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As Origens da Escuridão: A História dos Djinns

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Por S. Ben Qayin, O Livro do Fogo Sem Fumaça

Os registros dos Djinns ao longo da história árabe remontam muito antes de qualquer documentação escrita, eles parecem ter existido sempre, e eram falados entre os beduínos, que narravam contos e recitavam poesias que os apresentavam ou os mencionavam. Os Djinns foram escritos pela primeira vez no Alcorão e dentro de contos muito mais antigos, que compuseram todo o “Alf Layla wa Layla”, ou mais comumente conhecido como As Mil e Uma Noites” traduzido para o inglês por Burton (como antes mencionado). Os relatos dos Djinns dados no Alcorão são numerosos e fornecem algumas das informações mais detalhadas sobre sua origem e condição, assim como informam que eles habitam invisíveis entre os homens.

De acordo com de acordo com o Alcorão, Allah (Deus) criou tudo, os planetas e as estrelas, a Terra e o mar, a noite e o dia e, é claro, todos os animais e plantas conhecidos e desconhecidos da Terra. Ele também criou todas as criaturas espirituais, como como os Anjos, os Homens e os Djinns,

”Allah criou os céus e a terra, e tudo o que há entre eles, em seis dias” – Alcorão (7:54).

Tudo estava bem por um período de tempo indeterminado. No entanto, surgiu um desentendimento entre Allah e alguns de seus Anjos, incluindo seu primeiro e mais belo Anjo, Iblis (Satã). Um dia, Allah decidiu criar o Homem para também – andar na Terra ao lado dos Djinns. Quando terminou, Allah ordenou aos Anjos que se curvassem perante o Homem recém-formado e a se prostrarem diante dele. Allah disse a os Anjos,

“Estou prestes a criar o homem a partir do barro: Quando eu o terminar… Prostrai-vos em obediência a ele.” – Alcorão (38:72).

Alguns Anjos com raiva questionaram Allah e sua ação de criar Homem e dar a ele o domínio violento sobre a Terra, e até mesmo dando indícios de estarem terrivelmente chocados com este ato, questionando sua própria lealdade a ele,

“Você colocaria na Terra aqueles que derramariam sangue? E nós te adoramos? E te exaltamos?” – Alcorão (2:30).

Foi aqui que Iblis ouviu o suficiente, pois Ele sabia que não se curvaria diante do homem, nem se curvaria novamente diante de Allah, tendo visto a verdade e despertado para Sua própria Divindade, Ele sabia que nunca se curvaria diante de outro novamente:

“Nós criamos vocês e depois moldamos vocês. Então dissemos aos Anjos: “Prostrai-vos a Adão”, então eles se prostraram, exceto Iblis. Ele não foi um daqueles que se prostravam. Allah perguntou: “O que impediu você de se prostrar quando eu lhe ordenei?” Iblis declarou: “Eu sou melhor do que ele. Você me criou do fogo e o criou do barro”. Allah respondeu com raiva: “Saia daqui, não é para você se tornar arrogante aqui, agora saia. Você está entre os humildes”. Iblis respondeu: “Tolera-me até o dia em que eles serão levantados”. Allah então disse: “Você está entre aqueles que são perdoados.” Iblis declarou com ousadia: “Agora, porque você me manda embora, certamente irei emboscá-los em Seu ‘caminho reto’, então irei sobre eles e por trás deles, de suas mãos direitas e de suas mãos esquerdas. Você vai achar a maioria deles gratos.” Allah cheio de raiva disse: “Vá agora, desprezado e banido. Aqueles que te seguirem – eu certamente encherei a Jahannam (o Inferno) com todos eles.” Alcorão (7:11-25).

É interessante notar na declaração de Iblis, Que Ele não pretende prejudicar a humanidade em geral, apenas para aqueles que são obedientes a Allah/a Ordem e trilhar seu ‘caminho reto’. E assim Iblis deixou sua posição de escravidão e saiu enfurecido sobre a Terra em busca daqueles que escolheram o ‘Caminho Torto’ da Escuridão dentre os Djinns, pois os Djinns tinham a habilidade de escolher seu caminho espiritual individual, e nem todos escolheram ser obedientes a Allah.

Há uma diferença significativa entre as duas classes de seres; os Anjos e os Djinns. Os Anjos são criados exclusivamente para louvar e servir a Allah, enquanto os Djinns deveriam vagar pela Terra e ter a liberdade de viajar em seus próprios caminhos espirituais através do tempo, escolhendo o caminho da escravidão, (como Allah referia-se a ele) ou de independência, onde se pode trilhar o caminho de um Deus e conhecer sua verdadeira força e vontade.

Assim como as diferenças humanas em relação à religião, os Djinns têm clãs e crenças muitos diferentes aos quais eles aderem. Um clã dos Djinns era conhecido por ter ouvido os Hadiths (os ensinamentos) no Alcorão sendo recitado um dia na praça de uma cidade local e descobriu que as palavras de Allah eram verdadeiras, o que os levou a se tornarem seguidores do Islã. Embora, como acontece com as religiões ou crenças humanas, existam alguns Djinns que escolheram se livrar das algemas de Allah e seguir a verdade sombria em seus corações que os levam a rejeitar a Allah e as suas correntes de servidão,

“Alguns de nós são justos, e alguns de nós são diferentes: somos de partidos divergentes” Alcorão (72:11).

Foram os Djinns que ‘desviaram’ que Iblis procurou, pois eles compartilhavam a mesma raiva ardente e ódio de Allah e sua sociedade controlada de escravos. E de fato Iblis os encontrou… e reuniu um exército de setenta e dois dos Djinns mais sedentos de sangue que já vagaram pela Terra.

Dizem que os Djinns foram criados antes do homem (que foi criado do elemento da Terra), do elemento ardente do fogo:

“Criamos o homem da argila seca de lama negra e Nós criamos os Djinns diante do fogo do vento quente”. Alcorão (15:26-27)

Os Djinns também foram referidos como sendo criados a partir do “Fogo Sem Fumaça” como o Mensageiro de Allah conhecido como ‘Muhammad (ou Maomé)’ afirmou,

“Os Anjos foram criados a partir da luz e os Djinns foram criados a partir do fogo sem fumaça…”

Há alguns como Ibn ‘Abbas, um Mujahid (primo paterno de Muhammad) e outros que acreditam que o ‘fogo sem fumaça’ refere-se apenas às pontas das chamas, ou a parte mais pura e limpa das chamas, enquanto de acordo com outros, são as ‘chamas misturadas com o mais negro do fogo’. Independentemente disso, vê-se que os Djinns estão relacionados ao espírito infernal do fogo e são criados diretamente de seu elemento. O fogo e os Djinn são sinônimos e estão entrelaçados. O fogo há muito tem sido associado ao mundo espiritual, atuando como um portal entre realidades e planos de existência dimensional.

Um Ifrit é uma classe de Djinns Flamejantes muito poderoso com os quais este volume lida diretamente. Tradicionalmente, eles são descritos como enormes seres alados de fogo que geralmente são associados a percorrerem o caminho sombrio de Iblis. Eles são mencionados no Alcorão e na “Alf Layla Wa Layla” entre outros textos menos conhecidos (pelo menos para o mundo ocidental), como o “Shams al-Ma’arif al-Kubra (O Sol do Conhecimento, ou da Gnose)”. No entanto, sua descrição no “Miscelaneo de Salomon” é bem diferente, eles são da forma conjunta com a qual a maioria está familiarizada como apresentada na “Goetia”. Alguns são de aparência simples, enquanto outros são complexos e de conjuntura horrenda. Os Djinns apresentados neste volume são os Ifrits do ‘Clã de Taw – All’, conhecido como contendo os Djinns mais puramente destrutivos entre as Casas, ou Clãs de Ifrits.

É claro que ao discutir os Djinns, o assunto dos Ghouls (Carniçais) deve ser incluído, pois eles são de fato importantes relacionados. Foi dito que Ghouls (ou Ghul’s) são simplesmente Djinns (Jinns, Gênios) que seguem ou não seguiram a Allah e que se banqueteiam com o sangue e a carne dos vivos, assim como dos mortos. Isma’il bin ‘Umar Abu al-Fida’, mencionou no “Tafsir Ibn Kathir (Exegese do Alcorão, de Ibn Kathir)” que os Ghouls eram os ‘demônios dos gênios’, o que apoia ainda mais isso.

Existem muitos contos e descrições dos Ghouls ou os ‘Si’lwah’ na história árabe, e cada um tem um toque diferente ou aborda os seres e suas qualidades particulares, embora existam algumas crenças comuns que fluem por todos eles, o que leva à credibilidade da crença, pois todos os contos embelezados têm uma verdade sagrada que está em seu coração. Uma dessas ‘verdades’ fala do uso de uma espada para matar um Djinn. Embora outros elementos relativos às circunstâncias e aos atributos dos Djinns difiram de conto para conto, a crença de que um único golpe com uma espada matará um Djinn permanece consistente. No entanto, se (o Djinn) for atingido mais de uma vez, apenas mais mil golpes depois disso farão com que pereça, essencialmente tornando-o invulnerável. No conto da “História do Príncipe Sayf al-Muluk e a Princesa Badi’a Al-Jamal” do “Alf Laylah Wa Layla” de Burton, um Ghoul tenta enganar um grupo de homens que ele capturou e mantinha em uma caverna. Um dos homens se libertou e atacou o Ghoul cortando-o uma só vez na cintura com uma espada. O Ghoul declarou,

“Ó homem, se você deseja me matar, me dê um segundo golpe”. Quando o homem estava prestes a atacar pela segunda vez, seu companheiro aconselhou: “Não o golpeie uma segunda vez, pois então ele não morrerá, mas viverá e nos destruirá”.

Essa crença deriva de uma época muito anterior, quando o escrito enciclopédico árabe al-Jáhiz escreveu que

“O Si’lwah morreria apenas com um poderoso golpe da espada, pois se dois golpes fossem direcionados a ele, não expiraria até mil golpes se seguirem”.

Os Ghouls há muito são associados a beber sangue e aos mortos. Não é incomum ouvir falar de rituais relativos a derramamento de sangue e ao sangue como fonte de energia ao lidar em trabalho próximo com espíritos das trevas. Na primeira tradução francesa das “Mil e Uma Noites” ou “Alf Layla Wa Layala” pela mão de Antoine Galland, Galland é conhecido por ter acrescentado um pouco de conteúdo ao longo dos corpo da obra, embora principalmente permaneça fiel ao árabe original. No entanto, uma área ele adicionou, na que dizia respeito ao Ghoul e sua natureza. Nela, ele afirmou:

“Os Ghouls eram monstros masculinos que, na ‘falta de presa’, às vezes vão à noite para cemitérios e se alimentam de cadáveres que foram enterrados ali” – ‘A História de Sidi Nouman’.

Embora este seja um segmento adicionado, (que muitos acreditam ser simplesmente um elemento de terror romântico do autor), acredito que foi definido ali para dar ao leitor uma compreensão completa da natureza dos Ghouls com base em fontes mais antigas onde os Djinns residem em locais de decadência e sombra, como ruínas abandonadas, banheiros (ou lavatórios) decrépitos e, claro, cemitérios. E a partir disso, não é difícil traçar a conexão entre os Djinns e os Vampiros e seus inúmeros relatos e avistamentos ao longo da história sombria do homem. Os Djinns assumiram muitas formas e nomes ao longo do tempo.

Pessoalmente, acredito que diferentes regiões da Terra têm vários tipos de entidades sobrenaturais que são específicas dessas áreas em particular, assim como acontece com os animais. Os elefantes são conhecidos na África, mas não na América do Norte. Um bom exemplo seria as Banshees. As Banshees são mais comumente conhecidas por assombrar ou habitar na Irlanda, e não na Índia. Ou, há o zumbi que é conhecido por andar na terra do Haiti, bem como em algumas áreas europeias, como a Bretanha, mas eles não são conhecidos no Havaí. No Havaí existem Espíritos que só são conhecidos ali. Os Djinns são mais conhecidos na Arábia e no Oriente Médio, mas como estão (por sua própria descrição) em toda a Terra, são acessíveis ao Magista que não está perto da sua principal área de notoriedade; a Arábia.

Pode ser visto nas revelações dos Djinns em “Miscelaneo de Salomon” que eles habitam em todas as partes do mundo, desde o topo das montanhas até os oceanos e tudo entre eles. E embora essas entidades não sejam conhecidas por seus títulos no Oriente Médio, elas foram registradas ao longo da história. É interessante notar que, embora os Djinns/Ifrits/Ghouls sejam mais documentados e centrados no Oriente Médio, existem referências obscuras a eles no Hemisfério Ocidental. Um dos exemplos/descrições mais importantes dos Djinns de uma fonte ocidental vem da série de Carlos Castañeda sobre os ensinamentos de Don Juan, um feiticeiro tolteca indiano que orienta Castañeda na arte da percepção e da consciência. Eles são descritos como ‘Seres Inorgânicos’ que habitam a Terra sem serem vistos, em coabitação com os homens. Os Djinns não são especificamente focados na série, no entanto, o abrir dos olhos para ‘ver’ ‘Entidades Inorgânicas’ e aspectos ocultos da realidade é. Este é um segmento de conversa entre Don Juan e Carlos Castañeda sobre o assunto,

“A contraparte da Terra era o que eles (antigos feitceiros toltecas) conheciam como as ‘Regiões Escuras’. Essas práticas (mágicas) são de longe as mais perigosas. Elas lidavam com entidades sem vida orgânica em pânico. Criaturas vivas que estão presentes na Terra e a povoam junto com todos os seres orgânicos”  – Carlos Castañeda, “ O Fogo Interior”, 1984.

Don Juan continua dizendo,

“Os seres vivos orgânicos têm um casulo que encerra as emanações (da Águia). Mas existem outras criaturas cujos receptáculos não parecem como um casulo para um vidente. No entanto, elas têm emanações de consciência nelas e características da vida além da reprodução e do metabolismo.”

Esses seres se deram a conhecer ao homem em diferentes formas: através do mundo, embora apenas aqueles que alcançaram um estado elevado na consciência e armazenaram energia pessoal suficiente possam perceber e interagir com eles,

“Se esses seres estão vivos, por que eles não se dão a conhecer ao homem? Eu perguntei. (Don Juan responde;) ‘Eles se dão, o tempo todo, e não apenas para os videntes, mas também para o homem comum. O problema é que toda a energia disponível é consumida pela ‘primeira atenção’. O inventário do homem não só toma tudo, mas também endurece o casulo a ponto de torná-lo inflexível. Nessas circunstâncias, não há interação possível”.

Este ‘estado elevado’ de consciência é trazido através de muitos meios diferentes quando usado corretamente, seja o consumo de psicotrópicos/plantas de poder, dor/prazer intenso ou estados mentais hipnóticos. O Feiticeiro neste estado é capaz de contornar o filtro perceptivo que ‘cega’ e ‘vê’ o mundo na totalidade, de modo a interagir com entidades que são ‘inorgânicas’ por natureza e obter gnose de uma compreensão superior da realidade e existência.

Os Djinns são entidades misteriosas que acompanham a raça humana desde o seu começo. A crença nos Djinns é forte ainda hoje, embora até agora, os mais diabólicos tenham sido inacessíveis, escondidos dos olhos daqueles que procurariam novamente liberar sua ira sobre o mundo. Existem e existiram homens sombrios que adoram e trabalham com os Djinns Infernais que estão alinhados com a corrente de Iblis. Pois o Alcorão declara:

“Fizemos dos (Djinns) maus amigos daqueles sem fé (em Allah).” (7:27).

Esses homens praticaram seus ritos nas sombras durante séculos. É em homenagem a esses feiticeiros sombrios que este livro é lançado e sua tradição sombria é mantida.

Fonte: The Book of Smokeless Fire, por S. Ben Qayin.

Tradução por Ícaro Aron Soares.

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