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Devadatta foi uma figura singular na história do budismo. Desde a infância, esteve muito próximo de Siddhartha Gautama, o Buda, pois eram parentes e cresceram juntos. Quando o Buda fundou sua comunidade monástica, a Sanga, Devadatta tornou-se um de seus primeiros membros, sendo considerado inicialmente uma figura central no grupo. Por algum tempo, Devadatta esforçou-se sinceramente para aprender e praticar o Dharma. Contudo, à medida que o tempo passou, sua inveja em relação ao prestígio do Buda começou a crescer silenciosamente. Devadatta não aceitava o fato de não ser tão admirado quanto o Buda, apesar de ter a mesma origem nobre e ter-se tornado também um monge. Aos poucos, esse sentimento o consumiu e o levou a se transformar em um dos maiores antagonistas da tradição budista.
Seu ressentimento não se limitou ao desconforto interno. Em sua tentativa de se afirmar como alguém superior ao Buda, Devadatta chegou a cometer atos extremos: planejou assassinatos, dividiu a comunidade monástica e até manipulou um príncipe para que este matasse seu próprio pai e tomasse o trono. Tudo isso foi feito com o objetivo de adquirir poder e prestígio suficientes para suprimir o Buda e assumir seu lugar. Assim, o que começou como uma simples semente de inveja evoluiu para uma trajetória de ambição desmedida e violência, marcando Devadatta como o mais célebre opositor do Buda na tradição budista.
A Adesão de Devadatta à Sanga
Seis anos após deixar sua cidade natal, Shakyamuni retornou como Buda, plenamente iluminado. Ao chegar, encontrou seus antigos conterrâneos, especialmente os membros do clã Shakya, ainda dominados pela arrogância. Para ensinar o Dharma e despertar seus parentes, o Buda demonstrou publicamente seus poderes sobrenaturais e transmitiu seus ensinamentos de forma direta. O impacto de sua presença e sabedoria foi tão profundo que diversos jovens nobres do clã renunciaram à vida mundana para segui-lo, entre eles, o príncipe Devadatta.
Devadatta ingressou na Sanga com grande determinação e empenhou-se nos estudos e práticas budistas. Proveniente de uma linhagem real, nutria uma autoestima elevada e não aceitava a ideia de ser inferior aos demais monges. Durante seus anos na comunidade, dedicou-se ao cultivo de poderes extraordinários, mas seu foco não estava na sabedoria que liberta do sofrimento e conduz à superação do ciclo de nascimento e morte. Em vez disso, concentrou-se no desenvolvimento de realizações mundanas, popularmente conhecidas como poderes psíquicos.
Segundo os registros, Devadatta chegou a dominar oito tipos de poderes supernormais, como voar, atravessar a terra e mudar de forma. Contudo, no budismo, tais capacidades são consideradas de menor valor. Mesmo aqueles que possuem habilidades sobrenaturais continuam sendo pessoas comuns, se não forem capazes de eliminar as impurezas mentais. E foi justamente nesse ponto que a trajetória de Devadatta começou a se distanciar do caminho correto. Ele se via cercado por pessoas extraordinárias, como Sariputta e Moggallana, que, embora não fossem do clã Shakya, tinham maior prestígio e reconhecimento na Sanga do que ele próprio.
Essa constatação provocava um sofrimento constante em seu coração. Enquanto observava multidões se reunindo para ouvir o Buda pregar, sentia-se frustrado e indignado. Ele refletia sobre sua igualdade com o Buda em termos de origem nobre e condição monástica, além de possuir poderes sobrenaturais. Ainda assim, era tratado como uma figura secundária. Esse sentimento o levou a tomar uma decisão: encontraria um patrono influente, fundaria sua própria seita e buscaria, assim, a admiração e o prestígio que tanto desejava. A partir desse desejo, a inveja já profundamente enraizada em seu coração começou a se manifestar como uma ambição perigosa.
As realizações sobrenaturais de Devadatta
Embora Devadatta tivesse se empenhado no treinamento monástico, suas conquistas estavam voltadas para habilidades extraordinárias de natureza mundana. Ele cultivou e dominou oito tipos de poderes sobrenaturais, entre eles a capacidade de voar, atravessar a terra e alterar sua forma física. Essas realizações, porém, não estavam alinhadas com o verdadeiro propósito da prática budista, que é a eliminação das impurezas mentais e a libertação do ciclo de sofrimento.
No sistema budista, poderes psíquicos não são sinais de iluminação nem motivo de orgulho. Por mais espetaculares que possam parecer, não substituem o corte das aflições mentais nem conferem sabedoria. Apesar de sua impressionante exibição de habilidades, Devadatta continuava sendo uma pessoa comum, pois seu coração ainda estava cheio de desejos, apegos e comparações. Era justamente esse o ponto em que seu sofrimento se intensificava. Ele se via constantemente à sombra de grandes discípulos do Buda, como Sariputta e Moggallana, que, mesmo sem laços de sangue com o Buda ou posição nobre de nascimento, haviam conquistado imenso respeito dentro da Sanga.
O status de Devadatta, por outro lado, era apenas mediano. Ele não recebia atenção especial nem era venerado pelos outros monges ou pelos leigos. A amargura aumentava toda vez que presenciava as multidões que se reuniam para ouvir o Buda ensinar. Ele se questionava por que, sendo também príncipe e monge, e possuindo dons sobrenaturais, era relegado ao papel de coadjuvante. Essa frustração constante fortaleceu sua decisão de buscar independência e reconhecimento. A ideia de formar uma nova seita, com seu próprio grupo de seguidores, tornava-se cada vez mais atraente. Foi assim que a inveja enraizada se transformou numa ambição concreta por poder e controle, marcando o início de sua oposição aberta ao Buda.
A aproximação ao Príncipe Ajatasattu
Na Índia daquela época, o reino de Magadha era uma das potências políticas mais influentes. Seu governante, o rei Bimbisara, era um fiel devoto do Buda e um dos principais patronos da Sanga. Bimbisara, já avançado em idade, tinha um filho jovem, o príncipe Ajatasattu, cuja personalidade contrastava com a de seu pai. Enquanto o rei era sereno e devotado aos ensinamentos do Buda, Ajatasattu era ambicioso, impetuoso e frustrado com a falta de oportunidades para exercer seu poder. Ele via seu pai como um monarca ultrapassado, dedicado apenas a orações e rituais, e sentia que suas próprias capacidades não encontravam espaço para se manifestar.
Devadatta, ao perceber esse descontentamento no jovem príncipe, viu uma oportunidade estratégica. Se Ajatasattu um dia ascendesse ao trono, tornar-se-ia o patrono ideal para sustentar sua própria liderança religiosa. Com esse objetivo em mente, Devadatta decidiu conquistar o príncipe, mas não por meio de ensinamentos filosóficos ou pregações convencionais. Ao contrário dos outros monges, que buscavam influenciar Ajatasattu com discursos morais e princípios budistas, Devadatta optou por impressioná-lo diretamente com suas habilidades sobrenaturais.
Certa vez, enquanto Ajatasattu estava pensativo no palácio real de Rajagaha, um garoto estranho apareceu de repente diante dele. O menino estava coberto de serpentes venenosas, uma visão tão bizarra que deixou o príncipe paralisado de medo. Nesse momento, o menino revelou sua identidade com calma: era Devadatta. Imediatamente após se apresentar, o garoto transformou-se diante dos olhos do príncipe, revelando sua verdadeira forma adulta.
Esse evento deixou Ajatasattu profundamente impressionado. Comparando Devadatta com os mestres que seu pai costumava convidar, homens que apenas entoavam cânticos e seguiam rituais, ele viu em Devadatta uma figura extraordinária, quase divina. A partir de então, o príncipe tornou-se um seguidor leal de Devadatta, obedecendo-o incondicionalmente.
Com o apoio de Ajatasattu, Devadatta viu sua influência crescer rapidamente. O príncipe chegou a enviar quinhentas carruagens carregadas de alimentos para servi-lo diariamente. A exibição pública dessa devoção causou alvoroço entre os habitantes de Rajagaha. O respeito demonstrado pelo príncipe e a ostentação da riqueza levaram muitos a acreditar que Devadatta possuía grande poder espiritual. Como resultado, inúmeras pessoas passaram a segui-lo e buscar seus ensinamentos. Assim, Devadatta passou de um monge comum e pouco prestigiado para uma figura amplamente admirada, sustentado por um patrono poderoso e reverenciado por uma multidão crescente de seguidores. Essa nova posição só fez intensificar sua ambição.
O crescimento da popularidade de Devadatta
Com o apoio incondicional do príncipe Ajatasattu, Devadatta rapidamente ascendeu a uma posição de destaque. O envio diário de quinhentas carruagens com alimentos em sua homenagem tornou-se não apenas um gesto de generosidade real, mas também uma poderosa demonstração pública de prestígio. A cidade de Rajagaha logo se encheu de rumores e curiosidade. Ver um mestre espiritual receber tamanha atenção e riqueza por parte do herdeiro do trono levou muitos a concluir que Devadatta possuía méritos e poderes excepcionais.
A crescente admiração popular transformou radicalmente a posição de Devadatta. De um monge até então mediano dentro da Sanga budista, ele passou a ser visto como um mestre carismático e influente. Multidões o procuravam, desejosas de ouvir seus ensinamentos e de se associar à figura que agora parecia rivalizar com o próprio Buda em prestígio externo. Contudo, esse crescimento de popularidade não foi acompanhado por uma elevação espiritual. Ao contrário, sua ambição se inflamou.
À medida que atraía mais seguidores e consolidava sua base de apoio, Devadatta passou a considerar que havia chegado o momento de tomar o lugar do Buda. Ele acreditava que, com sua nova posição, poderia assumir o controle da Sanga e tornar-se o novo líder espiritual. Quando o Buda alcançou a idade de setenta e dois anos, Devadatta julgou que era o momento ideal para agir. Ele planejou uma confrontação pública durante uma grande assembleia que reunia centenas de monges, além de pessoas influentes e poderosas da sociedade.
Enquanto o Buda ensinava aos presentes, Devadatta, entre os ouvintes, levantou-se de maneira solene. Ajustou suas vestes monásticas, deixando o ombro direito descoberto, sinal de respeito formal, caminhou até o Buda, uniu as palmas das mãos e fez uma reverência. Em seguida, dirigiu-lhe palavras cuidadosamente calculadas: afirmou que o Buda já era idoso, que havia trabalhado duramente por toda a vida propagando o Dharma, e que agora deveria descansar, deixando os assuntos da Sanga sob sua responsabilidade.
A tentativa pública de tomar o lugar do Buda
Após a humilhação sofrida diante da assembleia, Devadatta decidiu levar adiante seu plano de tomar o controle da Sanga por meios mais contundentes. No dia seguinte ao confronto, o Buda convocou seu principal discípulo, Sariputta, e enviou-o à cidade de Rajagaha com uma proclamação solene. O conteúdo do anúncio era claro e definitivo: a partir daquele momento, todas as palavras e ações de Devadatta, tanto físicas quanto verbais, não teriam qualquer relação com o Buda, com o Dharma ou com a Sanga. Devadatta passava, portanto, a ser considerado um indivíduo separado da comunidade budista, agindo apenas em nome próprio.
Essa declaração oficial teve um impacto profundo. Ao desvincular publicamente Devadatta da autoridade espiritual do Buda, cortava-se qualquer legitimidade que ele pudesse alegar. Com isso, caso viesse a cometer atos condenáveis, a responsabilidade não recairia sobre a Sanga. A medida também deixava claro que suas ações não representavam os ensinamentos budistas. Devadatta, completamente desonrado, teve a última centelha de consciência apagada. Ao ser formalmente excluído e desacreditado, entregou-se por completo ao ódio e ao desejo de destruição. Já que não havia conseguido se tornar o sucessor legítimo do Buda, decidiu tornar-se seu inimigo declarado.
Ciente de que seus poderes sobrenaturais não seriam suficientes para derrotar o Buda e enfrentar a estrutura consolidada da Sanga, Devadatta passou a buscar força política e militar. Recorreu novamente ao príncipe Ajatasattu, que agora ocupava o trono de Magadha após forçar a abdicação de seu pai, o rei Bimbisara. Devadatta aproveitou-se da ambição do novo rei, alimentando-a com discursos manipuladores. Disse-lhe que, se esperasse até a velhice para assumir o trono, perderia a chance de desfrutar do poder. Incentivou-o a assassinar seu pai e usurpar o governo. Ao mesmo tempo, prometeu que mataria o Buda e assumiria sua posição espiritual. Com isso, juntos controlariam tanto o poder mundano quanto o religioso.
Ajatasattu, completamente influenciado por Devadatta, tentou matar o próprio pai com uma adaga. Embora não tenha conseguido concluir o assassinato, Bimbisara foi forçado a abdicar. O objetivo de Devadatta estava, assim, alcançado: seu patrono agora era o rei reinante de Magadha, com poder total para apoiá-lo em seus planos.
O derramamento de Sangue do Buda
Com o novo rei Ajatasattu como aliado e patrono, Devadatta acreditava estar em posição de implementar seu plano final contra o Buda. Já excluído formalmente da Sanga e sem qualquer vínculo legítimo com a comunidade budista, ele passou a atuar como inimigo declarado. Percebendo que precisava eliminar fisicamente o Buda para alcançar seu objetivo, Devadatta arquitetou um plano meticuloso de assassinato. Para isso, recrutou um assassino profissional da Guarda Real e traçou uma rota específica por onde o Buda supostamente caminharia.
Devadatta deu instruções claras ao assassino: após matar o Buda, ele deveria retornar pelo mesmo caminho. Essa orientação, no entanto, fazia parte de uma trama ainda mais elaborada. Devadatta planejou emboscadas em cadeia, com múltiplos grupos de matadores posicionados ao longo do trajeto. O segundo grupo emboscaria o primeiro para silenciá-lo. Um terceiro grupo eliminaria o segundo, e assim por diante, até o quinto grupo. O objetivo era eliminar todas as testemunhas e garantir que nenhum dos envolvidos pudesse relatar o ocorrido. Mortos não contam histórias.
Entretanto, o plano fracassou logo no início. Quando o primeiro assassino se aproximou do Buda com sua arma em punho, foi imediatamente impactado pela dignidade serena e pela aura compassiva que o Buda irradiava. Tomado por um tremor interior, deixou a faca cair e ficou paralisado. O Buda, então, dirigiu-lhe algumas palavras que tocaram profundamente seu coração. O assassino caiu em lágrimas, arrependeu-se de seus atos e pediu refúgio no Dharma ali mesmo. O Buda, sabendo do plano completo, advertiu-o para não voltar pelo mesmo caminho, pois ali o aguardava a morte.
Enquanto isso, os demais grupos de assassinos, sem ver o retorno do primeiro, começaram a descer o caminho à sua procura. Cada grupo, ao encontrar o Buda, também foi tocado por suas palavras e acabou se tornando discípulo. Assim, toda a rede de assassinato montada por Devadatta foi desfeita por meio da compaixão e do poder de persuasão do Buda.
Diante desse fracasso, Devadatta, cada vez mais frustrado, decidiu executar o assassinato pessoalmente. Certo dia, ao ver o Buda caminhando ao pé do Pico dos Abutres, em uma trilha sombreada, subiu até o topo de um penhasco e empurrou uma pedra gigantesca com a intenção de esmagá-lo. A rocha desceu com velocidade e força, mas colidiu com dois relevos na encosta, estilhaçando-se antes de atingir o Buda. Ainda assim, uma lasca da pedra voou como um projétil e atingiu o pé do Buda, fazendo-o sangrar. Este episódio ficou registrado na tradição budista como “o derramamento do sangue do Buda”, considerado um dos crimes mais graves.
Mesmo ferido, o Buda não demonstrou raiva. Olhou para o alto, viu Devadatta e disse calmamente que ele havia criado um karma negativo extremamente pesado e selado com suas próprias mãos a causa de sua queda no inferno. Devadatta, ao ver que estivera tão perto de matar o Buda e ainda assim falhara, foi tomado por um surto de fúria. As sucessivas derrotas haviam perturbado completamente sua mente. Decidiu então abandonar furtividade e truques, optando por força bruta como forma definitiva de eliminar o Buda.
A conspiração para destruir o Buda
Com seus planos anteriores frustrados, Devadatta decidiu intensificar sua aliança com o rei Ajatasattu. Sabia que, sozinho, não possuía força suficiente para destruir o Buda ou dominar a Sanga, e compreendia que o apoio do poder secular era essencial para alcançar seus objetivos. Recorreu mais uma vez ao rei, agora não apenas como aliado, mas como cúmplice em um plano de tomada total do poder, tanto espiritual quanto político.
Devadatta apelou diretamente à ambição de Ajatasattu. Disse-lhe que seu pai, o rei Bimbisara, ainda ocupava o trono e que, se ele esperasse até envelhecer para assumir o poder plenamente, talvez não tivesse tempo ou vigor para desfrutá-lo. Com essa argumentação, plantou a ideia de um golpe definitivo. Propôs que Ajatasattu matasse seu próprio pai para tornar-se rei imediatamente, enquanto ele, Devadatta, mataria o Buda para assumir sua posição espiritual. Assim, segundo o plano, um governaria o mundo secular, o outro o religioso, e juntos controlariam toda a estrutura de poder.
Completamente manipulado por Devadatta, Ajatasattu tentou assassinar Bimbisara com uma adaga. Embora não tenha conseguido consumar o crime, o pai foi forçado a abdicar, e o jovem tornou-se o novo rei de Magadha. Com isso, Devadatta obteve o respaldo político de que precisava. Seu patrono agora detinha o controle de um dos reinos mais poderosos da região, e com esse apoio, Devadatta avançou com seus planos mais audaciosos.
Um dos primeiros atos nessa nova fase foi a tentativa de assassinar o Buda usando um elefante treinado para matar. Devadatta escolheu um elefante chamado Nalagiri, conhecido por seu temperamento extremamente violento. Em ocasiões anteriores, o animal já havia matado pessoas por pisoteamento. Devadatta, utilizando sua proximidade com o rei, subornou o treinador do elefante para embebedá-lo com uma grande quantidade de vinho. Seu plano era liberar o animal embriagado pela rua mais estreita da cidade na manhã em que o Buda saísse para pedir esmolas, de forma que não houvesse espaço para fuga.
No dia seguinte, o Buda caminhava silenciosamente pela rua com um grupo de monges. De repente, gritos de pânico começaram a ecoar. O chão tremia com o peso das passadas violentas de Nalagiri, que avançava descontrolado, com os olhos vermelhos de sangue e rugindo ferozmente. Os monges tentaram proteger o Buda, suplicando que fugisse. Alguns se prontificaram a colocar seus corpos na frente do animal para proteger seu mestre. Mas o Buda, com serenidade, pediu calma e disse que sua morte não poderia ocorrer por meio da violência.
Quando o elefante se aproximou, a poucos metros de distância, algo extraordinário aconteceu. Diante do olhar compassivo do Buda, o animal começou a desacelerar. Seus olhos, antes tomados pela fúria, gradualmente recuperaram a lucidez. Sua tromba, que estava erguida em ataque, baixou lentamente. A agressividade deu lugar à serenidade. O elefante então se ajoelhou diante do Buda e, com a tromba, limpou cuidadosamente a poeira de seus pés. A população que assistia à cena ficou maravilhada com a manifestação da compaixão do Buda. Algumas pessoas, em sinal de reverência, lançaram suas joias no chão como oferendas espontâneas.
Do outro lado, Devadatta observava a cena escondido. Sua tentativa de assassinato mais uma vez havia fracassado. Ainda assim, não estava disposto a desistir. Com a força não sendo suficiente, passou a recorrer a táticas desonestas e a um novo plano para tentar desestabilizar o Buda por dentro, criando uma divisão na própria Sanga.
As tentativas de assassinato
Com o apoio do rei Ajatasattu, Devadatta traçou um plano complexo e meticuloso para assassinar o Buda. Recrutou um assassino profissional da Guarda Real, ao qual confiou a missão de emboscar o Buda em um caminho pré-determinado. Devadatta, porém, nunca teve a intenção de deixar o assassino vivo após o crime. Por isso, estruturou uma rede de grupos armados que se emboscariam mutuamente: um segundo grupo mataria o primeiro para silenciar testemunhas, um terceiro mataria o segundo, e assim por diante, até um quinto grupo. A ideia era eliminar qualquer chance de sobrevivência entre os envolvidos e garantir que o crime jamais pudesse ser rastreado.
No entanto, o plano começou a falhar desde o primeiro passo. Quando o assassino se aproximou do Buda com sua arma, foi imediatamente tomado pela aura de serenidade e dignidade compassiva que o mestre emanava. Paralisado, ele deixou cair a faca. O Buda, então, dirigiu-lhe palavras diretas e serenas que tocaram profundamente seu coração. O assassino chorou e, ali mesmo, pediu refúgio no Dharma. O Buda o advertiu para não voltar pelo mesmo caminho, pois sabia da emboscada preparada por Devadatta.
Enquanto os grupos seguintes aguardavam o retorno do primeiro assassino, ficaram intrigados com a demora. Um a um, começaram a descer pelo caminho para procurá-lo. Ao se depararem com o Buda, cada grupo, após ouvir seus ensinamentos, converteu-se e pediu refúgio no Dharma. Assim, todo o plano elaborado por Devadatta foi desfeito sem violência, mas por meio da compaixão e da palavra do Buda.
Frustrado com o fracasso do plano anterior, Devadatta decidiu ele mesmo executar o assassinato. Certa vez, ao ver o Buda caminhando em um trecho fresco e sombreado ao pé do Pico dos Abutres, subiu silenciosamente até o topo de um penhasco e empurrou uma pedra gigantesca com o objetivo de esmagá-lo. A rocha desceu rolando com grande força, mas acabou atingindo duas protuberâncias na encosta que a partiram. A pedra se fragmentou antes de alcançar o Buda. No entanto, uma lasca voou como um projétil e atingiu seu pé, provocando sangramento.
Esse evento ficou registrado na história do budismo como o momento em que o sangue do Buda foi derramado, uma das ofensas mais graves no contexto budista. Ainda assim, o Buda permaneceu sereno. Olhou para Devadatta, que observava tudo do alto do penhasco, e declarou calmamente que ele havia criado um karma extremamente negativo e selado sua própria queda no inferno. Devadatta, ao perceber que estivera tão perto do sucesso e ainda assim falhara, ficou fora de si, tomado por frustração e ódio. Estava determinado a destruir o Buda a qualquer custo.
A última tentativa de assassinato por força bruta envolveu o uso de um elefante chamado Nalagiri, conhecido por seu comportamento extremamente agressivo e histórico de matar pessoas. Devadatta convenceu o treinador do animal, por meio de suborno, a embebedá-lo com grandes quantidades de vinho. A intenção era soltar o elefante no momento exato em que o Buda estivesse caminhando com seus monges por uma rua estreita, sem rota de fuga, e fazê-lo atacar.
Na manhã seguinte, à medida que o Buda se aproximava com sua comitiva, a cidade foi tomada por gritos de pânico. O chão tremia com a aproximação de Nalagiri, que corria em fúria descontrolada, com os olhos vermelhos de sangue. Os monges entraram em desespero e pediram ao Buda que fugisse, temendo por sua vida. Alguns tentaram se colocar à frente do mestre para protegê-lo. No entanto, o Buda permaneceu sereno e disse que sua morte não poderia ocorrer por meio da violência.
Ao chegar próximo ao Buda, o elefante subitamente parou. Diante do olhar compassivo do mestre, sua raiva começou a se dissipar. Sua tromba, antes erguida em ataque, abaixou-se lentamente. O animal então se ajoelhou e, em gesto de reverência, usou a tromba para limpar a poeira dos pés do Buda. A multidão que presenciou a cena ficou maravilhada. Pessoas jogaram joias no chão como oferendas espontâneas. A compaixão e a presença do Buda haviam transformado uma tentativa de morte em uma demonstração de reverência e despertar espiritual.
Devadatta, observando o fracasso de mais esse plano, mergulhou ainda mais em frustração e ressentimento. Nem mesmo a força brutal havia sido suficiente para derrubar o Buda. Diante disso, decidiu recorrer a uma nova estratégia: destruir a Sanga por dentro.
O cisma na Sanga
Após o fracasso de todas as tentativas de assassinar o Buda, Devadatta decidiu adotar uma nova abordagem: em vez de atacar o mestre diretamente, tentaria destruir a Sanga por dentro. Seu novo plano era provocar uma cisão na comunidade monástica por meio de uma falsa reforma. Para isso, aliou-se a um pequeno grupo de apoiadores e formulou um conjunto de regras rígidas, que mais tarde ficariam conhecidas como as “Cinco Propostas de Devadatta”.
Essas propostas impunham uma disciplina extrema aos monges, transformando práticas voluntárias de ascetismo em mandamentos obrigatórios. A primeira regra exigia que os monges vivessem exclusivamente na floresta durante toda a vida, considerando culpa residir em vilas ou cidades. A segunda proibia aceitar convites para refeições, obrigando todos a depender apenas da mendicância diária. A terceira estipulava que só poderiam ser usadas vestes feitas de trapos recolhidos em lixeiras, condenando o uso de roupas novas ou doadas. A quarta proibia moradia em casas ou abrigos, impondo que se dormisse sob árvores por toda a vida. Por fim, a quinta proibia o consumo de peixe ou carne em qualquer circunstância.
Essas práticas já existiam dentro da tradição budista sob o nome de Dhutanga, um conjunto de métodos ascéticos praticados voluntariamente por monges que buscavam uma vida mais rigorosa. No entanto, a inovação de Devadatta estava em tornar essas práticas opcionais em regras obrigatórias para todos, o que violava diretamente o princípio ensinado pelo Buda de seguir o Caminho do Meio.
O Buda sempre ensinou que a prática espiritual verdadeira não se mede por aparências externas, mas pela pureza interior. Viver na floresta ou numa casa, aceitar uma refeição convidada ou mendigar, usar vestes simples ou vestes novas, tudo isso deveria ser uma escolha pessoal, não uma imposição. Para o Buda, forçar uniformidade externa era desviar-se do Dharma.
Devadatta, porém, sabia que a maioria das pessoas comuns não compreendia profundamente o Dharma. Sua intenção era justamente explorar essa ignorância. Ao apresentar sua proposta como uma forma mais “pura” e “austera” de prática, conseguia atrair a admiração de muitos. As pessoas, movidas por julgamentos superficiais, passaram a ver nele um verdadeiro asceta, comprometido com os ideais espirituais mais elevados.
Ele então apresentou as Cinco Propostas em uma assembleia diante do Buda, solicitando que elas se tornassem regra obrigatória para todos os monges. O Buda respondeu com firmeza e clareza, dizendo que qualquer monge que quisesse segui-las voluntariamente poderia fazê-lo, mas que tais regras não seriam impostas como mandamentos gerais. A recusa do Buda foi usada por Devadatta como munição para atacar sua imagem. Alegou que o Buda era indulgente, buscava conforto e luxo, e que ele, Devadatta, sim, era o verdadeiro asceta e praticante puro.
Naquela época, muitos jovens monges recém-ordenados estavam na Sanga. Sem uma compreensão profunda dos ensinamentos, foram facilmente persuadidos pelas palavras de Devadatta. Acreditavam que seguir um estilo de vida mais difícil e sofrido significava praticar com mais sinceridade. Como resultado, mais de quinhentos monges jovens o seguiram e deixaram o Monastério do Bosque de Bambu, onde residia o Buda. Estabeleceram-se na vizinha Montanha Cabeça de Elefante e formaram uma nova facção, dando início ao primeiro cisma formal na história da Sanga budista.
Ali, na Montanha Cabeça de Elefante, Devadatta sentava-se em uma posição elevada, imitando a postura tradicional do Buda ao pregar o Dharma, e ensinava aos seus novos seguidores. Acreditava, naquele momento, ter finalmente alcançado seu objetivo: tornar-se uma figura central e rival direta do Buda. Sentia-se vitorioso e considerava-se um novo líder espiritual, respeitado e seguido por centenas.
A recuperação da Sanga por Sariputta e Moggallana
Enquanto Devadatta acreditava ter consolidado sua nova seita com mais de quinhentos monges ao seu lado na Montanha Cabeça de Elefante, os dois principais discípulos do Buda, Sariputta e Moggallana, observavam a situação com preocupação. A deserção em massa de jovens monges havia criado a primeira divisão formal da Sanga, e era necessário agir para restaurar a integridade da comunidade.
O Buda, ciente da situação, instruiu Sariputta e Moggallana a irem até a Montanha Cabeça de Elefante para recuperar os monges desviados. No momento em que os dois grandes discípulos se aproximaram do local, Devadatta, de longe, viu-os chegar e interpretou erroneamente sua visita como um sinal de rendição. Acreditou que até os seguidores mais fiéis do Buda estavam agora se juntando à sua nova comunidade. Pensou que a autoridade do Buda havia chegado ao fim e que sua liderança estava sendo reconhecida por todos.
Um conselheiro próximo advertiu Devadatta a não confiar nos dois visitantes, alertando-o sobre a inteligência e habilidade de ambos. No entanto, tomado pela vaidade e autoconfiança, Devadatta recusou-se a ouvir. Pediu que fossem preparados assentos de honra para recebê-los, declarando que visitantes devem ser tratados como hóspedes.
Devadatta, já idoso e debilitado, sentia dores nas costas após longas horas pregando. Por isso, decidiu imitar a postura do Buda ao dormir, conhecida como a postura auspiciosa de descanso, e entregou a Sariputta a tarefa de pregar em seu lugar. Pouco tempo depois, adormeceu profundamente, sem desconfiar do que viria a seguir.
Sariputta e Moggallana, então, iniciaram sua missão. Enquanto Sariputta usava sua sabedoria para expor com clareza o verdadeiro Dharma, Moggallana utilizava seus poderes sobrenaturais para reforçar a autoridade dos ensinamentos do Buda. Em um curto espaço de tempo, equivalente ao tempo de uma refeição, conseguiram esclarecer os enganos cometidos pelos jovens monges. Muitos deles despertaram para a verdade e compreenderam o erro que haviam cometido ao seguir Devadatta. Alguns chegaram até mesmo a alcançar o estado de Arhat naquele momento, rompendo com as ilusões que os haviam seduzido.
Ao final do ensinamento, Sariputta dirigiu-se aos presentes e disse que todos aqueles que não quisessem continuar sendo enganados por Devadatta poderiam segui-los de volta à verdadeira Sanga. Mais de quinhentos monges, unidos em decisão, levantaram-se e partiram com os dois mestres em direção ao Monastério do Bosque de Bambu, onde o Buda residia.
Na manhã seguinte, o conselheiro de Devadatta despertou e ficou em choque ao ver o salão de assembleia completamente vazio. Correu até seu mestre e gritou para que acordasse, alertando-o de que Sariputta e Moggallana haviam levado todos os seus seguidores. Devadatta, ainda grogue, abriu os olhos e viu que estava sozinho. Foi tomado por um sentimento profundo de humilhação e desespero. A perda de seus seguidores, somada aos fracassos anteriores, resultou em um colapso emocional e físico. Um acesso de raiva lhe subiu ao peito, causando-lhe tamanha angústia que acabou cuspindo sangue fresco. A partir daquele momento, Devadatta ficou acamado, dando início à fase final de sua vida.
A decadência e morte de Devadatta
Após o colapso de sua tentativa de criar uma seita independente, a saúde de Devadatta deteriorou-se rapidamente. Os sucessivos fracassos, a perda de seus seguidores e o golpe em seu orgulho resultaram em um estado de debilidade física e mental. A partir do momento em que cuspiu sangue ao perceber que havia sido abandonado, Devadatta permaneceu acamado, dominado pela fraqueza e pela angústia. Essa enfermidade durou mais de nove meses.
Durante esse período, Devadatta passou por uma transformação interior. Já não era mais o monge altivo e ambicioso que tentara rivalizar com o Buda e tomar seu lugar. Enfrentando a fragilidade do próprio corpo e a aproximação da morte, finalmente reconheceu a profundidade de seus erros. Com humildade, expressou aos poucos discípulos que ainda permaneciam ao seu lado o desejo de ver o Buda uma última vez. Disse claramente que desejava se arrepender.
Seus discípulos, ao ouvirem tal pedido, questionaram se aquilo fazia sentido, lembrando-lhe de seu estado debilitado e da possibilidade de ser rejeitado. Mas Devadatta respondeu com lucidez, dizendo que a compaixão do Buda era incondicional. Afirmou que, para o Buda, não fazia diferença se ele era um inimigo, um criminoso ou um animal violento, todos eram recebidos com a mesma compaixão e poderiam buscar refúgio.
Comovidos, seus discípulos o colocaram em uma maca e iniciaram o trajeto até o Monastério Jetavana, onde o Buda estava. Quando chegaram aos portões do monastério, Devadatta avistou uma poça de água no chão. Pediu que o ajudassem a descer da maca, pois desejava lavar o rosto e os pés antes de se apresentar ao Buda. Queria purificar-se e preparar-se adequadamente para aquele último encontro.
Conta a tradição que no instante em que seus pés tocaram o solo, algo inesperado aconteceu. A terra se abriu sob ele, e chamas intensas emergiram das fendas. Devadatta foi tragado pelas chamas enquanto lutava e gritava. No momento em que o fogo estava prestes a alcançar seu pescoço, ele declarou em alta voz: “Dedico meus ossos e vida ao Buda.” Essas foram suas últimas palavras antes de ser completamente consumido. Em seguida, a terra se fechou com um estrondo, encerrando para sempre sua trajetória.
Segundo os ensinamentos budistas, Devadatta caiu no Inferno Avici, considerado o mais profundo e severo dos reinos infernais. Ali, expiaria o pesado karma gerado por seus crimes, especialmente o derramamento de sangue do Buda e a tentativa de romper a unidade da Sanga. Ao longo de sua vida, Devadatta buscou incessantemente provar que era superior ao Buda, mas terminou essa existência de forma trágica e solitária.
Reflexão final
A história de Devadatta, desde sua proximidade inicial com o Buda até sua queda no inferno, revela com clareza o poder destrutivo da inveja. No budismo, esse sentimento é descrito pelo termo Anabhirati, que pode ser compreendido como a incapacidade de suportar o sucesso e a felicidade dos outros. Os sutras comparam a inveja a um fogo: um fogo que, ao contrário do que se imagina, muitas vezes não queima os outros, mas consome a si mesmo.
Devadatta possuía qualidades notáveis. Era de origem nobre, demonstrava disciplina e alcançou poderes sobrenaturais através de práticas intensas. No entanto, sua mente estava poluída pela comparação constante, pela ambição desmedida e pelo desejo de prestígio. Em vez de cultivar a sabedoria que leva à libertação, escolheu competir com o Buda, esquecendo-se do propósito maior da prática espiritual.
O que começou como um desconforto silencioso por não ser tão admirado quanto o Buda, Sariputta ou Moggallana, tornou-se uma obsessão. Essa pequena semente de inveja, não observada nem transformada, cresceu descontroladamente até levá-lo a conspirar, matar, dividir a comunidade e tentar destruir o próprio mestre. Toda a sua trajetória foi moldada por esse único veneno mental.
Ao final, sua tentativa de se elevar resultou em sua ruína. E, mesmo ao buscar arrependimento, foi impedido de alcançá-lo plenamente pela gravidade de seus atos. Sua última frase: “Dedico meus ossos e vida ao Buda” é, por si só, um eco tardio de reconhecimento, que contrasta com a destruição que causou. O sofrimento extremo que Devadatta enfrentou não foi causado por forças externas, mas pelas próprias ações geradas a partir da inveja em seu coração.
Assim, a história de Devadatta é, no budismo, uma poderosa advertência. Não importa o quanto alguém tenha estudado ou praticado, nem o quão elevado seja seu status externo, se os venenos mentais como a inveja não forem reconhecidos e superados, mesmo os mais promissores podem cair nos abismos mais profundos. A vigilância interior, a humildade e a compaixão permanecem como os verdadeiros fundamentos da prática espiritual.
Fonte: 提婆達多:刺殺佛陀、分裂僧團,為何臨死前將身體獻給佛陀?揭秘佛教史上最瘋狂的成魔之路|一百個人的一生
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