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Bruxaria e Paganismo

Em direção ao Diabo

Este texto já foi lambido por 650 almas.

por Patricia Crowther
(excerto de “Lid off the Couldron”, 1981)

Já se passaram mais de vinte anos desde o renascimento da bruxaria, ou do Ofício dos Sábios, mas é muito duvidoso que o público em geral tenha hoje maior compreensão sobre o assunto do que tinha em tempos antigos. É claro que há pessoas que adquiriram uma percepção mais profunda desse tema tão difamado, mas estas são minoria, movidas por uma curiosidade inata ou por uma inclinação natural ao estudo sério.

A maioria das pessoas não quer abrir mão da imagem de uma velha horrenda mexendo um caldeirão cheio de ingredientes nocivos. Afinal, essa é a representação que foi martelada no subconsciente coletivo durante centenas de anos, e há grande resistência em abandoná-la.

A Igreja medieval fez esse trabalho de maneira extremamente eficaz. Acreditava-se que as bruxas adoravam o Diabo, e que as perversas precisavam ser expulsas da comunidade e punidas. Nada era visto como castigo excessivo para tais criaturas. As agonias do fogo e da tortura talvez pudessem salvar suas almas culpadas do fogo eterno do Inferno. Os muitos métodos engenhosos de suplício nasceram da mente clerical obcecada pela ideia do pecado original, mentes que haviam sido impregnadas com a repulsa pelo sexo e, em particular, pela mulher. Eis aí a víbora, a tentadora que corrompia e degradava o coração e a alma do homem.

Essa era a teologia católica, e no calendário romano um dos nomes mais reverenciados é o de Santo Agostinho. Contudo, suas opiniões vis sobre o corpo humano são repugnantes. Seu famoso epigrama Inter faeces et urinam nascimur (“Nascemos entre excremento e urina”) revela um modo de pensar de uma sordidez inacreditável.

Outros santos não eram melhores. São Bernardo proclamou: “O homem não é nada além de um esperma fétido, um saco de esterco”. Já São Jerônimo dizia das mulheres: “Alimento de vermes, nunca se viu esterco mais vil. Ela é o portão por onde o Diabo entra; o caminho que conduz ao pecado; ela é o que o ferrão do escorpião é… A mulher é o fogo, o homem a estopa, e o Diabo o fole”.

São Máximo, que morreu no ano 662, tinha opinião semelhante: “Ela leva os homens ao naufrágio, é uma tirana que os mantém cativos, uma leoa que os prende em seus abraços, uma sereia enfeitada para atraí-los à destruição, uma fera maliciosa e maligna”.

São Anastácio, o Sinaíta, a via como “uma víbora coberta por pele reluzente, consolo para os demônios, laboratório de diabos, fornalha ardente, dardo que atravessa o coração, tempestade que derruba casas, guia que leva às trevas, mestra de todo o mal, língua indomada que profere calúnias contra os santos”.

Não podemos simplesmente descartar essas opiniões como tolices, porque elas expressam pontos de vista que ainda constituem lei oficial da Igreja. Essas citações, e outras ainda piores, constam no Directorium Sacerdotale, guia para sacerdotes em sua vida pública e privada, publicado pelo jesuíta francês padre Benedict Valny e aprovado pelo Vaticano.

A religião cristã, dominada pelos homens, estéril, opressiva e cheia de culpa, voltou-se contra si mesma, e o resultado foi crueldade e sadismo. Essa era a liberação óbvia para uma energia sexual reprimida, privada de um canal natural de expressão. Um contraste enorme em relação ao seu inocente fundador, Jesus Cristo, que certamente ficaria horrorizado ao ver a barbárie praticada em seu nome.

A visão negativa ganhou força por meio da figura do Diabo, ou Velho Nick. Sua concepção estava longe de ser pura. Ele pode ser descrito como um homúnculo espiritual formado a partir de vários deuses pré-cristãos, pelo menos em sua suposta aparência física. Na realidade, não havia descrição alguma de Sua Satânica Majestade antes da Idade Média, mas desde então sua figura espetacular passou a ser retratada em toda forma de arte imaginável.

Muitos quadros mostram o Diabo sentado em um trono elevado, cercado por seus devotos que se entregam a toda espécie de devassidão. Esse tema reflete também o subconsciente de homens doutrinados por séculos com dogmas hostis em relação às funções naturais do corpo.

Supunha-se comumente que os servos do Diabo eram, obviamente, as bruxas. O desprezo da Igreja Cristã pelas mulheres era até benevolente se comparado ao que reservava aos adeptos da Antiga Religião. A ênfase no conceito de uma Deusa-Mãe, acompanhada por sacerdotisas, não poderia de forma alguma ser tolerada, e o preço dessa rejeição foi altíssimo: sangue humano.

O primeiro indício da tempestade que viria foi um documento chamado Canon Episcopi, de cerca do ano 906, publicado por Regino em seu De Ecclesiastica Disciplinis. Ele o atribuiu ao Concílio de Ancira, que se reuniu em 314, embora autoridades modernas questionem essa origem. O texto soa como conto de fadas quando comparado ao posterior Malleus Maleficarum, conhecido como o “Martelo das Bruxas”.

Seja qual for sua origem, o Episcopi foi usado como documento oficial pela Igreja. Sua principal alegação era que as bruxas eram hereges que adoravam “Diana, a Deusa dos pagãos”. O excerto mostra:

“Também não deve ser omitido que algumas mulheres perversas, pervertidas pelo diabo e seduzidas por ilusões e fantasmas de demônios, acreditam e afirmam que, durante a noite, cavalgam certas bestas em companhia de Diana, a deusa dos pagãos, e de uma multidão inumerável de mulheres, e que, no silêncio da noite morta, atravessam grandes distâncias da terra para obedecer às ordens dela como de sua senhora, sendo convocadas ao seu serviço em certas noites. Mas gostaria que apenas elas perecessem em sua infidelidade e não arrastassem muitas outras à destruição da incredulidade. Pois uma multidão inumerável, enganada por essa falsa opinião, acredita nisso como verdade e, crendo assim, se afasta da fé correta e se envolve no erro dos pagãos quando pensa que há qualquer divindade ou poder além do único Deus. Por isso, os sacerdotes devem pregar insistentemente em suas igrejas, para que o povo saiba que isso é totalmente falso, e que tais fantasias são impostas às mentes dos infiéis não pelo divino, mas pelo espírito maligno.”

Essa propaganda pouco sutil tinha a intenção de afastar as pessoas da Antiga Religião. Em alguns casos pode ter surtido efeito, mas aparentemente esqueceram que a maioria do povo, naquela época, não sabia ler nem escrever. Essas habilidades estavam restritas às classes altas, aos ricos e ao clero.

Os padres tiveram de trabalhar intensamente para incutir essas ideias em seus rebanhos. Mesmo assim, mudar a fé das pessoas é praticamente impossível. A única forma de fazê-lo com êxito é pela força, e foi exatamente isso que a Igreja acabou utilizando para conquistar alguma vitória.

Assim, em 1484, o Papa Inocêncio VIII publicou uma Bula Papal que atacava as bruxas de forma contundente. Alegava-se que elas copulavam com demônios na forma de íncubos e súcubos; matavam bebês, gado e pessoas; afligiam homens e mulheres com doenças; impediam o ato sexual entre marido e esposa; tornavam homens impotentes e mulheres estéreis. O decreto foi um sinal para os carrascos limparem suas câmaras de tortura e prepararem seus instrumentos de dor.

A bula foi impressa e disseminada por toda a Europa e, embora tenha resultado em muitas condenações, milhares de pessoas continuaram a participar de suas reuniões e festivais religiosos.

Dois anos depois, em 1486, foi publicado, com o patrocínio do Papa, o infame Malleus Maleficarum. Seus autores foram Heinrich Kramer e Jakob Sprenger, chamados pelo Papa de seus “filhos amados”. O livro foi escrito especificamente com a intenção de ser um documento oficial para a perseguição das bruxas e para silenciar qualquer voz que pudesse defendê-las.

O Canon Episcopi havia se tornado um documento embaraçoso para os exterminadores implacáveis do Paganismo. Como condenar alguém por bruxaria se ele ensinava que tudo não passava de ilusão? O Malleus Maleficarum negou essa doutrina anterior ao afirmar que era heresia não acreditar na realidade da bruxaria, apresentando ainda supostas “provas” de seus males.

Multiplicaram-se histórias sobre mulheres levadas por demônios, pessoas mortas apenas por um olhar, bruxas que usavam a hóstia para realizar magia maléfica. Mais tarde, estudiosos apontaram que tanto esse quanto o Episcopi eram, na verdade, falsificações, conforme observa Gerald B. Gardner em The Meaning of Witchcraft.

Para a maioria das pessoas, o Diabo era uma figura perigosamente atraente, e muitos o associavam à divindade pagã Pã, o princípio espiritual masculino, amplamente reverenciado por várias nações da Europa. Para os cristãos em geral, ele era a personificação do mal. A ingenuidade da Igreja ao criar essa gigantesca forma-pensamento é transparente para os estudiosos sérios do ocultismo. De fato, tratava-se de uma imagem mágica de proporções imensas, e, como acontece com a maioria das entidades astrais nascidas do ódio, ela acabou assumindo o controle de seus próprios criadores.

Mesmo nesta era considerada iluminada, a Igreja ainda continua em “guerra” contra a bruxaria, o espiritismo e afins. O treinamento de padres em exorcismo virou moda, embora isso sempre tenha feito parte do preparo sacerdotal antes da ordenação.

Parece que há cada vez mais pessoas “possuídas” por espíritos malignos por se envolverem superficialmente com bruxaria e Magia Negra. Em termos psicológicos modernos, uma pessoa dita “possuída” estaria sofrendo de algum distúrbio mental, não de espíritos malignos. Seu tratamento provavelmente envolveria terapia adequada e atenção médica, e não um exorcismo físico.

O Ofício dos Sábios não aceita ninguém que apresente o mínimo sinal de instabilidade. Seus adeptos, em geral, são pessoas inteligentes, bem-informadas e humanas. Além disso, é difícil encontrar alguém que não tenha se beneficiado dos ensinamentos eruditos, abrangentes e espirituais do Ofício, e que não tenha se tornado uma pessoa melhor por meio de sua dedicação a ele.

Os fatos são que, neste país cristão, mais da metade dos hospitais está ocupada por pessoas com algum tipo de distúrbio mental. Bruxas? Certamente não.

Quanto ao espantalho da Magia Negra, trata-se de uma expressão usada de maneira indiscriminada e exagerada. Magia Negra real é o uso dos poderes mentais com a intenção de prejudicar outra pessoa de alguma forma. Qualquer indivíduo que nutre pensamentos malignos contra outro está praticando um ato de Magia Negra. Uma bruxa ou “sábio” seria extremamente cuidadoso ao agir nesse sentido, pois acredita na Lei Universal do Karma. Esse é o princípio de que “o que você semeia, você colherá”, e é muito mais antigo do que os ensinamentos cristãos.

No Ofício, há poucas leis, mas as que existem estão diretamente ligadas à magia e são positivas e afirmativas da vida:

Oito palavras a Lei Wiccan resume:
Se não ferires ninguém, faze o que quiseres.

Portanto, se uma bruxa deliberadamente tentasse ferir alguém, ela não apenas estaria quebrando uma lei extremamente rígida, incorrendo na ira da Deusa, mas também estaria se colocando em risco, pois a magia realizada recairia sobre ela triplicada.

É evidente que pessoas versadas na prática da magia podem facilmente “enfeitiçar” outra, se assim desejarem. Mas, conhecendo o que sabem, e por serem sábias, evitam completamente esse tipo de ação, cientes das consequências. Afinal, por que assumir as faltas de outra pessoa? Presume-se que alguém só queira revidar porque foi ofendido ou ferido. Mas não; deixe que o outro carregue seu próprio ato maligno. No fim das contas, é o karma dele, que ele mesmo o expie.

Sabe-se que, se alguém realmente tenta prejudicar um membro do Ofício de alguma forma, o Coven pode trabalhar para construir uma barreira psíquica de proteção para essa pessoa, o que já foi feito com sucesso. Nada além disso será feito.

Pessoas que cultivam pensamentos hostis e fazem disso um hábito geralmente são indivíduos sombrios e egoístas, tornados assim pelos próprios pensamentos, lembrando que “pensamentos são coisas”. Em outras palavras, cada um constrói seu próprio Céu ou Inferno.

Desde o renascimento da Antiga Religião, milhares de pessoas escreveram às bruxas pedindo ajuda e, em muitos casos, quando os pedidos pareciam genuínos, elas conseguiram atender. Esse trabalho não é fácil. Exige uma postura altruísta perante a vida, pois o foco do esforço costuma ser uma pessoa que provavelmente nunca foi encontrada. Os sucessos não são coincidências. Coincidência é um evento semelhante ao fato em si, e pode ocorrer uma ou duas vezes. Depois disso, é claramente outra coisa. Em termos gerais, magia pode ser descrita, como muitos já a descreveram, como “a arte de obter resultados”.

É, na verdade, a atitude debochada da grande mídia diante de qualquer coisa mágica que transformou a bruxaria em motivo de riso, enquanto, se se fala de Magia Negra, o público acredita de olhos fechados. Se acreditam em Magia Negra, por que não acreditar na Magia Branca? A resposta é simples: a Magia Negra é muito mais empolgante, especialmente quando é adornada com os exageros dos escritores sensacionalistas. Sexo, ritos de sacrifício com sangue e o estupro de virgens (se é que ainda existem) atiçam o apetite carnal de certos setores do público.

Hoje estamos vendo os efeitos da repressão causada por pensamentos e comportamentos puritanos. Não nos enganemos, essa é a causa raiz da chamada sociedade permissiva. As pessoas por trás da pornografia, do sadismo e da violência de toda espécie são o produto final de gerações de repressão. Ambas as formas de pensamento são igualmente nocivas. Só quando compreendermos que o sexo é uma função natural, não separada nem diferente de qualquer outra atividade corporal, é que veremos alguma melhora em nossa evolução espiritual.

Para nossos antepassados, que adoravam a Grande Deusa Mãe e seu consorte, o Deus Cornífero, o sexo era sagrado. Não poderíamos fazer melhor do que seguir seu exemplo. Eles tinham a mulher em alta estima, como a abençoada doadora e sustentadora da vida. Em muitos aspectos, ela era considerada o sexo mais sábio e sagaz. Ela incorporava todo o mistério e toda a magia, e ao prestar-lhe essa reverência, o homem se santificava e se purificava.

Essa ideia antiquíssima pode ser observada refletida nas antigas Ordens de Cavalaria e na busca dos Cavaleiros pelo Santo Graal. O conceito anterior era o Caldeirão de Cerridwen e da Imortalidade, que oferecia três gotas da Graça da Inspiração. Existe aqui um mistério que precisa ser redescoberto.

Para muitos estudiosos, acredita-se que o Graal não fosse um objeto metálico, mas algo muito mais sublime: talvez a mulher perfeita e virginal, digna de ser a Mãe do Menino Divino. Talvez a comunhão com a Deusa divina fosse o objetivo. Um estudo das lendas do Graal, no entanto, revelará os elevados padrões espirituais e morais de nossos antepassados.

O renascimento da Antiga Religião aponta o caminho. A chama foi reacendida no Caldeirão. A mensagem para o futuro é clara: devemos renascer do Ofício.

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