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Por Lilith Ashtart ©2025
Como sua Grande Obra individual, o Luciferiano busca pelo aperfeiçoamento de si mesmo, o desvelar da sua real essência para tornar-se uno com ela, um reflexo límpido desta chama divina que habita cada um dos filhos e filhas dEle. É uma jornada desafiadora em que inúmeros ordálios se apresentarão até o final de nossos dias, testando a clareza que possuímos a respeito de nossa meta, nossa sabedoria, disciplina, constância e Vontade. Espera-se que a cada etapa conquistemos mais autoconhecimento e que este nos fornecerá novos instrumentos para superar as seguintes. Mas, e se a queda vier? É possível um Luciferiano cônscio de seu caminho cair?
E lhe respondo com absoluta certeza que sim. Lógico que está longe do ideal final almejado, mas também é lógico que por ainda caminharmos vestindo nosso templo de carne, que estejamos suscetíveis o tempo todo aos seus caprichos. E por isso a autovigilância constante é tão importante. Quantas vezes acreditamos ilusoriamente ter conseguido superar determinada provação e, ao abrir nossa guarda pelo excesso de autoconfiança ou ego, cairmos diante na primeira nova situação em que nos é exigido este aprendizado?
Por mais paradoxal que possa parecer, a queda é justamente um dos princípios que revela quem possui a essência luciferina em si. Ao destruir sua ilusão e derrubá-lo do trono em que se colocou, ela testa o indivíduo escancarando as suas fraquezas e fragilidade, o obriga a se despojar de suas certezas, a rever seus caminhos, a abandonar a autoimagem inflada, a reconhecer aquilo que provocou o seu fracasso e escolher o que fará diante disso: se a encarará como derrota e se entregará ao vitimismo; se sucumbirá à loucura por não conseguir abandonar a autoilusão, ainda que a vida lhe entregue o oposto do que deseja e assim repetir indefinidamente os mesmos erros apenas para não perder o seu ego frágil; ou se reconhecerá que a imagem que via no espelho realmente estava distorcida e, apesar da dor, da descrença e do desencanto inicial, não se prostrará e utilizará desta nova realidade exposta como recurso para reencontrar-se com quem realmente é.
E é nesse momento em que o Luciferiano se revelará. Ele é movido pelo Amor à chama divina que guarda dentro de si e não por títulos e reconhecimentos externos que, muitas vezes para serem mantidos, acabam por extingui-la. Seu orgulho vem de si mesmo, de suas próprias superações, conquistas, transformações, de feitos reais que contribuam para que se aproxime cada vez mais de sua divindade. Para ele, conquistar e usufruir do mundo externo são apenas consequências naturais de seu caminhar, e não o foco dele. Ele o faz por lealdade a si, e não para ser visto e aprovado por outrem.
Contudo, é preciso muito cuidado para não romantizarmos a queda. Embora ela traga lições essenciais sobre nós mesmos, nos mostrando onde ainda falta compreensão e, consequentemente, onde está a nossa fraqueza a ser trabalhada, ela não pode ser utilizada simplesmente como um argumento que justifique todo equívoco na hora de agir, nos abstendo de discernir e realizar escolhas responsáveis diante dos diversos caminhos que se apresentam em nossa jornada. Muitos não querem realizar os autossacrifícios que são necessários para nos purificarmos do que nos impregnaram como a verdade e o desejável, e se entregam deliberadamente aos vícios e à conformidade. Tolos, definitivamente tolos. A queda só escolhe ensinar quem lhe evita como mestra.
Nossas falhas são capazes de nos trazer grande sabedoria quando escolhemos aprender com elas, porém esta mesma sabedoria pode e deve ser perquirida antes em outras fontes justamente para evitar a dor que inevitavelmente acompanha tal processo. A dor apenas surge onde não há compreensão. Ainda assim, a humanidade parece possuir um enlace tão profundo com a dor que parece até desejá-la, o que se reflete em filosofias que a pregam como única forma de salvação. Aqui, contudo, não a exaltamos. Apenas compreendemos que ela é sim um instrumento que pode nos trazer grandes transformações, mas também temos ciência de que ela é capaz de destruir aquele com quem se depara muito antes disso. Por isso deve ser empregada como último recurso, quando já não é mais possível evitá-la por já estar presente. Qualquer cenário se torna uma oportunidade de verdadeira iniciação pelo Luciferiano, mesmo o mais adverso.
É nesta adversidade que se torna necessário nos entregarmos à completa dissolução de nosso ser, pois é através dela que a sabedoria pode encontrar um portal para manifestar-se. Nossa primeira propensão é lutar contra este rompimento, pois nossa mente não deseja se invalidar para ter que se reconstruir sem sequer ter garantias de êxito. Afinal, ao fazer isso, ela é obrigada a reconhecer suas falhas, ter que abandonar vícios prazerosos, situações tranquilas e previsíveis, vínculos obsessivos e submissão confortável. E tudo isso gera a dor que mencionamos enquanto não compreendermos que são estes os grandes sabotadores de nossa jornada. Aqueles que não são de nós abandonam o caminho neste ponto ao evitar lutar contra sua própria clausura, enquanto que um Luciferiano percebe que a dor originada por não viver a sua essência é muito maior do que a inicialmente provocada por estas perdas ilusórias.
Quando a queda nos revela o preço que cada escolha nos custa, nos tornamos capazes de tomar novas decisões com mais sabedoria. Sentimos na própria pele as consequências, temos a ferida aberta profundamente para sermos obrigados a olhar para nós mesmos sem piedade ou compaixão, de forma que possamos assumir a responsabilidade de nos curar daquilo que nos envenena e entorpece. É uma escolha, unicamente nossa, nos entregar à morte ou à vida. Muitos temem não terem força suficiente para isso, mas a centelha divina que habita em nós nos fornece todos os recursos necessários desde que escolhamos nutri-la, mesmo que com pequenos avanços de cada vez. O que a fortalece é jamais parar e desistir.
Mas, se nos permitirmos nos decompor diante da queda, como saberemos como nos refazer? É para aqueles que se rendem verdadeiramente ao processo que ela entregará a sua dádiva final: apresentar as infinitas possibilidades que estavam ocultas, apenas esperando espaço para se manifestarem. Quando decidimos renunciar àquilo que não nos traz aprimoramento, descobrimos versões de nós mesmos que nem imaginávamos ser capazes de ser. A partir desta escolha tudo muda e o caminho volta a se abrir, mas não se iluda: ele não se tornará mais fácil por causa disso, apenas estará mais iluminado. Aceitaremos as suas exigências por livre vontade, sabendo que são necessárias para chegarmos aonde desejamos, ou seja, a nós mesmos.
Por isso a queda não deve ser motivo de vergonha ou sinônimo de derrota, embora deva ser evitada ao máximo. A internalização de um conhecimento e sua aplicação na prática, sem pressa de passar para o próximo estágio antes de dominar o atual é essencial para isso. Contudo, caso ela ocorra, permita-a ser sua mentora. Permita-a lhe auxiliar a se redescobrir e reinventar, a se reencontrar com sua verdadeira essência, a aceitar o que os outros consideram inferno como o seu próprio paraíso, se este realmente o for.
Governe seu reino com toda a sua potência, conheça-o o mais profundamente que for capaz, vigie-o constantemente e jamais permita-se ser acorrentado as ilusões oferecidas pelo que se encontra fora dele. Pois fora dele, o que você encontrará será apenas a morte.
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