômenos paranormais, fortalece grupos, ajuda pessoas principalmente aliviando o ser humano de uma das coisas que mais pesa: o ego.
Notas:
1- A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece a espiritualidade como componente de saúde integral. O Código Internacional de Doenças (CID 10), no F.44.3, distingue sensibilidade mediúnica de doença mental. Somente os transtornos involuntários e indesejados devem ser considerados como Transtorno de Transe e Possessão;
2- por volta de 538 a.C.;
3- “Culto aos Mortos I e II” ou hermanfaulstich.medium.com;
4- A falácia da Doutrina da Queda. Respondemos pelo pecado de Adão e Eva;
5- E claro, o tesão, daí o controle sexual;
6- Episteme: palavra grega que significa “conhecimento” ou “ciência”. Diferente da doxa (opinião), a episteme é um conhecimento sistemático, justificado e fundamentado;
7- Falseabilidade: capacidade de conceber uma situação ou experimento que possa refutar uma hipótese ou ideia. Para isso é necessário repetir em condições idênticas, mensuráveis;
8- Remete ao Taoismo na figura do Yin-yang. Quando cresce um o outro não diminui, mas cresce também. O sujeito é tão racional, mas tão racional que torna-se emotivo na defesa da racionalidade;
9- “Notas Sobre o Culto aos Orixás e Voduns: Na Bahia de Todos os Santos, no Brasil, e na Antiga Costa dos Escravos, na África” — Edusp; 1ª edição.
Herman Faulstich (Frater Keron-E/Kalimann) é mago, buxo, xamã, desenhista industrial e campeão mundial de Jiu Jitsu. É também autor do autor do livro Thelema, uma introdução à obra de Aleister Crowley
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Uma resposta em “Incorporação: o êxtase condenado”
Perfeito esse texto!