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por John C. Pierrakos
Excerto de “Ao Encontro da Sombra“
Exploremos o conceito do mal, abordando-o a partir do seu oposto: o bem. Na saúde, que é o bem ou a verdade da vida, a realidade do ser humano, a energia e a consciência estão bem unificadas. O homem sente essa unidade. Há pouco tempo, um músico que veio para uma consulta disse-me que, quando tocava a partir do seu ser interior, os movimentos do seu organismo simplesmente fluíam de modo espontâneo; eram eles que tocavam o instrumento. Eles se libertavam, se coordenavam e criavam sons belíssimos. Quando o ser humano está num estado saudável, sua vida é um constante processo criativo. Ele é inundado por sentimentos de amor e de unidade com os outros seres humanos. A unidade é a percepção de que ele não é diferente dos outros. Ele quer ajudá-los, identifica-se com eles, percebe que tudo o que acontece a eles acontece a si mesmo. Uma pessoa saudável tem uma direção positiva na sua vida. Ela “quer” a sua vida numa direção positiva e, assim, encontra o sucesso em seus negócios, em seus pensamentos, em sua sensação de contentamento consigo mesma. Nesse estado, existe pouca ou nenhuma doença, e nenhuma maldade.
Enquanto que, no estado de doença, a primeira característica é que a realidade é distorcida: a realidade do corpo, a realidade das emoções e a realidade da verdadeira natureza dos outros seres e de suas ações. A maldade, portanto, é uma distorção de fatos que, em si mesmos, são naturais. Como a pessoa doente não percebe suas próprias distorções, ela acha que os males da sua vida e o seu mau funcionamento vêm de fora. Quanto mais doente fica, mais acha que seus problemas são causados por forças externas. Uma pessoa em estado psicótico, por exemplo, vê o mundo como hostil. Ela senta numa cadeira, olha para a parede e diz: “Eles estão fazendo isso comigo. Eles vão me matar, eles vão me envenenar.” Ela abdica por completo de sua responsabilidade pessoal pela sua vida e pelas suas ações. Ela sente que tudo lhe acontece a partir de fora. Uma pessoa saudável é capaz de, em grande medida, fazer exatamente o oposto.
O que acontece com a pessoa doente? Sua consciência e suas energias se alteram, de algum modo. Sua consciência não é a mesma de antes. Ela transforma a vida numa versão distorcida de si mesma e, então, a energia dessa pessoa altera as manifestações da consciência. Seu pensamento é limitado. Seus sentimentos são expressos pelo ódio, pela brutalidade e crueldade, pelo medo e terror.
Wilhelm Reich, ao descrever a condição de encouraçamento, esclareceu o modo como a doença age. A pessoa encouraçada, disse ele, fecha-se à natureza, erguendo barreiras contra os impulsos vitais dentro do seu corpo. O corpo encouraçado endurece e torna-se inacessível ao sentimento; as sensações orgânicas diminuem ou desaparecem. A pessoa torna-se indiferente; ela odeia, mas nem sequer sabe que odeia. Ela é ambivalente.
Reich acreditava que cada entidade, cada ser humano, tem um âmago, como o coração, onde o movimento pulsante da vida se inicia. Na pessoa relativamente livre, o movimento pulsante alcança a periferia sem ser distorcido, e essa pessoa se expressa, se move, sente, respira, vibra. Mas, na pessoa encouraçada, entre o âmago e a periferia, existe uma “Linha Maginot”. Quando os impulsos vitais atingem as fortificações da couraça, a pessoa se aterroriza e acredita que precisa suprimi-los, pois acredita que, se subirem à superfície, ela será dizimada. Para ela, seus sentimentos ( especialmente os relacionados com o sexo ) são terríveis, sujos, maus. Quando os impulsos agressivos mantidos dentro desse núcleo atingem a couraça, eles a fazem estremecer. E, de fato, se eles romperem a “Linha Maginot”, o terror tornará essa pessoa absolutamente brutal. Ela está aterrorizada porque não consegue tolerar seus sentimentos, o movimento e a sensação de vida dentro dela, o doce murmúrio da emoção, o pulsar do amor, e ela age contra si mesma e contra os outros, tornando-se “antivida”. Ela não percebe que a couraça é uma morte que torna inacessível o âmago da vida; ela não percebe que o feio e o odioso é a couraça. No estado encouraçado, portanto, o ser humano se divide; a mente se separa do corpo; o corpo, das emoções; as emoções, do espírito.
O encouraçamento pode fazer da pessoa um místico, porque ela não consegue aceitar o fato de que Deus está nela. Ela olha para Deus “lá fora” e diz: “Se eu rezar, se eu me purificar, resolverei todos os meus problemas.” Mas isso nunca é possível, porque uma pessoa que toma o rumo da espiritualidade sem antes ter trabalhado suas negatividades (as defesas do seu ego, suas resistências) voa alto como Ícaro, mas, quando alcança o sol flamejante, cai no mar, o mar da vida, e se afoga. É apenas transcendendo e superando os obstáculos à vida que o ser humano pode elevar-se aos domínios da criação e da espiritualidade.
Em contraste com o místico, o encouraçamento pode tornar uma pessoa brutal. Quando expressa seus sentimentos, ela é um monstro. E então experimenta o terror, porque acha que, se perceber seus sentimentos genuínos, será destruída.
Como um ser humano encouraçado se liberta dessas barreiras? Reich disse que precisamos reconhecer não apenas o racional, mas também o irracional proveitoso. Precisamos ver a nossa irracionalidade como algo muito importante. Precisamos conhecê-la, admiti-la, expô-la. Pois ela contém o fluxo do rio da vida. Se nos seccionamos do irracional, tornamo-nos pedantes e mortos. Com isso, não quero dizer que devamos nos comportar irracionalmente em todos os momentos; quero dizer que precisamos aceitar a irracionalidade, tomar a energia que está investida nela, desativá-la e compreender os obstáculos que erguemos na vida, que criam a irracionalidade. Reich disse outra coisa fundamental: precisamos descartar o conceito da antítese entre Deus e o diabo. Precisamos expandir as fronteiras do nosso pensamento.
A manifestação do mal, portanto, não é algo que seja intrinsecamente diferente da energia e da consciência puras; ela é apenas uma criação que mudou suas características. Em essência, o mal não existe; mas, no domínio da manifestação humana, sim.
O que significa o mal em relação à energia e à consciência? Em termos de energia, significa uma desaceleração, uma diminuição de frequência, uma condensação. A pessoa se sente pesada, atada, imobilizada. Sabemos que, quando nos sentimos hostis, mortos ou de qualquer outro modo negativos, sentimo-nos muito pesados. Com a energia, sentimos o oposto: vibrantes. Caminhamos nos bosques e nos sentimos voar. Portanto, a energia do corpo pode se desacelerar e se condensar.
Em termos de consciência, quanto mais baixa a frequência do movimento, tanto maior a distorção da consciência; e vice-versa. Quanto mais pesados e negativos somos, tanto menos criativos, sensíveis e compreensivos seremos. Podemos alcançar o ponto de bloquear todo movimento e permanecer na cabeça; nesse extremo, ficamos obstruídos e, então, nada importa. A religião e vários sistemas éticos apresentaram todas as atitudes negativas (tais como o ódio, a falsidade, o despeito e a traição) como mal, mal, mal. A religião vê esses estados e as ações que os expressam como resultado de uma consciência distorcida do que é bom e mau, de acordo com suas codificações.
Na Bíblia, Jesus disse uma sentença que, a meu ver, levanta uma questão importante. Falando a seus discípulos, ele ensinou: “Não resistais ao mau” (Mateus 5:39). Examinemos esse ensinamento. A própria resistência é o mal. Quando não existe resistência, a energia é desobstruída e fluente. Quando existe resistência, o movimento cessa, se opõe e estagna o organismo. A resistência sufoca as emoções, aniquila a energia e mata os sentimentos. A resistência é filha da cautela, um mecanismo pensante. Pensante não no sentido de pensamento abstrato, mas de pensamento organizacional.
A consciência é, de algum modo, responsável pelo fluxo de energia no organismo, assim como a consciência, numa dimensão cósmica, é responsável pelo fluxo de energia no universo. Quando digo “responsável por”, não quero dizer “culpada por”: na psiquiatria, evitamos sempre censurar uma pessoa por suas ações negativas ou seu conteúdo inconsciente. Tentamos vê-los como resultado de um estado dinâmico criado de um modo do qual a pessoa não está ciente e pelo qual, portanto, não pode ser censurada. Quando a consciência é negativa, a pessoa é resistente à verdade. Existem resistências conscientes, que uma pessoa usa intencionalmente e ciente daquilo que opta por fazer. Um homem ferido pela esposa pode optar por revelar seus sentimentos de amor e perdoar, ou optar por manter o sentimento negativo e destrutivo, e vingar-se da esposa. Nem tudo isso é resultado de comportamento inconsciente, embora grande parte o seja; esse homem não é responsável pela propulsão inconsciente.
O mal, portanto, é bem mais profundo do que o concebem os códigos morais. Ele é “antivida”. A vida é uma força pulsante e dinâmica; é energia e consciência que se manifestam de muitas maneiras. Não existe o mal, a menos que exista resistência à vida. Essa resistência é a manifestação daquilo a que chamamos “mal”. O que cria o mal é a distorção da energia e da consciência.
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