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por Patricia Crowther
(excerto de “Lid off the Couldron”, 1981)
Muitas pessoas afirmam que a bruxaria moderna não tem ligação com o passado. Elas postulam, de forma totalmente equivocada, que ela só surgiu devido ao interesse, aos escritos e às atividades do falecido Gerald Brosseau Gardner. Sem dúvida, Gerald foi o pioneiro do grande renascimento da Arte e a trouxe de volta ao olhar do público, mas o fez como membro iniciado do coven da New Forest.
Houve, há, e sempre haverá bruxas. E, falando pessoalmente, tenho cartas e contatos que comprovam que a religião da bruxaria teve uma continuidade que atravessou os tempos de perseguição e foi praticada, em segredo, até este século.
Um desses contatos, descendente de uma família de bruxas de Inverness, havia visitado Gerald Gardner na Ilha de Man antes de me escrever. E, embora eles não concordassem em muitos aspectos da Arte, ela o considerava “do sangue”.
Há centenas de casos semelhantes de famílias de bruxas no Reino Unido e em outros lugares. Elas têm passado os “segredos” de geração em geração, e o conhecimento não foi perdido.
Considero que Gerald, que fez um trabalho intenso de base ao trazer novo reconhecimento à bruxaria, merece um capítulo num livro dedicado ao tema.
Fui apresentada a Gerald pelo meu falecido marido, Arnold Crowther, que, por sinal, apresentou Gerald ao falecido Aleister Crowley em 1946. Crowley ficou muito satisfeito em ver Arnold e Gerald e lhes disse que não acreditava que as pessoas envolvidas nas artes mágicas estivessem em constante demanda nos tempos atuais.
Meu marido conhecia G.B.G. (como Gerald era chamado pelos amigos) havia cerca de quinze anos quando nos encontramos, em 1956, num espetáculo de verão no Pier Casino, em Shanklin, na Ilha de Wight. Com o tempo, sabendo do meu profundo interesse pela Antiga Religião, ele escreveu a Gerald em seu Museu de Bruxaria em Castletown, na Ilha de Man.
Arnold recebeu uma resposta convidando-nos ambos para a ilha. Quando chegamos, a governanta nos disse que o Dr. Gardner estava muito doente e não podia receber visitas. “Deixe-os subir”, chamou uma voz lá de dentro. Subimos as escadas em silêncio e entramos em seu quarto. Gerald estava apoiado na cama com enormes travesseiros.
“Entrem, entrem, que bom ver vocês.” Estendeu os braços para nós, radiante. Olhei para um par de olhos azuis hipnóticos e senti o calor de seu aperto de mão. “Querida, sente-se.” Seu cabelo branco parecia desafiar escovas e pentes, como descobri mais tarde. Um pequeno cavanhaque e uma pele curtida pelo tempo completavam o retrato.
Ele nos contou que a governanta queria nosso endereço para adiar a visita, mas ele fingiu não encontrá-lo. Fiquei um pouco preocupada com sua condição, mas ele me garantiu que, agora com a chegada de Arnold, logo se recuperaria. Disse que já estivera muito doente num hospital de Londres, anos antes, quando Arnold o visitou. Tinha rido tanto até o final da visita que se sentiu muito melhor. E de fato, dois dias depois, Gerald já estava de pé, circulando pela casa. Ao contrário de Arnold, eu não conheci sua adorável esposa, Donna, pois ela havia falecido um ano antes.
Esse primeiro encontro me marcou profundamente. Posso dizer com sinceridade que nunca havia conhecido alguém como ele. Havia uma doçura nele; sua voz era suave, e seus olhos, brilhantes e bem-humorados. Ele adorava uma boa piada e ria alto, batendo com o punho e dizendo: “Muito bom, mesmo!” Aproveitava a vida apesar das limitações de saúde e da asma que o acompanhava desde a juventude. Um típico geminiano, com seu ar inquieto, interesse por escrita, leitura, viagens e por cuidar de seu Museu de Bruxaria.
Sua aparência também era geminiana: alto, com braços e pernas longos, e mãos habilidosas. Seu passatempo favorito era fabricar todos os tipos de joias de metal e ferramentas mágicas. Também era um bom artista, e tenho três de suas pinturas, que hoje estão no meu covenstead.
Seus dedos estavam sempre mexendo nos cabelos espessos e brancos ou puxando a barba. À sua notável inteligência somava-se algo intangível, que para mim se ligava diretamente à reencarnação. Em Gerald, como em Arnold, podia-se ver uma “alma antiga”; alguém que já vivera muitas vidas terrenas. Isso foi confirmado pelo próprio Gerald ao nos contar sobre um episódio ocorrido em Creta. Ele vinha tendo uma sequência de sonhos curiosos, aparentemente ligados a uma vida anterior. Neles, ele era o responsável por construir uma enorme muralha para impedir invasores. Era um país quente, e ele se lembrava de pegar todo tipo de panelas e caldeirões de bronze para transformá-los em lanças e outras armas.
Curiosamente, nesta vida ele havia estudado profundamente o kris malaio enquanto trabalhava para o governo britânico no Extremo Oriente, e escreveu um livro sobre o tema: Keris and Other Malay Weapons. Ele possuía uma maravilhosa coleção de adagas e espadas de várias partes do mundo.
No dia anterior ao seu embarque para o Chipre, em 1938, teve um sonho bem diferente. Nele, um homem percebia que não era querido em casa, então se retirava para o passado, com surpreendente facilidade — onde era necessário.
Ao chegar em Nicósia, visitou o museu local e conversou com o curador, que, conhecendo o interesse de GBG por armas, perguntou se ele sabia como os antigos cipriotas fixavam as lâminas às empunhaduras de suas espadas. O curador lhe deu uma pesada lâmina de bronze e contou que muitos especialistas haviam tentado sem sucesso resolver esse mistério.
Gerald perguntou se poderia levar a lâmina e as peças para refletir sobre o problema. O curador concordou e lhe desejou boa sorte. No dia seguinte, no entanto, teve um choque: Gerald lhe entregou a espada montada! As autoridades do museu quiseram saber como ele fizera aquilo, e Gerald contou que havia abandonado a abordagem analítica e, de repente, sentiu que suas mãos “sabiam” o que fazer. Tentaram desmontar a espada, mas não conseguiram. Na verdade, tiveram que usar um machado para abri-la! Mais tarde, Gerald fabricou empunhaduras semelhantes para o Museu Britânico. Teria ele reutilizado habilidades de uma existência anterior, quando fora um fabricante de espadas no Chipre?
Essa aventura não foi a única que viveu naquele país. No retorno, no ano seguinte, reconheceu locais que antes só vira em sonhos. Um deles ficava em Kyrenia. Era na foz de um rio chamado Stronglos. Encontrou o lugar bastante alterado, com o rio assoreado. No entanto, sabia que ali era onde mantinha seus navios, centenas de anos antes. Ele se lembrava, e acabou comprando exatamente aquele pedaço de terra. (Veja mais no fascinante relato de vida: Gerald Gardner: Witch, de J. L. Bracelin).
Outro fato estranho na vida de Gerald era como algo de grande importância sempre lhe acontecia a cada nove anos. Ele havia rastreado isso desde a infância. Entre esses eventos estavam o casamento, a abertura do museu de bruxaria e a apresentação no Palácio de Buckingham.
Em 1963, confidenciou a mim e a Arnold que o ano seguinte seria mais um “ano nove”, e disse: “Acho que vou partir então, pois não consigo imaginar mais nada importante que possa me acontecer.” Fiel à própria predição, faleceu em 12 de fevereiro de 1964, com oitenta anos, na véspera do antigo festival pagão de Lupercalia!
Parece que o ciclo misterioso ainda vigia, pois, em 1973, nove anos após sua morte, seu museu de magia e bruxaria foi vendido, e o conteúdo enviado para os Estados Unidos!
Meu falecido marido e eu fomos os últimos membros da Arte a ver Gerald. O levamos de carro pelos Peninos, de Sheffield até o Canal de Manchester, onde ele embarcou num cargueiro rumo ao Líbano, em busca de sol. Chovia torrencialmente enquanto o ajudávamos com a bagagem pelas íngremes escadas de ferro do navio. As lágrimas se misturavam às gotas de chuva em meu rosto enquanto nos despedíamos. Fiquei muito abalada com a ideia de ele ir tão longe num navio sem médico a bordo, já que sua saúde não estava nada boa. Não via razão para tal jornada longa, quando poderia ter voado para um clima mais quente muito mais rápido.
Gerald, porém, podia ser muito obstinado às vezes e não quis mudar de ideia. Tristemente, foi sua última viagem, pois sofreu um leve derrame e morreu a bordo do Scottish Prince, a caminho de casa, para a Inglaterra. Uma semana antes, uma vidente havia me dito que um senhor amigo meu morreria muito em breve.
Preciso expressar minha profunda gratidão a Gerald Gardner por me iniciar, nesta vida, nos Mistérios Ocultos e por compartilhar, tanto comigo quanto com Arnold, seu vasto conhecimento sobre a bruxaria.
Tive também a honra de ser coroada por ele como “Rainha do Sabbat”, título antigo francês dado à Donzela ou à Suma Sacerdotisa, que era conhecida como “La Reine du Sabbat”.
Gerald foi iniciado por um grupo hereditário de bruxas na New Forest, algumas das quais conheci. Mas elas acreditavam, como a maioria dos pagãos, na reencarnação, e que Gerald já pertencia à Arte em outra vida. De fato, sua madrinha ritual lhe disse: “Você é do sangue; já foi um dos nossos; volte para nós.”
Foi como membro desse coven que Gerald participou da chamada “Operação Cone de Poder”. O ano era 1940 e Hitler estava ativamente planejando a invasão da Grã-Bretanha. A operação nazista, chamada “Leão Marinho”, deveria ser posta em prática no final de agosto ou início de setembro. Na véspera de Lammas, muitos covens se reuniram na New Forest para combater Hitler em nível psíquico. Os detalhes a seguir, desse ritual extraordinário, são citados da obra Gerald Gardner: Witch, de Jack Bracelin:
“Fomos levados à noite para um local na floresta, onde foi erguido o Grande Círculo; e ali foi feito aquilo que só pode ser feito em caso de grande emergência. E o grande Cone de Poder foi levantado e lentamente direcionado na direção geral de Hitler. O comando foi dado: ‘Você não pode cruzar o mar. Você não pode cruzar o mar. Você não pode vir; você não pode vir!’ Assim como, nos disseram, foi feito com Napoleão, quando ele já tinha seu exército pronto para invadir a Inglaterra — mas nunca veio. E como foi feito com a Armada Espanhola, forças poderosas foram utilizadas, das quais não posso falar. Agora, fazer isso significa usar sua força vital; e muitos de nós morreram poucos dias depois disso. Minha asma, que não tinha me incomodado desde que fui para o Oriente, voltou com força. Repetimos o ritual quatro vezes; e os Anciãos disseram: ‘Sentimos que o detivemos. Não devemos sacrificar muitos dos nossos. Guardem-nos para quando forem necessários.’”
Se você acredita ou não na eficácia desse ritual, os fatos são que os planos de invasão foram adiados, e Hitler voltou sua atenção para a Rússia.
Gerald me iniciou e eu iniciei meu marido. É assim que a Arte é passada — de homem para mulher, e de mulher para homem. Muitos dos segredos são transmitidos oralmente e nunca são registrados por escrito. Eles são transmitidos de boca a ouvido, e de nenhuma outra forma. Assim, embora a cerimônia de “iniciação” já tenha aparecido em muitos livros ocultistas, os verdadeiros segredos mágicos não foram degradados dessa forma.
Para uma investigação completa sobre as acusações feitas a respeito da autenticidade de Gerald como iniciado da Arte, consulte Witchcraft for Tomorrow, de Doreen Valiente.
Voltando por um momento à minha amiga bruxa de Inverness. Originalmente, ela me viu na televisão enquanto estava hospedada em Durham, e considerou que eu era digna de receber a tradição que lhe havia sido transmitida por sua avó.
Quando comparei os ritos que ela me enviou com os de Gerald Gardner, achei-os muito semelhantes, embora não idênticos. E isso é como deve ser, já que diferentes covens têm métodos diferentes, mas os elementos essenciais são sempre os mesmos: as ferramentas de trabalho, os oito caminhos até o centro, e o culto ao Deus e à Deusa.
Minha amiga me enviou seu athame (faca de cabo preto), que havia pertencido à sua avó, junto com uma pedra de formato peculiar que adornava seu altar. Ao que parece, sua mãe não se interessava por bruxaria, então minha amiga foi iniciada, ainda jovem, por sua avó, que por sua vez fora trazida para a Arte por sua própria mãe e pai. Na verdade, sua avó foi concebida dentro do próprio Círculo. Isso, por si só, já indicaria uma bruxa muito forte e poderosa. E segundo minha amiga, sua avó de fato era.
Na época em que me escreveu, essa senhora idosa morava com parentes católicos e logo se mudaria com eles para a Espanha, pois estava totalmente dependente deles devido à sua doença. Contou-me que havia destruído seu Livro das Sombras, já que eles eram pessoas muito curiosas, mas sabia que precisava passar seus conhecimentos a alguém adequado antes de embarcar numa jornada da qual sabia que não retornaria. A crença de que uma bruxa deve transmitir seu conhecimento a outra bruxa antes de deixar este plano é uma ideia muito antiga. Há muitos relatos de bruxas que não conseguiam morrer até que essa condição fosse cumprida.
A opinião dessa sábia senhora sobre Gerald Gardner não pode ser descartada, dada a tradição genuína que ela herdou. É uma pena que eu não possa revelar seu nome, mas preciso respeitar a promessa que fiz a ela e a confiança sagrada que depositou em mim. Como já mencionei, ela considerava Gerald “do sangue”, embora ele aparentemente tenha alterado alguns aspectos dos rituais para torná-los mais “respeitáveis” aos olhos das pessoas modernas e “civilizadas”. Isso, segundo ela, não era aceitável no culto aos Antigos Deuses, onde coisas como pudor e falsa modéstia não têm lugar.
Ainda assim, essa crítica está muito distante das acusações lançadas por mentes menos instruídas contra Gardner nos últimos anos. No geral, acredito que essas críticas derivam de ciúmes ou inveja, já que a maioria das pessoas que atacaram sua reputação jamais o conheceu! O fato de Gerald ter deixado uma fortuna considerável, além de propriedades que incluíam o museu na Ilha de Man, já foi o suficiente para alimentar as fofocas.
Muitos autores informaram ao público que ele havia lucrado com a bruxaria. No entanto, os pais de Gardner eram empresários abastados. Seu pai, William Robert Gardner, fazia parte da família da Joseph Gardner & Sons Ltd., de Liverpool e Londres, que era a mais antiga empresa privada do setor madeireiro no Império Britânico. Comercializando com todas as partes do mundo de 1748 até 1948, eram uma das famílias residentes mais antigas de Liverpool, com origens que remontam a Thomas Gardner, um importante burguês, falecido em 1604.
Alguns dos ancestrais de Gerald foram prefeitos de Liverpool. Um deles, Alan Gardner, entrou para a Marinha Real em 1755, com apenas treze anos, e já comandava seu próprio navio antes dos vinte e cinco. Lutou nas Índias Ocidentais sob o comando de Rowe e Rodney, e mais tarde tornou-se Vice-Almirante. Seus feitos incluíram tornar-se membro do Parlamento e depois nobre, como Barão Gardner de Uttoxeter. Em 1807, foi Comandante-em-Chefe da Frota do Canal da Mancha, que teve um papel decisivo em impedir a invasão de Napoleão.
Dá para perceber, com esses fatos, que Gerald era financeiramente independente. Na verdade, gastou uma pequena fortuna para reunir sua vasta coleção de relíquias de bruxaria e parafernália mágica — sem contar sua maravilhosa seleção de espadas e adagas. A única renda que recebia era dos seus livros — algo perfeitamente legítimo para qualquer autor.
Em resumo, Gerald era uma figura muito marcante, gentil, com grande curiosidade pelas pessoas. Claro que todos têm defeitos, e Gardner não era exceção, mas em muitos aspectos, ainda não encontrei seu igual.
Uma coisa é certa: muitas pessoas encontraram seu caminho para a felicidade e contentamento no culto ancestral aos Antigos Deuses. Tornaram-se conscientes das capacidades psíquicas latentes em si mesmas e nos outros. Voltaram a trilhar os caminhos de seus ancestrais e sabem que seu destino espiritual está nas estrelas.
E o fato de isso ter acontecido se deve, em grande parte, a Gerald Gardner — o Mensageiro Mercurial da Antiga Religião. E, só por isso, suas ações já estariam plenamente justificadas.
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