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A fidelidade à própria alma é o único dogma que resiste ao inferno. Todo o resto – religiões, tradições, valores, doutrinas, liturgias, imperativos morais, códigos de conduta – desfaz-se como névoa diante do olhar abissal daquele que ousou descer. É possível que o nome mais correto para o que emerge dessa descida não seja “fé”, tampouco “crença”, mas uma forma dilacerante de lucidez que, tendo sido parida no limiar do caos, já não pode ser persuadida, nem por promessas, nem por ameaças, nem por sistemas racionais de cálculo. O fiel da alma não calcula, não obedece, não imita. Ele se curva, com certeza, mas apenas diante do que lhe é intrinsecamente inegável: diante do que irrompe como verdade dentro de sua própria carne vivente, mesmo que essa verdade seja hedionda, obscura ou anti-humana. Tudo o mais é propaganda e catequese.
A fidelidade à alma é o contrário de toda religião domesticada. É a religião antes da religião; anterior a qualquer clericato, anterior a qualquer nome divino que se apresente como “o único”. Ela não serve à ordem, mas à revelação. E o que ela revela é tão-somente que há algo em nós que não se rende, mesmo que toda a razão nos mande render. É essa irredutibilidade íntima que constitui o núcleo do sagrado. Não o sagrado dos templos de mármore, mas o sagrado visceral da floresta escura, onde a Cabra Negra vigia o círculo de pedras e onde o rito da alma não precisa ser compreendido para ser vivido.
Todo aquele que se entrega ao pacto da fidelidade interior sabe que cedo ou tarde será condenado por heresia. Isso porque o mundo é estruturado para premiar a docilidade e castigar a autonomia. Desde a infância, aprendemos que o bem é o que se conforma, o que se adapta, o que se alinha ao que “todo mundo sabe” ser o correto. Mas o que chamam de bem, no fundo, é apenas o que não causa problema. A obediência é confundida com virtude. O perdão com covardia. A transcendência com repressão. Por isso, a alma que ousa manter-se fiel a si mesma será, mais cedo ou mais tarde, oferecida em sacrifício no altar da moral pública. A fidelidade à alma é sempre um escândalo.
E o escândalo é necessário. Pois só o escândalo é capaz de expor a mentira dos sacerdotes, o teatro das promessas de redenção, a chantagem das religiões universalistas. Ninguém será salvo por perdoar seus inimigos se o perdão for um artifício da conveniência. A redenção obtida pelo medo não passa de uma nova forma de escravidão. Uma alma que se curva apenas para escapar da dor não é livre: é cúmplice do inferno. Há, portanto, algo infinitamente mais sagrado no grito da alma que prefere o tormento eterno à traição de si mesma do que em toda a liturgia do perdão decorado.
Dizer “não” ao Deus que exige a renúncia ao próprio sangue em troca de alívio é o mais verdadeiro ato religioso. É nesse “não” que ressurge o culto mais antigo, anterior à revelação patriarcal, anterior aos profetas, anterior às escrituras: o culto à Mãe obscura, à Deusa abissal, à Noite primordial que amamenta com seu leite de trevas aquele que suportou ver a face insuportável do Real. Pois só quem morreu verdadeiramente – isto é, só quem foi até o limite extremo da desesperança, onde não resta sequer desejo de continuar existindo – pode ser acolhido nos braços da Cabra Negra. Tudo o mais é teatro de catequese.
O iniciado que recusa o perdão instrumental não é um herege: é um mártir da fidelidade. Um mártir da natureza arquetípica da alma, cuja moral não é a da utilidade, mas a do instinto. E o instinto, nesse contexto, é inteligência ontológica. É aquilo que sabe, sem que ninguém tenha ensinado, que existem afetos que não podem ser negados sem que a alma se parta. Odiar quem nos destruiu, por exemplo, pode ser uma exigência da própria integridade psíquica. E quem ousa prescrever o contrário, em nome da paz ou da salvação, nada mais é do que um vendedor de penitências. Não há salvação possível no autoengano. A alma que se engana para sobreviver já morreu.
É por isso que o autêntico caminho iniciático não conduz à superação da natureza, senão à sua transfiguração. A natureza não deve ser vencida, mas consagrada. O horror, o desejo, a dor, a fúria, o prazer, a repulsa: todos são hierofanias, manifestações do sagrado em sua forma mais crua. Reprimir essas potências em nome de uma moral imposta de fora é cometer suicídio espiritual. A alma não quer ser boa. Ela quer ser verdadeira. E se a verdade de uma alma inclui o ódio, o abismo, o desespero, então que assim seja. Que se abrace o desespero como se abraça uma mãe monstruosa. Pois é exatamente isso o que ela é: uma mãe monstruosa, mas mãe ainda assim.
A grande tragédia do homem moderno não é ter perdido a fé, mas ter aceitado uma fé que o mutila. Fé na razão, fé no progresso, fé no Estado, fé na moral pública, fé na religião dos mansos. Mas nenhuma dessas fés o conduz a si mesmo. Todas o afastam. Todas lhe oferecem uma imagem de redenção que depende de sua própria castração. E o homem, castrado, diz que está salvo. Diz que se converteu. Diz que agora perdoa. Mas o que ele perdoa é apenas o fato de ter se tornado um cadáver socialmente aceitável. A alma, essa, já fugiu pela floresta, tomada por musgos e fungos, perseguida por flautas profanas, abençoada pelo leite negro da Deusa Cabra.
Não se trata, pois, de escolher entre o bem e o mal. Trata-se de escolher entre a submissão à mentira e a fidelidade ao abismo. O Papa oferece a mentira com voz macia. A Cabra oferece o abismo com leite quente. Um promete conforto. A outra exige coragem. Um quer nos tornar dóceis. A outra, inteiros. E por mais que a escolha pareça absurda, a alma sempre sabe. Ela sabe onde está sua verdade, mesmo que isso implique eternidade de gritos e lamentos. Pois a eternidade da dor ainda é mais digna do que a paz obtida com traição.
A religião da alma é a religião dos inaceitáveis. Dos que preferem ser queimados vivos a se tornarem aquilo que não são. Dos que preferem a loucura ao conformismo. Dos que preferem o caos à ordem imposta. Dos que chamam de mãe uma besta com cabeça de bode, porque sabem que é ali, e não no céu dos domesticados, que arde o fogo da divindade. Dos que transformam o próprio inferno em altar, e a própria dor em cântico. Não porque desejam sofrer, mas porque preferem sofrer a mentir para si mesmos.
Esse é o verdadeiro sagrado: o que não pode ser negado sem que tudo se perca. O que resiste mesmo quando tudo ordena que se renda. O que se mantém de pé, com olhos fixos no turbilhão, enquanto flautas profanas dilaceram o ar. A alma fiel é aquela que, mesmo no inferno, ainda ousa dizer “eu sou”. E esse “eu sou” não é vanglória nem ego inflado: é a memória viva de uma origem que nenhuma autoridade pode apagar. É o eco de uma fidelidade que antecede o mundo e que, portanto, não depende dele.
Ser fiel à alma é negar o Papa. É negar o cálculo. É negar a religião que promete céu a quem se anula. É negar tudo o que busca impor forma ao informe, nome ao inominável, moral ao instinto. Ser fiel à alma é aceitar o leite da Cabra, é mergulhar no abismo, é ver e suportar o que ninguém quer ver. E ao fazê-lo, tornar-se inteiro. E isso, só isso, é experiência religiosa. Todo o resto é catequese de covardes.
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